Eu tinha comprado o livro numa viagem a Paris, mas só fui ler a bagaça anos depois, justamente quando me mandaram fazer um espermograma. O que os meus espermatozoides têm a ver com Os 120 Dias de Sodoma é o que tentarei explicar aqui CRÉDITOS: TOMER HANUKA
Uma suruba no inferno
Os 120 Dias de Sodoma é o roteiro perfeito para acessar o Hades de cada um de nós
Reinaldo Moraes | Edição 138, Março 2018
Num tempo em que se costumavam velar os mortos em frente a suas casas, na Paris do fim do longo reinado de Luís XIV, tinha lá um sujeito rico o suficiente pra contratar uma atraente e refinada prostituta de um bordel de alto padrão para acompanhá-lo pela noite fúnebre da cidade em busca da satisfação de uma tara muito específica sem a qual ele não conseguia gozar. E o homem era chegado num orgasmo, frase que, não por acaso, rima com pleonasmo, pois quem não gosta de gozar? Parafraseando o sambista Janet de Almeida (1919-45):
Há quem goze muito bem,
há quem goze muito mal,
há quem goze por gostar,
há quem goze por ver os outros gozar […].
A minoria diz que não gosta, mas gosta,
e sofre muito quando vê alguém gozar,
faz força, se domina finge não estar
tomadinha pelo gozo, louca pra gozar…
Claro que, na letra original, Janet, craque do samba sincopado, fala em sambe e sambar, como bem se lembra quem já ouviu Eu Sambo Mesmo. Ou Eu Gozo Mesmo, na versão pornô que me permito cometer aqui, logo de cara, que é pra já ir entrando no clima de um certo livro em que se conta a tara específica do tal “gozador” necrófilo parisiense, em meio a 600 outras histórias envolvendo formas no mínimo estranhas de sambar – ops, de gozar. Mas, já chego lá. Por enquanto, vamos ver como gozava o tal sujeito, num relato que nos vem pronto da boca “fresca e limpa” de madame Duclos, ninguém menos que a luxuosa prostituta que acompanhava o tenebroso cliente em seus zédocaixônicos tours sexuais pelo circuito fúnebre parisiense:
Havia um homem na alta sociedade que me pagava 12 francos por cada um desses lúgubres velórios a que eu conseguisse levá-lo durante a noite.
Toda a sua volúpia consistia em se aproximar, comigo, o mais perto possível do caixão, se conseguíssemos, e ali eu devia masturbá-lo de modo a que ele ejaculasse sobre o féretro. Assim, íamos correr três ou quatro durante a noite, dependendo de quantos eu descobria, e fazíamos a mesma operação em todos, sem que ele me tocasse em outro lugar além do traseiro enquanto eu o masturbava. Era um homem de seus 30 anos que foi meu cliente por mais de dez, durante os quais tenho certeza de que esporrou em cima de mais de 2 mil caixões.
Madame Duclos jura que o homem ainda tinha o requinte de injuriar o falecido na hora de soltar sua homenagem espermática em cima dele: “Tome, patife! Tome, devasso! Leve minha porra com você para o inferno!”
Um cara que lançou seu esperma sobre “mais de 2 mil caixões” é um mestre maior entre os mestres libertinos, magno doutor em necrofilia avançada, catedrático absoluto na velha arte de ejacular sobre defuntos acomodados em seus caixões em velórios, há que se reconhecer. Mestre maior, porém, é quem deu voz e vida a madame Duclos, vistosa senhora que, além daquela boca “fresca e limpa”, tinha, aos 48 anos, “uma das bundas mais belas e gordinhas que se pudessem ver”.
Você adivinhou: um tal esquete de sitcom pornodark só podia ter saído da cabeça daquele marquês libertino que alguém inventou de chamar de “divino”, o Sade (1740-1814), encarcerado na Bastilha por alegados crimes da mesma natureza dos casos que madame Duclos e mais três honoráveis colegas cafetinas contam com grande vivacidade e senso de entretenimento a seus seletos ouvintes, em Os 120 Dias de Sodoma.
Sade nasceu um quarto de século depois de encerrado o período histórico que escolheu para situar sua história tão mirabolante quão perturbadora, ou seja, os últimos anos do longo reinado absolutista de Luís XIV, o Rei Sol, no trono desde 1643, quando atingiu a maioridade, até 1715, data de sua morte. O autor justifica tal escolha logo no primeiro parágrafo da extensa e intensa “Introdução”: “O fim desse reino, por sinal tão sublime, talvez seja uma das épocas do Império Francês em que mais se viram essas fortunas obscuras, que só brilham por causa de um luxo e uma devassidão tão ocultos como elas.”
De fato, o absolutismo monárquico na França, com o mandonismo incontrastável do rei, de sua corte e de seus prepostos servindo de manto perfeito para acobertar falcatruas financeiras e crimes de toda espécie cometidos pelos maiorais do reino, era o regime ideal para a proliferação de corruptos e libertinos ricos, chamados por Sade de “sanguessugas”. Isso, apesar da França se achar financeiramente na lona por causa da sucessão de guerras travadas por Luís XIV ao longo das muitas décadas em que esteve sentado no trono. Somados, são trinta anos em que a França esteve envolvida em guerras. Haja grana pra manter isso, como diria um certo personagem brasileiro hodierno.
Quatro daqueles sanguessugas são os personagens principais d’Os 120 Dias: um nobre em armas, um alto prelado, um magistrado e um financista miliardário. Donos de consideráveis nacos daquelas imensas fortunas obscuras, e ocupando postos da mais alta distinção nas estruturas de poder do Ancien Régime, os quatro cavalheiros, de 45 a 60 anos, são antigos e fiéis adeptos de práticas sexuais pra lá de heterodoxas, que incluem humilhações, nojeiras inimagináveis, desconfortos, angústias e suplícios de toda ordem e intensidade infligidos a seus “objetos”, ou vítimas, e até, muitas vezes, a eles mesmos, como açoites e chutes na bunda. A tais práticas eles davam o nome genérico de “libertinagem”. A função da tortura na volúpia libertina é assim descrita por Gilbert Lely, um dos maiores estudiosos da obra e vida do marquês: “Se nós derivamos, antes de mais nada, o nosso gozo da comoção experimentada pelo objeto que possuímos, que motor mais possante que a dor seria capaz de levar tal comoção, e consequentemente, nosso gozo, à sua mais elevada intensidade?” É ripa na chulipa!
Mesmo antes da história em si começar, Sade, na famosa “Introdução”, nos atualiza sobre a vida pregressa dos trêfegos libertinos, contando como costumavam celebrar suas “paixões”, nome romântico que atribuíam às suas taras criminosas, em orgias faustosas em seus palácios e propriedades rurais, das quais nem todos os convidados, homens e mulheres, emergiam em boas condições físicas ou mesmo vivos. E sendo que muitos eram recrutados à força ou por meio de ardis variados – “Não quer ir lá em casa tomar um vinhozinho?” –, enquanto outros, e sobretudo outras, eram profissionais do sexo que não raro se surpreendiam com a roubada em que tinham entrado.
