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ficção

Vinte estudos para uma mitologia pequena

É dessa maneira que os deuses vivem entre nós

Marcílio França Castro | Edição 232, Janeiro 2026

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[1] O CIGARRO

Você pega o cigarro, desliza-o entre os dedos, tamborila com o maço sobre a mesa. Você testa o isqueiro, prolonga o silêncio da chama. Sempre se espera alguma coisa antes do primeiro trago. Você levanta a cabeça, solta a fumaça lentamente para o alto. O trago longo substitui um segredo. Você fuma um cigarro atrás do outro, enche o cinzeiro de guimbas. Vários cigarros são o roteiro de um assassinato. Você gosta de fumar no frio, encostado no poste da esquina, no muro do bar. Você esmaga um toco no asfalto, corre pela rua lateral. Você olha pela janela, segura a fumaça no peito, quer fugir sem falar. Você é arrogante quando fuma. Você sobe o penhasco à beira da praia – o mar traga junto com você. Você está deitado na rede, lança a fumaça em anéis, dispensa as cinzas na areia. Cada anel é o fantasma de uma fogueira. Você deixa o cigarro pela metade, o sexo tem gosto de tabaco. Você se torna mais inteligente quando fuma. Um cigarro pode conter momentos e décadas, pode mudar o ângulo de uma história, é a constante metáfora do abandono. Você apaga o cigarro, suspende a leitura. Na cruzada geral contra os fumantes, você pensa, ninguém previu esse efeito colateral. Junto com os cigarros, desaparece também uma forma de dominar o tempo.

[2] O PENTE

 

Seu propósito é alinhar os tempos. Começa com os dentes no futuro, o couro onde os fios prometem crescer. Deslizando, percorre o tecido dos dias, suas ondulações, sua arqueologia: traços de Sol e fumaça, camadas de insônia, restos de dor. Com cuidado, rompe os embaraços e desce, às vezes lentamente, às vezes com força – respondendo à mão que conduz. Desemboca enfim na parte mais frágil, a ponta ameaçada pelo corte – e que carrega a história do fio inteiro. Alguém se penteia diante do espelho: quer que o fim se pareça com o começo. 

[3] O FOGÃO

Meu amigo me responde com o copo de uísque na mão que os pais dele apesar da idade estão lúcidos e agora moram no apartamento novo que acabaram de comprar em um bairro chique da Zona Sul. Quando éramos crianças, meu amigo me dava carona da escola para casa em um Galaxie com motorista. Eu chegava em casa na hora exata do almoço, e minha mãe, que nunca foi dona de apartamento e saía correndo todos os dias para dar aula em uma escola pública, servia a refeição sem demora. Punha na mesa o chuchu, a carne moída, o arroz e o feijão – feitos no fogão de quatro bocas de cor azul-claro comprado a prestação na tradicional loja de eletrodomésticos. Na minha memória, o Galaxie do meu amigo está amarrado ao fogão de quatro bocas da minha mãe.

 

[4] OS SAPATOS 

A mulher de salto alto não se congela nas alturas. Ao contrário, sabe que nenhum ser rastejante pode aprisionar seu amor. Foi o que ela aprendeu na infância, quando a vendedora de calçados, que ia de porta em porta, esqueceu o par com saltos no tapete da sua casa. A menina rapidamente subiu na plataforma e disse: “É aqui que eu quero viver.” Como os pássaros, as rainhas e os dervixes, percebeu que também o tempo era mais leve longe do chão, e andar um pouco acima era tudo o que ela precisava.

[5] O RÁDIO DE PILHA

 

O aparelho treme na janelinha da área de serviço. Ela abre a torneira e canta alto, rasgando a melodia. A voz dos anjos se confunde com a que vem de dentro dela, e é por isso que se tornaram tão íntimos. Entre uma frequência e outra, ela ouve o ruído do universo primitivo.

 [6] A GARRAFA DE VINHO

Tal como o latido de um cão no meio da noite é o latido de todos os cães, uma garrafa de vinho ao abrir-se é o grito de todas as garrafas de vinho. Livre da contenção, e respirando, o líquido exala a própria superfície – de onde se espera um tremor de vida. Na minha lembrança, a garrafa de vinho mais antiga é a dos piratas de um romance de aventuras de Robert Louis Stevenson, mas não era bem uma garrafa de vinho, e sim de rum.

[7] A BANHEIRA

A água, tal como o fogo, sempre foi incompatível com os livros. Entretanto, o banho e a leitura evoluíram da mesma forma para a solidão. No banho, as palavras se precipitam na velocidade da água, a linguagem líquida retorna. Banhar-se e imaginar são exercícios que acontecem juntos. Então, a regra para o viajante é simples: em uma cidade sem livros, mergulhe em uma banheira de água quente.

