O nacionalismo mágico de Gustavo Petro
Em sua disputa com Trump, o presidente colombiano se compara a personagem de García Márquez
Donald Trump começou a fustigar a Colômbia e seu presidente, Gustavo Preto, logo depois de invadir a Venezuela e sequestrar Nicolás Maduro. Afirmou que o país era governado por um “homem doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos Estados Unidos – e não vai continuar fazendo isso por muito tempo”. Disse também que uma intervenção militar no país “soava bem”. Desafiando o presidente americano, Gustavo Petro afirmou que estava disposto a “pegar em armas” e convocou o povo colombiano para ir às ruas em defesa do seu país.
É uma disputa antiga. Petro foi o primeiro líder da região a polarizar com Trump. Em janeiro de 2025, quando iniciou sua caça a imigrantes, o presidente americano despachou dois aviões com destino à Colômbia, com centenas de imigrantes ilegais que chamava de criminosos. Mas a entrada dos aviões em Bogotá foi barrada por Petro, que disse que os cidadãos de seu país estavam sendo tratados como delinquentes e que os Estados Unidos não respeitavam protocolos internacionais. Por fim, ele autorizou a entrada dos aviões, mas o confronto entre os dois presidentes continuou nas redes sociais.
Trump chamou Petro de presidente impopular e listou as retaliações que promoveria: tarifas sobre produtos colombianos, revogação de vistos de membros do governo, do presidente e seus familiares, além de sanções alfandegárias e em transações financeiras. Em resposta, Petro postou um texto nacionalista com um quê de Realismo Mágico, relata Roberto Andrés, na edição deste mês da piauí.
O presidente colombiano, em resposta à ameaça de cassar seu visto, disse que acha entediante viajar aos Estados Unidos. Evocou Salvador Allende, ex-presidente do Chile deposto por um golpe militar com apoio do governo americano, para assegurar que resistiria a um golpe articulado por Trump. Também fantasiou seu próprio assassinato: “Me matarás, mas eu sobreviverei no meu povo, que é anterior ao seu, nas Américas.” E, num ato de nacionalismo mágico, evocou uma figura mítica da literatura: nas palavras de Petro, a Colômbia é também a terra “dos coronéis Aurelianos Buendía, dos quais eu sou um deles, talvez o último”. Aureliano Buendía é o protagonista de Cem anos de solidão, clássico do escritor colombiano Gabriel García Márquez.
Ao polarizar com Trump, o presidente colombiano acendeu o orgulho nacional e se aproximou de setores de centro avessos ao imperialismo. Com isso, isolou a extrema direita, cuja referência é o presidente dos Estados Unidos. Parece fazer parte do cálculo de Petro a percepção de que o custo de uma intervenção na Colômbia seria alto para Trump, ainda mais que o modelo experimentado na Venezuela, de demonstrar força sem precisar entrar numa guerra, ainda não foi provado.
Além disso, o governo de Petro se encerra em poucos meses. Caso queira mesmo intervir na Colômbia, faz mais sentido para Trump esperar as eleições presidenciais de maio. As pesquisas mais recentes indicam que os favoritos no pleito são Iván Cepeda, candidato da esquerda, com histórico político consistente, mas pouca força nas redes sociais, e Abelardo de la Espriella, da extrema direita, homem de poucos escrúpulos, mas com muita capacidade de pautar o debate no mundo digital.
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