anais da República
Celso Rocha de Barros Out 2017 21h53
38 min de leitura
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Como Hamlet, os Diários da Presidência de Fernando Henrique Cardoso trazem uma peça dentro da peça: enquanto escrevia suas anotações (e governava o Brasil), FHC leu os diários então recém-publicados de Getúlio Vargas. Esse encontro de presidentes-escritores é importante: em mais de um momento, FHC declarou sua intenção de encerrar a “Era Vargas”.
Não era tarefa fácil. Afinal, se contarmos a Era Vargas como o período que se iniciou com a Revolução de 30 e terminou com o fim do regime militar, ela foi, na maior parte do tempo, um enorme sucesso. O Brasil esteve entre os países que mais cresceram no século XX. Mas o modelo de desenvolvimento capitaneado pelo Estado, que começa com Vargas e chega a seu limite com Geisel, esgotou-se nos anos 80. Embora já fosse um intelectual internacionalmente reconhecido, foi nos anos 80 que nasceu o político FHC, e é nítido como essa experiência formativa o marcou. Na p. 425 do vol. 3 dos Diários, por exemplo, o ex-presidente escreve sobre a necessidade de “um programa viável para o Brasil sair da situação em que foi deixado pela década que vai, na verdade, dos anos 1980, 82, a 92”.
Mas essa saída da crise dos 80 deveria ser, também, o começo de uma nova era. Depois de nos conduzir brilhantemente à condição de país de renda média, a Era Vargas travou na hora de nos fazer dar o salto à renda alta. Em uma visita à Ásia, FHC testemunha o crescimento da Malásia e reflete: “A Malásia deu um salto que nós não demos” (vol. 1, p. 373). A tarefa dos governos brasileiros desde a redemocratização foi criar as bases para esse salto.
E, nessa tarefa, FHC diversas vezes parou para pensar em Vargas. Se alguém duvida que Getúlio Vargas foi um dos founding fathers do Brasil moderno, que leia os Diários da Presidência e note como FHC, enquanto tenta superar a Era Vargas, dialoga com seu antecessor. É um relacionamento imaginário bem mais sutil e nuançado do que se poderia imaginar.
O próprio FHC admite que quer encerrar a Era Vargas “num certo sentido (…); em outro não” (vol. 1, p. 379), e respeita os esforços de Getúlio para modernizar o Estado brasileiro. Mas a semelhança mais notável que o então presidente vê entre ele e seu antecessor é a posição de ambos diante do conjunto de forças da sociedade brasileira.
FHC acredita que, como Vargas, ele era um “presidente progressista de um governo conservador”, o que talvez fosse a repetição de um padrão estrutural brasileiro (vol. 1, p. 490): as forças da mudança não são poderosas o suficiente para promover uma reforma ampla da sociedade (para “romper”), e os esforços possíveis não são suficientes para atrair a esquerda, o que força os reformadores a se aliarem ao atraso.
Esse é um dos temas que perpassam os Diários: FHC lamenta que tenha tido que se aliar à direita fisiológica brasileira para implementar seu programa, enquanto preferia tê-lo feito em aliança com a esquerda. Na p. 486 do vol. 1, escreve que “as forças que deveriam ajudar nesse processo não têm consciência do seu papel histórico”. Na introdução ao vol. 2, lamenta não ter conseguido formar “uma aliança mais coerente com o que pensávamos” (p. 17). Mais adiante, no mesmo volume, critica o “pseudoesquerdismo, atrasado, e que nos obriga a ficar com esse pessoal todo, tipo Maluf, com quem eu preferia não estar” (p. 726).
Na falta de aliados à esquerda, fhc teria sido obrigado a se aliar à direita fisiológica que, a seus olhos, era mais fisiológica do que direita. Já na introdução ao vol. 1, conclui que a resistência da esquerda à globalização levou “setores progressistas mais desejosos de avançar na modernização do país a terem de contar, mais e mais, com os setores atrasados, que mais querem se aproveitar de cargos. Estes setores, mais do que serem a expressão de uma ‘direita’, representam interesses chamados de ‘fisiológicos’” (vol. 1, p. 14).
O autor dos Diários tem perfeita consciência do quão varguista é esse jogo, essa tentativa de jogar com os diversos lados em disputa. Sabe bem que, embora esteja tentando desmontar o sistema varguista, “temos que desmontar usando métodos não muito diferentes daqueles do Getúlio” (vol. 1, p. 372).
