questões de método

NOTAS BREVES SOBRE A ARTE E O MODO DE ARRUMAR OS LIVROS

Um dos problemas do homem que guarda as obras que leu ou tem a intenção de um dia ler é o da expansão de sua biblioteca
Imagem Notas breves sobre a arte e o modo de arrumar os livros

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Toda biblioteca[1] atende a uma dupla necessidade, que muitas vezes é também uma dupla mania: armazenar determinadas coisas (livros) e arrumá-las de acordo com determinadas normas.

Certa vez um amigo meu idealizou o projeto de circunscrever sua biblioteca a 361 obras. A ideia era a seguinte: a partir de um número “n” de obras, tendo atingido, por adição ou subtração, o total K = 361, concebido como correspondente a uma biblioteca senão ideal, pelo menos suficiente, ele se obrigaria a não adquirir de modo permanente uma nova obra X sem antes eliminar (por doação, arremesso, venda ou qualquer outro meio adequado) uma obra constante Z, de modo que o número total K de obras permanecesse o mesmo e igual a 361: K + X > 361 > K – Z.

A evolução desse projeto sedutor encontrou obstáculos previsíveis, para os quais foram buscadas as soluções que se impunham: primeiro chegou-se a cogitar que um volume – digamos da Pléiade – contava como um (1) livro mesmo que contivesse três (3) romances (ou coletâneas de poemas, ou ensaios etc.); daí inferiu-se que três (3), ou quatro (4), ou n (n) romances de um mesmo autor contavam (implicitamente) como um (1) volume desse autor, na qualidade de fragmentos ainda não reunidos mas inelutavelmente reuníveis em uma Obras Completas. A partir daí considerou-se que tal romance recém-adquirido de autoria de tal escritor de língua inglesa pertencente à segunda metade do século XIX não poderia logicamente ser computado como livro novo X, mas como obra Z pertencente a uma série em vias de constituição: o conjunto T de todos os romances escritos pelo mencionado escritor (e Deus sabe que são muitos!). Isso não alterava nem um pouco o projeto inicial: simplesmente, em lugar de falar em 361 obras, ficava decidido que a biblioteca suficiente deveria ser composta idealmente de 361 autores, tivessem eles escrito um opúsculo fino ou volumes que lotariam um caminhão. Essa modificação mostrou-se eficaz durante muitos anos, mas em seguida percebeu-se que determinadas obras – os romances de cavalaria, por exemplo – não tinham autor, ou então tinham vários autores, e que determinados autores – os dadaístas, por exemplo – não podiam ser separados uns dos outros sem automaticamente perder entre 80 e 90% daquilo que os tornava interessantes: chegou-se assim à ideia de uma biblioteca limitada a 361 temas – o termo é vago, mas os grupos que ele abarca às vezes também o são – e esse limite, até o presente, tem funcionado primorosamente.

De modo que um dos principais problemas do homem que guarda os livros que leu ou tem a intenção de um dia ler é o da expansão de sua biblioteca. Nem todo mundo tem a sorte de ser o capitão Nemo: “Para mim o mundo acabou no dia em que meu Nautilus submergiu nas águas pela primeira vez. Naquele dia, comprei meus últimos livros, minhas últimas brochuras, meus últimos jornais, e desde então trato de acreditar que a humanidade nunca mais pensou nem escreveu.”

Os 12 mil volumes do capitão Nemo, todos eles encadernados, foram classificados de uma vez por todas, e com extrema facilidade, visto que sua classificação, explicam-nos, é indistinta, pelo menos do ponto de vista da língua (detalhe que não diz respeito à arte de arrumar uma biblioteca, mas que tem o sentido mero e simples de nos lembrar que o capitão Nemo fala indiferentemente todas as línguas). Mas para nós, que continuamos às voltas com uma humanidade que teima em pensar, escrever e sobretudo publicar, o problema da expansão de nossas bibliotecas tende a se tornar o único problema real: pois é bastante evidente que não há grande dificuldade em conservar dez ou vinte livros, digamos até mesmo 100; mas quando começamos a possuir 361 livros, ou mil, ou 3 mil, e sobretudo quando esse número passa a aumentar diariamente ou quase, o problema se apresenta – primeiro, pôr todos esses livros em algum lugar; depois conseguir encontrá-los quando, por essa ou aquela razão, um belo dia sentimos vontade ou necessidade de finalmente lê-los ou mesmo relê-los.

Assim, o problema das bibliotecas acaba sendo um problema duplo: primeiro, um problema de espaço; em seguida, um problema de ordem.