Em suas vidas pessoais, nossos campeões da putaria desbragada também não deixavam por menos. À exceção do bispo, eram casados e tinham filhas (o bispo tinha uma), casadas, por sua vez, com os membros do próprio quarteto. Ou seja, tirando o bispo, sodomita passivo convicto, eram todos genros e sogros uns dos outros. Essa filha do senhor bispo, diga-se de passagem, era fruto de um adultério cometido com uma das ex-mulheres do seu irmão duque, que vem a ser o nobre em armas de que falei. Apesar de sua misoginia militante, o bispo não tinha se furtado a estuprar a sobrinha-filha desde a mais tenra idade, pois só uma boa infâmia justifica o contato carnal com uma mulher. Sade, aliás, faz questão de sublinhar que todas as filhas dos quatro grão-senhores tinham sido estupradas desde crianças pelos próprios pais, uma vez que o incesto era condimento muito valorizado nas práticas libertinas. E o fato de estarem casadas não impedia que seus pais continuassem a requisitá-las para as patifarias sexuais que lhes passassem pela cabeça, com total anuência dos genros. Quanto às ex-mulheres dos figurões, nunca mais tinham sido vistas com vida, mesmo destino da mãe e da irmã de um deles. A causa mortis de todas tinha sido uma só: uxoricídio, matricídio, fratricídio – o velho e bom assassinato.
Até que um dia, alguém ali no quarteto vem com a ideia ambiciosa de promover algo como a suruba do século no inexpugnável castelo de um deles situado na Suíça, nos cafundós da Floresta Negra. Dinheiro pra isso não faltava. O que podia escassear um pouco era a imaginação perversa, já esgotada nas orgias rotineiras daquela seleta assembleia de libertinos. Mas nisso eles dariam um jeito, e dos mais engenhosos, como veremos.
É, pois, desse espantoso evento de que trata o grande “romance libertino” do marquês de Sade, com forte levada dramatúrgica, pois é composto de cenas repletas de diálogos e descrições rigorosas de cenários e movimentações dos personagens-atores. Parte dessa trupe foi recrutada mediante um polpudo cachê. Aí se incluem quatro cafetinas contadoras das histórias picantes de suas longas carreiras – esse é o artifício bolado para inflamar as libidos depravadas dos libertinos, ávidas por novidades. Além delas, temos quatro criadas, três cozinheiras, quatro velhas aias, que são umas bruxas decrépitas, roídas por doenças horripilantes e marcadas pelos terríveis castigos físicos que seus crimes e vícios lhes fizeram merecer, e oito “fodedores”, uns sujeitos recrutados em função das características monumentais de seus incansáveis membros viris. Os integrantes involuntários da outra banda dessa trupe são oito garotas e oito garotos de 12 a 15 aninhos, sequestrados em ações que deixaram um saldo de parentes e acompanhantes mortos. Esses deliciosos e infelizes jovenzinhos são os escravos sexuais que receberão dos libertinos as mais malévolas atenções durante 120 dias, de novembro a fevereiro, que passarão no resort de todos os horrores em que se desenvolverá a trama da história do nosso divino e desparafusado marquês.
Outra classe especial de figurantes é a das quatro lindas esposas dos libertinos, as quais, como já disse, são também filhas de cada um deles. A única das quatro que não é casada formalmente é Aline, a filha ilegítima do bispo. Entretanto, graças aos seus “atrativos de donzela e à sua meiga juventude”, Aline é integrada ao grupo das esposas como a parceira formal de seu tio-pai, o desvirtuoso prelado. Cada um dos quatro amigos, contudo, tem acesso sexual liberado a qualquer uma das três esposas dos demais, bastando estalar os dedos para tê-las em sua cama.
De qualquer forma, como explica o duque: “Nós, libertinos, pegamos mulheres para serem nossas escravas; a qualidade delas de esposas as torna mais submissas que as amantes, e você sabe como o despotismo é precioso nos prazeres que saboreamos.” Pra se ter uma ideia, o duque, agora casado com a filha do financista Durcet, teve antes três casamentos, encerrados com a morte de suas esposas por obra e graça do próprio viúvo. Comentando esse fato, o narrador vem com uma frase que deveria constar numa plaquinha em todas as delegacias e tribunais do planeta: “Nada encoraja tanto como um primeiro crime impune.”
Oduque de Blangis é a figura mais carismática entre os quatro libertinos, o macho alfa do pedaço, embora adore enrabar e ser enrabado por homens de pau grande, no estilo “mete que aqui é cu de macho, tchê”. Pode-se sentir a admiração homoerótica com que Sade descreve sua personalidade: “Nascido falso, duro, imperioso, bárbaro, egoísta, igualmente pródigo nos prazeres, como avaro quando devia ser útil, mentiroso, guloso, bêbado, medroso, sodomita, incestuoso, assassino, incendiário, ladrão, nem uma só virtude compensava tantos vícios.”
Fisicamente, o duque é um portento:
um rosto másculo e orgulhoso, grandes olhos pretos, belas sobrancelhas castanhas, o nariz aquilino, belos dentes, ar saudável e viçoso, ombros largos, um peito compacto embora perfeitamente torneado, lindos quadris, nádegas sublimes, as mais belas coxas do mundo, um temperamento de ferro, uma força de cavalo e o membro de um verdadeiro jumento, espantosamente peludo, dotado da faculdade de perder esperma sempre que assim desejasse, mesmo com a idade de 50 anos que tinha então, uma ereção quase contínua naquele membro cujo tamanho era de 20 centímetros de circunferência por 30 de comprimento […].
Mas não se animem muito, meninos e meninas, pois na hora do gozo o senhor duque era tomado duma “cólera lúbrica” tamanha que “mais de uma vez o viram nitidamente estrangular uma mulher no instante de sua pérfida descarga”.
No financista Durcet, a “bunda é empinada, gorda, firme e roliça, mas incrivelmente aberta pelo hábito da sodomia; seu membro é extraordinariamente pequeno: mal chega a 5 centímetros de circunferência por 10 de comprimento; endurecê-lo, já não consegue […]”.
Curval, o nababo do Judiciário, apresenta:
Nádegas moles e caídas que mais pareciam dois esfregões sujos flutuando no alto das coxas, tinha a pele tão machucada pelas chicotadas que era possível torcê-la com os dedos sem que ele sentisse. No meio de tudo isso exibia, sem que fosse preciso afastar as nádegas, um orifício imenso cujo diâmetro enorme, cheiro e cor mais lembravam um buraco de latrina do que um olho do cu; e, para cúmulo dos atrativos, um dos pequenos hábitos desse porco de Sodoma era deixar sempre aquela parte em tal estado de imundície que em torno dela se via o tempo todo uma rodinha de sujeira de 2 polegadas de espessura. Abaixo de uma barriga tão enrugada quanto lívida e flácida, avistava-se, numa floresta de pelos, um instrumento que, em estado de ereção, podia ter cerca de 20 centímetros de comprimento por 18 de circunferência; mas esse estado era, agora, muito raro, e só uma furiosa sequência de coisas conseguia provocá-lo.
Já o bispo, irmão do duque, tem “um membro muito ordinário, pequeno até”, Sade descreve. A bunda é “pequena mas bem-feita, e o membro, de 12 centímetros de circunferência por 25 de comprimento”.
