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OS PRETOS, OS BRANCOS, OS AMARELOS E AS VERDINHAS

O mundo colorido de João Havelange
Imagem Os pretos, os brancos, os amarelos e as verdinhas

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Naquele maio de 2011, Zurique, sede da Fédération Internationale de Football Association, a Fifa, estava mais uma vez infestada de cartolas. Dali a poucos dias, dirigentes esportivos do mundo inteiro concederiam um quarto mandato à frente da instituição para o suíço Joseph Blatter – ainda que em meio a um burburinho envolvendo denúncias de compra de votos. Os donos do futebol lotavam o luxuoso hotel Baur au Lac, mas João Havelange, o homem que mandou na organização por ininterruptos 24 anos, de 1974 a 1998, que fez de Blatter seu sucessor e transformou a arte do gramado num negócio bilionário e duvidoso, preferia o discreto Savoy Baur en Ville – sem o bafafá da imprensa e sem vista para o magnífico lago que leva o nome da cidade. “Aqui ninguém me incomoda. O ruim é que não tem piscina”, me disse numa sala sem graça do hotel, bebendo água com gás. Falávamos de seu ex-genro Ricardo Teixeira, então mandachuva da Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, sobre quem eu escrevia um extenso perfil. Àquela altura, apesar dos prognósticos contrários da mídia, Havelange não tinha dúvidas: “Vai ser o próximo presidente da Fifa.”

O velho cartola conservou, ao longo do encontro, uma aura distante e misteriosa – impessoal e imprevisível, como a de um clérigo. Altíssimo e metido num elegante terno escuro, tinha os olhos muito azuis, a boca rasgada para baixo, as mãos de dedos compridos salpicadas de pintas, a memória prodigiosa e a voz rouca e pausada, própria de quem já disse tudo. Sem contar uma indefectível mania de falar por sofismas, fazendo perguntas para as quais já possuía as respostas, de modo que o interlocutor corroborasse sua conclusão por conta própria. Ele estava com 95 anos. Eu, com 38. Ainda assim, insistia em me chamar de “senhora”. Quando disse que dispensava a cerimônia, respondeu que preferia mantê-la. O pronome de tratamento lhe era útil. A distância que o termo nos impunha acabaria imprimindo o tom de toda nossa conversa.

Durante duas horas, numa entrevista gravada, Havelange discorreu sobre natação (enfrentava 1 200 metros de piscina diariamente), futebol, imprensa, Olimpíada, União Europeia, suspeitas de corrupção, sua relação com plutocratas e autoridades, bons hotéis em Las Vegas (“Uma cidade que era um lixo e, por causa dos cassinos, se transformou em paraíso. O Piauí, o pior lugar do Brasil, poderia copiar isso”). A seu lado, estava Michel, o suíço de terno e gravata que fazia as vezes de motorista, assessor, valet de chambre, segurança e guia turístico, a quem ele se dirigia em francês. Acionava-o sempre que esquecia um nome ou uma data e quando queria me provar que falava a verdade. Em 1991, o funcionário caíra nas graças do chefe pela discrição e bons modos. Fora pinçado na sede da Fifa, onde trabalhava como recepcionista, e passou a pajear Havelange durante as frequentes viagens à Suíça. No Rio de Janeiro, o dirigente – que prezava a fidelidade canina dos auxiliares – mantinha uma versão nacional do subalterno: Sergio Duarte, sua sombra, seu braço direito, sua agenda telefônica, o escudeiro que tinha procuração até para movimentar suas contas bancárias. Também no Brasil, mantinha a secretária, Irene Lima, que o acompanhava havia cinquenta anos. Três ricos personagens a serem explorados por quem quiser biografar (ou investigar) o mito esportivo.

Filho de um comerciante belga, criado com mordomias no Rio, Havelange se destacou na juventude como nadador e jogador de polo aquático. Competiu nas Olimpíadas de 1936 e 1952. Nos Jogos seguintes, já comandava a Confederação Brasileira de Desportos, onde reinou por quase duas décadas (mais tarde, a CBD foi extinta). “Decidi cedo que nunca teria patrão”, comentou no hotel. Em 1974, assumiu a direção da Fifa, apoiado por Pelé e prometendo o fim do domínio europeu na instituição. Contou ter encontrado 20 dólares em caixa.

Safo, logo percebeu que as transmissões das partidas ao vivo, via satélite, poderiam se tornar uma mina de ouro, por atraírem patrocinadores de peso e converterem o esporte num espetáculo global. “A tevê é uma força, goste dela ou não. Hoje, numa Copa do Mundo, você assiste a um jogo dez, vinte vezes.” Aferrado à promessa de alterar a geopolítica da Fifa, modificou as regras da eleição presidencial, equiparando os votos da Europa aos da África, do Caribe e da Ásia. Depois dele,  o número de países filiados à entidade saltou de 142 para 209. “Visitei todos ao menos duas vezes. Só não pisei no Afeganistão, porque ninguém desce lá até hoje.”

Ser o responsável pela transição de uma Fifa branca, elitista e comedida para uma racialmente diversificada, controversa e bilionária o fazia destravar a língua. “Se alcancei algum sucesso, me desculpe a falta de modéstia, é porque tive a felicidade de nascer no Brasil. Ali, sabemos lidar com o branco, o preto, o mulato, o índio, o amarelo, o católico, o judeu, o protestante. Você se acostuma, respeita e aceita. Essa gente aqui não aceita.”

