Semanalmente, os apresentadores mencionam as principais leituras que fundamentaram suas análises. Confira:
Conteúdos citados neste episódio:
“Castro dobra a aposta e diz que tem ‘agendadas mais 10 operações contra o crime organizado'”, coluna de Lauro Jardim no Globo.
“PM do Bope cuja câmera corporal filmou furto de perfumes e roupas em casa no Alemão é preso em viatura”, reportagem de Ullisses Campbell no Globo.
“Massacre da Penha”, episódio do podcast Angu de Grilo.
“Relatório entregue a governo Trump por Castro pede sanções antiterrorismo contra Comando Vermelho”, coluna de Malu Gaspar no Globo.
“Relatório que quer tachar CV de terrorista foi entregue aos EUA por Flávio Bolsonaro”, reportagem de Natália Viana na Agência Pública.
TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO:
Sonora: Rádio piauí.
Fernando de Barros e Silva: Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Teresina. O podcast de política da Revista piauí.
Sonora: Se a ação é terrorista, aquela atitude é terrorista. Não importa qual é a motivação que teve.
Fernando de Barros e Silva: Eu, Fernando de Barros e Silva, da minha casa em São Paulo, tenho a alegria de conversar com os meus amigos Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros, no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Olá Ana, bem-vinda!
Ana Clara Costa: Oi, Fernando! Oi pessoal!
Sonora: Isso é crime de traição nacional à revelia do governo brasileiro. Ele foi tramar isso naquele pior momento da nossa relação diplomática. Diga lá, Celso. Casca de bala.
Celso Rocha de Barros: Fala aí, Fernando! Estamos aí mais uma sexta feira.
Sonora: Hoje eu tenho certeza que nós vamos fazer a melhor COP de todas as COPs já realizadas até hoje.
Fernando de Barros e Silva: Mais uma sexta-feira e diretamente de Belém, às vésperas da COP 30, a gente vai falar com o Bernardo Esteves, repórter de Ciência e Meio Ambiente da piauí, que também participa do programa. Bem-vindo, Bernardo.
Bernardo Esteves: Saudações de Belém, Fernando. Oi, gente!
Fernando de Barros e Silva: Muito bem! Vamos então, sem mais delongas, aos assuntos da semana. A carnificina nos complexos da Penha e do Alemão no Rio, que a polícia e boa parte da imprensa chamam de megaoperação, terminou com 121 mortos, entre eles quatro policiais. Entre tantos números macabros e por vezes desencontrados, o que se sabe é o seguinte: nenhum dos mortos estava entre os 100 nomes que tinham contra si mandados de prisão que justificaram a ação. Nenhum. Quanto aos presos, 113, apenas 20 deles tinham os mandados que deram origem à operação. Metade dos mortos tinha ao menos um mandado de prisão e 54 homens que morreram não tinham sequer um mandado de prisão. Repito, de prisão, não de execução. São dados estarrecedores. A polícia do Rio admitiu que 17 de suas vítimas fatais não tinham nenhum histórico criminal, mas usou dados de redes sociais para estabelecer vínculos entre algumas dessas vítimas e o Comando Vermelho. Num dos casos, de Thiago Neves Reis, uma bandeira vermelha triangular em forma de emoji foi apontada como indício de pertencer à facção. O rapaz de 26 anos não tinha mandado de prisão, não era investigado e não possuía antecedentes criminais. Em outro caso de Kauã de Souza Rodrigues da Silva, de 18 anos, a polícia disse que suas redes sociais não exibiam postagens desde 2022, o que indicaria eliminação de possíveis provas de participação no tráfico. Ele também não tinha antecedentes criminais. A Defensoria Pública foi impedida de acompanhar as perícias dos cadáveres no IML. É na perícia que se distingue confronto de execução — tiro à queima roupa, disparo de cima para baixo, fraturas pós-morte, sinais de tortura. Há relatos documentados de corpos mutilados e uma mãe afirma: “Arrancaram o braço do meu filho”. A gente vai tratar do saldo da chacina no primeiro bloco do programa. No segundo bloco, a gente fala da disputa política que se abriu depois do morticínio. A direita encontrou nele uma bandeira para reorganizar suas forças para 2026. Cláudio Castro alcançou seu maior índice de aprovação desde que assumiu o governo. Já Lula, que havia se manifestado por redes sociais de forma muito cautelosa no primeiro momento, chamou a ação de matança e disse que ela foi desastrosa, em entrevista à imprensa estrangeira na última terça-feira. O líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias, pediu ao Supremo que abra inquérito contra Cláudio Castro por atentado à soberania nacional. O governador do Rio manteve contato com o governo Trump e com a agência antidrogas norte-americana, a DEA, entregando relatórios confidenciais e pedindo que o Comando Vermelho seja classificado pelos Estados Unidos como organização terrorista. Enquanto isso, no Congresso, um projeto de lei relatado por Nikolas Ferreira propõe a alteração da Lei Antiterrorismo para enquadrar as facções e milícias neste rótulo. A gente vai discutir as implicações da adoção do conceito de narcoterrorismo, que virou bandeira da direita e falar da PEC da Segurança. O projeto do governo federal que prevê o Sistema Único de Segurança Pública e fortalece a atuação da Polícia Federal no combate às facções. O fato é que a segurança pública ocupa hoje o centro da disputa política e eleitoral. Por fim, no terceiro bloco, a gente fala com o Bernardo Esteves, que já está em Belém, acompanhando a cúpula dos líderes que antecede a COP 30. A cidade recebe chefes de Estado e delegações do mundo inteiro no encontro que funciona como termômetro político para as negociações da conferência, que começa oficialmente no dia 10. Em seu discurso de abertura, Lula defendeu a superação da dependência dos combustíveis fósseis e a reversão do desmatamento na Amazônia. Se a exploração de petróleo na Foz Amazônica vai na contramão das palavras do presidente, o desmatamento da Amazônia, por outro lado, caiu em 50% durante seu terceiro mandato, revertendo uma tendência de alta nos anos anteriores, sob Jair Bolsonaro. É isso. Vem com a gente.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Ana Clara, vamos começar com você. E a gente faz questão de começar esmiuçando o saldo dessa chacina, dessa operação, como chama a polícia, porque esse saldo ficou um pouco disperso na discussão na imprensa, né? Se fala muito de narcoterrorista, de necessidade de combater o crime organizado e parece que esses 121 mortos, entre eles quatro policiais, ficaram em segundo plano.
Ana Clara Costa: Bom, Fernando, esse balanço eu acho que ele mostra aquilo que a gente já sabia e esperava, né? Do que eles saíram de casa para fazer naquele dia, aqueles policiais… Grande parte, imensa parte do que eles saíram para fazer aquele dia, eles não fizeram, né? Dos 100 mandados de prisão que eles tinham, só 20 foram cumpridos. Das pessoas que foram assassinadas, nenhuma delas era alvo desses mandados. Aí, depois eles revelaram que a maioria dos que foram mortos tinha histórico de crimes graves. Que histórico? Eles tinham sido presos por esses crimes? Tinham sido condenados? Tinham cumprido pena para estar sendo condenado novamente por meio desse assassinato? E fora esse absurdo, desse percentual de pessoas assassinadas que foram assassinadas e depois eles descobriram que tinham feito “postagens suspeitas” nas redes sociais, né? E o que eu achei mais curioso é que não houve nenhum lamento por parte das autoridades em relação a esses mortos que eles sabem que nem tinham histórico criminal. Não que se justifique que você mate quem tem o histórico criminal, mas assim eles já têm os números de pessoas que não tinham nada a ver com nada. E nem diante dessa informação eles se sensibilizaram em lamentar o erro ao matar essas pessoas e ao prender também, porque a gente não sabe se os que foram presos foram presos por um erro também.
Fernando de Barros e Silva: São 17 pessoas que a polícia admite não ter nenhum histórico criminal, nem de mandado, nem nada. Você imagina se a polícia mata 17 homens brancos no Leblon… O que acontece?
