vozes da América

O COLECIONADOR DE MEMÓRIAS

Pequenas histórias dos Estados Unidos
Imagem O colecionador de memórias

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Em 2008, depois de ter trabalhado na rádio pública por anos, o norte-americano Nate DiMeo estreou o podcast O Palácio da Memória, que se tornou um dos mais populares do país. Pesquisando em museus e arquivos de jornais, ele criou episódios que, com cerca de dez minutos cada um (mas que às vezes podem ter dez segundos), falam de absolutamente qualquer tópico relacionado à história americana: a primeira cirurgiã a atender feridos de guerra (vestindo calça comprida); a história de amor de um casal de escravos fugitivos; as circunstâncias da morte de Edgar Allan Poe; um sujeito do século XIX que ganhou a vida saltando de penhascos; o primeiro bar gay dos Estados Unidos; a substituição das cartolas de castor pelas de seda; o médico charlatão que prometia curar a impotência com o implante de testículos de bode. E cães astronautas, a extinção do pombo-passageiro, o primeiro elefante a pisar na América, o leão da Metro, o upgrade das lagostas…

O sucesso de público e de crítica foi tamanho que DiMeo ganhou do Museu Metropolitan uma bolsa de “artista convidado” para desenvolver conteúdos referentes a algumas das obras em exposição.

POMBOS PERDIDOS

É impossível saber ao certo.

Mas os ornitólogos dizem que no começo do século XIX talvez houvesse 5 bilhões de pombos-passageiros na América do Norte. Isso representava uma em cada cinco aves. E quando viajavam para o sul no outono e voltavam ao norte no verão, eles chegavam a escurecer o céu.

Muitos relatos fidedignos contam que as revoadas tinham mais de 1 quilômetro de largura. E mais de 400 quilômetros de comprimento.

Eles demoravam horas, às vezes o dia todo, para atravessar o céu.

Você acordava de manhã ao som das aves que se aproximavam, tomava café, cuidava da terra o dia todo, trazia o gado para o curral, ou não sei mais o quê… e o bando ainda estaria lá em cima quando escurecesse.

O som devia ser incrível.

O excremento de alguns milhões de aves chovia do céu, desfolhando trechos inteiros de floresta. Quando elas se acomodavam para dormir, levava anos para que as árvores se recuperassem. Havia um local em que as aves se aninhavam todo ano, que ocupava 2 mil quilômetros quadrados: poderia haver até 136 milhões delas ali.

Por tudo isso era facílimo caçar esses pombos. Diziam que se você disparasse um rifle para o céu enquanto eles passavam… um único tiro poderia derrubar trinta. Voavam tão perto que trombavam uns nos outros, numa espécie de engavetamento rodoviário tenebroso.

E caíam.

E à medida que a população humana dos Estados Unidos foi se espalhando pelo oeste, as florestas começaram a sumir. E à medida que a industrialização e a imigração incharam as cidades do leste, as pessoas precisaram de carne.

E caçadores em escala industrial se apresentaram.

Eles acendiam fogueiras embaixo das árvores para espantar as aves com a fumaça, e matá-las. Pegavam um pombo e por algum motivo costuravam seus olhos, e aí o amarravam a uma arapuca, e os movimentos de pânico da isca atraíam bandos curiosos. Então as aves eram presas em armadilhas. E mortas.

Às vezes eles empapavam alpiste de álcool para as aves ficarem bêbadas. Para ser mais fácil matar. Em Petoskey, no Michigan, no ano de 1878, 50 mil aves foram mortas, a cada dia, durante cinco meses. Elas eram acomodadas em vagões de carga e despachadas para Nova York, Boston, Providence, Newark, Filadélfia ou Baltimore. Naquele mesmo ano um outro fornecedor no Meio-Oeste entregou mais de 3 milhões de pombos-passageiros.

E então as aves começaram a sumir.

As fêmeas só botavam um ovo por ano, o que é uma estratégia evolutiva medonha. Em 1900 não havia mais revoadas. Em 1909, a Sociedade Ornitológica Americana oferecia 1 500 dólares a quem encontrasse um pombo-passageiro na natureza.

O último pombo-passageiro de que se tem notícia morreu no Jardim Zoológico de Cincinnati, em 1914. Era uma fêmea.

Ela foi empalhada e alojada num diorama na seção Aves da América do Museu Smithsonian.

Há alguns anos, foi parar no depósito.

GIGANTE

Ela pisou pela primeira vez num lugar chamado America em 1795.