Os Diários da Presidência são um precioso documento dos anos 90 do século XX. O Muro de Berlim havia caído, a revolução da internet (o que FHC chama de “a telinha”) conectava o mundo, e um certo “otimismo clintoniano” sugeria ser possível superar os traumas da Guerra Fria por meio da integração mundial pela economia, pela democracia e pelo diálogo entre as culturas. Não sei o quão utópico isso parece a alguém que tem 20 anos hoje, mas esta era a visão da época, inclusive entre muitos críticos da globalização realmente existente.
Se há uma convicção que perpassa os Diários, é que a globalização é o futuro e é preciso se adaptar a ela. O tema da globalização aparece nos registros como “o moderno”, outra caracterização típica dos anos 90. FHC lamenta ter promovido essa modernização aliado às forças “do atraso”, mas não tem dúvidas de que seu objetivo é melhor do que sua coalizão.
Para quem frequentou departamentos de ciências sociais nos anos 90, as descrições da globalização são familiares: tempo e espaço pareciam ter se comprimido diante das tecnologias de transporte e comunicação, possibilitando a formação de cadeias produtivas globais. Era um passo além da simples presença de multinacionais em países dependentes que FHC estudou como sociólogo. Era um mundo descrito – com alguns excessos retóricos típicos de quem analisa coisas novas sobre as quais os dados ainda eram escassos – por autores como Anthony Giddens e Manuel Castells, ambos citados reiteradamente (na p. 415 do vol. 2, FHC se refere ao “nosso fantástico Anthony Giddens”).
A propósito, o “clintonianismo” de FHC é, também, literal: a admiração mútua entre os dois líderes é evidente. O brasileiro considera o americano o maior líder de sua época. Os dois participam das conferências da Terceira Via. Em um dado momento, FHC afirma que, se Bill Clinton vivesse no Brasil, ele seria filiado ao PSDB (vol. 2, p. 550). É verdade.
Mas o otimismo clintoniano não era a única corrente ideológica influente dos anos 90. Na esquerda havia também um forte sentimento melancólico de que a globalização havia fechado os espaços da política social-democrata do pós-guerra. A mobilidade de capitais dificultava taxar os ricos e, num sentido mais geral, aumentava o poder de barganha das multinacionais diante dos Estados que as acolhiam. Quando os Diários eram escritos, já não estávamos nos anos 80 do thatcherismo, mas ainda havia algo de Tina (There Is No Alternative, “não há alternativa”) no ar.
O otimismo clintoniano de FHC convive com uma resignação diante da inevitabilidade da internacionalização do capital. Se a convicção de que é necessário preparar o país para a globalização aparece nas defesas das reformas (quando o obstáculo, em geral, eram os aliados), nas vezes em que FHC se imagina discutindo com seu esquerdista interior o tom é outro.
FHC se desespera com a incapacidade da esquerda de perceber que não há, no momento atual, alternativa ao capitalismo global no horizonte. Se houvesse, ele mesmo a apoiaria (vol. 3, p. 108), chega a dizer em um dado momento. Mas não há. Numa de suas conversas com Cristovam Buarque, um dos petistas com quem mantém diálogos mais frequentes, é o interlocutor quem lhe diz que “quem não quiser administrar o capitalismo não deve ser governo nesse momento histórico” (vol. 2, p. 437). FHC e Buarque estavam certos, como o PT implicitamente aceitaria na década seguinte.
É bastante evidente, entretanto, que FHC não tem uma visão idealizada da economia global. E não é à toa: a globalização o tratou muito mal.
Desde os primeiros meses do governo está claro que a economia internacional não vai jogar a favor do Plano Real. Logo após a eleição de 1994, o México quebrou, e já no início do mandato FHC escreve: “O que me preocupa é essa nuvem negra externa, que não estava no mapa” (vol. 1, p. 72). Ao longo dos seus oito anos de mandato, FHC ainda enfrentaria as crises asiática e russa, além do estouro da bolha da internet nos Estados Unidos na virada dos anos 2000. É evidente para o leitor que fhc sai de cada crise com menos expectativas a respeito do que é possível fazer.
Conforme as turbulências econômicas globais se sucedem, a reflexão do presidente brasileiro sobre o “déficit de governança global” se torna mais crítica. FHC diz ter “horror ao neoliberalismo” (vol. 2, p. 448). Depreende-se do texto que o neoliberalismo seria, para ele, uma espécie de thatcherismo ingênuo. Em mais de um momento expressa seu entusiasmo por críticos razoáveis da globalização, como Joseph Stiglitz e Dani Rodrik. Em diversos momentos lamenta que a economia global tenha se tornado um cassino. Manifesta apoio ao imposto Tobin, proposta de taxação dos fluxos financeiros globais; defende o fortalecimento do Bank for International Settlements (BIS), um ponto comum de todas as defesas da governança global da época. Pensa em escrever um documento que seria assinado também por outros líderes, deixando claro para as instituições internacionais que os ajustes fiscais estavam se tornando socialmente difíceis de sustentar (vol. 2, p. 602).
