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O pequeno grande jornal de um homem só

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O pequeno grande jornal de um homem só

O caminho difícil do jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto

João Moreira Salles | 07 abr 2026_09h59
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Com sessenta anos de carreira, Lúcio Flávio Pinto foi o jornalista que acompanhou as principais transformações ocorridas na Amazônia, investigando com profundidade e independência todas as políticas, crimes, conflitos e ilicitudes que marcaram a região ao longo das décadas. Na segunda parte de seu perfil do jornalista, publicada na piauí deste mês, João Moreira Salles conta sobre uma transformação radical que Lúcio Flávio produziu em sua vida.

Em 1987, aos 38 anos de idade e 22 anos de profissão, com um Prêmio Esso sobre a mesa e quatro livros publicados, ele era um dos jornalistas mais destacados do jornal O Estado de S. Paulo, para o qual comandava a rede de dez correspondentes na Região Norte. Também trabalhava no diário O Liberal, do Pará, acumulando dois empregos que lhe garantiam uma vida financeiramente tranquila. Mas, com dificuldades para publicar com total liberdade suas detalhadas apurações jornalísticas, Lúcio Flávio decidiu renunciar à trajetória na grande imprensa para criar o próprio jornal.

Ele imaginou uma publicação quinzenal sem publicidade nem patrocínio para não comprometer a própria independência. Toda receita viria dos leitores; todo o trabalho, dele. “Quase um jornal escolar”, descreve, com dó, o senador Jader Barbalho (MDB-PA), um dos políticos que mais figuraram nas reportagens do periódico. “Um merda de um jornalzinho”, diria o empresário e grileiro Cecílio do Rego Almeida, objeto de uma das investigações mais valentes da publicação.

A inspiração para o Jornal Pessoal de Lúcio Flávio veio do I. F. Stone’s Weekly, um tabloide radical e ecumênico que começou a  ser publicado nos Estados Unidos desde 1953 pelo jornalista Isidor Feinstein Stone, conhecido como Izzy. A lição número 1 do americano era simples: “Não ficar amigo do secretário de Estado.” O repórter que se aproximava do poder perdia o discernimento.

O primeiro número do Jornal Pessoal foi publicado na segunda quinzena de setembro de 1987, com oito páginas. As seis primeiras eram dedicadas ao assassinato do advogado paraense Paulo César Fonteles, ligado à causa dos pequenos agricultores. A manchete dizia: O CASO FONTELES – Um crime bem planejado. Quem leu ficou pasmo, como o advogado da União Mauro O’ de Almeida, ex-secretário de Meio Ambiente do Pará. “As portas tinham se fechado para o Lúcio Flávio. Aí ele lança o Jornal Pessoal e, logo no primeiro número, revela uma teia impressionante de mandantes e assassinos.”

Bastaram os dez primeiros números do Jornal Pessoal para que a publicação se tornasse indispensável. O que se lia ali não podia ser encontrado em nenhum outro lugar. No segundo número, o leitor se deparou com a primeira reportagem de uma série sobre um esquema de concessão fraudulenta de créditos no Banco da Amazônia (Basa), a mais importante instituição financeira da Região Norte. No terceiro número, a matéria de capa trazia em destaque Jader Barbalho, então ex-governador do Pará e recém-empossado ministro da Reforma Agrária do governo Sarney. Um esquema nebuloso de construção de casas populares, abortado quando a notícia veio a público, levaria o principal financiador da campanha eleitoral de Barbalho a se transformar “no maior empreiteiro de obras do Pará”.

No elenco de adversários de Lúcio Flávio, Jader Barbalho sobressai pelo comedimento. Não se tem notícia de que tenha feito algum ataque ao jornalista. Ao falar dele, é só elogios, o que pode ser sincero, politicamente astuto ou ambos. Jarbas Passarinho é outra história. “Foi com Passarinho que travei a maior quantidade de polêmicas ao longo de minha vida, algumas delas cruentas”, escreveu Lúcio Flávio.

Ao longo da carreira, o jornalista – hoje com 76 anos – respondeu a 34 processos, movidos por madeireiros, empresários e desembargadores, pela direita e pela esquerda, como conta a reportagem da piauí. Em 2005, o Washington Post incluiu Lúcio Flávio num editorial intitulado Jornalistas ameaçados. Ao comentar a sua ausência na cerimônia de entrega, em Nova York, do International Press Freedom Awards – prêmio do qual era um dos quatro laureados –, o jornal americano registrou: “Ele não está na prisão, mas empresários corruptos e autoridades locais sobre os quais escreve moveram contra ele tantos processos intimidatórios que ele não ousa sair de casa: uma única ausência em audiência daria às autoridades o pretexto para colocá-lo na cadeia.”

O Jornal Pessoal – cuja coleção quase completa está disponível no site da Universidade da Flórida – desempenhou um papel tão marcante na imaginação de certos leitores que, com o correr dos anos, toda grande investigação jornalística feita na região passou a ser atribuída a ele. O jornalista Raul Martins Bastos, responsável por contratar Lúcio Flávio para o Estadão se pergunta: “Como é que um jornalzinho pequenininho feito por uma pessoa só consegue mexer em interesses desse tamanho?”