Shakespeare, outra vez
A morosidade e a intensidade que compõem o aclamado Hamnet, de Chloé Zhao
Nos últimos dez anos, Chloé Zhao se firmou como uma das forças mais instigantes do cinema americano. Dirigiu o indomável Songs My Brothers Taught Me (2015), sobre jovens indígenas norte-americanos, e o humanista e melancólico Nomadland (2020), vencedor do Oscar de melhor filme em 2021. Em 2026, a diretora retorna à premiação com Hamnet, indicado a oito categorias, incluindo melhor filme.
O ponto de partida é histórico, ainda que nebuloso, como muita coisa é na biografia de William Shakespeare. Ele foi casado com Agnes e teve três filhos: Susanna e os gêmeos Judith e Hamnet. O menino morre em 1596. Por volta de 1600, Shakespeare escreve Hamlet. Na Inglaterra elisabetana, Hamlet e Hamnet eram variações do mesmo nome. Daí surgiram teorias, nunca comprovadas, de que a tragédia teria sido escrita como resposta ao luto do autor. Uma das recriações mais conhecidas dessa hipótese é o romance no qual o filme é baseado – Hamnet, escrito por Maggie O’Farrell e publicado em 2020.
Mas Zhao não repete aqui o estilo arrojado e rebelde de filmar que a consagrou. Hamnet é formal, talvez formal demais. A primeira metade é arrastada, previsível, pouco desafiadora. Acompanhamos o início da relação e o casamento de Shakespeare e Agnes, sugeridos como pertencentes a famílias que desaprovavam a união (elemento puramente ficcional, sem comprovação histórica). Ainda assim, essa parte constrói o ambiente doméstico de afeto que dará peso ao que vem depois.
Hamnet morre de maneira funesta. Devastado, Shakespeare se afasta de Stratford-upon-Avon e se refugia em Londres, onde prepara uma nova peça. O filme encosta num clichê inevitável: o artista que transforma dor em arte. Mas a tensão cresce. O drama finalmente ganha corpo. Ao descobrir que o marido encena uma peça chamada Hamlet, Agnes vai a Londres e entra no Globe Theatre durante a apresentação. O que acontece ali é belíssimo. A originalidade de Zhao reaparece desafiadora. Melhor não descrever em detalhes para não estragar a experiência. Mas imagine entrar num teatro e ver sua tragédia íntima encenada no palco, com um jovem ator dando vida a um personagem com o nome de seu filho morto. Impactante, comovente e terrível. A sequência, conduzida com precisão e sustentada pela atriz Jessie Buckley e o ator Paul Mescal, arrepia e compensa a morosidade inicial.