E várias vezes se choca com a falta de capacidade de liderança dos Estados Unidos: seja quando lamenta as intervenções militares americanas, seja quando se escandaliza com o fato de que o episódio Lewinsky tenha se tornado um momento de humilhação para Clinton e de paralisia política no hegemon global. A nova Roma, lamenta por vezes, parece ter nascido já sob Nero (vol. 2, p. 805).
Enfim, a visão de Fernando Henrique Cardoso sobre a globalização é complexa. Ao mesmo tempo que o presidente da República acreditava que abrir a economia brasileira era um dos mecanismos necessários à sua modernização, sua visão sobre a globalização financeira era bastante negativa. O que, a propósito, é um diagnóstico razoável.
O momento em que o capitalismo global realmente dá uma surra no governo do PSDB é na sequência de pânicos do mercado que precedem e sucedem a eleição de 1998, que culminaram na desvalorização do real em janeiro de 1999.
Até a desvalorização, a grande preocupação que FHC demonstra era o câmbio. Uma das grandes histórias dos Diários é o desenrolar dos conflitos e tensões dentro da equipe econômica sobre quantos dólares o real seria capaz de comprar. Afinal, até então, na cabeça de todos os brasileiros, o Plano Real era a âncora cambial. Foi ela que derrotou a hiperinflação de maneira espetacular e transformou Fernando Henrique Cardoso, de político idealista favorito de intelectuais e artistas em estadista de fato.
FHC é atormentado durante todo o primeiro mandato por dúvidas sobre o câmbio. Logo percebe que errou ao não começar a desvalorização no início do governo, como propunha Pérsio Arida. Em torno da questão do câmbio se armam as disputas entre José Serra e o resto da equipe econômica, que ocupam boa parte do vol. 1. É notável o esforço do presidente-sociólogo para compreender fórmulas de desvalorização (o “cone”, a “serpente”) que desafiariam mesmo economistas experientes. Em um dado momento, FHC se pergunta se o mercado não ignoraria todas aquelas tecnicalidades e derrubaria a coisa toda “como um castelo de cartas” (vol. 3, p. 66). Estava certo.
A campanha eleitoral de 1998 praticamente não aparece: durante todo o segundo semestre deste ano, enquanto concorria à reeleição, FHC estava preocupado com a crise econômica. Não por acaso, a vitória em meio à crise é descrita na introdução ao vol. 2 como “fácil e sensabor” (vol. 2, p. 16).
A vitória foi um estelionato? A suspeita sempre foi evidente. Afinal, pouco tempo depois de se reeleger, o governo desvalorizou o real.
Não acho que o que se lê nos Diários sirva para desfazer inteiramente a impressão de estelionato eleitoral em 1998. Há dois motivos para nuançar esse diagnóstico, mas nenhum deles me parece suficiente para revertê-lo.
Em primeiro lugar, é verdade que FHC já havia anunciado, em discurso no Itamaraty de 23 de setembro (onze dias antes da reeleição), que o novo governo seria um governo de ajustes, que exigiriam sacrifícios da população. Entretanto, os sacrifícios mencionados eram de natureza fiscal: cortes de gastos, aumentos de impostos e os típicos apertos de cinto exigidos em acordos com o Fundo Monetário Internacional.
E, antes do pleito, enquanto reflete sobre os ajustes pesados que precisaria fazer, FHC interrompe sua narrativa para escrever: “Agora, uma reflexão ultrassecreta” (vol. 2, pp. 709-10).
O segredo em questão era que o fundamental, na situação, seria realinhar o câmbio, como já deveria ter sido feito. O ajuste fiscal era necessário, mas não resolveria nada se o problema do câmbio não fosse resolvido.
Repito: àquela altura, o câmbio era o Plano Real. E a população não foi avisada de que o câmbio, que era o Plano Real, seria alterado. Sob este aspecto, o estelionato foi claro.
Por outro lado, é preciso conceder que, embora FHC, na campanha, já soubesse que precisaria desvalorizar a moeda, não tinha em mente uma desvalorização tão ampla e abrupta como a que de fato ocorreu. Após a substituição de Gustavo Franco (que insistiu no erro até o fim), a Presidência do Banco Central passou para Francisco Lopes, que fracassou espetacularmente na tentativa de promover uma desvalorização suave. Não é justo para com FHC dizer que a desvalorização caótica que se seguiu fosse parte do plano. É razoável debater o tamanho do estelionato eleitoral.