Ana Clara Costa: Pois é. E depois o Lauro Jardim informou no Globo que o governo do Rio ficou tão satisfeito com a operação que eles anunciaram, já estão com planos de fazer mais dez, pelo menos, mais dez operações.
Fernando de Barros e Silva: Sim, na Zona Oeste, inclusive em Jacarepaguá. Está anunciada.
Ana Clara Costa: Exato. E assim, claramente numa atitude eleitoreira, né? Depois que essas pesquisas mostraram que a população, em sua maioria, aprova essa ou aquela operação. Mas o que eu queria ponderar aqui é que quando essas pesquisas saem, mostram que alguém aprova, não quer dizer que essas pessoas aprovam que se mate inocentes numa comunidade. Não é isso que elas estão aprovando. O que elas querem é que o Estado entre na comunidade e tire a população dessa situação de achar que elas vivem seja sob o comando do tráfico, seja sob o comando das milícias. E você exigir que uma população que muitas vezes não tem saneamento, não tem escola próxima, não tem segurança para seus filhos, não tem o mínimo de dignidade, que ela reflita sobre o respeito aos direitos humanos naquela operação ao responder uma pesquisa: me desculpe, eu acho que não é o papel dessas pessoas. Quem quer que elas sejam, que estejam respondendo a essas pesquisas. Não é o papel delas refletir sobre isso. Elas não estão em condição de refletir sobre isso. O papel de refletir sobre isso é o papel do Estado, é o papel do governo. E quem cometeu crimes e sequer lamentou nesse episódio é o governo, né? Claro que a gente sabe que os crimes cometidos pelo tráfico são horríveis, eles são conhecidos, né? Mas por isso o governo e a polícia têm salvo conduto para decidir qual cidadão vai merecer ter os seus direitos garantidos? Porque se a polícia, o governo, tem direito de decidir que você, Celso, vai ter os seus direitos garantidos e a outra pessoa não, isso não é democracia, né? E quem vai julgar o Estado pelos crimes que ele cometeu? Quem é que vai julgar o Estado pelos mortos sem histórico criminal e pelos mortos com histórico criminal também? E eu pego nesse ponto, porque as experiências passadas mostram que essas operações não dão certo. Elas não têm nenhuma eficácia em acabar com a criminalidade nas comunidades onde elas são feitas. E o Estado nunca é julgado pelo que ele faz. Ele vive em uma impunidade constante. E eu queria citar alguns exemplos aqui de histórias do passado que mostram que nos últimos 30 anos as operações só ficaram mais mortíferas, a polícia se tornou cada vez mais parecida com os criminosos e a infiltração de organizações criminosas na sociedade só aumentou. Ou seja, são mais de 30 anos fazendo a mesma coisa e obtendo resultados cada vez piores e persistindo nesse erro e ainda anunciando mais dez erros para as próximas semanas. Essas histórias que eu vou recuperar aqui elas foram tiradas do reportagens do Rafael Soares, que é um grande repórter de polícia do Globo.
Celso Rocha de Barros: Muito fera.
Fernando de Barros e Silva: Gente, eu tô lendo agora finalmente o livro dele “Milicianos”. De onde você vai tirar? É uma obra prima esse livro.
Celso Rocha de Barros: É bom.
Ana Clara Costa: É muito bom, né?
Fernando de Barros e Silva: Você que indicou aqui?
Ana Clara Costa: Eu já falei desse livro no programa. Agora, uma das reportagens dele começa assim: “Uma equipe de seis policiais entra num beco, sob o pretexto de coibir o narcotráfico. Os agentes invadem uma casa, matam quatro pessoas a tiros e depois acusam as vítimas de serem traficantes. Moradores afirmam que os mortos estavam desarmados e foram executados sem chance de defesa”. Ele estava se referindo aqui a uma operação que aconteceu na favela de Jacarezinho, em 98, mas poderia ser na semana passada. Naquela época que ele cita nessa reportagem, a polícia fazia incursões quase diárias em Jacarezinho e que resultou em cerca de 40 pessoas mortas em sete meses, o que já era considerado um absurdo para aquela época. A gente não está falando de 121. A gente está falando de 40 em 7 meses. O governo do Rio, naquele ano, era do Marcello Alencar e quem ganhou para substituir ele foi o Garotinho que disse que ia ser linha dura com bandido e escalou um general da reserva como secretário de Segurança Pública. A perícia mostrou que aquilo obviamente, não tinha sido troca de tiro. A investigação depois confirmou que os caras não eram traficantes e que foi execução. Mas os policiais nunca foram julgados por esse crime de 98. Pouco antes, em 94 e em 95, duas chacinas aconteceram na favela Nova Brasília, no Complexo do Alemão. Cada uma matou 13 pessoas e três mulheres relataram estupro por parte dos policiais, além de roubo em uma das casas em que eles mataram e depois estupraram. 27 anos depois, alguns dos policiais da chacina da Nova Brasília finalmente foram julgados e absolvidos pelo Tribunal do Júri. E em 2017, a Corte Interamericana de Direitos Humanos chegou a responsabilizar o Estado brasileiro por tortura e violação de direitos humanos, de vítimas e de seus familiares. E foi a primeira vez que o Brasil foi julgado e responsabilizado na Corte por um caso de violência policial. Isso até fez um barulho na época, mas não mudou em nada o desfecho, porque os caras foram absolvidos. Depois, em 2024, ano passado, a Corte também considerou o Estado brasileiro culpado no caso da chacina de Acari, quando em 1990, 11 jovens desapareceram da favela e foram levados por um grupo de extermínio da Baixada Fluminense, totalmente ligado às forças policiais. Os corpos deles nunca foram encontrados e a maioria das famílias não teve direito nem a emissão de certidão de óbito. As mães desses jovens criaram o grupo Mães de Acari e em 93, só três anos depois da chacina, a líder das mães e uma sobrinha dela foram assassinadas numa estação de metrô no Rio de Janeiro, depois de testemunharem na investigação sobre a participação de policiais nos crimes. Ou seja, as mortes se repetiram, né? 30 anos depois desse crime, a Corte Interamericana condenou o Brasil e exigiu medidas do Estado brasileiro, como a investigação dos culpados e uma assistência mínima para as mães que restaram. Só que nada foi feito. O Estado brasileiro nunca reconheceu a culpa e nenhuma medida que foi indicada pela Corte Interamericana foi tomada porque, na verdade, a questão da Corte Interamericana é mais simbólica do que prática. Ela, obviamente, não tem poder de interferir na Justiça brasileira. Mas há um constrangimento internacional pelo que o Brasil fez, pelo que o Estado brasileiro fez. Então, eles sugerem mudanças que devem acontecer na estrutura do Estado para que isso não volte a acontecer e um certo amparo para as famílias. E nem isso o Estado deu para as mães de Acari, cuja líder foi assassinada só por prestar um depoimento. Então, assim, essas foram as operações que foram feitas no passado e que continuaram sendo feitas ao longo dos anos e que foram feitas na semana passada e que não resolveram absolutamente nada do problema de segurança pública do Rio. E você tem agora, em 2025, parte da administração celebrando a operação, chamando de megaoperação. E assim, só para concluir, a polícia, os grupos — o próprio Escritório do Crime — que já se falou tanto os grupos de milícia, o assassinato da Marielle, a infiltração do crime na Polícia Militar, como o livro do Rafael mostra. Isso mostra que a polícia foi se tornando cada vez mais infiltrada no próprio crime. Isso foi acontecendo de uma forma sistemática. E só para concluir os exemplos do passado, tem um de um passado bastante recente que foi, se eu não me engano, no mês passado. De novo O Globo, o blog True Crime, divulgou um vídeo de policiais do BOPE roubando coisas da casa de um suspeito. Eles chegaram na casa do suspeito sem mandado nenhum. Começaram a pegar as coisas: perfume, roupa, tênis. E a câmera corporal filma esse ato. E esse vídeo acaba sendo vazado para a imprensa nesse blog e deu a maior repercussão. E aí o BOPE, que tem todo esse histórico, o BOPE, colocou nas redes sociais uma nota lamentando o que tinha acontecido, mas justificando que: “ao longo da história, conflitos sempre trouxeram a prática do chamado espólio de guerra, que é a apropriação de bens do inimigo derrotado”. Isso estava escrito numa postagem do BOPE para justificar o que aconteceu. Então assim, essa é a polícia de elite do Rio de Janeiro que justifica o roubo dos seus oficiais. Depois de 30 anos, ou mais — eu peguei o recorte de 30 anos. Mas a polícia do Rio de Janeiro é assim há muito mais de 30 anos, né? E depois eles apagaram essa nota do Instagram. Mas enfim, o print é eterno.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Celso, eu sei que você também se debruçou sobre o saldo da chacina. Queria ouvir a sua avaliação.