Isso nós sabemos. Está registrado nos documentos de um navio de nome America. Que havia partido de Calcutá dois meses e meio antes.

E sabemos que o capitão do navio pagou 450 dólares por ela. O que era um investimento e tanto. Acrescente a essa cifra o custo da comida e da perda de receita devido ao espaço que ela ocupou, no lugar de barris de especiarias e rolos de tecidos. E bens não perecíveis. E que foi usado para transportar um elefante vivo.

O capitão tinha grandes planos para ela. Isso nós sabemos graças às cartas que ele escreveu a seus quatro irmãos. Ele achava que as pessoas iam ficar loucas quando vissem um elefante nos Estados Unidos. Porque nunca houve um elefante nos Estados Unidos. Nunca um único elefante em toda a América do Norte.

Ele imaginou que isso devia valer mais do que um caixote de chá darjeeling ou de cardamomo. Tinha certeza de que transformaria seus 450 dólares em, quem sabe, 5 mil, fácil.

Não sabemos se ele conseguiu.

Passado um tempo, a elefanta some do registro histórico. A imprensa conta que ela atraiu multidões em Nova York, logo depois de o America ter aportado. Ficou amarrada a uma estaca na esquina da Broadway com a Beaver, no Centro. E as pessoas pagavam para vê-la ali, parada.

E sabemos que o capitão a levou para o sul quando o inverno chegou. Para afastá-la do frio do inverno. As Carolinas eram a melhor versão da Índia que ele podia oferecer.

Depois disso não sabemos ao certo o que acontece com ela durante algum tempo. Mas sabemos a respeito de Hachaliah Bailey.

A família de Hachaliah Bailey tinha uma fazenda no que hoje é uma cidade-dormitório.

A pouco mais de uma hora de Manhattan na linha norte dos trens. Com 30 e poucos anos, Hachaliah trabalhava como peão, tocando gado até a cidade. Ou até o que era uma cidade, naquele começo do século XIX.

Era uma viagem mais longa naqueles dias. E num dado momento, durante alguma de suas jornadas com o gado, Hachaliah se encantou com um dos animais que viviam num curral em Manhattan. Em casa, falava o tempo todo do bicho. E ia vê-lo toda vez que estava na cidade.

Não sabemos como ela acabou indo viver com vacas, porcos, ovelhas e cabras, nem quando chegou lá. Mas sabemos que, em torno de 1807, Hachaliah Bailey comprou uma elefanta indiana por mil dólares. E a levou para viver numa fazenda em Somers, Nova York.

Ele a chamava de Betty.

Bailey nunca se entusiasmou pelo trabalho na fazenda. Tudo levava uma eternidade para crescer. Era uma eternidade para arar o campo com uma junta de mulas. Mas… com uma elefanta, ele havia de conseguir cortar a eternidade pela metade.

Não sabemos se isso deu assim tão certo. O que sabemos, no entanto, é que uma elefanta indiana no interior dos Estados Unidos atrai multidões, sobretudo em 1807. E Hachaliah Bailey logo percebeu que podia ganhar mais dinheiro atraindo multidões que aumentando a produção agrícola com uma eficiência maior, movida a elefante.

Então Hachaliah Bailey e a elefanta, que ele agora chamava carinhosamente de Velha Bet, caíram na estrada.

Por quase uma década eles andaram pelo nordeste dos Estados Unidos, ocupando praças e celeiros e cobrando para as pessoas verem Bet.

Depois de um tempo Bailey aumentou o grupo e o transformou num circo viajante de verdade, acrescentando cavalo, cachorro e bode. Que todo mundo tinha. Mas uma elefanta… ninguém tinha uma elefanta.

E lá estavam fazendeiros e fabricantes de velas e tanoeiros com suas mulheres e vizinhos. Pessoas que nunca tinham saído de suas roças ou vilas desde que haviam chegado como imigrantes. Ou desde que haviam voltado da guerra. Lá estavam crianças que nunca foram a lugar algum, que nunca viram nada além do mundo da fazenda, da vila, das matas e riachos…

E nesse mundo entra aquela criatura. Naquele mundo entra o mundo.

Não sabemos quanto dinheiro Hachaliah Bailey ganhou com a Velha Bet. Sabemos que havia ocasiões em que os dois entravam num vilarejo no qual as pessoas mal conseguiam juntar 10 dólares numa vaquinha. E trocavam ferramentas e bebida por uma espiada no paquiderme. E então lemos, apesar de não saber se devemos de fato acreditar, que a elefanta indiana passou a gostar de rum jamaicano.