Ops. Acuma? O membro do sujeito mede 25 centímetros de comprimento por 12 de grossura e é considerado “ordinário, até pequeno”? Quanto devia medir o do Sade? É a pergunta libertina que não quer calar.
Lembrar que estamos falando aqui de um bispo com gostos eróticos muito particulares, ele, que, a exemplo do próprio autor, enfrentou acusações de sodomia, tortura e assassinato de inocentes. Lembrar que as leis vigentes na época previam a morte na fogueira para os sodomitas, nada menos, e o próprio Sade foi condenado “em efígie”, isto é, à revelia, por esse “crime”, entre outros, como envenenamento e tortura de mulheres, sequestro de menores, heresia e dívidas. Parece, no entanto, que o que pegou mesmo contra ele foi a ingerência de sua poderosa e aristocrática sogra, puta da vida com ele por seu comportamento desregrado, e, sobretudo, por ter fugido para a Itália com a própria cunhada, irmã caçula de Renée-Pélagie, a esposa do escritor libertino.
Safo das mãos do carrasco por sua condição aristocrática, que lhe permitiu, de algum modo, se esquivar do cadafalso, mas não da prisão – passou engaiolado 27 dos seus 74 anos –, Sade nunca abdicou das devoções sodomitas, sendo, provavelmente, o que hoje se chamaria de um bissexual. Numa carta endereçada à sua fiel esposa, Renée-Pélagie, o genial libertino pede que ela lhe providencie um godemiché, isto é, um consolo, de determinado tipo e com tais e quais medidas.
Madame de Sade foi à luta e cumpriu a tarefa, enfrentando os comentários safados dos artesãos do Faubourg Saint-Antoine a quem foi encomendar o artefato, segundo reclama em carta a seu marido. Ela se diz, inclusive, “cansada disso”, levando a crer que o maridão devia ter um estoque de brinquedinhos fálicos a seu dispor. Considerando que ele achava medíocre o falo de 25 por 12 centímetros do bispo, imagino que suas preferências devessem girar em torno das dimensões do “membro de jumento” do portentoso duque: 30 centímetros de comprimento por 20 de circunferência. Mas nenhum daqueles consolos sobreviveu pra contar a história.
Como se sabe, Sade deu forma provisória – que viria, contra a sua vontade, se tornar a definitiva – aos 120 Dias no segundo ano de sua temporada na Bastilha, em 1785, juntando notas escritas havia mais tempo. Segundo Eliane Robert Moraes, que assina o ensaio-posfácio com que nos brinda a nova edição do livro:
Não se sabe ao certo a data em que o autor começou a trabalhar no projeto. Alguns biógrafos supõem que isso tenha ocorrido em meados de 1782, quando ele colocou o ponto final no Diálogo entre um Padre e um Moribundo, considerado seu texto inaugural. Embora não se descarte a hipótese de esboços ainda mais antigos, é pouco provável que tenham sido escritos antes da primeira condenação de Sade, por crimes de libertinagem, lavrada em 1772.
Portanto, está claro que ele não escreveu o livro todo na Bastilha. O que ele fez na sua cela, no 6º andar de uma das torres da fortaleza-prisão, que algum humorista penitenciário apelidou de “torre da Liberdade”, foi desenvolver a primeira das quatro partes do manuscrito, em que são descritas as chamadas “paixões simples”, que correspondem aos primeiros trinta dias dos 120 de esbórnia libertina. Nessa etapa, a mais branda das quatro, os corpos dos objetos dos deboches ainda são mantidos relativamente incólumes. A história do ejaculador necrófilo, por exemplo, contada por madame Duclos, a primeira das cafetinas narradoras, é uma das tais paixões simples. As outras três partes, as “duplas”, as “criminosas” e as “assassinas”, com muito sangue, torturas atrozes, mutilações e mortes, estão em forma de uma “escaleta”, como se diz na teledramaturgia. Ou seja, são apenas um catálogo com descrições sumárias das histórias narradas pelas outras três cafetinas, bem como das ações, por elas inspiradas, que nossos libertinos procuram pôr em prática na carne de seus “objetos”.
Valho-me aqui da descrição desse processo de trabalho que encontramos no posfácio da Eliane Robert Moraes:
Decidido a passar a limpo suas notas, o autor fabricou uma grande tira de papel, colando uma a uma as extremidades das pequenas folhas que mantinha guardadas na cela, até completar um rolo de mais de 12 metros de comprimento. Trabalhando à noite, na tentativa de escapar ao olhar dos carcereiros, cobriu a imensa tira com uma escrita microscópica, ocupando integralmente frente e verso, sem deixar qualquer espaço para margens. Iniciado, segundo ele, em 22 de outubro de 1785 e terminado em 37 dias, o original se manteve em seu poder até as vésperas da Revolução Francesa.
A tragédia máxima da vida do autor foi a perda, para ele definitiva, desse rolo com o manuscrito dos 120 Dias, às vésperas da tomada da Bastilha, em 14 de julho de 1789, quando foi arrancado de sua cela “nu como um verme”, em suas palavras. Ele nunca mais viu seu manuscrito, perda que lhe custou “lágrimas de sangue” pelo resto da vida. Uma punhalada no coração não lhe teria causado maior estrago emocional.
No entanto, antes da fortaleza-prisão ser posta abaixo, um certo Arnoux de Saint-Maximin, curioso de conhecer a cela do “infamoso” marquês, encontrou o rolo num buraco dissimulado na parede. Esse tesouro da literatura profana passaria por várias mãos durante o século e meio seguinte, até ganhar uma edição provisória e imperfeita em 1904 pelas mãos de um psiquiatra alemão, Iwan Bloch, que, a exemplo de vários de seus colegas de profissão, viam nos 120 Dias de Sodoma um mero catálogo de perversões, com forte ênfase nas relacionadas com analidade e escatologia, passando é, claro, pelo sadismo, palavra dicionarizada pela primeira vez em 1834, vinte anos depois da morte de Sade, portanto, designando as “horríveis aberrações da libertinagem”, como consta no verbete.
Em seu posfácio, a estudiosa lembra que os termos sádico e sadismo seriam registrados por dois importantes tratados de medicina legal de Lacassagne, de 1877, e no famoso manual de birutices sexuais do Krafft-Ebing, a Psychopathia Sexualis, de 1886. Foi somente nos anos 30 que o francês Maurice Heine, estudioso e fã número 1 da obra do Divino Marquês, publicou a íntegra do texto dos 120 Dias, embora desde antes disso intelectuais, artistas e escritores das vanguardas europeias do começo do século XX já tivessem caído de boca nas licenciosidades libertárias de outras obras já publicadas do Sade, embora sempre na clandestinidade.
Eliane Robert Moraes ressalta a acolhida especialmente enfática que as obras do autor de A Filosofia na Alcova;Justine; Juliette e Aline e Valcour, entre outras, viria a ter sobretudo na patota dos surrealistas:
Estes frequentaram sua literatura com vivo interesse, movidos por uma curiosidade que Robert Desnos sintetizou mais tarde ao dizer que: “todas as nossas aspirações foram essencialmente formuladas por Sade, o primeiro a considerar a vida sexual integral como base da vida sensível e inteligente”.