Algumas das melhores páginas dos três volumes se referem às semanas que se seguiram à desvalorização. Logo no começo, FHC encerra uma gravação diária declarando: “Les jeux sont faits”, o jogo está feito (vol. 3, p. 49). No dia seguinte, relembra a frase e conclui: o jogo foi feito, “e nós perdemos a primeira rodada”. Quando, alguns dias depois, a situação melhora, ele comemora: a desvalorização cambial brasileira está mais parecida com o sucesso da desvalorização britânica do que com o caos da desvalorização mexicana, o que sugere que o Brasil já está bem mais para Inglaterra do que para México. No dia seguinte, o mercado vira e essa impressão se desfaz, para enorme frustração do presidente. A perda de confiança em Francisco Lopes é bastante rápida, o desânimo de FHC diante do caráter de cassino do capitalismo global fica cada vez mais evidente e, até que Armínio Fraga assuma a presidência do BC, o país segue à deriva. Note-se, a propósito, que depois que Fraga assume a economia há muito menos menções ao dia a dia da gestão econômica. Isso dá uma ideia da centralidade do câmbio no debate do primeiro mandato.
É preciso, entretanto, dizer uma palavra em defesa do capitalismo global, contra FHC. Não há dúvida de que a fase global do capitalismo tem sido marcada por crises financeiras muito violentas (a pior das quais, sem dúvida, foi a de 2008). Mas o tipo de ataque especulativo que o Brasil sofreu era bem mais comum em países que estavam com seus fundamentos macroeconômicos desequilibrados, como era o caso de nosso câmbio. Não é bonito que os financistas internacionais possam especular sobre a sorte das diversas economias nacionais, mas também é verdade que dificilmente apostam contra as economias bem administradas. E, como FHC reconhecia claramente, o câmbio brasileiro não havia sido bem administrado em seu primeiro mandato.
O Plano Real deu errado em janeiro de 1999? Essa interpretação é plausível. Afinal, a grande inovação do plano introduzido em 1994 era, como vimos, a âncora cambial. Talvez a inflação tivesse voltado se não fosse a introdução do sistema de metas de inflação durante a gestão de Armínio Fraga, em 1999. Na introdução ao vol. 3, FHC afirma que o Plano Real era mais do que a política cambial: era todo um programa de ajustes modernizadores. E, daí em diante, uma nova fase do Plano Real foi iniciada. É um revisionismo histórico, mas é razoável. Até porque não sabemos se o sistema de metas de inflação, se introduzido em 1994, teria sido capaz de derrotar a hiperinflação.
A desvalorização cambial no começo do segundo mandato foi a grande ruptura dentro da história que é contada nos Diários. Até então, FHC parecia bastante voluntarista e entusiasmado, como, aliás, era natural em quem implementou o Plano Real, derrotou a hiperinflação e foi eleito no primeiro turno duas vezes. Daí em diante, seu humor muda. Nos volumes 2 e 3, a maioria das referências a Vargas é sobre o período de seu declínio.
E fica claro que a verdadeira herança maldita de FHC foi deixada para ele mesmo. Não sei se a reeleição foi comprada, mas não resta dúvida de que ela custou caro.
Alguns dos momentos em que FHC aparece mais relaxado e de bem com a vida são em seus finais de ano na restinga da Marambaia, área de praia de uso privativo dos militares no Rio de Janeiro. Em uma de suas estadias (vol. 2, pp. 448-51), entretanto, o presidente é assaltado por uma lembrança sombria: Ulysses Guimarães morrera ali perto, quando seu helicóptero caíra no mar.
É a oportunidade de FHC deixar para a posteridade suas impressões sobre Ulysses. Elas são, no geral, positivas, mas escapam das hagiografias habituais do “Sr. Diretas”. Segundo os Diários, Ulysses, em comparação com FHC, era “menos sabedor das coisas de economia, mais interessado na política pura e até mesmo no que hoje se chamaria de politicalha. Ulysses não era da politicalha, mas sabia que uma dose dela era indispensável. Aceitava uma dose maior de fisiologia do que sou capaz de aceitar”. Enfim, se Ulysses não roubava, tampouco tinha como bandeira o combate à corrupção.