Indaguei o que ele queria dizer com “essa gente aqui não aceita”. Havelange me encarou um tanto enfastiado, tomou fôlego e emendou: “Você acha que um inglês ou um alemão dava beijo num preto?” Não à toa, quando assumiu a presidência da federação, ele tratou de implantar uma nova liturgia interna. “Nos banquetes, minha mulher ficava na porta e beijava toda negra que entrava. Eu também. Depois disso, podia vir o mundo, que só votavam em mim.” Essa “sensibilidade”, como dizia, era algo que haviam lhe passado ainda no berço. “Mamãe sempre me perguntava de manhã: ‘Já deste um beijo na empregada?’”

À medida que o poder do dirigente aumentava, os cofres da Fifa inchavam. Na Copa de 1978, disputada na Argentina, a entidade já gerava 78 milhões de dólares. No Mundial seguinte, o da Espanha, a cifra subiu para 82 milhões de dólares. E atingiu inacreditáveis 5 bilhões de dólares em 2014, na competição que o Brasil sediou.

Havelange se dava tanto com atletas e celebridades quanto com políticos e autoridades, independentemente de seus matizes ideológicos. Em 1972, durante o governo Médici, quando ainda comandava a CBD, não hesitou em servir à ditadura militar, inventando uma mini Copa do Mundo para festejar o sesquicentenário da Independência. O torneio conseguiu reunir vinte seleções, embora vários países europeus tenham se recusado a participar dele.

Em nosso encontro, ele evocou inúmeros episódios que denotavam sua intimidade com os poderosos. Confidenciou que Nelson Mandela lhe telefonou para manifestar o receio de a África do Sul não receber a Copa de 2010. Falou da carta “delicadíssima” que Vladimir Putin lhe mandou, em agradecimento à escolha da Rússia como sede do Mundial de 2018. Também revelou que se tornara muito íntimo de Hamad bin Khalifa al-Thani, então emir do Catar, a ponto de marcar almoços e jantares entre as mulheres de ambos. Por fim, garantiu que influenciou um banqueiro da Suíça a se posicionar contra a entrada do país na União Europeia. “Euro sempre foi moeda de ninguém, sem futuro e segurança. Até hoje, você desce em qualquer aeroporto do planeta, no de Hong Kong, no da China, e ninguém pergunta se você tem euro. Perguntam apenas: ‘Tem verde?’ É o que se quer.”

Depois de uma breve pausa, prosseguiu: “A senhora sabe quem é o Blatter, não? Agora, sabe quem é o presidente da Suíça? Quem não deseja sentar nessa cadeira, minha senhora? A Fifa é um poder financeiro, político, administrativo.”

A Copa e a Olimpíada no Brasil o fizeram abandonar o tom distanciado. Mal abordei o assunto, Havelange começou a soar orgulhoso, quase soberbo. “Foi por causa do meu discurso no Comitê Olímpico Internacional que o país levou os Jogos. Não foi porque o Lula pediu, não. A assembleia que votou a favor do Brasil sabia muito bem quem sou eu. Por quê? Porque atendo todo mundo, nunca faltei com a delicadeza.”

O tom mudou de novo, ficando mais grave, quando mencionei denúncias de corrupção que o atingiam, direta ou indiretamente. “Dizem que a Fifa vendeu a Copa de 2022 para o Catar. Cadê o dinheiro? Falem o que quiserem! É despeito!” Despeito, ressentimento, inveja, conspiração. Ele lançava mão de tais palavras para me convencer de que tudo se restringia à disputa de poder, principalmente por parte dos ingleses, que nunca se conformaram com a perda do protagonismo no futebol. Também culpava a imprensa – “desonesta, comprometida” – pelas “mentiras”. Relembrou um acordo de patrocínio firmado entre a Coca-Cola e a Fifa. Tão logo o anunciaram, um jornalista britânico (“Olha o mau-caratismo”) o interpelou, querendo saber qual seu interesse pessoal no contrato. “Respondi que, toda segunda quinzena de outubro, eu tomava uma Coca. O auditório caiu na gargalhada e o assunto morreu.”

Nos meses que se seguiram à nossa conversa, as denúncias contra a Fifa se avolumaram. E foi justamente a mídia inglesa que ergueu o alçapão que, por décadas, escondia a máquina de propinas da instituição. Enfim, tornou-se público o processo que corria sob segredo de Justiça nos tribunais suíços. Soube-se então que, ao longo de anos, Havelange recebeu da empresa de marketing ISL um suborno que somava 16 milhões de verdinhas legítimas. Ele dividiu a bolada com Ricardo Teixeira, num dos maiores esquemas de corrupção jamais vistos no esporte. Para se livrar das acusações, ambos renunciaram aos cargos que mantinham em entidades desportivas e pagaram uma vultosa multa.

Havelange deixou a presidência de honra da Fifa e o posto de mais longevo integrante do Comitê Olímpico Internacional. Os planos de ver Teixeira à frente do futebol mundial, o regozijo de abrir a Copa no Brasil, a glória de estar na Olimpíada de 2016, tudo derreteu como o gelo dos Alpes naquele verão em Zurique. Desde que o escândalo veio à tona, ele se recolheu, sem alarde. No dia 16 de agosto, no auge dos Jogos cariocas, Jean-Marie Faustin Goedefroid de Havelange morreu de complicações pulmonares aos 100 anos, no Rio de Janeiro. O silêncio da Fifa e do COI foi ensurdecedor.


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Daniela Pinheiro foi jornalista da piauí entre 2007 e 2017