Batizado de “Divino Marquês”, o criador de Justine se tornou referência fundamental na arte de Man Ray, Hans Bellmer e André Masson, na escrita de Georges Bataille, Michel Leiris e Octavio Paz, assim como no teatro de Antonin Artaud e no cinema de Luis Buñuel, além de muitos outros que não se cansaram de exaltar a violência poética de sua imaginação desvairada.
André Breton, o papa caga-regras do surrealismo, lhe dedicou um poema estranho (como se um poema do Breton dedicado ao Sade pudesse ser outra coisa), que eu me arvorei a traduzir aqui:
O Marquês de Sade tornou a penetrar no interior do vulcão
em erupção
de onde saíra
com suas belas mãos ainda esgarçadas,
seus olhos de donzela
e uma racionalidade à base de salve-se-quem-puder
que era bem dele.
Mas, do salão fosforescente sob lâmpadas viscerais,
ele nunca cessou de expedir suas ordens misteriosas
que abrem uma brecha na noite moral.
É por essa brecha que eu diviso
as grandes sombras que estalam, a velha casca desgastada
se esvanecerem
para me permitir te amar
como o primeiro homem amou a primeira mulher,
com toda a liberdade,
liberdade essa
pela qual o fogo mesmo se fez homem,
pela qual o marquês de Sade desafiou os séculos
com suas grandes árvores abstratas,
com seus acrobatas trágicos
enredados no fio da Virgem do desejo.[1]
No número 11 da revista La Révolution Surréaliste, de 1928, temos a transcrição de uma conversa bastante ilustrativa da presença de Sade nas cogitações dos mais ilustres surrealistas, com Breton, Raymond Queneau, Benjamin Péret (poeta comunista que se casou com a brasileira Elsie Houston e viveu no Brasil de 1929 a 1931, quando tomou um passa-fora do governo Vargas e voltou à França), Pierre Unik (poeta nascido na França, de ascendência tcheca, com um sobrenome ideal prum surrealista: Pedro Único). Estava lá também o Pierre Reverdy. Enfim, a corriola surrealista toda. Mulher, nenhuma. Surrealismo era coisa de cabra-macho, pelo visto. Os quatro ferrenhos misóginos que protagonizam Os 120 dias não deixariam de aprovar tal ausência. Vai ouvindo, em tradução libérrima de minha modestíssima lavra:
“O que vocês acham da pederastia?”, pergunta Péret.
“De que ponto de vista? Moral?”, indaga Queneau.
“Que seja.”
“Do momento que dois homens se amam, não faço nenhuma restrição moral às suas relações fisiológicas”, manda o futuro autor de Zazie no Metro.
Breton, Péret e Unik se alvoroçam. Unik pontifica: “Do ponto de vista físico, a pederastia me enoja tanto quanto os excrementos e, do ponto de vista moral, eu a condeno.”
Reverdy intervém: “Concordo com o Queneau.”
“Constato que, entre os surrealistas, há um singular preconceito contra a pederastia”, diz o concordado Queneau.
Breton ataca: “Acuso os pederastas de propor à tolerância humana um déficit mental e moral que tende a se erigir em sistema e a paralisar todas as iniciativas que eu respeito. Faço exceções, uma das quais, fora de série, a Sade […]. Tudo é permitido a um homem como o marquês de Sade, para quem a liberdade moral era uma questão de vida ou morte.”
Tirando a homofobia – que diabos é “déficit mental e moral que tende a se erigir em sistema e a paralisar todas as iniciativas que eu respeito”? –, dá pra ver o sorriso que o Divino Marquês abriria ao ouvir as palavras de Breton, a quem, provavelmente, mandaria abaixar as calças para avaliar sua bunda e as condições de higiene de seu ânus, sendo que, do ponto de vista de um libertino escatológico, quanto piores fossem, melhor, pra todos os efeitos coprogastronômicos. Porque a merda, de fato, está na ordem do dia lá no castelo de Silling, o tal da Floresta Negra. Na primeira leva de relatos lúbricos a cargo de madame Duclos, a dama que já vimos aqui em ação masturbando um cavalheiro em cima de defuntos em seus caixões, a coprofilia irrompe a certa altura na narrativa e passa, a partir daí, a comer solta até o final do livro. Num dos “causos” escatológicos que levam os quatro cavalheiros a um estado de excitação máxima, madame Duclos menciona o ocorrido com uma colega sua de bordel, “a pequena Eugénie”, a quem a cafetina ordena que passe vários dias sem limpar a bunda depois de defecar.
“Olhe aqui”, me disse um dia a pequena Eugénie, que começava a se familiarizar conosco e que seis meses de bordel a tinham deixado ainda mais bonita, “olhe, Duclos”, ela me disse enquanto se arregaçava, “como madame Fournier quer que eu fique com a bunda o dia todo.” Ao dizer isso, mostrou-me uma camada de merda de 1 polegada de espessura que cobria inteiramente seu lindo buraquinho. […]. “É para um velho que vem esta noite”, ela disse, “e quer me encontrar com merda no cu.”
O velho cliente chega e a cena é narrada pela própria Duclos, que, de um aposento contíguo, espia tudo por um buraco estratégico:
Era um monge, mas um desses que a gente chama de mandachuva, da ordem dos cistercienses, gordo, alto, vigoroso e se aproximando dos 60. Acaricia a menina, beija-a na boca, pergunta se está bem limpa, levanta-lhe a roupa para verificar em pessoa um estado constante de limpeza que Eugénie garantia, embora ela soubesse que fosse o contrário, mas tinham lhe dito para falar assim. “Como, safadinha!”, diz o monge, ao ver o estado das coisas, “Como ousa me dizer que está limpa com um cu imundo desse jeito?”
Ato contínuo, o monge passa a dar conta do recado:
Primeiro, parece apenas observar a situação; mostra-se surpreso; aos poucos, apodera-se daquilo, sua língua se aproxima, ele solta os pedaços, seus sentidos se inflamam, sua pica se retesa, o nariz, a boca, a língua, tudo parece trabalhar ao mesmo tempo, seu êxtase parece tão delicioso que mal lhe resta a capacidade de falar; finalmente, a porra sobe: ele agarra o caralho, sacode-o e acaba, ao esporrar, de limpar tão completamente aquele ânus que já não parecia que em algum momento pudesse estar sujo. Mas o libertino não parava aí, e essa mania voluptuosa era, para ele, apenas uma preliminar. Levanta-se, beija de novo a menina, expõe-lhe um cu sujo, enorme e horroroso que manda ela apertar e sodomizar; a operação torna a deixá-lo com tesão, ele agarra a bunda de minha colega, cobre-a de mais beijos […].
Depois desse interlúdio estercorário, dos mais leves do gênero entre os narrados pela Duclos, sem falar nas intercorrências punkscatológicas nos relatos das três narradoras seguintes, um novo caso de merda libidinosa vem à tona, dessa vez com um viés gastronômico mais acentuado. Duclos conta que abandona o prostíbulo onde trabalhava pra ir morar com um cliente muito rico e devotadamente coprófago que lhe oferece uma pequena fortuna por isso. O cara comia cocô e gozava, simples assim. Os primeiros diálogos entre eles soterram qualquer resquício de romantismo que ainda possa vagar sutilmente pelos ares do planeta. A Duclos levanta a saia e mostra a bunda, e a fofura começa:
“Caramba!”, exclamou, “é de fato uma das mais belas bundas que já vi na vida, e olhe que vi muitas… Abra… Vejamos esse morango… que eu vou chupar… que eu vou devorar… É realmente uma bunda lindíssima esta aqui, de verdade… ah! Diga, minha filha, foi avisada?”