FHC, evidentemente, se acha muito diferente de Ulysses nesse aspecto, mas talvez a perspectiva histórica nos permita enxergar nessa diferença apenas uma nuance. Em mais de uma entrada do diário, FHC se preocupa com a corrupção, ou, em suas palavras, com a “podridão” em seu governo. Parece sincero em não desejar ter gente corrupta a seu lado. Por exemplo, em 23 de março de 1996, nega o pedido de Francisco Dornelles (atual vice-governador do Rio de Janeiro) para nomear um desconhecido para um cargo na Petrobras, um tal de Eduardo Cunha. FHC lembra que o indicado era homem de Fernando Collor de Mello, afastado da Telecomunicações do Estado do Rio de Janeiro (Telerj) por Itamar Franco em meio a suspeitas, e prefere não se meter nisso.
Cunha ainda aparecerá como um dos suspeitos de ter feito o grampo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES): antes de ser um político picareta, já era um picareta que operava para políticos. Acabaria como presidente de facto em 2015, derrubando Dilma em 2016.
E o primeiro momento em que FHC parece realmente desanimar da Presidência acontece em 25 de abril de 1996, quando precisa demitir Dorothea Werneck para nomear ministro alguém do Partido Progressista Brasileiro, o PPB (acredite se quiser, é Dornelles de novo). Werneck teme que seu bom trabalho seja desperdiçado pela nova turma e vê risco de corrupção. FHC não confirma a suspeita, tampouco a refuta. Vale notar, o presidente havia registrado, poucos dias antes, que o PPB queria, em vez da Indústria e Comércio, manter a Agricultura, “para os fins conhecidos”.
Por outro lado, FHC sabe que precisa fazer alianças para governar, e sabe quem são seus aliados. Em 16 de maio de 1997 (vol. 2, p. 195), decide nomear Iris Rezende e Eliseu Padilha (esse mesmo) para o ministério, como forma de atrair o PMDB para a base do governo. Anota, naquele dia: “Não posso governar só com pessoas próximas a mim […] Então tenho que fazer um pacto político. E um pacto político é sempre um pacto com o diabo, eu sei. Mas estou disposto a defender a necessidade de governabilidade.” FHC sabe o que está comprando quando compra o PMDB: o partido quer “posições que deem acesso a recursos, e temos que fazer uma tourada o tempo todo para evitar que isso vire um escândalo ou que eles realmente usem esses recursos malversando-os” (vol. 3, p. 111). E não tem muitas ilusões quanto aos outros partidos: em maior ou menor grau, todos se parecem com o PMDB nesse aspecto.
O PMDB, aliás, não devia querer só recursos, porque pede, e consegue, o Ministério da Justiça. Isso mesmo, o PMDB nomeou o sujeito que escolhe o comando da Polícia Federal. Isso, esse PMDB mesmo que está aí. Um dos ministros foi Renan Calheiros (não, não é um homônimo), que, do ponto de vista de FHC, tinha a vantagem de fazer a ponte entre José Sarney e Jader Barbalho (só craques nesta história). Recentemente, descobrimos que “Justiça” era o codinome de Renan na planilha da Odebrecht.
Outro ministro pemedebista na Justiça foi Iris Rezende. Em 17 de junho de 1997, Rezende informou FHC que foi procurado por Michel Temer, Jader Barbalho e Geddel Vieira Lima (o dos 51 milhões), que queriam mudar o diretor do departamento de presídios do Ministério da Justiça. FHC escreveu (vol. 2, p. 232): “[…] me pareceu um tanto estranho que três dos principais líderes do pmdb queiram mudar um posto tão baixo e no qual existem licitações. Não quero me antecipar com maledicências, mas me deu uma ponta de preocupação.”
Se o PMDB queria mandar nos presídios já prevendo a situação atual, todos temos que reconhecer que os caras enxergavam mesmo longe.
Isso quer dizer que FHC sabia haver corrupção em seu governo e não fazia nada? Depende do que se quer dizer com “sabia”. Afinal, quando Roberto Jefferson denunciou o mensalão, um amigo petista me disse: “Bom, no fundo, quando a gente viu que o Jefferson nos apoiava, já devia ter calculado que alguma coisa estávamos pagando.”
FHC não virou presidente da República sendo bobo, e tinha consciência de quem era quem em Brasília. Quando Michel Temer e sua turma se mostram particularmente obstinados na indicação de Eliseu Padilha para o Ministério dos Transportes, FHC vê na insistência um mau sinal. É como no diálogo entre Luiz Inácio Lula da Silva e Delcídio do Amaral narrado na delação deste último: ao saber que um indicado para Furnas tinha apoio de todas as forças políticas, Lula comenta “esse deve estar roubando muito”. Nos dois casos, os indicados foram nomeados.
