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O nascimento do piano

    O novo e cobiçado piano da Steinway, modelo D-274, em seu processo de montagem Foto: Roberto Dziura Junior

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O nascimento do piano

Após quase quarenta anos, um novo e cobiçado Steinway chega à Orquestra Sinfônica do Paraná

Felippe Aníbal, de Curitiba | 26 fev 2026_09h14
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Quatro carregadores fizeram um esforço titânico para arrastar a caixa de 3 metros de comprimento por 2 metros de altura, da coxia até o proscênio do Teatro Guaíra, em Curitiba. O trabalho pesado era acompanhado em um silêncio de tensão e expectativa por cerca de cinquenta pessoas – a maioria instrumentistas e funcionários da casa. Todos queriam testemunhar o que chamavam de “o nascimento do piano”. Aquele invólucro de 583 kg continha um exemplar da Steinway & Sons, a mais tradicional fábrica de pianos do mundo, que teria sua montagem e regulagem concluídas ali no palco para, a partir daí, integrar a Orquestra Sinfônica do Paraná (OSP).

Por volta das 9h45 daquela quarta-feira, 11 de fevereiro, quando a caixa foi aberta, a pianista da OSP, Analaura de Souza Pinto, não se conteve e rompeu a quietude. Ela aplaudiu, soltando um gritinho entusiasmado: “Uhuuuu!” A chegada do Steinway mexera com a musicista a tal ponto que, nos dias anteriores, ela chegou a ter pesadelos. “No meu sonho, era um pianinho desse tamanho”, diz Souza Pinto à piauí, indicando com as mãos um espaço de cerca de meio metro. Agora, no entanto, diante do novo instrumento, seus olhos brilhavam: “É, realmente, muito bonito!”

De pequeno, o novo piano não tem nada. Trata-se de um Steinway modelo D-274 – o número se refere ao comprimento da cauda, em centímetros (ou seja, ele tem 2,74m); e a letra, ao fato de ser um exemplar de concerto. Assim que terminaram de remover as últimas amarras e a manta térmica que o envolvia, revelou-se o corpo do instrumento, deitado lateralmente. Ele é todo preto, com exceção das rodilhas, pedais, frisos e logomarca, que são dourados. O madeiramento – com acabamento batizado pela fábrica de ebony polish – é tão polido que chega a refletir como um espelho, conforme se chega perto. 

Entre outras peças encaixotadas junto ao corpo do piano – como as pernas, a pedaleira e a banqueta revestida em couro –, o maestro da OSP, Roberto Tibiriçá, encontrou um estojo preto. “É a certidão de nascimento!”, observou, brandindo a caixeta. De dentro dela, o músico retirou o certificado do objeto e um cartão em que se lia, em letras douradas: “Welcome to the Steinway Family.” Perto dele, Souza Pinto levou as mãos à boca, enternecida.

Com o piano já em pé, depois de aparafusar a última das três pernas do instrumento, o luthier e técnico Djalma Carvalho removeu o madeiramento frontal do D-274. Retirou das entranhas do Steinway o conjunto mecânico, que corresponde às teclas e à martelaria. “Ele vai cortar o cordão umbilical!”, anunciou, entusiasmado, o maestro Tibiriçá. Em seguida, Carvalho rompeu um lacre que mantinha as teclas travadas. A pianista Souza Pinto se sentou em frente ao instrumento e com solenidade começou a tocar Estudo Opus 25, No 1, de Frédéric Chopin. “Isso dá uma emoção…”, disse, às lágrimas, interrompendo a execução. Em seguida, emendou um trecho de Johannes Brahms, o mesmo que havia interpretado quatro décadas atrás, em sua prova de admissão à Sinfônica.

Atendendo ao pedido de um funcionário do Teatro Guaíra, Tibiriçá também deu uma canja. Ajeitou seu paletó xadrez e iniciou Sonata ao Luar, de Ludwig van Beethoven. Após um trecho curto, no entanto, o maestro se levantou aos prantos. “Desde que minha mãe morreu, eu nunca mais toquei piano”, justificou, antes de sair pela coxia, limpando as lágrimas com as costas das mãos. Entre os presentes, alguém vaticinou: “Agora, definitivamente, dá pra dizer que nasceu o piano.” Enquanto isso, funcionários faziam fila para tirar foto do Steinway.