“Sim, senhor.”
“Disseram-lhe que eu mandava cagar?”
“Sim, senhor.”
E pensar que uma tetraheptavó do Sade foi ninguém menos que Laura, a musa imorredoura do Petrarca, o consolidador da forma soneto no século xiv. Em abril de 1327, Petrarca, fugido de uma guerra civil em Florença, vai dar com os costados em Avignon, na França, onde avista, na capela de um convento, Laura de Noves, então com 17 anos, mulher de Hugues de Sade. Paixão à primeiríssima vista: S’amor non è, che dunque è, quel ch’io sento?/Ma s’egli é amor, per Dio, checosa é quale? (na minha tradução improvisada: Se amor não é, o que é isto que eu sinto?/Mas se é amor, por Deus, que coisa é essa?).
E 428 anos depois vem um descendente do corno lírico, o marido da musa platônica do poeta, o tal do Hughes de Sade, e produz aquela pérola de antirromantismo atroz, atribuída a um personagem seu: “Disseram-lhe que eu mandava cagar?”, pergunta o altivo cavalheiro. “Sim, senhor”, responde a casta donzela.
Alright, diria Buffalo Bill.
Em seu novo endereço, na casa do cliente coprófago, onde vive em semiescravidão sexual, a Duclos é obrigada a seguir uma dieta de ceva de leitoa:
A base do meu cardápio corrente consistia numa imensidão de peito de aves, caça desossada servida de todas as maneiras, pouca carne vermelha, nenhuma espécie de gordura, muito pouco pão e fruta. Tinha de comer esses tipos de carnes mesmo de manhã, no pequeno almoço, e à noite, como lanche; nessas horas, eram-me servidas sem pão, e aos poucos D’Aucourt pediu para me abster do pão, a ponto de, nos últimos tempos, eu não comer mais nenhum, e também nenhuma sopa. Desse regime resultava, como ele previra, duas evacuações por dia, muito brandas, muito moles e com um gosto mais delicioso, ele afirmava, o que não podia acontecer com uma alimentação corrente; e eu devia acreditar, pois ele era um especialista.
O duque, o bispo, o magistrado e o financista, excitadíssimos com esse relato, e tantos outros que seria excessivo, se não impossível mencionar aqui, passam a exigir merda e cus sujos de seus escravos, tanto dos garotos e garotas, quanto dos fodedores, das velhas e das cafetinas narradoras. E ai dos meninos e meninas que desobedecerem tal demanda, quer defecando em seus penicos à noite, quer higienizando seus orobós depois de cagar, se me é permitido usar o linguajar sadiano: vão para o castigo direto, atados a uma das duas colunas-pelourinhos que ladeiam o trono da narradora, na saleta de reunião em que os libertinos se divertem ouvindo as histórias das cafetinas, na companhia de todo o séquito sexual da esbórnia, com quem replicarão as enormidades ouvidas.
E, no entanto, monsieur le marquis era um senhor gourmand. Em sua cela na Bastilha não faltavam as mais refinadas iguarias da culinária francesa, providenciadas por sua mulher, Renée-Pélagie, que mediante propinas fazia a boa mesa chegar até a sua cela. Sade anota tudo que consome, escreve Jean-Michel Normand, jornalista do Le Monde: ovos à la coque, espinafre ao leite, salmão en macaronis, carne de aves finas trufadas. E é claro que ele manda caprichar também na sobremesa: beignets de pão velho, charlotte, crème au chocolat, geleia de maçãs grelhadas, creme de ovos. Manteiga, ele só come a da Bretanha. A compota tem que vir acondicionada em potes de vidro, conforme instrui sua mulher. E, ça va sans dire, ele degusta os melhores vinhos, licores e destilados que podia haver. Vai daí que o marquês ficou obeso. É de imaginar o prazer imenso de que desfrutava em suas evacuações. Uma vez que estava privado de sexo, ele devia se compensar na privada, é a conclusão trocadilhista a que chego por conta própria. Sade é o Brillat-Savarin do bom prato e do penico gourmet.
Vale lembrar que, nessa primeira fase, a das paixões simples, as virgindades de meninas e meninos são a muito custo preservadas, pois as leis da procrastinação libertina, visando espicaçar as libidos, são aqui religiosamente respeitadas. Só nas fases seguintes, a das paixões duplas, criminosas e assassinas, é que assistiremos às deflorações vaginais e anais, que nada mais serão que penosas sessões de tortura, sobretudo quando os paus XG do duque e do magistrado entram em ação: “Na tarde do dia 4, e nessa mesma noite, nas orgias, o duque desvirgina Fanny, segurada pelas quatro velhas, enquanto ele é servido pela Duclos. Fode-a duas vezes seguidas; ela desmaia; fode-a, na segunda vez, quando ela está sem sentidos.”
Os libertinos passam esse primeiro quarto dos 120 Dias, seja, o mês de novembro, saboreando não só as ricas iguarias que as cozinheiras preparam, regadas a bebidas excelentes, como também uma farta provisão de fezes e, já ia me esquecendo, de peidos também. Num dos primeiros relatos da Duclos em que as ventosidades intestinais são celebradas com júbilo ejaculatório, acompanhamos as travessuras de um cliente que, segundo ela:
agarra minhas nádegas, abre-as, põe a boca aberta no buraquinho, colando-a hermeticamente, e em seguida, conforme a ordem que recebi e a necessidade urgente que eu sentia, solto-lhe no fundo da goela o peido mais sonoro que ele deve ter recebido na vida. Retira-se, furioso: “Como assim, sua insolentezinha”, me diz, “tem o atrevimento de peidar na minha boca?” E logo a recoloca ali: “Sim, senhor”, digo, largando um segundo petardo, “é assim que trato quem beija o meu cu.” “Pois bem! Peide, então peide, safadinha! Já que não consegue se segurar, peide tanto quanto quiser e tanto quanto puder.”
Decerto não passa despercebido a ninguém com um mínimo de conhecimento de psicanálise o notório infantilismo perverso-polimórfico de passagens como essas, da merda e dos peidos, bem como das inúmeras cenas de sexo anal que literalmente abundam nos 120 Dias, bem como em toda obra do Sade, pra não dizer na própria vida do cara. Na fase anal do desenvolvimento infantil, diz Freud, a libido está toda concentrada no rabicó da criança, e tudo que se relaciona com esse orifício transcendental adquire forte conotação simbólica. Para a criança, diz Freud, o que sai por ali é como se fosse o filho dela, sua criação. Através das fezes, a criança obtém satisfação narcísica e lúdica, conquista o amor do outro, oferecendo o cocô como presente, afirma sua independência do outro – essa é minhamerda! – ou usa a merda como arma para agredir o outro.