Desse ponto de vista, FHC sabia que havia corrupção em seu governo. Não imagino o quão estúpido um presidente brasileiro precisaria ser para não sabê-lo.
Mas é bastante improvável que algum assessor um dia tenha entrado no Palácio do Planalto dizendo: “Alô, presidente, tamos aí, só na compra de votos! Mantendo a tradição do patrimonialismo ibérico! Uhu!” Os políticos sabem que não se deve contar para o presidente as picaretagens que estão fazendo. Como dizem os americanos, é preciso preservar a deniability, a capacidade de negar com sinceridade. Desse ponto de vista, é improvável que o presidente soubesse dos esquemas específicos em operação.
Quem quiser dar show acusando FHC (ou os outros presidentes) por apelar ao fisiologismo na composição de suas coalizões de governo, vá em frente, divirta-se.
Mas a verdade é que a Presidência da República não é o melhor ponto de onde se dá combate à corrupção. O presidente é eleito para operar um sistema que não foi montado por ele. Não é ele quem cria os partidos, não é ele quem escolhe o Congresso ou os governadores, não é ele quem decide se cartéis de empresários já compraram a classe política. Ele pode propor medidas para combater a corrupção, pode demitir assessores que sejam acusados, mas na descrição de seu cargo está escrito que ele precisa montar uma coalizão para governar e, governando, precisa produzir resultados. Um presidente que seja honesto, mas que se mostre incapaz de governar, vai se tornar impopular muito rápido, e nós votaremos contra ele nas próximas eleições.
O combate à corrupção se faz por boas leis, por instituições fortes, como o Judiciário e a polícia, pela imprensa livre e pela sociedade civil organizada. O presidente pode ajudar nisso tudo, mas, repito, inclusive pensando em 2018: não vote esperando que quem vencer limpe o sistema de cima a baixo. Quem faz isso é a polícia, é o Judiciário, são outras instituições que não são avaliadas pelas consequências de suas decisões, mas pelo quanto elas aderem às regras morais e às leis. Essas instituições só começaram a funcionar no Brasil recentemente e, antes disso, os presidentes já precisavam governar.
Vimos que FHC protesta que precisou se aliar “ao atraso” para modernizar o Brasil. Quem era “o atraso”? Era a direita brasileira, que, entretanto, é caracterizada o tempo todo como puramente fisiológica, sem perfil ideológico claro. FHC gosta de uma citação de Sérgio Buarque de Holanda: no Brasil não há conservadorismo, há atraso. Quando Armínio Fraga vai ser sabatinado no Senado, FHC o aconselha a não ser liberal, aqui no Brasil ninguém gosta de capitalismo: “Eles gostam do Estado, eles gostam de intervenção, de controle de câmbio, enfim, no que você puder ser conservador é melhor do que ser liberal” (vol. 3, p. 107). Quando sugere que Fraga seja “conservador”, é provável que queira dizer, nos termos de Sérgio Buarque de Holanda, “atrasado”.
FHC acredita que a esquerda está errada em ver em seu governo uma manifestação da direita. Acredita que venceu a esquerda e “neutralizou” a direita; que seu governo, na verdade, solapa as bases do poder do Partido da Frente Liberal (PFL) – por tirar-lhe ministérios em que a direita sempre foi forte, como Comunicações, Fazenda e Educação. Essa direita sobreviveria sobretudo como fisiologismo. Isso era, sem dúvida, irritante e, por vezes, um obstáculo; mas não era um risco político ou ideológico sério.
Há, é claro, outra possibilidade de interpretar essa configuração. Talvez FHC tenha neutralizado a direita porque tomou seu lugar, suas bandeiras – passou a exercer suas funções. Em um dado momento, o presidente lamenta que o PFL, por ser um partido mais experiente do que o PSDB, era mais competente do que os tucanos na defesa do governo. Não seria porque o programa implementado pelo governo era mais próximo dos pefelistas? Em três volumes recheados de reclamações contra a imprensa, em um dado momento FHC elogia a postura do Estado de S. Paulo, que sempre foi 100% correto na defesa de seu governo. É um acaso que seu governo tenha sido defendido com mais ênfase pelo mais conservador entre os jornais brasileiros?
Da mesma forma, não poderia a oposição da esquerda ser explicada por diferenças reais de interesses? A esquerda petista, em especial, era fortemente baseada nos sindicatos. Era possível dizer que esses setores sindicalizados só tinham a ganhar com a abertura comercial e as reformas? O ajuste fiscal, mesmo se necessário, não tinha custos sociais reais?
