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Crônica neoliberal

Crônica neoliberal

Industry mostra o conflito de jovens da elite financeira de Londres

| 08 abr 2026_16h31
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A HBO é uma produtora conhecida por séries ambiciosas, mas, dentre suas séries, há sempre alguma que se destaca por ser ainda mais original que seus pares – o carro chefe da marca. Historicamente, esse papel coube a produções como Família SopranoThe Wire, e, mais recentemente, Succession.

Industry – uma série ambientada no mercado financeiro de Londres – tem sido cotada para ocupar esse lugar desde a sua primeira temporada, lançada no fim de 2020. Emprestando um pouco o espírito tragicômico que guiou Succession – com diálogos virtuosos e engraçados que compõem um retrato autoconsciente da mais rarefeita elite – a série acompanha vários jovens que se conhecem num programa de trainee da Pierpoint & Co, um banco de investimento, dramatizando como os rumos de cada um se cruzam em anos posteriores.

Há diversos personagens, mas dois se destacam. Harper Stern, uma espécie de prodígio inebriada com o próprio talento, vem de família pobre, é americana e das pouquíssimas pessoas negras na instituição. Yasmin Kara-Hanani (Yas), sua colega no programa de trainee, tem ascendência libanesa, é herdeira de um império editorial e cresceu em Londres, cercada de privilégios que lhe pesam, mas dos quais nunca abriria mão. Ambas carregam traumas relacionados à família, e a amizade das duas é um dos fios narrativos da série.

Apesar da diversidade dos personagens e do virtuosismo do roteiro – cheio de reviravoltas e ganchos que prendem o espectador – as três primeiras temporadas são um tanto escravas de uma fórmula, explorando um universo amoral em que nada parece importar a não ser os interesses individuais de cada um. Essa crônica neoliberal tem vários antecedentes, e é quase um clichê no tratamento dramático do mercado financeiro – filmes como Wall Street- poder e cobiça e O Lobo de Wall Street são apenas alguns dos exemplos mais famosos.

Mas a quarta temporada da série, lançada no início deste ano, escapa à facilidade desse padrão. O que eram subtramas dispersas se unificam num conflito central: a disputa entre uma empresa do setor de tecnologia e aqueles que querem vê-la falir. Nesse contexto, o casamento de Yasmin com Sir Henry Muck, um aristocrata inglês deprimido e viciado que fracassa em todos seus empreendimentos, torna mais complexa a personagem. Da mesma forma, Harper, que até então era julgada por si mesma, pelo mercado e talvez até pelos espectadores como a maior manifestação do éthos de cada um por si, é colocada numa posição na qual seu fundo pode gerar um grande benefício coletivo. A grande sacada dos roteiristas é inverter a fórmula dos clássicos filmes do gênero: em vez de juntar a conveniência pessoal às decisões amorais, a conveniência se torna potencialmente moral. Além da ambiguidade inerente à proposta, o brutal desconforto dos personagens em terem que lidar com a própria identidade em circunstâncias tão incomuns é o que faz a série transcender suas temporadas anteriores.