Celso Rocha de Barros: Então, no último programa a gente bateu muito nessa tecla, né? Assim, o cara tá lá dizendo que prendeu tantos, matou tantos e tinha mandado para prender 100.
Fernando de Barros e Silva: E a gente falava que você falava que a gente não sabia quase nada, né?
Celso Rocha de Barros: Não, podia ser outro 100 completamente diferente. Exato. E quase foi, né? Porque dos 100 que ele tinham mandado, eles só pegaram 20. Ou seja, 80 criminosos que a polícia foi prender no Complexo do Alemão, fugiu daquele cerco que eles contaram a história toda na televisão, botaram lá o muro do BOPE na floresta, fecharam todas as entradas, monitoraram o negócio e 80 caras fugiram. E aí as autoridades precisavam explicar, inclusive, como é que esses caras fugiram, porque eu acho difícil que os 80 tenham furado o tal do muro do BOPE, né? Eles foram lá, trocaram tiros contra tropa de elite da polícia e ganharam? E conseguiram fugir? Ou eles fugiram pelas outras saídas da comunidade que a polícia garantiu que estavam fechadas? Então, assim, isso merecia uma explicação. E o governador Cláudio Castro claramente atrasou de propósito essa divulgação, porque aí os números só saíram quando ele já tinha desencadeado todo um discurso político, já tinha clicado no botão “ativar polarização política brasileira”, entendeu? E já tava um ruído infernal em torno da discussão. Aí ele vai e solta: “Gente, para falar a verdade, eu só prendi 20 dos 100, que era para eu ter prendido”. E a informação sumiu. Se alguém fizer uma pesquisa de opinião aí, todo mundo ouviu falar do que aconteceu no Alemão. Teve pesquisa agora de que 98% das pessoas souberam da história. Quantas pessoas sabem que dos 100 eles só prenderam 20? Duvido que tenha gente que saiba. Duvido que seja mais que um. Então foi muito bem feito a operação do Cláudio Castro de disfarçar o seu fracasso jogando para a polarização política.
Ana Clara Costa: E eles também evidenciam o número de pessoas que tinham histórico criminal para ficar parecendo que bom, né?
Celso Rocha de Barros: Exato. É “eu não peguei aqueles, mas eu peguei outro”. Cara, imagina se a CIA fizesse isso no assassinato do Osama Bin Laden, né cara? Chega lá: “e aí você matou o Osama Bin Laden?”. “Olha, ele tinha barba… Entendeu? Assim, cara, ele tava ali”, entendeu? Pelo amor de Deus, meu amigo.
Fernando de Barros e Silva: Só o Celso pra fazer a gente rir.
Bernardo Esteves: A justiça não te deu mandato para prender quaisquer 100 pessoas que tivessem alguma coisa irregular diante da justiça no Complexo do Alemão. Não foram mobilizados 2.500 policiais, não morreram quatro policiais, um deles só com 40 dias de corporação. — Que coisa horrível! — Ninguém toparia isso. Assim, o Ministério Público autorizou esse negócio para prender esses caras aí. E o Cláudio Castro não prendeu. Assim, obviamente, aqui tem uma outra questão que é assim: a gente ficar discutindo muito quem era culpado, quem tinha mandado, quem não tinha mandado, pode dar a entender que se todo mundo tivesse mandado, podia ter matado todo mundo sem julgamento, entendeu? O que, evidentemente, não é verdade. Mesmo os caras foram os piores criminosos lá, tinham o direito a serem julgados, como por exemplo, o Cláudio Castro, que está sendo julgado essa semana por ter contratado 27 mil funcionários fantasmas durante a última campanha eleitoral para fazer campanha para ele. Os caras foram contratados por uma fundação lá cheia de político, no ano da eleição, eles ganhavam uma grana na boca do caixa. Qual outra pessoa vocês conhecem que recebe seu salário na boca do caixa, que vai lá no banco e o caixa dá o dinheiro para ele? E ficou por isso mesmo. E agora ele está sendo julgado por isso e para ele, naturalmente, faz questão de todo o direito de defesa do mundo, né? Ele não quer muro do BOPE no Palácio das Laranjeiras. E, aliás, queria fazer uma menção a o pessoal do podcast Angu de Grilo, a Flávia Oliveira e a Isabela Reis fizeram um episódio muito bom sobre o episódio do Alemão. O episódio naturalmente é triste, mas é muito bom. Vale a pena todo mundo ouvir. Agora, depois que viram que era só 20 dos 100, o secretário de Segurança veio na Folha de São Paulo para dizer que o foco nunca foi prender as lideranças. Olha só! Mas sim cumprir os mandados de busca e apreensão e os mandados de prisão para mapear e asfixiar a organização criminosa. Bom, não cumpriu os mandados de prisão. Isso a gente viu. E assim, mapear e asfixiar a organização criminosa. Cara, não podia ter matado os caras. Você tinha que ter prendido os caras e interrogado os caras, para descobrir informações, inclusive sobre que policiais pagam suborno para aquela boca de fumo específica. Porque todo mundo no Rio de Janeiro sabe que não existe boca de fumo que não contribua de alguma maneira para alguém na polícia. E essas pessoas morreram, então elas estão completamente indisponíveis para você colher a inteligência. Agora, se você pegar as matérias que saíram logo depois da operação. Os jornalistas tavam ouvindo lá o pessoal do governo Cláudio Castro falando para eles. Era cheio de nome. Eles iam lá para pegar o Doca, para pegar o Gardenal, para pegar o BMW, tendeu para pegar só esses caras com esses apelidos característicos. E agora, como não pegou ninguém, ele veio me dizer que “não, não era para pegar esses caras, era para cumprir os mandatos”, que também não cumpriu os mandatos. Então era para quê? Cara, eu acho que essa batalha o público perdeu. Assim, acho que o Cláudio Castro foi bem sucedido. Ele conseguiu abafar o fracasso dessa história com essa polarização política gigante. Agora, a gente tem que contar para as pessoas que foi uma mutreta. Foi uma sacanagem que ele fez, além dos crimes que ele cometeu. Ele tá enganando o público quando ele diz que a operação foi um sucesso, etc. E tal. Como eu disse no programa passado, a operação no Alemão se chamava Operação Contenção, que visava impedir a expansão do CV em áreas controladas pela Milícia. Não é que o CV estivesse expandindo sobre áreas que antes não eram controladas por nenhuma facção criminosa, não é que ele estava roubando essas áreas do Estado de Direito. Ele tava roubando essas áreas de outra organização criminosa. E se você pegar mais matérias que estão saindo agora sobre as operações que o Cláudio Caxstro resolveu que agora ele vai fazer mais do que nunca, que ele vai acelerar e vai fazer cada vez mais. Ele tá dizendo que ele vai fazer as operações em Jacarepaguá. O que aconteceu em Jacarepaguá nos últimos dois anos de interessante do ponto de vista da guerra das quadrilhas? O Comando Vermelho tomou as áreas das milícias. E aí ele tá chamando de operação de “retomada”, mas retomada de que? Para o Estado de Direito? Porque se for para o Estado de Direito, ele tem que apresentar um plano, por exemplo, de ocupação dessas favelas para impedir que outras quadrilhas ocupem. E o Secretário de Segurança já se manifestou publicamente que é contra a ocupação. Falou que não tem pessoal para fazer isso. Ou seja, quem vai retomar essas áreas são as milícias. Então, se você pensar nesses termos, a operação do Alemão pode ter sido um sucesso, porque, de fato, essa semana não houve nenhuma tentativa de invasão de área de milícia pelo Comando Vermelho. Se era isso que as autoridades queriam impedir, eles conseguiram. O Comando Vermelho parece ter tomado um baque suficiente para não conseguir invadir outras áreas de milícia essa semana. Agora, se for isso, eu acho que isso tinha que ser explicado à população. Por que o Cláudio Castro está botando a polícia para proteger as milícias do Comando Vermelho? Por que ele acha que as milícias são menos cruéis com a população do que o Comando Vermelho? Não parece muito convincente, mas se é isso, ele tinha que explicar. Ou por que ele acha que é errado uma quadrilha unificar o crime organizado no Rio de Janeiro como o PCC fez em São Paulo? Isso ele tinha que explicar. Vamos debater se isso vale a pena. Agora, o que não dá é ele ficar dizendo que tá impedido a expansão do Comando Vermelho, sem explicar que é sobre área de milícia. E não dá para ele dizer que vai retomar a comunidade com Comando Vermelho sem explicar que euem vai retomar são as milícias.
