Retrato assustador
O documentário Por Dentro da Machosfera mergulha no universo da masculinidade tóxica
Eles tomaram a pílula vermelha e enxergam o que o sistema não quer que a gente saiba. Sabem ser homens de verdade. Machos alfa mesmo. Não se dizem misóginos, pelo contrário. “Eu amo as mulheres e eu as entendo. Por isso, sei o que é melhor para elas. Elas querem um cara para liderá-las e dominá-las”, esclarece Myron Gaines, um dos cinco entrevistados pelo jornalista Louis Theroux em Por Dentro da Machosfera. O documentário da Netflix mergulha no universo da masculinidade tóxica onde os red pills fazem a festa — e lucram muito.
Durante uma hora e meia, Theroux não precisa se esforçar muito para mostrar que os homens que a produtora chama de “controversos influenciadores na internet” são, na verdade, cruéis e, em certos casos, criminosos. Enquanto acompanha a rotina dos alfas – visita às mansões, participação em podcasts e presença em círculos sociais —, o exercício jornalístico básico de deixar o entrevistado falar é chave. A cada pergunta simples, os personagens deixam transparecer a misoginia, o racismo, a homofobia e o antissemitismo de suas crenças e conteúdo.
Através de streams ao vivo, podcasts e redes sociais, essas figuras vendem um estilo de vida e mantras violentos, mascarados de autoconhecimento. Além de visualizações e dinheiro, ganham uma legião de fãs que compactuam com as ideias preconceituosas e, muitas vezes, mirabolantes. Da monogamia unilateral ao mundo dominado por um clã satânico, o tom satírico do documentário vem menos de Theroux do que da própria existência patética e contraditória dos influencers da machosfera.
A obra só é fraca, entretanto, quando não traz mais dos impactos trágicos desses comportamentos. A cena de um homem sendo agredido em público pelo britânico Harrison Sullivan (ou HS TikkyTokky), enquanto a equipe dele transmite o momento ao vivo, choca Theroux e os espectadores — do documentário, porque os espectadores do stream dão risada. É um fragmento de uma onda alarmante de jovens que veem a violência como natural, o assédio como diversão e a mulher como descartável. No Brasil, esse resultado já está quantificado. Em 2025, foram 1568 vítimas de feminicídio.