[8] A LÂMPADA

Quando Thomas Edison produziu a primeira lâmpada elétrica talvez não imaginasse que ela se converteria em um destino de peregrinação. Após séculos de tochas e lampiões, os insetos podiam enfim chegar à luz sem incendiarem-se e obter sua morte clara e lenta. Thomas Edison inventou a lâmpada e modificou a história de um mito.

[9] O HIDRANTE

Seu corpo é todo de bronze, um cilindro grosso e avermelhado, atarracado na calçada. Os braços curtos parecem amputados, e é dali que se projeta a sua força. Quase sem ser notado, vigia imóvel a cidade. Seu domínio é o das águas, tem a chave dos rios que se espalham sob a terra. Nenhuma verticalidade o faz parecer menor, todos sabem a fúria que ele esconde. É dessa maneira que os deuses vivem entre nós, como Netuno, por exemplo.

[10] O VENTILADOR

Assim faria um deus dos ventos, com seus próprios pulmões. Mas o sopro é obra de outro mundo. De frente para a hélice, você sente os golpes de ar no rosto, nas páginas abertas do seu livro. As pás giram e continuam imóveis, em sua haste vertical e segura. Estão aqui e lá ao mesmo tempo, neste reino e em seus reinos invisíveis. Elas giram e se ausentam, desaparecem sem sair do lugar. Do outro lado, nos outros mundos, há alguém como você, detido em seu intervalo, alguém que também quer só se refrescar e ler uma boa história.

[11] A ASSINATURA

A mão no escuro não depende dos olhos – é ela quem pensa para o corpo. Abro outra vez o livro: lá está a assinatura na folha de rosto. O autor morreu faz tempo, mas a letra nunca perde seu movimento. Mil vezes a caneta risca no papel o nome quase ilegível, a mesma caligrafia. Como a memória de infância que vai e volta, até que a criança sobreviva em uma única cena.

[12] O LIVRO

Seria uma história em que a mudança de ambiente contamina o livro e desse modo o leitor consegue percebê-la de uma perspectiva diferente. Assim levei Moby Dick para passar férias no litoral. À beira-mar, acordo cedo, caminho, deito-me na areia para ler. O livro molha e toma sol, a capa fica enrugada. Logo o miolo empena. Derramo cerveja no fim de um capítulo, a mancha atinge a lombada. Ao passar os dedos no papel, sinto a aspereza do sal. Certo dia, já no fim da temporada, uma notícia circula pela praia. Todo mundo corre para ver a baleia encalhada no pontal. Pela envergadura, dizem, é um macho, está ferido e ofegante. Interrompo a minha leitura. Nativos debatem com turistas, crianças derramam baldes de água no dorso do animal. Uma a uma, as canoas vão surgindo do mar – o arrastão terminou mais cedo. Os pescadores desembarcam e se aproximam. Em silêncio, assistem à agonia da baleia, sem saber como devolvê-la ao mar.

[13] A JANELA

Da janela do trem, um diante do outro, ela olha para o futuro, ele vê o passado. Do ponto de vista dela, ele se senta à esquerda. Do ponto de vista dele, ela se senta à direita. Entre os dois, nuvens, casas, silêncio. Compartilham por um segundo a superfície prateada do rio, sem saber para que lado as águas descem. No corredor, o fiscal caminha de um tempo a outro e verifica se todos pagaram pelo seu destino.

[14] O ANEL

A menina quer um anel de prata do mercado de pulgas. O anel que a menina quer é antigo – sabe-se lá a quem pertenceu, quantos dedos vestiu, se prendeu ou se traiu. A menina quer um anel de prata do mercado de pulgas. Nas bancas do mercado há relógios, brincos, pulseiras, há candelabros e punhais. O vendedor oferece à menina um anel dourado, adornado com ametista. Gentilmente, ele toma a mão da menina, faz o anel deslizar em seu dedo. “Está vendo”, ele diz, apontando a cápsula sob a pedra, “é aqui que se guarda o veneno”. A menina ergue a mão, examina o anel. Abre e fecha a tampa do minúsculo compartimento. Não há vestígio de pó lá dentro. “Mas o que eu quero”, a menina diz, olhando nos olhos do vendedor, “é um anel de prata.” Então retira a joia do dedo, devolve-a ao dono. Com o Sol baixando, de braço dado com a mãe, a menina continua sua busca pela feira. Entre o ouro e a prata, ela pensa, sempre vai preferir a prata.

[15] A COLEÇÃO DE LÁPIS

Dois meninos se divertem com os lápis na sala de aula. Copiam uma frase, duas, forçam a mão – para a ponta da grafite quebrar. Cada um com seu apontador, desbastam a madeira, a grafite quebra de novo, e de novo, até o toco. Querem miniaturas que possam manipular com um par de dedos. Enfileirados em cima da carteira, os lápis formam um exército de pequenos adultos, desviados de sua função de escrever. Os meninos exibem orgulhosos seu arsenal. Instintivamente, exercitam a megalomania, tentando criar mundos perfeitos para o seu tamanho.