Enfim, FHC talvez devesse ter considerado a possibilidade de que, quando você não vê o direitista na mesa, o direitista talvez seja você. Não, o indivíduo Fernando Henrique Cardoso nunca foi de direita e talvez seja até mais de esquerda do que eu. Mas seu governo era um governo de centro-direita, o que só é polêmico porque no Brasil a ditadura tornou tabu reconhecer-se como direitista, como se gente inteiramente razoável como Angela Merkel ou David Cameron não fosse de direita.
Isso mudou recentemente, mas Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho, o general Antonio Hamilton Martins Mourão e a turma do impeachment parecem dispostos a fazer a direita brasileira passar tanta vergonha que, cedo ou tarde, os direitistas moderados devem tentar se refugiar novamente em algum rótulo centrista.
Os Diários demonstram que Fernando Henrique Cardoso nunca deixou de se considerar membro da família da esquerda. Fica evidente que ele gostaria de reconciliar sua história na esquerda com a prática de seu governo.
Já na introdução ao primeiro volume, encontramos a autocaracterização recorrente do presidente: para modernizar o país, parte dos progressistas precisou se aliar ao atraso, porque a esquerda não foi capaz de compreender sua tarefa histórica. Não há grande esforço para demonstrar por que a tarefa histórica da esquerda seria essa, mas pode-se especular que ela seja o reflexo da caracterização da direita como exclusivamente fisiológica, sem grande identidade ideológica. Se quisermos utilizar a linguagem marxista (e forçar um pouco a barra), então caberia à esquerda realizar no Brasil as tarefas da revolução burguesa, que, desta perspectiva, exigiria superar tanto o patrimonialismo conservador quanto o populismo varguista.
A acusação de que a esquerda não compreendeu seu papel é, naturalmente, um discurso político. Mas há motivos para acreditar que FHC estivesse sendo razoavelmente sincero. Ao longo dos Diários, ele se entusiasma sempre que se abre uma possibilidade de diálogo com a esquerda. Durante toda sua Presidência, em que pesem as disputas acirradas na área pública, manteve canais abertos com alguns políticos de esquerda: Roberto Freire, em especial, mas também José Genoíno, Cristovam Buarque, Miguel Arraes, Miro Teixeira, Paulo Delgado, os governadores do PT (Vitor Buaiz, Zeca do PT, os irmãos Tião e Jorge Viana, e mesmo Olívio Dutra). Era comum que esses interlocutores expressassem ao presidente suas insatisfações com o radicalismo do PT e, no caso dos não petistas, manifestassem o desejo de construir um polo alternativo não petista na esquerda. É claro que podem ter exagerado suas divergências com o PT para conquistar a simpatia de FHC. Mas muitos deles, de fato, acabaram por romper com o partido.
Um caso notável é Tarso Genro, descrito por FHC como “o melhor entre os petistas” (vol. 1, pp. 756-57). Hoje Genro está mais próximo da esquerda petista, mas é importante lembrar o papel que teve justamente porque conseguia dialogar com os intelectuais mais à esquerda na negociação de “uma moratória com a utopia”, título de um artigo que Genro publicou na Folha de S.Paulo em 13 de janeiro de 1994. Preparando-se para o que certamente achava que seria uma vitória de Lula no final do ano, Genro escreveu: “É impossível pensarmos o futuro fora das relações econômicas e políticas internacionais e alheios a um projeto de indução racional da atividade privada. É impossível pensar a democracia fora de uma profunda reforma do Estado brasileiro que distinga radicalmente o público e o estatal, cuja confusão só interessa aos oligopólios e ao sindicalismo corporativista.” Esse trecho parece saído direto dos Diários da Presidência.
Cinco anos depois, em 1999, Genro pediria a renúncia de FHC na mesma Folha. E continuou se deslocando para a esquerda conforme os moderados do PT iam se envolvendo em corrupção.
Não se sabe bem o que FHC tinha a oferecer programaticamente no caso de a esquerda aceitar sua oferta de aproximação. Há uma discussão promissora com Aloizio Mercadante sobre tributação progressiva (vol. 3, pp. 747-48), mas ficamos sem saber exatamente em que bases o reencontro entre FHC e a esquerda poderia ter acontecido. E, sobretudo, não é fácil imaginar que os aliados conservadores que apoiavam FHC no Congresso teriam mantido o apoio se perdessem espaço para os esquerdistas.
Como se poderia supor o PT é constantemente criticado, às vezes de forma dura. Mas é também perceptível como FHC sente, por vezes, uma decepção com os petistas, mais do que com seus outros adversários de esquerda, pois o partido era uma esperança de renovação: “O PT, que podia ter sido outra coisa, fica encurralado ideologicamente” por PDT e PCdoB (vol. 3, p. 297). O que poderia ter distinguido o PT do resto da esquerda era justamente sua atitude diante de Vargas.