Lanço mão aqui de um Freud de segunda mão, que vou pescar num livro famoso que virou item obrigatório da biblioteca hippie dos anos 60, o Vida contra Morte, do Norman Brown. No capítulo intitulado “A visão excremental”, Brown analisa o repúdio unânime que os críticos do século XVIII – olha só a coincidência – ao século XX, Aldous Huxley incluso, manifestaram em relação à quarta das Viagens de Gulliver, do Jonathan Swift, em que aparecem os Yahoo, um povo que sagra seu novo chefe despejando sobre ele toda a merda da comunidade, numa espécie de unção escatológica cerimonial. Na sequência, o favorito do novo chefe se encarrega de lambê-lo da cabeça aos pés, o que faz de ambos personagens em potencial dos 120 Dias de Sodoma.
Freud, diz Norman Brown, aponta que, ao superar essa fase da sexualidade infantil, o ser humano desloca o simbolismo ligado aos produtos anais, merda e peidos, bien sûr, para objetos externos ao corpo, sendo o dinheiro um dos mais valorizados. É a chamada sublimação. Só que, veja só, a ideia de propriedade não é simplesmente transferida das fezes para o dinheiro. Pelo contrário, diz Brown, o dinheiro é fezes, posto que o erotismo anal continua ativo no inconsciente. “O erotismo anal não foi renunciado ou abandonado, mas reprimido.” Um livro como Os120 Dias, portanto, é uma festiva e gloriosa ode à dessublimação da fase anal. Freud deve ter tirado o chapéu pro Sade ao ler esse livro, e o endiabrado marquês, se estivesse diante dele, teria baixado as calças e depositado no chapéu do psicanalista vienense sua homenagem à desrepressão dos instintos infantis.
Falando em dessublimação, aproveito pra falar alguma coisa sobre o emprego do palavrão, tanto no original do Sade quanto na nova tradução d’Os 120 Dias de Sodoma em português, uma tremenda façanha da Rosa Freire d’Aguiar, jornalista cultíssima, viúva de Celso Furtado, que vive há décadas entre o Rio de Janeiro e Paris. No texto que o leitor logo terá ao seu alcance nas boas casas do ramo, o pênis, le vit, não é um falo estufado de simbologias. Ele até pode ser um anatômico membro, um civilizado instrumento, mas quando dá na veneta do narrador (e da tradutora) é pica ou caralho mesmo. E a vagina, le con, é boceta, com o. Ânus é palavra empregada no texto, mas quando o bicho pega vira um resumido cu, e quanto mais sujo melhor, pro gosto dos libertinos coprofílicos. Não há espaço pra muita sublimação ali. Parodiando a famosa quadrinha do repentista nordestino, “Na França tá tudo errado,/na França anda tudo à esmo./Na França, pescoço é cou,/no Sade, cu é cu mesmo”.
José Paulo Paes, grande poeta, ensaísta e escritor já falecido, traduziu os Sonetos Luxuriosos do Aretino, em que pululam alegremente todos os palavrões básicos do léxico sacana:
Um caralho papal, Faustina, é este.
Pois diz-me onde melhor se te afigura
– Em cona ou cu, que rara é a ventura.
Na cona te porei, se a elegeste.
Mas se no cu o queres, então neste
Há de entrar […].
José Paulo Paes, eu dizia, mostrou num longo e erudito ensaio introdutório aos Sonetos o quanto as interdições que pesam sobre os órgãos sexuais e as funções excretivas incidem também sobre as palavras que os nomeiam. Diz mestre Paes:
Essa aura de difuso prazer e precoce interdito [ele fala sobre a sexualidade infantil], imagem en abyme do pecado original, irá coroar para sempre o nome feio, fazendo-o a própria voz do Corpo, obscura e subterrânea voz egótica sistematicamente abafada pelo discurso aristotélico e socializado da Cabeça. A voz do Corpo surge dos confins da linguagem; por refugir às leis da lógica gramatical, não se presta à veiculação de conceitos; cabe-lhe antes dar vazão a emoções impossíveis de verbalizar satisfatoriamente: ira, aversão, espanto, exaltação, êxtase.
Eliane Robert de Moraes, por sinal amiga e discípula do José Paulo Paes, e que um leitor mais refinado de Sade certamente há de ler com grande proveito – quer no posfácio da nova edição dos 120 Dias, quer em outros ensaios publicados em seus livros –, tem uma sacada matadora sobre a questão dos palavrões no ensaio intitulado “O efeito obsceno” (em Perversos, Amantes e Outros Trágicos). Para Moraes, vale a pena “interrogarmos a palavra obscena naquilo que a torna distinta de todas as outras palavras, isto é, na sua condição de fetiche”. Em seguida, para deixar essa ideia mais clara, cita a autora Lucienne Frappier-Mazur, autora de um ensaio que integra o livro A Invenção da Pornografia (o ensaio leva o título de “Verdade e palavra na pornografia francesa do século XVIII”): “Ao contrário das outras palavras, a palavra obscena não só representa, mas é a própria coisa.” Ou seja, cu é cu mesmo, como diz o outro.
Antes de encerrar essa minha falação, deixe-me dizer duas palavrinhas, como gostava de repetir um professor de português sarrista que eu tive no clássico, lá por 1967. Só eu e meu colega e amigo Edu ríamos dessa gag e de outras de figurino nonsense que o professor se comprazia em disparar em aula. Lembro aqui desse saudoso amigo justamente por causa do Sade, pois que um belo dia o Edu descobre, enfurnado num fundo de prateleira da estante de livros jurídicos de seu tio advogado, um exemplar de um livro intitulado A Filosofia na Alcova, do marquês de Sade, numa edição portuguesa de capa dura e sem ilustração. O Edu surrupiou o livro, leu, pirou, e me emprestou a muamba, garantindo que eu ia ter acesso a uma nova e assustadora dimensão do sexo, ou melhor, da putaria elevada às mais criminosas e demenciais consequências. Sua única recomendação foi: “Procure não gozar em cima das páginas, por favor.”
Fui pra casa com o coração e todo o resto do corpo latejando de excitação, eu, que, aos 16 anos, mal tinha tido dois ou três entreveros sexuais com prostitutas de rua dentro do Fusca do meu pai. Eu pedia o carrinho pra dar uma volta no nosso quarteirão, no Butantã, como pretexto pra ir ter alhures com minhas incipientes e precaríssimas mestras do lesco-lesco que atendiam na rua, e com quem, por sinal, peguei minha primeira e honrosa gonorreia, num tempo em que contrair uma doença venérea era prova cabal da virilidade do jovem rapaz, sendo que bastava um pico de Benzetacil na veia pra tudo se resolver do dia pra noite. (“Ah, que saudade da gonorreia”, como dizia aquela pichação que andaram espalhando por São Paulo quando começou a praga da Aids, no início dos anos 80.)
