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Reflexões sobre o poder

Reflexões sobre o poder

Exposição Knockout! explora as dimensões dos conflitos políticos contemporâneos

| 19 mar 2026_16h27
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Uma espécie de faixa de pedestres corta as sete salas contíguas que conformam o espaço expositivo de Knockout!, mostra individual e monográfica de Pascale Marthine Tayou,no Edifício Pina Luz, da Pinacoteca de São Paulo. Como nas ruas, esse elemento, explica o artista camaronês, cria um ritmo na exibição. As pessoas circulam livremente, e, diante dos pórticos que conectam os espaços, param ou reduzem a velocidade para lerem os textos de parede sobre cada uma das obras, ou, simplesmente, verem pela primeira vez os trabalhos. Tayou, que vive entre Ghent (Bélgica) e Yaoundé (Camarões), explica que o uso desse elemento foi também uma forma de trazer o ambiente externo, as ruas, para dentro da exposição. A técnica reflete a forma como ele lida com o espaço em suas instalações. A base do trabalho de Tayou está na coleta, reciclagem e acumulação de materiais, o que não quer dizer que ele flerte com o excesso. “Se fica tudo muito acumulado, você sufoca. Então preciso deixar algum espaço para que as pessoas possam circular”, diz, emendando outra perspectiva à explicação: “Quando algo fica muito complicado, você precisa torná-lo mais simples. Sempre haverá espaços entre linhas. Você precisa de vazio entre elas, senão, tudo vira um bloco compacto”.

As instalações em cada uma das setes salas remetem a conferências importantes no jogo da política internacional. Entretanto, o visitante não deve esperar uma relação literal entre essas reuniões e a produção do artista, nem uma postura unívoca dele na interpretação delas.

Na sala inicial, dedicada à Conferência de Yalta, na qual se decidiu os termos de encerramento da Segunda Guerra Mundial, entre esculturas feitas com vidro e uma grande peça, em que se cravam lápis de cor, aparece na parede, sozinha, a palavra “invasão”. E não “guerra”, vale dizer. Ela não está grafada como tipografia pesada e sóbria. Mas em letra cursiva, num letreiro néon. A cor? O azul, que normalmente remete à harmonia, paz. O azul que, tanto no senso comum quanto em discursos extremos, é associado de forma estrita ao gênero masculino.

A última sala da exibição é dedicada a uma conferência fictícia, a ser feita em Avignon. O artista explica que a escolha da cidade francesa se deu devido a uma exposição que fez lá em 2023. Seu desejo, agora, com a Conferência de Avignon, no Brasil, é que as pessoas se sentem nas cadeiras dispostas no espaço expositivo e discutam um futuro. Mas não é uma paz isolada, que cabe tranquilamente em um documento. É uma paz compartilhada que leve em conta os inúmeros conflitos passados, inscritos nas paredes da sala junto a dezenas de pedras. A mensagem que a instalação parece querer invocar é que estamos todos conectados, quer você viva em contexto em guerra, quer você esteja em um ambiente seguro, aparentemente alheio aos problemas do mundo.

A mostra fica aberta até o dia 2 de agosto de 2026.