Sabemos que Hachaliah Bailey começou a levar a Velha Bet de cidade em cidade, no meio da noite, para que as pessoas não pudessem tirar uma casquinha no caminho. E sabemos que ele teve sucesso, a ponto de vender duas cotas do valor da Velha Bet: cada uma por 1 200 dólares. Isso nós sabemos.

E sabemos, e lamentamos informar, que a Velha Bet morreu na cidade de Alfred, no Maine, em 1816. Levou um tiro de um fazendeiro, que achou que era pecado cobrar para mostrar um animal.

Claro que não sabemos o que a Velha Bet pensava de qualquer dessas coisas. Mas há coisas que podemos saber.

Um elefante indiano, na natureza, pode viver até 70 anos. A evolução os tornou animais fundamentalmente sociais. Comem, se reproduzem e encontram água; protegem seus filhotes, e protegem uns aos outros quando há predadores por perto… tudo isso trabalhando em grupo. Sabemos que se comunicam por uma linguagem corporal, por líquidos com certos odores secretados por seus corpos, por grunhidos, batidas de patas, barritos e gritos… e a emissão de sons em frequências tão baixas que não podem ser ouvidos por humanos. Mas que vibram no chão, podendo ser percebidos por outros elefantes a quase 10 quilômetros de distância. Sabemos que sua ordem social, que sua sobrevivência como grupo e como indivíduo depende de sua notória memória. Pesquisadores viram elefantes reunidos depois de 26 anos sinalizar que reconhecem um ao outro como membros da mesma família.

E cada um deles pode reconhecer e se lembrar de até 200 elefantes diferentes.

Então… de qual elefante ela se lembrava?

Qual era o elefante que ela procurava entre as vacas e os porcos dos currais de Manhattan? A que elefante ela enviava mensagens infrassônicas? Mensagens que se irradiavam pelo granito da Nova Inglaterra… morrendo 10 mil quilômetros antes de chegar ao alvo.

E do que ela se lembrava?

Dos porões do navio? Do ar salgado do oceano Índico? Do cabo da Boa Esperança? Da foz do rio Hudson…

Dos dias inumeráveis atada a uma estaca, dos morros verdejantes da Carolina do Norte, dos rostos nas multidões, das noites que passou caminhando sob as estrelas e as luas crescentes e minguantes e por sob olmos americanos, rumo a mais um lugar desconhecido…

Sem elefantes.

EXCESSOS E FALTA

Certas manhãs, depois de tempestades de verão ou de ciclones, as pessoas acordavam e descobriam que centenas delas tinham ido parar na praia durante a noite.

Centenas de lagostas que se contorciam e beliscavam. Encalhadas por causa da maré tempestuosa. Centenas delas. Arranhadas e cobertas de areia. Começando a cheirar mal. E você chegava lá junto com os primeiros raios do sol, ia até Ogunquit ou Scituate ou Horseneck Beach. E caminhava em meio à massa ondulante de crustáceos, às vezes em pilhas de mais de meio metro de altura, profundas o suficiente para que essas lagostas de 5, 8, 15 quilos ficassem tentando pegar seu joelho enquanto você tentava jogá-las de volta ao mar. Antes que apodrecessem. Antes que moscas e gaivotas fizessem a festa ali mesmo na praia.

E, se tivesse estômago para tanto, você levava uma para casa: era o jantar.

Nos primeiros séculos em que europeus brancos viveram na América do Norte, a lagosta, o filé-mignon dos frutos do mar, era comida de gente simples. Elas eram tão abundantes que sempre se podia comer lagosta quando não havia nada de melhor à mesa. Elas se acumulavam sob os píeres em Boston. Era só esperar a maré baixar e recolher as que ficavam presas nas poças. Ou se postar onde a água era rasa e arpoar uma lagosta de 11 quilos.

Mas não se podia servir aquilo num restaurante. Era comida de presidiários.

Em Plymouth, o governador Bradford registrou sua vergonha quando, depois de um inverno particularmente duro, chegou uma nova leva de peregrinos, e ele só tinha lagostas para servir. Como se aquilo fosse tipo um esquilo encontrado no meio da estrada, meio achatado.

Era muita lagosta para que alguém pudesse de fato desejar uma. A escassez cria o valor. E ninguém podia ganhar dinheiro vendendo um troço que dava para pegar sozinho. Mas aí inventaram um modo de levar as lagostas até lugares em que você não podia simplesmente ir lá e pegar por conta própria.