Fernando de Barros e Silva: Ou das facções rivais que supostamente são mais porosas.
Celso Rocha de Barros: Tem outras. Tem o Terceiro Comando Puro. Exato. Ali em Jacarepaguá é a milícia que disputa com o Comando Vermelho. O que eu tô querendo dizer é o seguinte: valeu a pena a operação? Se os caras que eram para prender não foram presos, se morreu essa gente toda, inclusive policiais, se a população do Alemão teve um dia de absoluto terror, se a cidade ficou parada com a retaliação do crime organizado para o qual Cláudio Castro, evidentemente, não estava preparado. E se isso tudo é para impedir que áreas que estão controladas pela milícia passe a ser controlado pelo Comando Vermelho… Isso aí deu certo por que Cláudio Castro?
Ana Clara Costa: E, além disso, a população não se sente mais segura — embora as pesquisas mostrem que a população aprovou — isso não se reflete no sentimento de segurança.
Celso Rocha de Barros: É, claro. Todo mundo já viu isso acontecendo.
Ana Clara Costa: Eles continuam respondendo que não se sentem mais seguros depois disso.
Celso Rocha de Barros: Exatamente.
Fernando de Barros e Silva: E Celso, você falou ao longo da semana, nas nossas reuniões sobre essas ilações da polícia a respeito da atividade nas redes sociais ou da inatividade. Se a polícia está incriminando um sujeito por não tweetar. É mais ou menos isso.
Celso Rocha de Barros: Parece, né? Essa coisa deles irem atrás de questão de rede social, já era prova que eles não tinham como apresentar os mandados de prisão cumpridos. Por isso que eles demoraram a divulgar os dados, porque como eles chegaram lá, terminou a operação, fizeram a conta: quantos desses aí são os que a gente tinha que prender mesmo? Viu que não era quase ninguém. Aí começaram uma gritaria política em cima disso e atrasaram os dados até conseguir escavar alguma sujeira sobre cada um dos caras que morreu. É transparente isso. É muito evidente que foi isso que eles fizeram.
Fernando de Barros e Silva: Perfeito. Então é isso, gente. A gente encerra o primeiro bloco do programa por aqui. Fazemos um rápido intervalo. Vamos continuar falando desse assunto. Vamos falar das repercussões políticas no Congresso e para as eleições deste episódio no Rio. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Celso, vou começar com você. Podemos começar por esses projetos que estão circulando na Câmara e por essa tentativa de carimbar ou de renomear essas facções criminosas como narcoterroristas. O que está em jogo nisso?
Celso Rocha de Barros: Então, Fernando, essa discussão de narcoterrorismo e narcoguerrilha. A primeira vez que ouvi isso foi numa conversa sobre as FARC colombianas. Qual era a lógica? Era que você tinha uma guerrilha com objetivos políticos. O objetivo da faca era tomar o poder. E ela usava dinheiro do tráfico para se financiar, para comprar armas para pagar os soldados, etc, etc. Que é uma situação completamente diferente do Comando Vermelho ou do PCC que vendem cocaína para ganhar dinheiro. Eles não têm o objetivo de tomar o poder em lugar nenhum. Então, assim, se você pegar com relação ao uso habitual da discussão narcoguerrilheiro, narcoterroristas, etc — que já era controversa antigamente —, mas você chamar o Comando Vermelho ou o PCC disso aí, está completamente por fora. Essa discussão ressurge em grande parte porque o Trump resolveu chamar uma série de cartéis de drogas latino-americanos de terrorista para ganhar o direito de usar contra eles estratégias que a legislação americana só permite em caso de combate ao terrorismo. Agora tem uma coisa a gente tem que pensar que é o seguinte: por que tem o “narco” em frente a esse “terrorista”? Porque se você for ver a explicação que os defensores do projeto vêm propondo, eles dizem que é o seguinte: o Comando Vermelho não se limita a vender cocaína. Ele também impõe barricadas com controle territorial. Ele queima ônibus. Ele toma diversas iniciativas para espalhar o terror entre a população civil, que seria um elemento importante da definição de terrorismo. Mas tem outras organizações criminosas aqui no Rio de Janeiro mesmo, que também já fizeram o bloqueio de rua, que também já tacaram fogo em ônibus, que já fizeram tudo isso que o Comando Vermelho fez e não tem como seu foco principal o tráfico de drogas, que são as milícias. Então, sem querer parecer que eu estou insistindo uma nota só, mas se você resolver botar os Marines para combater o Comando Vermelho, porque eles são narcoterroristas, esse seu narco aí no nome tá livrando as milícias de serem combatidas pelos Marines. Ou seja, o Cláudio Castro, por exemplo, não estaria apenas usando a polícia do Rio de Janeiro para brigar com o Comando Vermelho em favor das milícias, mas também estaria usando os marines americanos para brigar pelas milícias contra o Comando Vermelho. Eu acho o fim do mundo. E, finalmente, assim, se você for levar a sério essa história de narcoterroristas e todo o discurso que a direita está fazendo de operação no Alemão, isso implicaria necessariamente que eles todos deveriam estar apoiando a PEC da Segurança Pública proposta pelo governo Lula. Porque a grande questão é que na PEC da Segurança Pública é que ela levaria a uma maior federalização do combate ao crime organizado. A segurança pública é uma prerrogativa dos governadores. Só que agora, se você pegar quadrilhas de crime organizado nacionais, evidentemente não dá para o governador combater sozinho. Então realmente tem que federalizar, entendeu? Tem coisas que vai ter que passar para a competência do governo federal. E aí não é só o Lula, mas quem ganhar a próxima eleição daí em diante. Por exemplo, se o governo de São Paulo conseguisse dar uma porrada grande no PCC hoje, amanhã ele estava no Paraná, estava em Santa Catarina, estava no Rio de Janeiro e o problema tinha sido resolvido. Então, assim, o que tem que ter é uma articulação, até porque é o governo federal que vai ter acesso a trabalhar junto com a Receita, trabalhar junto com o Coaf para estrangular financeiramente as organizações… É o governo federal que controla as fronteiras por onde entra as armas e as drogas. Então, assim, a PEC que o governo está propondo aumenta a responsabilidade dele, governo Lula e de todos os presentes de agora em diante, no combate à criminalidade. Os governadores bolsonaristas dizem que isso é um absurdo, que tira a autonomia dos Estados. Eu devo dizer que também provavelmente dificulta a vida de autoridades estaduais que levam dinheiro do crime organizado e que provavelmente não vão ter motivo para cobrar se não forem mais eles os responsáveis, em tese, pelo combate ao crime organizado. Não estou sugerindo que ninguém está se opondo a PEC por causa disso, jamais me passaria pela cabeça uma hipótese semelhante. Mas assim, se você levar a sério o argumento dos que estão dizendo narcoterroristas, tem que pedir a federalização. Porque, olha só, se for terrorismo, a competência é da Polícia Federal pela lei. O governador não tem que combater terrorismo, pelo amor de Deus. Se os Estados Unidos interviesse aqui no Brasil para combater o Comando Vermelho, seria por agências federais. Não ia ser pela polícia do Tennessee que ia interferir aqui no negócio, porque, evidentemente, isso é uma competência federal. Se for verdade que o crime organizado está ameaçando uma questão de soberania nacional que exige o engajamento das Forças Armadas, bom, quem é que tem que defender a soberania nacional? Não é o coitado do Estado do Amapá, é a União, evidentemente, que tem recursos para isso e competência constitucional. Então, se você quiser comprar esse discurso todo do narcoterrorismo que a direita tá tentando vender, a primeira coisa que tem que fazer é o seguinte: tira a mão desse negócio e entrega para o governo federal. Aí