 

Fundada em 1853 em Nova York, Estados Unidos, pelo luthier alemão Heinrich Engelhard Steinweg, a fábrica Steinway & Sons trouxe inovações que ajudaram a definir o conceito de piano moderno. Foi a fabricante, por exemplo, que desenvolveu o encordoamento cruzado e a placa de ferro fundido em peça única, que garantem mais precisão ao conjunto. A Steinway também cunhou outra marca pessoal, que é uma curvatura distinta de sua cauda – o chamado bent rim ou aro laminado curvado. A companhia se tornou um clássico, a ponto de todas as mais importantes casas de concerto do mundo, entre elas o Carnegie Hall, em Nova York, e o Teatro Bolshoi, em Moscou, terem um exemplar. “É a Rolls Royce dos pianos”, compara o maestro Tibiriçá. “Se não tiver um Steinway, um grande solista se recusa a tocar. É assim”, explica.

Os modelos D da Steinway demoram entre nove meses e um ano para serem fabricados, em um processo artesanal seriado, que envolve a fabricação e montagem de mais de 12 mil peças. Para isso, a fábrica dispõe de 450 artesãos. A maior parte desse tempo diz respeito a etapas de secagem, estabilização e acomodação da madeira. No caso da cauda, por exemplo, vinte lâminas de madeira nobre – principalmente maple – são coladas artesanalmente umas sobre as outras e colocadas em uma prensa de curvatura por seis semanas. Posteriormente, a peça deve permanecer em repouso por mais de 100 dias. O processo mais minucioso, no entanto, diz respeito à fabricação da parte mecânica do piano, composta por 10 mil peças móveis, como martelos, abafadores, alavancas e sistema de repetição.

A Steinway & Sons estima que existam, hoje, em torno de 50 mil pianos do modelo D no mundo, espalhados principalmente por teatros, casas de concerto e instituições de ensino. A própria fabricante diz ser difícil estimar quantos exemplares de concerto existem no Brasil, mas chuta que deve haver cerca de quinhentos pianos. “Esses números talvez sejam um pouco exagerados em relação à realidade”, ressalva o porta-voz da Steinway, Anthony Gilroy. Além do Teatro Guaíra, há exemplares do modelo D da Steinway em 18 teatros, 5 orquestras, 8 universidades e 9 instituições culturais brasileiros, segundo a Musical Roriz – importadora que detém a exclusividade de comercializar Steinways no país. 

O novo piano, no entanto, não é o primeiro Steinway da Orquestra Sinfônica do Paraná. A OSP já tem um D-274, que acabou de completar 37 anos – foi comprado em 1989, por 57,5 mil dólares, custeados pelo extinto banco Banestado. Ao longo desse período, o instrumento permaneceu no Teatro Guaíra, sob os cuidados da pianista Souza Pinto, que integra a orquestra desde sua fundação, em 1985. Segundo funcionários do teatro, ela mantém com o piano uma relação de mãe e filho, o que explica o bom estado de conservação do exemplar de quase quatro décadas de vida. 

“Bom, eu não tenho filhos, então eu não sei como é… Talvez, sim”, concorda a pianista, aos risos. “Sem ele, meu trabalho não brilha.” Só ela e a administração do Guaíra têm as chaves do antigo Steinway. Ela costuma chegar para ensaiar às sete da manhã, quando o teatro ainda está vazio e silencioso. Toca por duas horas a fio, no espaço em que o piano reside – um box de madeira do tamanho de um cômodo espaçoso, construído na coxia. Souza Pinto diz que lhe doeu quando o Steinway foi emprestado e acabou “machucado”, perdendo uma lasca de madeira na lateral direita. 

Com a chegada do novo exemplar, a pianista quer evitar que o antigo instrumento se ressinta. Se ouve alguém dizer “o piano velho”, ela logo corrige: “Não é velho. É o primogênito.” Durante o nascimento do novo Steinway, ela foi vista agachada junto ao antigo parceiro, conversando com ele, como se o consolasse. Ela explica que o primogênito não será aposentado, mas passará por um restauro e continuará a integrar a orquestra. Seu sonho é que o grupo promova apresentações com dois pianos – o novo e o antigo –, como Carnaval dos Animais, de Camille Saint-Saëns, e Carmina Burana, de Carl Orff, um desejo antigo.

Ao mesmo tempo em que se preocupava com o antigo D-274, a pianista era a mais emocionada com a chegada do novo exemplar. Quando o instrumento foi descarregado no Teatro Guaíra, Souza Pinto abraçou a caixa e conversou rapidamente com o instrumento. Questionada sobre o que falou ao novo Steinway, ela disse que apenas lhe deu boas-vindas. Ela pretende cuidar do piano com o mesmo esmero destinado ao primogênito, sem ter um preferido. O zelo se justifica não só pelo status ou pelo valor afetivo do instrumento, mas também pelo preço: a aquisição e importação do novo piano custaram ao governo do Paraná 3,5 milhões de reais.