E as coisas mudaram para a lagosta.

Em 1810 um francês inventou a lata de folha de estanho. Algumas décadas depois os moradores do Maine deram uso ao invento. Eles pescavam centenas de milhares de lagostas e aí as enviavam, quilo por quilo, enlatadas, a qualquer canto desprovido de lagostas do mundo.

E aquilo não tinha um gosto muito bom.

A lagosta do Maine, salgada e enegrecida, era pouco mais que proteína pura para nutrir mineiros na Sierra Nevada e lenhadores nos Camarões. Mas nos anos 1870 já se enviavam lagostas vivas. Lagostas que de fato tinham um gosto bom. Longe do mar. Que chegavam de trem.

E logo Palácios das Lagostas, sofisticados restaurantes dedicados a essa estranha novidade da Nova Inglaterra, começaram a surgir em Chicago e Saint Louis. E o pessoal mais elegante do Meio-Oeste, reis dos currais que estavam cansados de bife, vendedores de peles que sentiam o gosto do futuro e sabiam que ele tinha carapaça… todos exibiam seu status social comendo crustáceos. Porque uma comida que tinha vindo da beira do mar da Nova Inglaterra até a beira dos Grandes Lagos não podia ser comida de gente simples. Não com aquele preço, pelo menos.

E a lagosta, como nós a conhecemos dos cardápios modernos, então nasceu.

Mas as lagostas que eles conheciam, e a que os habitantes do litoral conheciam havia milênios, estavam de saída.

Em 1885 a indústria pesqueira dos Estados Unidos tirou 75 mil toneladas de lagostas do oceano. Em 1919 a tonelagem era de 15 mil. A população tinha diminuído drasticamente com o peso de trinta anos de farra, excessos, guardanapos atados no pescoço e manteiga derretida.

Veja bem. Não se trata de uma história de extinção, propriamente dita. Não se trata da história do último pombo-passageiro dos Estados Unidos ou da última árvore da ilha de Páscoa. Porque ainda existem lagostas, montes de lagostas. Mas não mais as lagostas daqueles tempos.

A maior das companhias enlatadoras dos anos 1880 tinha por política jamais comercializar uma lagosta que tivesse menos de 3 quilos.

Três quilos.

Menos de 1 quilo já caracterizava uma lagosta considerada imprópria para o consumo humano.

Um maître do Palm Restaurant, na cidade de Washington, me diz que a maior lagosta do tanque da casa, naquele momento, tem 3 quilos. E custa 140 dólares. O Instituto National Fisheries me diz que o tamanho mais popular nos restaurantes americanos hoje é de 550 gramas.

Uma lagosta leva até 7 anos para atingir meio quilo.

Então. Há uns anos, uma lagosta chamada Golias vivia no tanque de um bar de esportes em Taunton, Massachusetts. Pesava 10 quilos. No intervalo do Super Bowl de 2008, uma mulher de 35 anos de idade, de Medway, ganhou Golias numa rifa.

E não comeu.

Ela o enrolou em toalhas encharcadas de água fria e salgada. E dirigiu por uma hora na Rota 24, até Boston, onde o entregou ao New England Aquarium. Duas semanas depois ele estava num voo rumo a Montreal: um aquário de lá queria ter sua própria lagosta gigante.

Uma lagosta de 10 quilos é tão rara que as pessoas moveram mundos e fundos, ou pelo menos empregaram os recursos de dois aquários, uma companhia aérea e vários funcionários de aduana para garantir o traslado seguro do tipo de crustáceo cujo tamanho, durante a maior parte da história da humanidade, não causaria nenhuma reação.

Os biólogos do aquário dizem que ele se adaptou bem à vida no tanque. No tanque em que, em teoria, ainda pode viver por décadas e décadas. A salvo de redes e armadilhas.

Mas na verdade ninguém sabe quanto tempo uma lagosta pode viver.

E ninguém sabe o tamanho que elas podem atingir. Só sabemos que hoje em dia elas não têm mais essa oportunidade.

COBAIAS

Era uma vez um grupo de moscas-das-frutas.

Elas nasceram, copularam, comeram fruta e morreram. Cerca de trinta dias depois. Como fazem as moscas-das-frutas.

Mas aquele grupo de moscas, aquele grupo em particular, passou um de seus trinta dias (um dia de inverno, em 1947) no espaço. Foram as primeiras criaturas da Terra a abandonar a atmosfera.

Era uma vez quatro macacos chamados Albert.

