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A história de um Brasil comum
Guiado por um texto sensível, o filme O dia que te conheci conta a vida de um homem que mora na periferia de BH e precisa acordar cedo para chegar no trabalho
Nada de extraordinário acontece em O dia que te conheci. O longa de André Novais Oliveira segue a cartilha dos filmes anteriores e da estética já consolidada do diretor. Fazer este que se apega ao banal, ao ordinário, mas sem tratá-lo como tal; e cuja abordagem crava, também, na visão do espectador.
Disponível no Globoplay, o filme mostra a vida de um homem comum, com uma rotina mediana, em um período de 24 horas. O protagonista, Zeca (Renato Novaes), é um bibliotecário que vive em Belo Horizonte e trabalha em uma escola na cidade vizinha de Betim. Para chegar no horário, leva cerca de uma hora e meia no trajeto de ônibus. Mas algo o prejudica a manter esse compromisso diário: por mais que queira, Zeca não consegue acordar cedo.
É durante um dia ruim, em que sofre as consequências dos atrasos, que ele tem contato com Luisa (Grace Passô), outra funcionária da escola, que lhe oferece uma carona de volta a Belo Horizonte. A relação entre os dois se desenvolve de maneira sutil, seja através dos momentos de silêncio durante a viagem de carro, onde os dois parecem ter intimidade o suficiente para não se sentirem incomodados com isso, seja através de uma preocupação evidente sobre o problema do outro, ainda que o contato entre eles tenha se dado de maneira tão recente.
Aos poucos, dando sequência ao problema que introduz Zeca ao espectador – o de acordar cedo –, se apresentam outras dificuldades rotineiras do protagonista, que parece já resignado.
Nesse sentido, surpreende no texto de Oliveira a naturalidade com que os protagonistas falam de suas condições psicológicas, inclusive com diálogos por vezes cômicos sobre suas medicações e doenças, como a depressão – que o protagonista reconhece estar tratando.
É curioso ver esse retrato, raro, de um homem negro, de classe baixa, que precisa acordar cedo todos os dias para ir ao trabalho e é atravessado por inúmeras condições sociais e raciais, mas que, ainda assim, consegue dar uma boa atenção para a parte psíquica, já que as condições externas por vezes se sobressaem a problemas individuais e psicológicos, especialmente entre a população negra.
Entretanto, bem mais do que esse recorte, Oliveira oferece a experiência de um filme guiado por um texto sensível e bem escrito, com atores que representam bem os incômodos dos personagens e como o encontro dos dois os torna pequenos diante do extraordinário que se forma ali, em um dia qualquer.
