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questões urbanas

Por uma selva de pedra sustentável

A COP30 não deve tratar só da preservação de florestas. Melhorias no transporte coletivo para conter a poluição também precisam ser discutidas

03nov2025_08h37
Sérgio Avelleda

Muitas pessoas imaginam as Conferências Climáticas da ONU como encontros de especialistas ensimesmados que dão palestras uns para os outros, com pouco efeito prático. Não é assim. Recentemente tive a oportunidade de assistir a uma apresentação da Ana Toni, diretora-executiva da COP30 e uma das mais importantes referências nacionais no tema ambiental. Toni lembrava que desde a COP21 – que consagrou o Acordo de Paris, em 2015 – podemos enxergar inúmeros avanços na agenda climática. Cito alguns, na esperança de entusiasmar o leitor a acreditar que a conferência em Belém pode ser mais um divisor de águas na contenção das temidas mudanças climáticas: a energia limpa e renovável vem se consolidando como alternativa às fontes fósseis. Em 1973, o planeta dependia do petróleo para gerar 46% da energia que consumia; em 2022, esse número caiu para menos de 30%. A ampliação das fontes de financiamento para a transição justa – que ainda está longe de ser suficiente – também é legado do Acordo de Paris.

 

Na COP30, em novembro, o Brasil ocupará o centro do debate global sobre os rumos da transição climática. Além de temas como a descarbonização da matriz energética e a preservação das florestas tropicais – como aquela que cerca a cidade onde a conferência terá lugar –, um dos grandes desafios a serem enfrentados é o da mobilidade urbana, eixo fundamental tanto para a redução das emissões de gases do efeito estufa quanto para a construção de cidades mais justas, inclusivas e resilientes.

 

Atualmente, os transportes respondem por cerca de 20 a 25% das emissões globais de CO₂. Nas cidades brasileiras, a maior parte dessas emissões vem dos veículos individuais movidos a combustíveis fósseis. Não bastasse ser insustentável, esse modelo acentua desigualdades: grande parcela da população depende do transporte público, muitas vezes precário e ineficiente, enquanto quem conta com mais recursos se desloca em carro particular, que ocupa mais espaço nas vias, consome mais combustível e expõe os demais transeuntes a um risco de acidentes incontestavelmente maior. A COP30 pode ser, portanto, um marco para repensar as estratégias de mobilidade nas cidades e integrá-las à agenda climática. Pense que mais de 87% da população brasileira vive em áreas urbanas, segundo o IBGE, e que esse imenso contingente de brasileiros vive em cidades que em geral organizam mal os deslocamentos de seus habitantes – dá para dizer que são cidades “desplanejadas” –, e não será difícil compreender a importância do problema para a limitação dos gases do efeito estufa.

 

 

 

É preciso compreender o transporte público não apenas como um meio de deslocamento: é um direito social, determinante para o acesso ao trabalho, à saúde, à educação e ao lazer. A exclusão causada por sistemas ineficientes e caros afeta especialmente a população de baixa renda, que gasta demais para enfrentar longas e inseguras jornadas diárias.

 

A transição climática não pode ocorrer sem justiça social. Um modelo sustentável de mobilidade deve garantir tarifas acessíveis, segurança, qualidade e integração dos diferentes modais. Caso contrário, nos arriscamos a criar soluções “verdes” que, embora tecnicamente eficientes, aprofundem a desigualdade urbana.

 


Nas metrópoles brasileiras, o transporte público sobre pneus ainda é predominante. Ele sofre com financiamento insuficiente, congestionamentos e envelhecimento da frota. Os sistemas sobre trilhos, embora mais sustentáveis, ainda são escassos e mal distribuídos. Nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, concentram-se 85% dos passageiros beneficiados pelo transporte sobre trilhos no Brasil. Para agravar o problema, em muitos municípios, os ônibus dividem o mesmo espaço com automóveis particulares, perdendo eficiência e atratividade. Isso reforça a dependência do carro, alimentando um ciclo vicioso de congestionamentos, poluição e baixa qualidade de vida.

 

 

 

Experiências internacionais e projetos no Brasil demonstram que a substituição de veículos a diesel por ônibus elétricos pode, sim, cortar drasticamente as emissões locais e reduzir o ruído urbano. Contudo, a transição não é trivial. O alto custo de investimento nos veículos, a necessidade de infraestrutura de recarga e a falta de modelos de financiamento adequados são barreiras reais. Para que a eletrificação avance, será preciso mobilizar investimentos públicos e privados, além de criar modelos contratuais inovadores, como concessões patrocinadas ou parcerias público-privadas que compartilhem riscos e garantam previsibilidade de receita às operadoras.