De Albert I a Albert IV. E eles decolaram do deserto do Novo México em quatro foguetes, para que se verificasse a possibilidade de humanos sobreviverem a uma viagem ao espaço. Albert I, II e III não viveram o bastante para podermos saber se era possível ou não. Então cobrimos o quarto Albert de eletrodos e sensores para monitorar sua saúde durante a viagem.

Ele foi muito bem, não sentiu efeitos negativos… até a aterrissagem. Que o matou com o impacto.

Era uma vez um macaco chamado Yorick.

Que subiu a 69 quilômetros de altura. E desceu 69 quilômetros. Pousando com delicadeza e segurança, de paraquedas. Mas o pobre Yorick não sobreviveu à espera pelo resgate. Uma cápsula de metal esquenta demais sob o sol do deserto.

Era uma vez dois macacos: Mike e Patricia.

Que faziam tudo juntos quando recebiam ordens. Inclusive se fossem enviados para o espaço em maio de 1952. Acordados e desprovidos de peso no nariz de um foguete. Eles voltaram vivos e se aposentaram no Zoológico Nacional, em Washington, onde Patricia morreu poucos anos depois, de causas naturais, não ligadas ao espaço. Deixou o parceiro Mike, que viveu até 1967.

Vamos pensar um minuto em Mike e no seu legado.

Viúvo, em exibição no Zoológico Nacional. Funcionário público até o fim.

E os primatólogos dizem que em sua memória poderia muito bem haver lembranças de Patricia. E da estranha aventura em que embarcaram num dia de primavera. Muito tempo atrás.

Era uma vez muitos cães.

Cães soviéticos, escolhidos para ir ao espaço porque sabiam sentar e levantar quando recebiam ordens. Ao contrário daqueles bobocas dos macacos americanos.

Eles iam aos pares.

Dézik foi com Tsigan, o Cigano, no verão. E depois com Lisa, no outono. Mas aí morreu quando caiu na Terra.

Vieram Smiélaia e Málichka. E Albina e Damka, e Sniejinka e Krasávka. Todas subiram vivas. Nem todas voltaram do mesmo modo.

Uma cadela chamada Bólik fugiu da jaula e desapareceu no meio da noite em vez de voar para o espaço na manhã seguinte. Boa menina…

E aí veio Laika. A coitada. A famosa Laika.

Mandada de propósito para a morte. Enviada para orbitar a Terra num satélite que eles sabiam que ia pegar fogo na reentrada. Por meio século os russos sustentaram que tinham inventado uma máquina especial para sacrificar Laika, pouco antes que seu suprimento de oxigênio se esgotasse. Para seu voo de seis dias.

Só que não.

Na verdade ela morreu poucas horas depois da decolagem. Superaquecimento, imagina-se. Resta imaginar que tenha sido o menor dos males.

Ergueram uma estátua de Laika em Moscou. Foguete de pedra, cachorro de bronze.

E disseram que a morte dela era prova de que os homens poderiam sobreviver no espaço. Apesar de não ser verdade, claro.

Mas a morte de um macaco chamado Gordo, perdido no oceano, ainda hoje perdido no oceano… essa morte provou que… E as vidas de outros macacos e ratos, cães vira-latas e porquinhos-da-índia.

Cobaias. Foram todos cobaias.

Um macaco chamado Sam.

Um chimpanzé chamado Ham.

Eles provaram que nós podíamos viajar para o espaço.

Alguns sobreviveram. Outros deram a vida pelos nossos sonhos. Como tantas vezes acontece.

VULGO: LEO

Pegaram um filhote de leão no deserto da Núbia.

E o puseram no cinema. Eles o chamaram de Jackie e o treinaram para sentar e ficar de pé quando ouvisse os comandos certos. Empinar o corpo. Ter cara assustadora e feroz, mas não ser feroz de verdade.

Eles o mantinham bem alimentado, para que não comesse ninguém. E fizeram Jackie perseguir Tarzan pelas selvas do Jardim Botânico de Los Angeles. Ameaçar Jane na beira da piscina de concreto disfarçada por frondes de palmeiras e samambaias. Bem ao lado daqueles subúrbios que começavam no terreno dos fundos da MGM. Ou saltitar diante das câmeras até algum diretor dizer “Corta” assim que tiver cenas suficientes para parecer que Jackie estava perseguindo o Magro e/ou o Gordo.