Depois de passar a chave na porta do meu quarto e masturbódromo oficial, comecei a ler o marquês de Sade e o que ele tinha a contar sobre o que se passava na tal da alcova, e que era nada menos que um curso de putaria aplicada ministrado por um libertino chamado Dolmancé e sua amiga, a madame de Saint-Ange, mais o irmão desta, uma adorável virgenzinha de 15 anos chamada Eugénie. O curso, envolvendo chicotadas e paus de dimensões devastadoras, tinha justamente o sexo anal como o foco da devoção dos mestres libertinos. As cenas e diálogos teatrais do romance transbordavam de anarquia, anticlericalismo blasfemo, naturalismo pagão, “sodomia” a dar com pau, e o elogio da crueldade como elemento intensificador do prazer absoluto e da mais irrestrita liberdade de dispor do próprio corpo e do de seu parceiro ou parceira de prazeres, de preferência contra a vontade dele ou dela, pois subjugar um corpo de deleite e, dessa forma, cometer um delito (além de um trocadilho pífio), faz parte do sempre vertiginoso prazer de um libertino.
Isso faz mais de cinquenta anos, mas ainda me lembro com certo tremor na mão direita do quanto me derreti em punhetas seriais diante das cenas hipergráficas do livro do Sade. Aquele texto maluco tinha puxado o pino de segurança da granada libidinal recheada de testosterona que eu trazia no centro do meu psiquismo adolescente. Um tal frenesi masturbatório, diga-se en passant (não resisti à tentação de lascar um en passant num texto sobre um autor francês), encontra eco na atividade onanista do próprio marquês, que, numa carta escrita na Bastilha a sua mulher, ele se gaba de ter se masturbado 6 mil vezes em pouco mais de dois anos. Ou seja, pelo menos meia dúzia de bronhas diárias. Pas mal, eu diria, mais uma vez pondo minhas manguinhas galicistas de fora.
OSade iria reaparecer na minha vida duas décadas mais tarde, já nos anos 80, na forma de uma edição de bolso francesa, a famosa 10/18, em dois volumes, cada qual do tamanho ideal pra se trazer no bolso de trás do jeans. Eu tinha comprado a obra numa viagem a Paris, mas só me dispus a ler a bagaça alguns anos depois, justamente na época em que me mandaram fazer um espermograma, o que me traz de volta àquela minha afirmação, rescendendo a obviedade, de que o orgasmo seria uma compulsão natural de qualquer ser humano sexuado. Sim, perguntava eu, se você ainda se lembra: Quem não gosta de gozar?
Volto ao assunto porque acabo de me dar conta de que essa verdade, a bem da verdade verdadeira, é das mais relativas, pois, ampliando aquela lista de motivos pra se procurar o gozo na letra do samba da recém-(de)formada dupla Janet de Almeida/R. Moraes, há quem goze por dever de ofício, como o ator pornô, que depende de suas ereções e ejaculações pra pagar as contas, e há também o cidadão que comparece de manhã, bem cedo, a um laboratório de análises clínicas pra “colher o material”, primeira etapa de uma estonteante orgia solitária conhecida como espermograma. Colher o material, como alguns leitores decerto não desconhecem, é das mais inglórias tarefas prum Homo sapiens que precisa avaliar a qualidade reprodutiva e patológica do seu esperma. O que os meus espermatozoides têm a ver com Sade e Os 120 Dias de Sodoma é o que tentarei explicar aqui. Pra tanto, faz-se mister contar como foi minha orgia monossexual no laboratório, há mais de vinte anos.
O ritual é sumário. A enfermeira te dá um potinho de plástico e gaze embebida num líquido pra você mesmo providenciar a assepsia “da região” antes de colher o material. Em seguida, ela te indica o lavabo mais próximo, onde você vai se trancar cercado de paredes nuas da cor mais neutra possível, tendo por únicas testemunhas uma privada e uma pia, e, como parceiras sexuais, as meninas das revistas de mulher pelada trazidas na cintura da calça, em geral na parte de trás, ocultas pela camisa, paletó, túnica, batina, o que for. Você abre a revista sobre a pia ou sobre a tampa fechada da privada, abaixa as calças e mãos à obra – uma só mão, no caso, pois a outra estará ocupada em segurar o potinho.
Hoje deve ter algum aplicativo pra celular que te cadastra, afere suas preferências libidinais e te oferece um cardápio customizado de fotos e filmetes pornôs capazes de provocar a necessária afluência de sangue pra dentro dos seus canais cavernosos, seguida da esperada emissão espermática. E eu não me espantaria de topar com material pornô customizado, com a putaria rolando em lavabos de laboratório, de modo a reproduzir o ambiente em que você se encontra naquele momento crucial, com todo o establishment médico-científico esperando lá fora você acabar de se masturbar e desocupar a moita.
Pois bem, no dia do exame, levei de casa o material didático que me pareceu mais apropriado: uma Playboy e o primeiro volume de Les 120 Journées de Sodome, cuja leitura, ao menos da primeira e mais branda das quatro partes do livro, a das “paixões simples”, se não tinha ainda me “custado porra”, como me acontecera com A Filosofia na Alcova, trinta anos antes, tinha conseguido me “esquentar a cabeça”, como gosta de dizer o Sade.
No meu lavabo monossexual, abri os trabalhos com a Playboy. Será que dá processo se eu contar que era um número de 1986 com a Sônia Braga na capa e um ensaio tesudíssimo com a über-atriz pelada e de xota ornada de pentelhos, em fotos do Bob Wolfenson? Mesmo assim, estava difícil. Faltava alguma coisa ali, e não era na modelo nem nas fotos belíssimas do Bob. Aliás, parte do problema talvez estivesse nesse componente estetizante, portanto sublimador, das fotos, como, de resto, compete a um erotismo civilizado. Àquela hora da manhã, a perspectiva de prazeres eroestéticos não estava dando conta de conjurar o “material” das profundezas do meu sistema urogenital, digamos assim. Prazeres eroestéticos teriam que vir “acompanhados de algum crime ou coloridos por alguma infâmia”, pra citar o Divino Marquês na “Introdução” aos 120 Dias que eu trazia no bolso de trás da calça, ora pateticamente tombada sobre os meus sapatos.
Puxei o livrinho do bolso, que até hoje trago comigo – o livro, não o bolso –, e abri numa das páginas que eu havia demarcado:
Augustine, a mais famosa punheteira do harém, recebeu ordem de bater punheta no menino na frente da assembleia, e o jovem foi autorizado a apalpá-la e acariciá-la na parte do corpo que desejasse: nada mais voluptuoso que o espetáculo de uma mocinha de 15 anos, bela como o dia, prestar-se às carícias de um rapazinho de 14 e excitá-lo para gozar com a mais deliciosa polução!
Eis o colorido da infâmia e do crime. Essa Augustine, cujos “olhos alertas e marotos anunciavam uma sensualidade muito precoce”, é uma das oito garotas entre 12 e 16 anos sequestradas a mando de um quarteto de libertinos psicopatas para servir-lhes de escravas sexuais, ou apenas “objetos”, da mesma forma que o menino masturbado é um dos oito belos efebos igualmente sequestrados para o mesmo fim. Sade continua: “O duque se excitou com esse espetáculo, agarrou Augustine e a masturbou no clitóris com a língua, até que ela gozasse duas ou três vezes, o que a espertinha, cheia de fogo e apetite, fez sem demora.”