se vocês ganharem o governo federal, evidentemente, são vocês que vão cuidar, mas por enquanto não. Então, é óbvio que eles não pretendem levar isso a sério. Eles estão só fazendo isso para tentar melar a conversa com o Trump para justificar intervenções do Trump aqui no Brasil. Porque parece que você está fazendo uma coisa séria quando você muda o nome para narcoterrorismo, porque se tem coisas concretas que isso implicaria, isso pode ser feito mudando a lei comum. Então, se você acha que as penas são maiores se forem narcoterroristas, aumenta a pena do traficante que pertence ao crime organizado, etc. Você pode fazer isso. O Congresso é totalmente dominado pela direita. Não faz porque não quer. Então assim você querer enfiar esse nome narcoterrorismo aqui é uma picaretagem para tentar trazer o Trump para discussão aqui e para parecer que eles são mais firmes no combate à criminalidade. Mas isso é mentira. Assim, se você tentar pensar nos desdobramentos lógicos disso, a direita jamais vai aceitar. E os riscos de soberania para o Brasil são gritantes. Então, se você quiser apoiar esse negócio de narcoterrorismo só porque você quer dar a impressão de que é muito, muito, muito contra o crime, eu sugiro que você repense sua posição, porque parece que se você chamar de terrorista, você fez alguma coisa, entendeu? “Não, agora não, agora é terrorista”.
Fernando de Barros e Silva: Ana, quero te ouvir sobre isso.
Ana Clara Costa: Fernando, só complementando um pouco o que o Celso falou, tem uma questão empresarial também, que é relevante. Por exemplo, uma empresa americana que tem uma planta no Rio de Janeiro, por exemplo, e paga, digamos, taxa de segurança para as milícias locais, para os grupos criminosos locais, para garantir a segurança dos seus funcionários, do ir e vir dos seus funcionários. Se esses grupos são considerados terroristas, a empresa americana é considerada financiadora do terrorismo, a partir do momento que ela paga essa taxa. E muitas empresas americanas tem um compliance global de atuação em áreas onde há grupos terroristas, inclusive em áreas onde elas não podem estar. Se de fato isso prosperar no Congresso… Na Câmara tudo indica que vai prosperar, mas no Senado a gente não sabe. Você tem uma questão bem complicada para as multinacionais que estão sobretudo no Rio de Janeiro.Bom São Paulo acaba, né? Se as empresas americanas decidirem que elas não podem estar em São Paulo, em lugares próximos do PCC, cadê? Onde elas vão estar? E eu queria falar agora especificamente do Cláudio Castro, né? A coluna da Malu Gaspar revelou há alguns dias que o Cláudio Castro entregou para a embaixada americana um relatório intitulado “Análise Estratégica: Inclusão do Comando Vermelho nas listas de sanções e designações dos EUA”, em que ele argumenta que a própria transnacionalidade do Comando Vermelho colocava essa organização dentro dos critérios para ser considerado um grupo terrorista. Beleza. Depois, a Natália Viana, da Agência Pública, revelou que quem na verdade entregou esse relatório para o governo americano foi o Flávio Bolsonaro em meados de maio, quando um assessor do Departamento de Estado esteve no Brasil e esteve no Ministério da Justiça, esteve em alguns órgãos para discutir o tema Segurança Pública. Esse funcionário do departamento Estado, o nome dele é Ricardo Pitta e ele é considerado ali um dos mais ideológicos dentro do Departamento de Estado, porque o Departamento de Estado não é assim “ah, o Marco Rubio é o secretário de Estado e ele escolhe, enfim, a equipe dele. E é isso”. Não, o Departamento de Estado hoje, ele virou o laboratório do MAGA. Então eles enfiaram lá dentro as pessoas mais malucas do movimento MAGA, muitas vezes à revelia do Rubio. Então tem de tudo ali. E esse Ricardo Pitta faz parte desse grupo ultraideológico assim. E foi para ele que o Flávio Bolsonaro entregou isso em maio. E eu quero chamar a atenção para isso, porque eu acho que precisa ficar claro para a gente que essa família está trabalhando em várias frentes. Em maio, o Eduardo Bolsonaro estava trabalhando na frente Magnitsky, tarifas, sanções econômicas ao Brasil. O Flávio Bolsonaro estava trabalhando na frente sanções ao Brasil por meio de temas da segurança pública. E fora as frentes que a gente não está olhando, porque a gente só está olhando para isso agora, porque aconteceu, né? E depois foi justamente o Flávio Bolsonaro que veio dias antes da operação, dar uma entrevista dizendo que queria que os Estados Unidos olhassem para o Brasil e mandassem navios para o Brasil. Então eu acho que precisa ficar claro que existe uma coordenação nisso que aconteceu. A direita estava colocando as fichas em vários lugares que a gente está começando a ver só agora, né? Quando eu falo a direita, estou falando da família Bolsonaro. Eles estão embrenhados no governo americano, no Departamento de Estado, sobretudo, de uma forma que eu acho que a gente ainda não conseguiu calcular, porque os efeitos estão sendo deletérios. Primeiro, a gente sentiu o efeito do tarifaço, Agora a gente está vendo essa questão da segurança pública. E aí, quando o governo tenta primeiro abraçar o tema da segurança pública, que foi o que ele fez com a PEC e depois com esse projeto de lei antifacção e depois com a declaração do Lula quando acontece a mega operação em que ele dá uma declaração sem fazer uma crítica a matança que aconteceu…
Fernando de Barros e Silva: Ele faz a crítica uma semana depois. Quando dá uma entrevista para a imprensa estrangeira, né?
Ana Clara Costa: Sim, mas naquele momento, o que eles estavam pretendendo? E existe esse debate dentro do governo que o assunto da eleição do ano que vem vai ser a segurança pública, sobretudo. E eles acham que no campo econômico está mais ou menos equacionado. Os projetos de interesse do governo foram aprovados. Inclusive essa semana o Senado finalmente aprovou a isenção do Imposto de Renda, que, enfim, o governo contava com isso no aspecto econômico para 2026. Então, assim, no campo econômico, as coisas estão se organizando dentro do que eles planejavam. Então, a segurança pública é o campo que está desorganizado. Então, assim, quando o Lula faz aquela declaração na semana passada bastante insuficiente em relação ao que havia acontecido, está dentro de um plano da esquerda e do governo, sobretudo de tentar encampar esse tema, de tentar abraçar esse tema e dominar esse tema. E tanto é isso que logo a gente viu a organização da direita em torno disso. E é um cabo de força se formando, né? “Vocês não vão ficar com esse tema. Esse tema é nosso”. E o Fábio Wajngarten, que apesar de ter sido expulso oficialmente do PL dos meios bolsonaristas, continua muito influente ali, muito próximo do Eduardo. Ele chegou a tweettar que “se a esquerda pensa que ela vai conseguir tirar o tema da segurança pública da direita, ela tá muito enganada”. Então o que tava acontecendo ali era um cabo de força que depois o Lula acabou não conseguindo sustentar. Quando ele vem na COP e dá uma declaração na coletiva pra imprensa internacional, ele faz finalmente a crítica ao que tinha acontecido, né? Mas essa briga ela tá acontecendo agora. A direita quer o apoio dos Estados Unidos, a direita claramente e publicamente quer trazer os Estados Unidos para essa discussão. Como isso vai chegar para a gente? A gente não sabe, né? Porque é meio imponderável, né? A questão das tarifas veio da forma que veio. Então, na questão da segurança pública, a gente não sabe, mas o fato é que isso está se consolidando de uma forma até bastante arriscada, porque, por um lado, é um assunto que unifica a direita, que estava totalmente desarticulada e, por outro lado, é um assunto no qual a esquerda tem bastante dificuldade de lidar. Então eu acho que a gente tem que ficar atento.