E numa certa manhã de 1927 ele foi tirado da jaula, atravessou o terreno onde bailarinas com roupas de lantejoulas se apressavam para bater ponto às 7h15, caminhou por entre figurantes de toga ou chapéu de cowboy. Foi levado a um estúdio de som, onde subiu em dois caixotes, um para as patas traseiras, um para as dianteiras, olhou para a câmera, se aproximou de um microfone… e rugiu.

Aquele rugido seria ouvido centenas de vezes por dia, em milhares de salas em todo um mundo enlouquecido de amor pelo cinema. Era o fim dos anos 20… e o cinema era o máximo.

Era a opção de todos, de todos os nichos do mercado, em toda parte. Só nos Estados Unidos havia 20 mil salas de cinema, e em toda cidade grande imensos palácios da sétima arte, com cortinas de veludo e tetos dourados, camarotes e orquestras e frisas e porteiros de smoking. E havia telas prateadas e cadeiras dobráveis em lojas e antigos teatros de revista em praticamente todo e qualquer canto.

Um níquel, um dime, por um longa ou dois. O noticiário. Curtas, desenhos animados. Umas moedinhas por uma noite toda de diversão. Pela “creche” de uma tarde inteira. E agora com som.

Sim, agora havia som!

Melodias da Broadway, o troar da cavalaria, salvas de canhões, sapateado, suspiros de amor, tudo registrado para sempre. Como Jackie. Rugindo.

No começo de cada filme da MGM. Dez segundos ao todo. Registrados para sempre. E revividos sem parar, duplicados, enxertados em rolos e rolos e rolos e rolos de filme. Conhecidos por qualquer indivíduo nos Estados Unidos e além, por décadas.

Oficialmente Jackie chamava Leo. Esse é o nome do leão da Metro. Seu nom-de-marketing. Jackie foi o segundo Leo. O primeiro chamava Slats. Ele não rugia: era no tempo do cinema mudo. Então ele só meio que olhava em volta.

Mas Jackie rugia. E as pessoas o adoravam por causa disso.

A ideia só podia dar certo. As pessoas adoravam Leo. E as pessoas adoravam aviões.

Verão de 1927. Lindbergh tinha pousado no mês de maio em Paris. Aviadores estavam o tempo todo no jornal. Recordes de velocidade, recordes de resistência, recordes de altitude. Fulano voa daqui até ali pela primeira vez.

Então nós estamos em julho ou agosto. E alguém no escritório de publicidade da MGM diz: “E se a gente botasse o Leo num avião?” E foi basicamente a melhor ideia de todos os tempos. Ele seria o primeiro animal (categoria não humana) a voar sem escalas de costa a costa. A publicidade derivada seria incrível.

Daí eles encontraram um piloto, e um piloto famoso, que acabava de chegar em segundo numa corrida da Califórnia a Honolulu, que era o tipo de coisa que dava fama, em 1927. Eles encontraram um avião, que era do mesmo modelo do Spirit of St. Louis de Lindbergh, e deram uma ajeitada. Instalaram um sistema de navegação de primeira e construíram uma jaula especial para Jackie. Para ele não mudar de posição, porque qualquer alteração da distribuição de peso podia atrapalhar o voo. Mas ele podia dar conta dessa imobilidade, eram só vinte e poucas horas de voo de San Diego a Nova York.

Não que alguém tenha perguntado a Jackie.

E a imprensa e o público caíram de quatro. E foram todos até um pequeno aeroporto do sul da Califórnia para desejar bon voyage ao adorado Leo.

E a voyage estava indo super bon… até eles sobrevoarem o Arizona.

Quando o piloto famoso fez uma curva baixa para acenar para uma parenta ao passar perto da casa dela. E não conseguiu recuperar a altitude. E roçou numa árvore. E o avião caiu no meio do deserto do Arizona.

Jackie sobreviveu. Você já pode respirar com tranquilidade.

O avião se partiu, mas a jaula continuou intacta. E o piloto famoso foi embora levando sanduíches e água. E quatro dias depois voltou com alguns cowboys… e encontrou Jackie morto de fome, mas saudável.

Foi azar da MGM.

Quase matar o mascote… Mas não há má publicidade, certo? Então Leo, o leão, tornou-se Leo, o sobrevivente sortudo: e Jackie saiu em turnê.

Nada de aviões dessa vez. Ele viajava num carro feito sob medida, de mais de 7 metros de comprimento, equipado com uma jaula dourada, espaçosa o bastante para ele mudar de posição como quisesse. Seguia numa caravana de três carros, com um órgão circense de 54 teclas. Um treinador. Um gerente. Pajens. Que estavam ali, diziam, para cuidar de qualquer necessidade de Leo.