A chegada do novo Steinway faz parte de um projeto de revitalização do Complexo Cultural do Teatro Guaíra – do qual a Orquestra Sinfônica do Paraná é um dos corpos artísticos. Em todo o pacote, serão investidos 50 milhões de reais. Os trabalhos são conduzidos por uma equipe de sessenta especialistas, liderados pelo arquiteto e urbanista Fábio Domingos Batista, especialista na obra de Rubens Meister – autor do projeto original do Teatro Guaíra e precursor do modernismo na arquitetura do Paraná. Entre as novidades previstas, está a instalação de uma concha acústica no palco do Guaíra, que projetará o som para a plateia, impedindo que ele se disperse pela coxia.

Além do piano, também estão em processo de compra ou a caminho do Guaíra uma harpa de pedais da marca italiana Salvi, um órgão eletrônico sampleado da Viscount, uma celesta, um cravo, dois contrabaixos, dois trompetes de rotor e um console de luz. “Tanto a revitalização quanto os novos instrumentos são coisas que vão ser usufruídas por gerações. É um respeito com a arte: esta é a mensagem”, define o diretor-presidente do Guaíra, Cleverson Cavalheiro. “É um legado que fica”, acrescentou o diretor-artístico do complexo, Áldice Lopes. Os dois estavam entre as cerca de cinquenta pessoas que, com sorriso no rosto, acompanhavam a chegada do novo piano.

 

Quando o oba-oba do nascimento do novo Steinway terminou, o luthier Djalma Carvalho organizou metodicamente uma série de ferramentas em uma mesinha ao lado do piano, como um instrumentador cirúrgico. “Se o piano nasceu, agora ele precisa ir pra encubadora”, compara. Mais uma vez, ele retirou o sistema mecânico do instrumento e o colocou sobre uma mesa. Do fim da manhã daquele dia 11 até o início da noite de 13 de fevereiro, ele conduziu o processo de regulagem, timbragem e afinação do objeto. Essa série de ajustes finos é que conclui a fabricação do instrumento e o prepara definitivamente para a vida nos palcos. Trata-se de um trabalho meticuloso, de precisão. 

“Se isso fosse feito em Nova York antes de ele sair para vir pra cá, esse trabalho se perderia no caminho. O piano é um trambolhão, mas é um bebezão, na verdade… É bem enjoadinho”, diz Carvalho.

Ainda no dia 11, depois de ajustar os pedais e seu sistema de acionamento, o luthier passou à etapa mais minuciosa: o ajuste e alinhamento dos martelos. Quando o piano digita uma tecla, esta aciona o martelo correspondente, que toca em três cordas simultaneamente. As cordas precisam vibrar em uníssono, por isso o alinhamento deve estar submilimetricamente perfeito. Qualquer mínima inclinação faz com que as cordas soem fora de tempo, o que pode modificar até o timbre da nota. Para detectar as imprecisões, Carvalho levantava três ou quatro martelos por vez e, com olhar clínico, identificava os desvios por comparação. Para corrigi-los, o técnico colava finíssimas camadas de papel-goma na base do martelo, compensando o desalinhamento. 

Da mesma forma, Carvalho precisou reapertar os parafusos dos 88 martelos e das básculas (componente que funciona como uma alavanca, acionando o martelo). As peças são fabricadas com o miolo de maple – madeira tida como mole. Por isso, o trabalho requer precisão cirúrgica para que os parafusos não danifiquem os componentes. Ainda no primeiro dia, o luthier também começou a alinhar e assentar as 88 teclas de marfim. “É um trabalho artesanal. Não tem uma máquina que faça isso”, diz Carvalho, que por dezessete anos foi contrabaixista da Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo e se consolidou no ofício técnico após concluir cursos no Japão.

No dia seguinte, em 12 de fevereiro, o luthier se dedicou a ajustar o escape e a caída dos martelos, a distância de ataque e da parada desses componentes, além de regular os contramartelos e as molas de repetição. Cada um desses processos é realizado individualmente na peça correspondente a cada uma das 88 teclas do piano, o que consumiu todo um dia de trabalho. Cada uma necessita estar na posição milimétrica exata. Sem esse nível de ajuste, os pianistas não conseguem executar com precisão desde movimentos mais rápidos aos mais sutis, como o pianissimo — quando a passagem é tocada de forma suave, soando em volume muito baixo. 