Fernando de Barros e Silva: É uma bola cantada, né? A gente já vinha falando sobre isso, que esse tema seria um dos temas dominantes na eleição do ano que vem. As pesquisas já apontavam isso. Você falou mais da família Bolsonaro, mas os governadores fizeram esse movimento de prestar solidariedade e anunciar aquela palhaçada de Consórcio da Paz…
Celso Rocha de Barros: Nossa Senhora!
Fernando de Barros e Silva: Endossando o que foi feito no Rio e tendo como modelo, digamos, o parâmetro, o governo de El Salvador, o Bukele. Passa por cima de quaisquer direitos em nome do combate ao crime. Enfim, estabelece um estado bárbaro para combater o crime.
Ana Clara Costa: A gente não pode esquecer que a Bahia, que é um Estado governado pelo PT, tem a Polícia Militar com a maior letalidade do Brasil.
Fernando de Barros e Silva: Sim!
Celso Rocha de Barros: Exato.
Ana Clara Costa: E o que reforça também a dificuldade da esquerda em lidar com isso.
Celso Rocha de Barros: Exatamente.
Fernando de Barros e Silva: Isso aconteceu, digamos assim, esse padrão de letalidade da polícia baiana. O PT governa há vários mandatos na Bahia, mas aconteceu no mandato do.
Ana Clara Costa: Rui Costa.
Fernando de Barros e Silva: Que é o ministro da Casa Civil. Então, é um dado bem importante esse. Agora, está claro que essa tentativa diversionista da direita, de narcoterrorismo etc. É para esvaziar também a PEC do governo, que é uma PEC que a gente pode discutir daqui para frente em detalhes, mas ela é substancialmente correta. Você tem a nacionalização das facções e é evidente que precisa de uma intervenção ou de uma participação orgânica da Polícia Federal no combate a esse problema. Esse é o ponto substantivo. Se você quer combater as facções do crime organizado etc, precisa que a Polícia Federal faça parte disso. E esse é um dos seres, um dos pilares dessa PEC do governo. A chance dessa PEC passar nesse Congresso é remota, vamos dizer assim, ou é improvável.
Ana Clara Costa: É, vai custar caro para o governo.
Celso Rocha de Barros: Exato. Exato.
Ana Clara Costa: Agora eu queria só levantar um ponto que a gente já tratou aqui quando essa PEC foi apresentada lá no início do ano é que, enfim, a gente não sabe… Primeiro, como essa PEC vai ser aprovada, se ela vai ser esvaziada, se não vai. Se vai ser desfigurada, se não vai. Mas o fato é que, da forma como ela foi apresentada, uma das coisas que a gente discutiu quando ela foi apresentada aqui no Foro de Teresina foi que ela cria um sistema de médio e longo prazo para solução dos problemas de segurança pública. Ou seja, não era uma PEC para 2026. Nada do que é apresentado nessa PEC, vá se ver o resultado em 2026. Não é eleitoral. A PEC ela é estrutural. É uma PEC para ser feita por este governo e pelos próximos que virão, né? O que eu acho uma coisa boa, porque é um projeto para o país, não é necessariamente para uma reeleição. Só que isso também é um problema, porque se a população gosta de medidas de uso da força, acha que isso significa que está sendo feito algo. Não é nessa PEC que ela vai encontrar isso.
Fernando de Barros e Silva: Disse tudo. Eleitoral são os 120 cadáveres. Bom, a gente encerra o segundo bloco do programa. Fazemos um rápido intervalo. Na volta, nós vamos falar da COP com o Bernardo Esteves. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Bernardo Esteves direto de Belém. Bernardo, eu quero que você faça um relato aí das primeiras impressões da cúpula dos líderes que abrem os trabalhos antes do início oficial da COP propriamente, que é dia 10, mas já tem muita coisa acontecendo. Queria o seu relato e você me disse aí nos bastidores que no final tem boas notícias. Vamos começar pelas coisas difíceis.
Bernardo Esteves: Pois é, Fernando, a COP 30 começa mesmo só na segunda, mas a cidade aqui já tá em polvorosa. As ruas de Belém estão cheias de militares, especialmente nas imediações do pavilhão que está recebendo a conferência. Isso porque o Lula decretou uma GLO que permite que as Forças Armadas atuem com a segurança pública durante os dias da conferência. Mas antes da conferência a gente tem na quinta e na sexta, a cúpula dos líderes, que deve reunir dezenas de chefes de governo e de Estado. Normalmente, esse segmento de alto nível acontece no começo da COP nos próprios dias da conferência. Mas por conta dessa crise da hospedagem que a gente teve em Belém, os organizadores acharam melhor organizar o segmento de alto nível na semana anterior, conferência. Não é dessa cúpula dos líderes que a gente deve ter as principais resoluções que vão sair da COP. Mas os discursos dos estadistas vão dar a medida da ambição com que os países estão vindo para Belém, certo? Se eles derem, por exemplo, declarações fortes sobre abandono dos combustíveis fósseis, isso pode estimular avanços dos negociadores em relação a esse tema nas próximas semanas. O Lula discursou hoje cedo. A gente tá gravando o programa na quinta. Pouco antes da gente começar. E ele disse que a gente precisa de um mapa do caminho para acabar com o desmatamento e com o uso dos combustíveis fósseis. Essa é uma sinalização boa do presidente, mas tem que ver se isso vai entrar na declaração final da cúpula. Eu não apostaria nisso. Mas enfim, na sexta que deve sair a declaração final. Enfim, não botaria dinheiro numa declaração forte contra os combustíveis fósseis.
Ana Clara Costa: Até porque seria incoerente com as notícias do Brasil mais recentes.