Ele comia bons cortes de carne de qualidade, não sentia falta de nada, eles diziam.

Sabiam que quase tinham matado Jackie naquele acidente de avião. E dali em diante iam tratar muito bem dele.

Tratar bem dele, ao que parece, era levá-lo numa viagem de 65 mil quilômetros. Passando por 38 estados. Em três anos. Sem parar.

Tratar bem dele, ao que parece, era fazê-lo andar numa jaula descoberta em estradas regionais em velocidades que, apesar de seguras, não eram velocidades adequadas às viagens de um leão.

Tratar bem dele, ao que parece, era obrigá-lo a parar em 1 418 cidades, onde ele fazia coisas que não tinha nascido para fazer. Não havia nada de instintivo, nada de leonino, nada que tivesse sido gravado em seu DNA por gerações e gerações de seleção natural, naquela coisa de rugir quando ouvia o comando certo. Ou não rugir. A despeito de ele querer ou não. Oferecer sua pata gigante a algum gigante da política de uma cidade minúscula. Divertir orfanatos. Participar de inaugurações. Levar alegria a milhares e milhares de seres humanos que lotavam praças e parques para ver a celebridade das telonas.

Enquanto ele ficava sentado como um cachorro. Quando não era um cachorro, criado para desejar a companhia dos humanos, ser acariciado, obter certa compensação ao satisfazer as pessoas.

Aposto que algumas dessas pessoas foram cruéis. Porque afinal de contas eram pessoas.

Não acredito que um menino, numa estradinha de Michigan em 1929, 1930, não fosse testar a pontaria, e testar o que aconteceria quando se acerta com uma pedra o único leão que será visto naquela cidade. E aposto que havia momentos em que as noites eram frias demais. Quando os ventos eram fortes demais em alguma estrada vicinal perto de Eau Claire ou Coeur D’Alene. Quando ele teve que ficar sentado horas a fio enquanto o prefeito de Waxahachie ou de Carpinteria pedia para fazer mais uma vez seu retrato com o famoso Leo, porque tinha certeza que havia piscado na foto anterior.

Mas ele estava bem alimentado. E bem cuidado. Seus tratadores eram bondosos, dentro de certos limites, históricos e científicos. Teria sido ruim para os negócios se eles não fossem.

Ele passou sua aposentadoria no Zoológico da Filadélfia, onde morreu bem jovem, de problemas cardíacos. Leões africanos levaram vidas bem piores na América do Norte.

Houve outros Leos depois de Jackie. Todos obrigados a fazer coisas que não nasceram para fazer. Mas Jackie ainda está registrado para sempre. Você pode ver sua imagem no comecinho de filmes antigos. De vez em quando pode deparar com ele na televisão. Pode procurar no YouTube.

É Jackie, ali, em tons de sépia, na abertura de O Mágico de Oz. E é bom vê-lo ali.

Mas veja Jackie também numa jaula. Ao lado dos destroços de um monomotor, no meio do deserto do Arizona. E por favor não ignore as grades. Veja as grades. Porque ele estava preso. Para sempre.

Mas veja aquele leão no deserto. Alerta, procurando predadores. De olho no horizonte e no mato baixo, esperando registrar algum movimento. Presas. Respirando o ar do deserto. Olhando das estrelas para as colinas baixas ao redor.

Sem luzes da cidade.

Sem a placa de Hollywood.

ENLOUQUECIDOS

A velhinha, ajoelhada diante do altar à luz trêmula das velas, perdida em suas orações, não ouviu o urso entrar na Igreja de Saint Thomas.

E assim sua morte, que chegou quando os dentes do urso-pardo se enterraram em sua garganta, por mais que tenha sido horrenda, foi súbita e veloz, e portanto relativamente piedosa. Na medida do possível.

A jovem babá numa carruagem puxada por cavalos, segurando os pequenos que estavam sob sua responsabilidade, não pôde protegê-los do leão que os atacou e levou as quatro criancinhas.

As moças, costureiras que tinham largado agulhas, dedais e tesouras para dar um passeio ao sol, não esperavam ver um rinoceronte cortando caminho pelo parque. Nem ver o chifre dele perfurar a pobre Annie Thomas, amiga delas.