1. DO ESPAÇO

1.1. Generalidades

Os livros não devem ser espalhados, mas reunidos. Assim como dispomos todos os potes de geleia num armário de geleias, dispomos todos os livros num mesmo lugar, ou em diversos mesmos lugares. Poderíamos, sempre na intenção de guardá-los, amontoar os livros dentro de malas, colocá-los no porão ou no sótão ou em fundos de armário, mas em geral preferimos que eles fiquem visíveis.

Na prática, os livros costumam ser dispostos uns ao lado dos outros, ao longo de uma parede ou divisória, sobre suportes retilíneos, paralelos entre si, nem muito profundos nem muito espaçados. Em geral os livros são arrumados no sentido da altura e de tal modo que o título impresso na lombada fique à vista (às vezes, como nas vitrines das livrarias, exibem-se as capas dos livros, mas, em qualquer situação, é inabitual, proscrito, quase sempre considerado chocante, expor apenas o corte do volume).

Na decoração de interiores hoje em voga, a biblioteca é um canto: o “cantinho de leitura”. Trata-se, quase sempre, de um módulo integrado a um conjunto “sala de estar” de que também fazem parte:

* o bar embutido
* a escrivaninha embutida
* o guarda-louça de duas portas
* a vitrola
* a tevê
* o projetor de slides
* a cristaleira
* etc.

e que nos catálogos aparece guarnecido de algumas encadernações falsas.

Na verdade, porém, os livros podem ser reunidos praticamente em qualquer lugar.

1.2. Aposentos onde podemos pôr nossos livros

* no vestíbulo
* na sala de estar
* no(s) quarto(s)
* no(s) banheiro(s)

Na cozinha em geral só se guardam obras de um tipo, justamente as que denominamos “livros de cozinha”.

É raríssimo encontrar livros em banheiros, embora muita gente repute o ambiente ótimo para a leitura. A umidade do local é unanimemente considerada a maior inimiga da conservação dos textos impressos. Na melhor das hipóteses, às vezes há no banheiro um armarinho de remédios, dentro do qual se pode encontrar um opúsculo intitulado O que Fazer enquanto o Médico Não Chega?

1.3. Lugares de um aposento onde podemos pôr livros

* sobre as beiradas das lareiras ou dos aquecedores (lembrando, porém, que o calor pode, com o tempo, mostrar-se um tanto pernicioso)
* entre duas janelas
* no vão de uma porta condenada
* sobre os degraus de uma escada de biblioteca, tornando-a impraticável (chiquérrimo, cf. Renan)
* debaixo de uma janela
* num móvel posicionado transversalmente e separando o aposento em duas partes (chiquérrimo, fica ainda melhor com algumas folhagens)

1.4. Coisas que não são livros e que encontramos com frequência nas bibliotecas

* fotografias em molduras de metal dourado, pequenas gravuras, desenhos a bico de pena, flores secas em vasos de pé, isqueiros, abastecidos ou não de fluido (perigoso), soldadinhos de chumbo, uma fotografia de Ernest Renan em sua sala no Collège de France, cartões-postais, olhos de boneca, caixas, embalagens de sal, pimenta e mostarda da companhia aérea Lufthansa, pesos de papel, toalhinhas de crochê, bolinhas de gude, limpadores de cachimbo, miniaturas de carrinhos antigos, pedras e cascalhos coloridos, ex-votos, molas.

2. DA ORDEM

Uma biblioteca que ninguém arruma se desarruma: com esse exemplo tentaram me explicar a definição de entropia, que eu muitas vezes comprovei experimentalmente.

A desordem de uma biblioteca não é uma coisa grave em si; ela é da categoria “em que gaveta guardei minhas meias?”: a gente sempre imagina que vai saber por instinto onde pôs esse ou aquele livro – e mesmo que não saiba, nunca haverá dificuldade em percorrer rapidamente todas as prateleiras.

A esta apologia da desordem simpática se opõe a tentação mesquinha da burocracia individual: cada coisa em seu lugar e cada lugar com sua coisa e vice-versa; entre essas duas tensões, uma que privilegia o laisser-aller, a bonomia anarquizante, outra que exalta as virtudes da tabula rasa, a frieza eficaz da grande arrumação, sempre acabamos por fazer um esforço para botar os livros em ordem: é uma operação exaustiva, deprimente, mas capaz de proporcionar surpresas agradáveis, como encontrar um livro que havíamos esquecido porque nunca mais o havíamos visto, e que, deixando para amanhã o que não faremos no mesmo dia, finalmente o redevoramos jogados na cama de barriga para baixo.

2.1. Maneiras de arrumar os livros

* classificação alfabética
* classificação por continente ou por país
* classificação por cor
* classificação por data de aquisição
* classificação por data de publicação
* classificação por formato
* classificação por gênero
* classificação por grandes períodos literários
* classificação por idioma
* classificação por prioridade de leitura
* classificação por encadernação
* classificação por série

Nenhuma dessas classificações é suficiente em si. Na prática, toda biblioteca se organiza a partir de uma combinação desses modos de classificação: o bom senso, a resistência à mudança, o desuso, a remanência dão a toda biblioteca uma personalidade única.