Bernardo Esteves: Exatamente. Mas uma coisa que a gente vai ter nessa cúpula dos líderes é um lançamento de um mecanismo interessante que o Brasil está propondo para financiar o combate ao desmatamento. É um fundo chamado Fundo Florestas Tropicais para Sempre. Ele deve gerar recursos que vão ser direcionados para os países florestais que mostrarem que estão protegendo suas florestas. Mas o sucesso desse fundo depende de ele começar com uma bolada grande de dinheiro. O Brasil já colocou o primeiro bilhão de dólares e tem países como a Indonésia que se comprometeram também a pingar um dinheiro ali. Mas o dinheiro do Reino Unido, que tinha prometido ajudar parece que subiu no telhado. No começo, essas previsões estava falando em 25 bilhões de dólares doados pelos países, que seriam seguidos por 100 milhões da iniciativa privada, mas o dinheiro dos países parece que não vai chegar a mais de 10 bilhões de dólares, pelo menos num primeiro momento. E dinheiro a gente sabe que não é um clássico das conferências do clima, né? A COP do ano passado, que aconteceu em Baku, no Azerbaijão, terminou num impasse enorme por causa disso. A expectativa era que ela terminasse com uma solução que trouxesse recursos para o combate ao aquecimento global pelos países em desenvolvimento. Tinha gente dizendo que o valor considerado justo era de um trilhão e 300 bilhões de dólares, que em reais dá coisa de sete trilhões. Isso por ano, né? Virou dezembro, já precisa levantar mais um trilhão e 300 bilhões. Só que na COP 29, o número que os países entregaram no fim da conferência foi pífio. Foi 300 bilhões de dólares. E isso gerou uma insatisfação imensa. Por causa disso, o André Corrêa do Lago, que era o presidente da COP 30, recebeu uma missão inglória junto com Mukhtar Barbiere, que é o presidente da COP 29, e ele ficou com o dever de casa de traçar o mapa do caminho para alcançar esse número de um trilhão e 300. E eles apresentaram esse documento essa semana. Uma mensagem importante do documento que eles apresentaram é que o dinheiro existe. Esse trilhão e 300 bilhões por ano e é possível encontrar meios para direcionar os recursos para os países mais vulneráveis. O que falta é vontade política para isso. E aí vamos combinar que não chega a ser uma novidade, né? Eles apontaram alguns caminhos para chegar lá. Entre eles, a taxação de grandes fortunas, a cobrança de imposto sobre jatinhos, artigos de luxo e atividades poluidoras. Mas isso é apenas um roteiro sugerido por eles. Os países e bancos multilaterais não estão obrigados a cumprir esse roteiro. Então a gente tem que ver de onde vai sair essa boa vontade. E esse dinheiro, a gente sabe que ele é mais necessário do que nunca. Essa semana saiu um relatório do Programa da ONU para o Meio Ambiente, Pnuma. O estudo levou em conta todos os compromissos que os países apresentaram para reduzir suas emissões de gases do efeito estufa. E o relatório concluiu que mesmo que os países cumpram o que eles prometeram — que não vai ser fácil —, o aquecimento pode chegar até dois graus e meio até o fim do século. A gente está lutando para manter ele até um grau e meio, então você imagina dois graus e meio vai ser catastrófico.
Fernando de Barros e Silva: Deixa eu te perguntar uma coisa: o boicote do governo americano… O governo Trump não mandou ninguém. Outras esferas de governo e ONGs e sociedade civil americanas estão presentes. Em que medida a ausência ou boicote dos Estados Unidos — acho que podemos caracterizar desse jeito — compromete os resultados gerais? Ou isso já estava precificado?
Bernardo Esteves: Já está um pouco precificado. É claro, se você conversa com o André Corrêa do Lago sobre isso, ele vai dizer: “Olha, o governo federal é que está fora. Os Estados Unidos não estão fora. A gente tem dezenas de estados, tem uma aliança de Estados e territórios dos Estados Unidos comprometidos com o Acordo de Paris, que tem 24 membros. Quer dizer, os Estados Unidos tem 50 estados. Enfim, e alguns territórios”. Tem representantes dos governos subnacionais, de estados e municípios, representantes da iniciativa privada que estão aqui em Belém, que estão comprometidos com isso. Os ambientalistas, no fim das contas, eles acharam foi bom que o Trump não viesse ou que não mandasse representantes de alto nível, porque eles temiam que se viesse gente importante dos Estados Unidos, seria para fazer melar as negociações. Então, no fim das contas, já que ele não está brincando mesmo e é melhor que ele nem venha.
Ana Clara Costa: Agora, pegando um pouco o gancho dos Estados Unidos, Bernardo, tinha um grande receio do governo de que todo esse contencioso com o Brasil, que aconteceu ali até setembro, mais ou menos, fosse desestimular países a comparecerem à COP justamente para não irritar os Estados Unidos. E essa é uma preocupação do Brasil desde antes de acontecer a questão do tarifaço. Já nos BRICS, que foi em julho, um pouco antes do tarifaço, eles trabalharam numa declaração final meio apagada, assim, sem ferir os egos americanos, justamente para fazer com que os países não se sentissem desestimulados a comparecerem a COP. Parece ter funcionado porque, embora a COP não tenha recebido tantos chefes de Estado e presidentes, os países estão mandando autoridades ou autoridades, enfim, do alto escalão ou autoridades do clima. O Milei não está vindo para a COP, mas mandou representantes, ou seja, não assinou ali a declaração de negacionista nesse momento. Agora eu queria te perguntar: o Lula vai sair mais cedo da COP para ir para a Colômbia em razão do que está acontecendo na Venezuela, dessa ameaça que está escalando de uma invasão terrestre dos Estados Unidos na Venezuela. Você acha que isso pode ser ruim assim, para a imagem do Brasil, o fato do presidente sair mais cedo?
Bernardo Esteves: Não. Diria que não, Ana. Normalmente, nas COPs, os estadistas e chefes de governo de Estado não se envolvem diretamente nas negociações. Geralmente a gente tem esse segmento de alto nível, em que eles dão uma direção política. Assim, eles dão a medida da ambição dos países e aí os negociadores é que entram em campo para se acertar. Assim, de acordo com essas indicações.
Celso Rocha de Barros: Bernardo, qual é a expectativa dos ambientalistas com relação ao que é possível alcançar num cenário internacional tão hostil? Por exemplo, será que a Europa vai atuar conjuntamente nessa negociação? E será que eles vão aceitar alguma coisa? Porque se nos próximos anos governos populistas de direita chegarem ao poder na Europa, as perspectivas devem piorar. Mas talvez, se eles já tiverem presos por compromissos anteriores, a situação seja melhor.
Bernardo Esteves: Pois é. A Europa sempre foi protagonista das negociações climáticas desde o início do regime, mas eles parecem ter renunciado a esse posto desde o começo da guerra na Ucrânia, né? Porque, enfim, as questões de segurança energética e de segurança interna passaram a ser mais importantes do que a atuação de clima. Tanto que só agora, no final dessa semana, que eles entregaram a meta climática deles. Os países têm que renovar suas metas a cada cinco anos, de acordo com o Acordo de Paris. E a Europa não entregou o prazo inicial. Era fevereiro desse ano, depois se estipulou um adiamento, um novo prazo até setembro. E a Europa só tá entregando agora em cima do laço no começo de novembro. Então, esse estudo que eu mencionei mais cedo, que leva em conta os compromissos dos países, não leva em conta a meta nova europeia, que foi criticada pelos ambientalistas por não ser ambiciosa o bastante por não estar à altura daquilo que a União Europeia pode fazer, principalmente porque eles são um dos grandes responsáveis históricos pelas emissões de gases de efeito estufa que trouxeram a gente até aqui.
Fernando de Barros e Silva: Perfeito. Bernardo, você disse que tinha boas notícias para a gente arrematar o programa e abrindo quase uma exceção, né? Porque a gente sempre está falando dos pontos críticos. É assim que tem que ser o jornalismo mesmo. Mas houve redução do desmatamento mais uma vez. Eu queria que você falasse um pouco sobre isso.
Bernardo Esteves: É isso, Fernando. Geralmente, quando eu venho aqui para o Foro, é para dar más notícias, né? E da última vez, duas semanas atrás, a gente tava nesse tom… Lula perdendo legitimidade da sua liderança ambiental global, que ele aspira e almeja. Mas essa redução do desmatamento deu um pouco de moral para ele. A gente precisa reconhecer isso, né? Semana passada, o Brasil anunciou a taxa anual de desmatamento na Amazônia e ela caiu 11% em relação ao ano passado, chegando à terceira menor taxa da série histórica. É a terceira queda seguida do governo Lula. E ele já acumula 50% de redução em relação ao índice que ele herdou do governo Bolsonaro. E o desmatamento está caindo também no Cerrado, que é uma ótima notícia, igualmente. Mas é importante ressaltar, Fernando, que o ritmo da queda do desmatamento está ficando menos forte, menos intenso e é natural que seja assim. Assim, quanto mais a gente diminui, mais difícil fica diminuir o que falta. A tendência é que fique mais e mais difícil melhorar esses índices. E é bom lembrar que o Brasil se comprometeu a zerar o desmatamento ilegal até 2030 e que 2030 tá logo ali.
Fernando de Barros e Silva: Aí é uma obra da Marina, né?