[16] A BAGAGEM DO TREM

O trem desliza para dentro da cidade. Corta os bairros distantes, o anel das fábricas, terrenos baldios. Deixa para trás os fugitivos e os cães sem dono. Vê passarem os viadutos, casas amontoadas, janelas corroídas. Surgem parques e crianças, os prédios se iluminam. O trem penetra sem resistência o interior da cidade. Na estação central, as pessoas esperam. Alguns esperam parentes, filhos, visitas. Outros esperam peças de automóvel, remédios, entorpecentes. Há os que, aparentemente, não esperam nada. Quando as portas do comboio se abrem, a vontade é a mesma. Todos querem ver o tempo que chega de outro lugar.

[17] O GUARDA-CHUVA

Na história do esquecimento, há um capítulo para o guarda-chuva. Poderia ser só um comentário sobre o destino desse objeto, invariavelmente perdido ou deixado para trás. No metrô, no mercado, no cinema. Na loja de roupas, no banco da praça, em lugar não sabido. Entre os utensílios do cotidiano, o guarda-chuva parece ter sido programado para o extravio. No caso do meu avô, aconteceu na farmácia da esquina – em uma tarde distante. O episódio é banal, mas já o recontaram inúmeras vezes, nunca da mesma maneira. Depois de receber seu pacote de comprimidos, ouviu umas novidades do farmacêutico, fez o acerto no caixa. Já ia se precipitando para a rua quando uma desconhecida, que também sofria de enxaqueca e comprava naquela farmácia, apontou para o objeto que o outro ia deixando no balcão. Nenhum dos dois imaginava que seriam companheiros de uma vida. Na história do guarda-­chuva, há um capítulo para o esquecimento. Décadas depois do encontro que gerou o casal, meu avô não vai mais à farmácia, seu mal permanece sem cura. Confuso, flutuando no sofá, não reconhece a mulher, nem o guarda-chuva, talvez nem a própria chuva. Tornou-se incapaz de balbuciar a palavra com que se nomeia o artefato – que acabou vindo parar nas minhas mãos. A decisão foi da minha avó; ela preservou a peça como uma relíquia. Se o guarda-chuva é um agente disfarçado do acaso, não pode ficar preso no armário – foi o que ela me disse. Olho para o céu, está ameaçando chover. Algo de novo acontece quando saio com o guarda-chuva do meu avô e o abro no meio da tempestade outra vez.

[18] O CAFÉ

No meio da tarde ouvíamos dois toques na porta, e ela já entrava, em seu uniforme pardo. Logo se esgueirava para a pequena copa, recolhia as xícaras sujas, a garrafa. Coletava os papéis para reciclagem, esvaziava os cestos sob as mesas. Por último, fazia a limpeza do banheiro. Não olhava para ninguém, mal se virava para os lados. Rapidamente ia embora, arrastando pelo corredor os sacos de lixo. Alguns minutos depois, ouvíamos de novo os dois toques na porta – era ela de volta. Dessa vez, para trazer a garrafa térmica renovada, que deixava com as xícaras em cima da bancada. Antes de desaparecer, ela se virava para a sala e dizia com voz firme: “Café.” E isso era tudo o que ela dizia.

[19] A MOEDA DE PRATA

Enquanto a moeda sobe, as irmãs conversam, a cozinheira atravessa a sala, o avô cochila em sua poltrona. Ouvem-se os passos do convidado que entra pelo corredor. A moeda sobe, a criança tenta alcançá-la com os olhos. Por um segundo, a luz lateral da janela parece brilhar no metal. Os tios fizeram uma aposta, lançaram a moeda para o alto. O almoço vai ser servido. Sob cada pilar do sobrado, enterraram moedas de prata, alguém diz. São moedas centenárias, do tempo do imperador. A moeda de prata nunca pode ser tocada, nunca chega a cair.

[20] A CRISTALEIRA

Depois de muitos anos, ele retorna à cidade natal. Na casa dos pais, encontra primos que nunca partiram, a tia quase centenária, agregados. Vivem com tranquilidade, e com certa fartura. O sofá foi trocado, o quintal sobrevive, a mesa ainda está de pé. Em cima da antiga cristaleira, os retratos se amontoam. Se decidir ficar, pode escapulir todo fim de semana – a estrada foi asfaltada, a internet funciona. Inauguraram até um hotel na praça, turistas começaram a aparecer. Se decidir ficar, precisará abrir mão de alguns planos, trocar de futuro. Talvez não seja assim tão difícil. Difícil mesmo vai ser apagar a memória que trouxe de fora, aderir ao passado unânime plantado naquela cristaleira.

Marcílio França Castro

É escritor. Seu livro mais recente, O último dos copistas (Companhia das Letras) foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria Melhor Romance de Estreia.

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