 

De nada adianta, porém, eletrificar a frota, comprometendo vultosos investimentos públicos, para deixar os ônibus parados nos engarrafamentos. Precisamos, com urgência, de um choque de prioridade ao transporte público. As prefeituras precisam compreender, inspiradas no ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, que se um ônibus transporta 80 vezes mais pessoas que um automóvel, ele deve ser merecedor de 80 vezes mais espaço.

 

 
Outro eixo fundamental é a integração física e tarifária dos modos de transporte. Cidades que oferecem redes integradas – ônibus, metrôs, bicicletas compartilhadas, transporte aquaviário e até teleféricos em áreas de relevo acidentado – conseguem reduzir a dependência do carro e ampliar as opções de deslocamento. 

 

 

 

Em nosso país, a integração esbarra em uma cultura administrativa que isola as cidades umas das outras. Nas regiões metropolitanas, ainda ignoramos o fato de que ruas e bairros não se detêm nos limites municipais, fundindo-se em uma única malha urbana – fenômeno conhecido como conurbação. Insistimos em sistemas de governança anacrônicos e segmentados entre as muitas cidades e os governos estaduais. Será essencial construir modelos capazes de articular diferentes níveis de governo e de integrar políticas de transporte, uso do solo e habitação. Cidades fragmentadas, onde cada município decide isoladamente, tendem a falhar na criação de um transporte público eficiente.

 

A digitalização pode ajudar a integrar diferentes cidades e seus vários meios de transporte público. Ferramentas de Mobilidade como Serviço (MaaS, na sigla em inglês) permitem ao usuário planejar viagens, pagar passagens e acessar diferentes modais por meio de uma única plataforma. A coleta de dados em tempo real ainda possibilita otimizar rotas, reduzir tempos de espera e aumentar a eficiência energética dos sistemas.

 

A sociedade civil e o setor privado já deram o pontapé inicial. Em um esforço conjunto de cinquenta organizações e empresas, foi realizado um grande estudo sobre as ações necessárias para descarbonizar o transporte brasileiro até 2050. As conclusões desse trabalho hercúleo, coordenado pela Coalizão pela Descarbonização do Transporte, já foram entregues ao Embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, e para diversas outras autoridades.

 

 


É simbólico que Belém, sede da próxima Conferência da ONU, enfrente problemas muito particulares de transporte coletivo. Na Amazônia, a mobilidade não se limita a ônibus e carros: rios são estradas, e o transporte fluvial é essencial para milhões de pessoas. Porém, boa parte dessa frota ainda opera com embarcações antigas e poluentes. Incorporar soluções de transporte aquaviário sustentável, incluindo barcos elétricos ou híbridos, será um passo essencial para alinhar a agenda amazônica aos compromissos globais de redução de emissões.

 

Além da precariedade de seu transporte coletivo, a capital paraense ainda enfrenta problemas de urbanização acelerada, que a tornam ainda mais vulnerável a eventos climáticos extremos, como enchentes. A mobilidade sustentável também pode ser uma ferramenta de adaptação climática, reduzindo riscos e fortalecendo a resiliência urbana.

 

Nenhuma transformação será possível sem equacionar os desafios de financiamento e governança. A mobilidade urbana requer investimentos pesados, e os municípios enfrentam restrições fiscais crescentes. A COP30 precisa abrir espaço para discutir novas fontes de financiamento, como fundos climáticos internacionais, mecanismos de precificação de carbono e subsídios direcionados.

 

 

Com a COP30 sendo realizada em seu território, o Brasil ganha uma oportunidade histórica para demonstrar liderança na agenda climática global. Para isso, não basta preservar a floresta: é preciso transformar as cidades. A mobilidade urbana é, simultaneamente, desafio e solução. O mínimo que se pode fazer é enxergá-la como capítulo estratégico em um mundo que vê sua temperatura aumentar perigosamente.

 

Garantir transporte público de qualidade, investir em eletrificação e integração, fortalecer o transporte aquaviário na Amazônia e assegurar justiça social na transição energética são passos fundamentais. Só assim será possível alinhar a redução das emissões à construção de cidades — para que esses formidáveis espaços de encontro entre seres humanos continuem a ser, como os definiu o economista norte-americano Edward Gleiser, a maior invenção da nossa espécie.

 

 

 

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