Bernardo Esteves: Sim, a Marina, a equipe dela, enfim, o Ibama, enfim, outras instituições do Estado. Mas enfim, é uma determinação que envolve outros ministérios, enfim, muitas instituições.
Fernando de Barros e Silva: Marina, que é às vezes desprestigiada dentro do próprio governo.
Celso Rocha de Barros: Às vezes…
Fernando de Barros e Silva: Aquela ideia inicial de estabelecer um órgão transversal que fosse um assunto do governo inteiro, não só do Ministério do Meio Ambiente, que não vingou. Mas, apesar das dificuldades, a gente está vendo coisas positivas acontecerem a muito custo político.
Bernardo Esteves: Isso é mérito inegável dela. E um desdobramento disso, Fernando, é a queda das emissões do Brasil de gases do efeito estufa. Isso por um motivo natural, que é assim a principal fonte das nossas emissões é o desmatamento. Diferentemente do que acontece nas outras grandes economias do mundo, o Brasil emite, sobretudo por causa do desmatamento, pelo menos enquanto ele estiver nesses níveis, né? Então, saiu também essa semana um levantamento feito pelo CEG, que é uma iniciativa da Sociedade civil do Observatório do Clima, que faz a contabilidade das emissões anuais do Brasil de gases do efeito estufa. E esse índice ano passado caiu 17% em relação ao ano anterior, que é a segunda maior queda da série histórica. Agora aqui de novo também, à medida que a gente for diminuindo mais ainda o desmatamento, vai ser mais difícil diminuir esse índice. E eu queria falar para terminar, Fernando, de uma conversa que eu tive ontem aqui em Belém com o diplomata Túlio Andrade, que está atuando como diretor de estratégia da presidência da COP. E me chamou a atenção o tom esperançoso dele para falar das expectativas para essa conferência. O Brasil está propondo que os países e as sociedades façam um grande mutirão pelo clima. Assim, mutirão é um conceito muito brasileiro. É uma tecnologia social de origem indígena, em que a gente tem essa união de esforços em busca de um objetivo comum. Pode ser bater uma laje, subir um muro, enfim, a gente faz mutirão para causas variadas, né? E para essa COP se propôs um mutirão de todos pela ação climática. O pessoal do Itamaraty andou trabalhando junto com cientistas que estudam sistemas complexos e eles enxergam nesse conceito, nessa ideia do mutirão, o potencial de gerar uma ação em cadeia coletiva, em que as pessoas e os países se sintam estimulados a agir vendo os outros agirem. Então, para o Túlio Andrade essa tem que ser a COP da aceleração da ação por parte de todo mundo. E as próximas semanas vão mostrar se ele tem razão de pensar assim. Eu acho que é bom mesmo que seja a COP da aceleração, porque as chances que a gente tem de sair dessa enrascada sem maiores consequências estão cada vez menores.
Fernando de Barros e Silva: Então a gente encerra o terceiro bloco do programa, fazemos um rápido intervalo e na volta Kinder Ovo. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta, diretora. Aperta o botão e vou lá fazer xixi. Vou deixar vocês acertarem sozinhos. Vou fingir que eu não tô participando. Pode soltar.
Sonora: Então, assim, o brasileiro tá entendendo muito mais de política. Eu nunca fui parado para falar de futebol, que antes era só futebol, carnaval e etc. Agora não. É só política, ninguém sabe o nome do time da seleção brasileira, mas sabe o nome dos 11 ministros do STF.
Ana Clara Costa: Nossa…
Celso Rocha de Barros: Parecia o Celso no começo. Ah é, sou eu, né? Bem que eu achei…
Ana Clara Costa: Parece um comentarista de alguma coisa. É alguém que entende de carnaval, de futebol.
Fernando de Barros e Silva: Ah, não. Aqui ó: quem fala é o senador Marcos do Val, em entrevista à TV Senado. Marcos do Val, Podemos, do Espírito Santo.
Ana Clara Costa: É isso. Ele não entende política, nem de carnaval, nem de futebol. Mari ganhou da gente, mais uma vez.
Celso Rocha de Barros: Caiu a banca.
Fernando de Barros e Silva: Então é isso. Para os anais, vitória da diretora se vingando da gente. Tá certo. Bom, a gente encerra então o Kinder. Vamos direto e reto para o melhor momento do programa as cartinhas, o Correio Elegante. E eu já vou começar aqui com a mensagem da estudante @Heleninha, que escreveu no Spotify: “Estou ouvindo o Foro, enquanto estudo para o vestibular até tarde, o que se tornou um hábito salvador esse ano. Por isso, queria agradecer pela força que vocês três me dão para continuar”. Nós quatro no caso, que o Bernardo também está agora. “Agradeço pela raiva do Celso, que me lembra que não estou revolta sozinha pelos comentários do Fernando, que sempre me fazem sorrir e pelas incríveis falas da Ana Clara, a musa das minhas redações. Por fim, obrigada por fazerem parte das minhas noites em claro e dos meus repertórios. Muito obrigado”. Mas é o contrário. É a raiva do Fernando e os comentários do Celso.
Fernando de Barros e Silva: Não é isso aí mesmo. Estamos aí, unidos na força do ódio.
Celso Rocha de Barros: Bom vestibular!
Ana Clara Costa: Bom vestibular! O @MoraesFerreiraoficial postou no YouTube: “Pessoal, vamos abrir uma bet só com apostas semanais com a pergunta se o Casca de Bala vai ou não acertar o momento Kinder Ovo. Abraços e saudações de um natural teresinense que é assíduo do Foro. Aos meus familiares de Teresina, aquele abraço! A minha parceira de vida, a pernambucana Débora, aquele abraço!”. Po Moraes, aquele abraço cara!
Celso Rocha de Barros: Aquele abraço, Moraes.
Fernando de Barros e Silva: Isso aí! Bet Casca já tá instituído.
Ana Clara Costa: Vamos ganhar dinheiro com isso.
Bernardo Esteves: Finalmente, no Spotify o Vini RR postou —Meu Deus do céu! Esse meu Deus do céu foi meu!— “Semana passada escutei o Foro antes de dormir e sonhei com o Fux. Que pesadelo, meus amigos”. Vini, foi mal. Cara, não era a nossa intenção.
Ana Clara Costa: O duro é que se ouve de manhã, estraga o dia. Se ouve antes de dormir, tem pesadelo. Pô, difícil a vida do ouvinte.
Fernando de Barros e Silva: É isso. O que é bom acaba logo, o que não é tão bom também acaba. E assim nós vamos encerrando o programa de hoje por aqui. Se você gostou, não deixe de seguir e dar five stars pra gente no Spotify. Segue no Apple Podcast, na Amazon Music. Favorita na Deezer e se inscreva no YouTube. Você encontra a transcrição do episódio no site da piauí. Foro de Teresina é uma produção do Estúdio Novelo para a revista piauí. A coordenação geral é da Bárbara Rubira. A direção é da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira. A checagem é do Gilberto Porcidônio. A edição é da Bárbara Rubira, da Carolina Moraes e da Mari Leão. A identidade visual é da Amanda Lopes. A finalização e mixagem são do João Jabace e do Luís Rodrigues, da Pipoca Sound. Jabace e Rodrigues, que também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida e do Fábio Brisolla. O programa de hoje foi gravado aqui na minha Choupana, em São Paulo, no estúdio do Danny Dee e em Belém do Pará, no hotel do Bernardo. Então é isso. Eu me despeço dos meus amigos. Tchau, Bernardo. Até semana que vem que você vai estar de volta.
Bernardo Esteves: Valeu, Fernando. Um abraço para você, para os ouvintes, Ana e Celso.
Fernando de Barros e Silva: Tchau, Ana.
Ana Clara Costa: Tchau Fernando. Tchau Bernardo. Tchau Celso. Tchau pessoal.
Fernando de Barros e Silva: Celso, Tchau.
Bernardo Esteves: Tchau, pessoal. Até semana que vem.
Fernando de Barros e Silva: É isso gente! Uma ótima semana a todos e até semana que vem!