Os nova-iorquinos que acordaram numa segunda-feira do mês de novembro de 1874 e leram a manchete do Herald anunciando aos berros um SABÁ CHOCANTE, UM CARNAVAL DE CARNICERIA, ficaram atordoados ao descobrir o que ocorrera na cidade poucas horas antes – leram a notícia do rinoceronte do Zoológico do Central Park, e do zelador do zoológico que cutucou a fera com uma vara, por entre as finas barras da jaula, provocando sem motivo o animal. Bem no final do dia, quando os últimos visitantes saíam pelo portão.

Então o rinoceronte começou a jogar o corpo contra as barras, que se dobraram até que se romperam. Assim como os ossos do zelador. Então o colosso passou por cima dele e seguiu alucinado, destruindo as jaulas de outros animais, até que a pantera, os leões, o tigre e os ursos (pardo e polar), e os lobos (também havia lobos) estavam todos de alguma maneira livres e enlouquecidos.

Hienas gargalhantes, macacos aos gritos saltando livres, saltando para as árvores que ficavam do outro lado da cerca de metal.

Os detalhes eram chocantes. A velhinha na igreja. A babá com as crianças na carruagem. As costureiras desesperadas e a pobre Annie Thomas. Perfurada.

E havia mais. Espantados comensais de um piquenique viraram o almoço de um leopardo. Jovens rapazes pisoteados por jovens elefantes. Dezenas de feridos lotavam o Bellevue Hospital, alguns mal se mantendo em pé.

Os leitores ficaram sabendo da batalha sangrenta entre um tigre e um leão em plena rua 59. Ficaram sabendo do wallaby e dos perus e dos gansos-de-bico-curto… e das girafas e de um tapir, do merganso-de-poupa e do mergulhão-caçador, do cisne-trombeteiro e assim por diante… todos eles mortos quando foram finalmente encontrados.

E ficaram sabendo os nomes das 49 pessoas mortas. Pelo menos das que tinham sido identificadas antes de o Herald ir para a gráfica.

E ficaram sabendo dos heróis.

Os caçadores suecos que abateram uma leoa que estava a caminho da Broadway. E o próprio governador, um veterano da Guerra Civil com quase 80 anos de idade, mas ainda bom de tiro, que correu para o local com seu rifle e matou o tigre-de-bengala, na esquina da Madison com a 34.

E esses nova-iorquinos, que ficaram sabendo dos horrores do dia anterior, também ficaram sabendo dos animais ainda desaparecidos. Anacondas e pumas. Assassinos à solta. E entraram em pânico, alguns.

Alguns não saíram de casa, fizeram barricadas em suas portas. Alguns correram até a escola dos filhos para trazê-los de volta. Alguns dispararam para o porto e se amontoaram em balsas que seguiam rumo à segurança de Nova Jersey. Ou dos bairros afastados.

Outros também pegaram em armas. E montaram guarda à janela. Ocuparam postos de tiro nas escadas de incêndio e nos telhados. Ou foram para a rua, rumo ao parque, para cuidar daquilo com as próprias mãos.

O editor do New York Times correu até a delegacia central na rua Mulberry e manifestou sua indignação pelo fato de que a maior notícia da história da cidade estava se desenrolando sem que alguém falasse com o jornal dele.

Mas se ele, se qualquer um dos nova-iorquinos que agora se encolhiam embaixo da cama, que agora vasculhavam o Central Park, pistolas na mão, que agora suspiravam aliviados enquanto o horizonte de Manhattan desaparecia na distância vislumbrada da popa da balsa que os levaria a Staten Island… se qualquer um deles tivesse lido até o fim o artigo no New York Herald daquela manhã, se tivessem lido até o último parágrafo, que começa com:

É claro que toda a notícia acima é pura invenção. Nenhuma palavra ali é verdade.

Eles não teriam entrado em pânico…

Mas ainda podiam ter se sentido indignados.

Como o editor do Times, quando finalmente percebeu que era tudo uma armação. Como os policiais que tiveram que restituir a cidade à normalidade e precisaram conter pessoas de verdade (com armas de verdade) que estavam à procura de rinocerontes de mentira. Como o prefeito, que não engoliu a defesa do Herald, de que seus editores queriam dramatizar a necessidade de maiores medidas de segurança num zoológico que penava por falta de recursos.

Mas eles no fundo acabaram dando uma lição. Uma lição que vale a pena recordar de vez em quando.

Sobre os problemas que podem surgir quando você solta monstros imaginários no mundo.

Trecho do livro O Palácio da Memória: Pessoas Extraordinárias em Tempos Conturbados, que a editora Todavia lançará em julho.


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Nate DiMeo, radialista, humorista e escritor norte-americano, atualmente faz residência artística no Museu Metropolitan de Nova York