Convém antes de mais nada discernir as classificações estáveis das classificações provisórias; as classificações estáveis são aquelas que em princípio continuaremos respeitando; as classificações provisórias supostamente não duram mais que alguns dias: o tempo necessário para que o livro encontre, ou reencontre, seu lugar definitivo – pode se tratar de obra adquirida recentemente e ainda não lida, ou então de obra lida recentemente que não sabemos muito bem onde alocar e que prometemos a nós mesmos pôr no lugar por ocasião de uma próxima “grande arrumação”, ou ainda de uma obra cuja leitura interrompemos e que não queremos classificar antes de retomar e concluir, ou então de um livro que durante determinado período utilizamos o tempo todo, ou então de um livro que retiramos da estante em busca de alguma informação ou referência e que ainda não pusemos no lugar, ou então de um livro que não conseguimos pôr no lugar que lhe corresponderia porque não nos pertence e inúmeras vezes prometemos devolver etc.

No que me diz respeito, cerca de três quartos de meus livros nunca foram propriamente classificados. Os que não estão arrumados de maneira definitivamente provisória o estão de maneira provisoriamente definitiva, como no Oulipo.[2] Enquanto isso, ando com eles de um aposento para outro, de uma estante para outra, de uma pilha para outra, e pode acontecer de eu passar três horas procurando um livro sem encontrá-lo, mas por vezes tenho a satisfação de descobrir seis ou sete outros que resolvem o assunto de modo plenamente satisfatório.

2.2. Livros muito fáceis de arrumar

Os grandes Júlios Verne de encadernação vermelha (tanto os autênticos da Hetzel como as reedições da Hachette), os livros muito grandes, os bem pequenos, os guias de viagem Baedeker, os livros raros ou supostamente raros, os livros encadernados, os volumes da Pléiade, da Présence du Futur, os romances publicados pelas Éditions de Minuit, as coleções (Change, Textes, Les Lettres Nouvelles, Le Chemin etc.), as revistas, quando temos pelo menos três números do mesmo periódico etc.

2.3. Livros não tão difíceis de arrumar

Livros sobre cinema, tanto ensaios sobre diretores como álbuns sobre astros ou roteiros de filmes; romances sul-americanos, livros de etnologia, de psicanálise, de cozinha (ver mais acima), as listas telefônicas (ao lado do telefone), os românticos alemães, os livros da coleção Que Sais-Je? (cujo problema consiste em classificá-los agrupados em conjunto ou dispostos ao lado da disciplina da qual tratam) etc.

2.4. Livros quase impossíveis de arrumar

Os outros, por exemplo as revistas de que só temos um número, ou então La Campagne de 1812 en Russie, de Clausewitz (traduzido do alemão por M. Bégouën), capitão comandante da 31a Divisão de Dragões, diplomado pelo Estado-Maior, com um mapa, Paris, Librairie Militaire R. Chapelot et Cie, 1900, ou ainda o fascículo 6 do volume 91 (novembro de 1976) das Publications of the Modern Language Association of America (PMLA), fornecendo o programa das 666 reuniões de trabalho do congresso anual da mencionada associação.

2.5. Como os bibliotecários borgeanos de Babel que procuram o livro que lhes fornecerá a chave para todos os outros, oscilamos entre a ilusão do concluído e a vertigem do impalpável. Em nome do concluído, queremos crer que exista uma ordem única que nos proporcionaria acesso imediato ao saber; em nome do impalpável, queremos pensar que ordem e desordem são duas palavras equivalentes para designar o acaso.

É possível também que as duas sejam engodos, ilusões de óptica com o objetivo de dissimular o desgaste dos livros e dos sistemas.

Em todo caso, entre as duas, não é de todo mau que nossas bibliotecas também sirvam de tempos em tempos de pró-memória, porta-gatos e guarda-volumes.

[1] Chamo biblioteca um conjunto de livros constituído por um leitor não profissional para seu próprio prazer e seu uso cotidiano. Isso exclui coleções de bibliófilos e encadernações a metro, mas também a maioria das bibliotecas especializadas (as dos acadêmicos, por exemplo), cujos problemas específicos se aproximam aos das bibliotecas públicas.

[2] Ouvroir de Littérature Potentielle (Oficina de Literatura Potencial): movimento literário francês surgido em 1960. (Leia o texto à p. 48 desta edição.)


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Georges Perece, escritor francês, foi membro do Oulipo, movimento literário que submete a escrita a jogos formais