Despertado de sua inércia a golpes da mais explícita putaria literária, meu libidão deu finalmente o ar da sua graça. Tudo parecia caminhar para um desenlace feliz, diante, não da bela Augustine, mas de um potinho de plástico esterilizado, quando, veja você, comecei a ter sinais de uma incipiente brochura. Senti dificuldade de avançar no papel dum Humbert Humbert loliteiro moderno instalado numa cena libertina do século XVIII, tentando desfrutar criminosa e cruelmente de uma ninfeta indefesa.
Aliás, sobre esse conceito pedofílico de “ninfeta” – a Eugénie da Filosofia na Alcova também era uma delas –, deve remontar à Grécia clássica, como sinaliza a raiz etimológica da palavra, mas segundo Vargas Llosa, em A Verdade das Mentiras, foi com Nabokov que a ninfeta “perdeu seu semblante vago e se personificou, abandonou sua clandestinidade nervosa e ganhou direito de cidadania”, como leio num artigo do jornalista e escritor Fred Navarro, que cita o escritor peruano na revista eletrônica Bula. Vargas Llosa lembra ainda, no trecho citado por Navarro, que a Lolita do Nabokov tinha 12 anos e 7 meses, “apenas um ano mais jovem que a Julieta de Shakespeare”. Ou seja, três anos mais jovem que a Eugénie dos meus 16 anos, e da mesma idade que a média das jovens escravas sexuais dos libertinos dos 120 Dias.
As oito ninfetas do livro do Sade não chegam a ter uma personalidade marcante, uma cidadania realista, a exemplo de Dolores Haze – Dores Névoa! –, a Lolita de nebulosa vis attractivado título, muito embora descritas com quase palpável carnalidade. Elas não são nada muito além de objetos nas mãos do quarteto de libertinos torcionários, e agora também na mão de um quinto aprendiz de libertino, em versão solitária.
Enfim, pra encurtar o papo, acabei deixando o livrinho das 1001 fodas alucinadas – 600, na verdade – em cima da tampa fechada da privada e retornei, qual amante pródigo, aos braços da Sônia Braga e seu púbis ajardinado pra consumar o fiat semem, tratando, afinal, de formular fantasias menos ofensivas às leis vigentes e aos bons costumes. Se bem que, por falar no mundinho administrado, em suas leis e seus bons (e maus) costumes, convém lembrar que o famoso rolo com a cópia manuscrita d’Os 120 Dias de Sodoma estava a ponto de ir a leilão no ano passado em Paris, avaliado entre 4 e 6 milhões de euros (entre 16 e 28 milhões de reais), quando o governo francês declarou que a relíquia é agora tesouro nacional. Aquela putaria deslavada e doentia toda pertence ao povo francês, que, penhorado, agradece. Sem falar que Os 120 Dias já fazem parte da prestigiosa Bibliothèque de la Pléiade, um selo da editora Gallimard que reúne as obras canônicas da literatura francesa.
E é sempre bom lembrar que estamos falando de um romance em que os personagens são sequestradores, ladrões, estupradores, pedófilos, coprófagos, incestuosos, cruéis torturadores, assassinos, inclusive de mãe, irmãs e filhas, psicopatas de carteirinha… E que ainda se vangloriam de sua alma infame, que, segundo eles, lhes foi dada pela natureza em pessoa! Vá você escrever um livro assim pra ver só o que os editores vão te dizer. Nem na face oculta da Lua algum deles publicaria um tal livro, hoje em dia.
Então, qual é o segredo?
É a literatura, estúpido!
Mas, voltando ao laboratório das ejaculações compulsórias e à Playboy da Sônia Braga, depois de muito espremer a imaginação e o… ahn… a região, logrei depositar um pouco da minha descendência virtual no potinho, o qual acondicionei numa sacolinha plástica, conforme a moça do laboratório tinha me instruído, puxei e afivelei a calça, mocozei a Sônia Braga às costas, e fui entregar o sofridamente ordenhado material pra ela. A funcionária me passou um protocolo pra retirar o resultado do exame a partir do dia tal, e eu já ia saindo dali com a minha cara de abajur apagado, quando ouço a voz atrás de mim: “Moço!”
Eu ainda podia ser confundido com um moço na época. Me virei pra receber da mão dela um livrinho com uma foto em branco e preto mostrando um detalhe de um quadro de pintor não identificado em que figuram umas moças peladas e uns menininhos angelicais, também nus. Contra um fundo bordô escuro se lia em letras brancas, garrafais: SADE. E embaixo, em letras garrafinhas: Les 120 Journées de Sodome. Eu tinha esquecido o mestre malucão sobre a tampa da privada, lugar mais ideal não havia pra se botar aquele livro. O bispo ou Durcet ou Curval ou o duque devem ter batido com seus paus duros no plástico da tampa atraindo a atenção da moça.
Quanto à nova tradução, inspirada e corajosa, volto a dizer que ela é um dos perturbadores prazeres proporcionados pelo mergulho nessa comédia noir que “geralmente horroriza até aqueles que dizem admirá-la e não sacaram por eles mesmos este fato angustiante: que o movimento do amor, levado ao extremo, é um movimento de morte”, segundo escreve Georges Bataille n’O Erotismo, outro livro que valeria uma nova tradução.
Tasquei esse “sacaram” aí em cima de propósito pra homenagear a Rosa Freire d’Aguiar, que encaçapou, de boa, vários “deu no pé” (decampa), “sentiu enorme tesão” e “putarias” (banda beaucoup e paillardé), “dar o fora” (nous sauver), “tinham feito o diabo a quatro” (ils avaient fait je ne sais quoi) e “boquete” (le mettre en bouche), entre muitos outros coloquialismos bem brasileiros. A tradutora tomou um partido: tornar o texto ágil e saboroso em bom português contemporâneo, maneirando nos arcaísmos, sem distorcer uma vírgula do original, nem muito menos rebaixar o alto nível literário do Sade, seu estilo elegante, sóbrio e ao mesmo tempo coloquial, sobretudo nos diálogos de corte teatral, que Rosa domina muito bem.
Enfim, recomendo ao leitor não torcer o volume d’Os 120 Dias de Sodoma em cima do tapete novo da sala, se você não tiver à mão um removedor de esperma, sangue, suor, urina, fezes, lágrimas, medo, dor, pavor – todo esse tragicômico chorume humano, enfim. E, sobretudo, que ninguém tente fazer a maior parte dessas coisas em casa. Se fizer, não me conte. Prometo também não contar nada da minha parte.
[1] Le marquis de Sade a regagné l’intérieur du volcan/en éruption/D’où il était venu/Avec ses belles mains encore frangées/Ses yeux de jeune fille/Et cette raison à fleur de sauve-qui-peut qui ne fut/Qu’à lui/Mais su salon phosphorescent à lampes de viscères/Il n’a cessé de jeter les ordres mystérieux/Qui ouvrent une brèche dans la nuit morale/C’est par cette brèche que je vois/Les grandes ombres craquantes la vieille écorce minée/Se dissoudre/Pour me permettre de t’aimer/Comme le premier homme aima la première femme/En toute liberté/Cette liberté/Pour laquelle le feu même s’est fait homme/Pour laquelle le marquis de Sade défia les siècles des grands arbres abstraits/D’acrobates tragiques/Cramponnés au fil de la Vierge du désir.
