UzMano
Fume Glauco três vezes ao dia
Glauco Villas Boas | Edição 146, Novembro 2018
Em 2009, Raoni Villas Boas decidiu criar uma grife de camisetas para jovens que se identificassem com a cultura do skate e do hip-hop. Procurou o pai, o cartunista Glauco, e lhe fez uma proposta: “Topa desenhar as estampas das roupas?” O rapaz de 24 anos queria que as camisetas exibissem alguns dos personagens concebidos pelo artista paranaense em três décadas de carreira. Glauco – que àquela altura produzia quadrinhos e charges para a Folha de S.Paulo – não só topou como resolveu batizar a grife. Nasceu, assim, a UzMano. A marca seria representada pelos doidões ali de cima. O cartunista, no entanto, não conseguiu vê-los em ação. Uma tragédia impediu o lançamento da grife.
Na madrugada de 12 de março de 2010, o estudante Carlos Eduardo Sundfeld Nunes invadiu o sítio onde Glauco morava, em Osasco (SP), e o assassinou com quatro tiros. Também matou Raoni. Esquizofrênico, o universitário frequentava a igreja Céu de Maria, que o cartunista, adepto do Santo Daime, fundou na década de 90. Nunes praticou os crimes durante um surto, em que se proclamava Jesus Cristo.
Morto logo após completar 53 anos, Glauco se notabilizou por uma galeria de poucos, mas divertidíssimos personagens, como o tresloucado Geraldão, o roqueiro Doy Jorge, o profeta Zé do Apocalipse, a libidinosa Dona Marta, o Casal Neuras, o menor abandonado Faquinha e o trio de alienígenas Ozetês. Todos, invariavelmente, são um feixe de ansiedade, desamparo e anarquia.
A partir deste mês, Faquinha, Ozetês e UzMano se revezam nas embalagens de um papel para enrolar tabaco e similares, comercializado pela Bem Bolado Brasil. Difícil imaginar que a turminha pudesse ter destino melhor. Contra fel, tiros e pancadaria, fume Glauco três vezes ao dia.