Com o conjunto regulado, em 13 de fevereiro Carvalho partiu para o processo de timbragem, que consiste em garantir que a projeção do som do piano se propague de forma equilibrada – com graves, médios e agudos – a todos os cantos da sala de concerto. Nessa etapa, o luthier contou com a ajuda de Souza Pinto. “Toque algo leve, transparente”, pediu Carvalho. A pianista, por sua vez, passou a executar a 13ª Improvisação, de Francis Poulenc. Em seguida, o técnico passou a se postar em pontos diferentes do auditório, para ouvir como a massa sonora lhe chegava. Para fazer as correções, Carvalho utilizava uma agulhadora, ferramenta semelhante a uma chave de fenda, mas com três agulhas na ponta. Com ela, fazia uma “acupuntura” nos martelos de feltro – como o próprio técnico define. 

Para o fim, ficou a afinação. Como o piano chegou de Nova York com diapasão de 438 hertz (ou seja, com as cordas mais frouxas por causa da variação de umidade e temperatura), o luthier tensionou as cordas para chegar a 442 hertz, afinação usual das orquestras nacionais e internacionais. “Agora, sim, a criança tá pronta pra vida”, concluiu Carvalho. Souza Pinto, por sua vez, não se conteve. “A sonoridade é ampla e brilhante. Simplesmente maravilhoso!”

 

A chegada do novo Steinway marca um momento de nuances na trajetória de Souza Pinto. Prestes a completar 70 anos, ela celebra a data, mas se sente em uma corrida contra o tempo. Isso porque lhe restam mais cinco anos como integrante da Orquestra Sinfônica do Paraná. Como servidora pública, ela será compulsoriamente aposentada assim que fizer 75 anos. “É uma aposentadoria expulsória”, graceja. Com os olhos marejados, a pianista assente que será dolorido sair de cena. “Quando os meus colegas se aposentam, eu já tô chorando”, diz. “Mas é a vida da gente.”

Enquanto acompanhava a montagem do D-274, a pianista olhava a própria trajetória em retrospecto. Recorda-se de uma cena remota da infância, em que seu pai destrancou o piano vertical que ficava na sala de sua casa e exibiu o teclado do instrumento. Na ocasião, o episódio lhe soou como uma revelação. Depois disso, aos 6 anos, ela e o pai – Alcides Silva Pinto, um comerciante de materiais de construção – se inscreveram no Conservatório Musical Brooklin Paulista, no bairro em que moravam, em São Paulo. Como não havia distinção de programas, a menina fazia aulas com os adultos, sob a docência de Sígrido Levental. 

Paralelamente, sua mãe – Regina Laura de Souza Pinto, uma professora de francês – e os tios também tocavam piano, o que ajudou a compor a relação afetiva da jovem com o instrumento. A família se mudou algumas vezes ao longo dos anos seguintes, o que fez com que a menina mudasse de escolas e de professores de piano, mas não abandonasse os estudos. Aos 17 anos, decidiu cursar música, ao que seus tios, advogados, se opuseram, argumentando que aquilo não era profissão. “Primeiro vem a vocação”, interveio a mãe, abrindo caminho para que a adolescente se matriculasse na Faculdade Santa Marcelina.

Em 1980, Souza Pinto voltou ao Conservatório Musical Brooklin Paulista, desta vez como professora. Cinco anos depois, alguns de seus colegas se preparavam para prestar concurso para a Orquestra Sinfônica do Paraná, que estava para ser fundada. A pianista se ofereceu para acompanhar um amigo, mas também acabou se submetendo ao exame. Foi aprovada, tornando-se a primeira e única pianista da OSP ao longo dos 41 anos de história do corpo artístico. Entre as apresentações, Souza Pinto destaca uma leitura de Carnaval dos Animais, em que atuou como solista, e o segundo concerto da orquestra, em julho de 1985, quando executou Concerto No 3 para piano e orquestra, de Beethoven.

Agora, ela está às vésperas de outra apresentação memorável. Em 12 de março, a pianista fará um solo, no concerto no Teatro Guaíra em que o novo Steinway será apresentado ao público pela primeira vez. Sob regência do maestro Tibiriçá e acompanhada pela Orquestra Sinfônica do Paraná, ela abrirá os trabalhos para o solista convidado Barry Douglas, celebrado pianista irlandês. Até sua aposentadoria “expulsória”, Souza Pinto continuará cuidando zelosamente, agora de dois Steinways. Como uma mãe. 

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