Um dos maiores momentos dos Diários começa quando FHC escreve, em 17 de novembro de 1998: “Tive uma grande satisfação. O Lula me telefonou.” Foi logo depois da eleição de 1998, e os dois acabam por se encontrar no Palácio da Alvorada para uma conversa que, segundo FHC, transcorreu como se tivessem se visto na véspera (vol. 2, p. 788).
FHC protestou que Lula estava se tornando muito parecido com Leonel Brizo-la, se aproximando demais da herança do varguismo. Segue-se o melhor diálogo do livro: “Pois é, e eu, que nunca fui varguista”, diz Lula. “Pois é, você era melhor quando não era varguista”, responde FHC.
Novas frentes de diálogo se abrem, mas as conversas acabam não prosperando e o clima de animosidade retorna. Não se sabe se uma aliança seria possível. Como mostrou André Singer em Os Sentidos do Lulismo, a própria reaproximação do PT com a “gramática do populismo” refletiu pressões históricas profundas: o refluxo da industrialização brasileira (o que Dani Rodrik chamou de “desindustrialização prematura”) acabou com a ilusão de que todos os trabalhadores brasileiros se tornariam operários sindicalizados (como Lula). A ligação direta com os liderados, típica do populismo (e aqui o termo é usado sem julgamento de valor), teria sido consequência natural da incapacidade de constituir organizações de massa com base em trabalhadores urbanos informais, o que não é um problema só do Brasil.
Além disso, enquanto dialoga com a esquerda realmente existente, FHC sonha em construir uma nova, mais à imagem do que o PSDB vinha se tornando (ou do que ele acha que o PSDB estava se tornando). A abertura histórica para essa esperança foi o surgimento da Terceira Via nos países ricos.
Ao longo de sua Presidência, FHC estabelece boas relações com alguns chefes de Estado próximos à Terceira Via. Tony Blair é um deles, mas, talvez surpreendentemente, não é o que merece os comentários mais entusiasmados do então presidente. Depois de Clinton, o “terceirista” favorito de FHC é o primeiro-ministro socialista português António Guterres. Em seus Diários, o presidente vive elogiando Guterres, lamentando que ele não seja líder de um país com maior peso geopolítico, com maior capacidade de influenciar a política europeia. Seus desejos parecem ter sido atendidos: Guterres é hoje secretário-geral das Nações Unidas.
Mas foi o italiano Romano Prodi que convidou FHC a participar de um movimento da esquerda moderada por fora da Internacional Socialista, no que viria a ser a conferência “Governança Progressista”, de 1999.
A reunião de Florença foi um sucesso de divulgação das novas ideias, mas não gerou muitos desdobramentos políticos. A segunda reunião, em Berlim, já não teve o mesmo impacto. A esperança de FHC de que estivesse surgindo uma “nova família ideológica” foi só parcialmente realizada, e não deu grandes frutos institucionais.
Ou talvez tenha dado. Quando o PT, depois de acirrada disputa interna e liderado por José Dirceu, derrota a proposta do “Fora FHC”, o autor dos Diários percebe uma tendência à moderação entre os petistas, certamente já tendo em vista a eleição de 2002. E conclui: “Se o PSB não assume a Terceira Via, daqui a pouco tem outro ocupante incômodo nessa Terceira Via” (vol. 3, p. 393).
Um dos temas recorrentes são as críticas à imprensa. A Folha de S.Paulo, em especial, inspira a FHC mais raiva do que a imensa maioria de seus adversários políticos. Mas a maior parte dos veículos de imprensa tem a chance de levar pancadas ao longo dos volumes.
O que não passou despercebido a ninguém é como as reclamações de FHC se parecem com as que o PT fez ao longo de seus treze anos no poder. Em boa parte, isso reflete o fato de que político nenhum gosta de ler o jornal que o critica todo dia de manhã. É assim no Brasil, é assim no mundo todo, faz parte do jogo.
Mas a questão tem outros aspectos. No começo dos Diários, FHC parece sinceramente indignado com as denúncias, sobretudo as acusações de compra de votos na votação da reeleição. Mas os escândalos dentro da base aliada vão se acumulando e quando, em abril de 2000, Antônio Carlos Magalhães e Jader Barbalho começam a se denunciar um ao outro (nos dois casos, plausivelmente), o presidente parece entrar em certo desespero, pois passado o entusiasmo com o real, agora o risco era de que as denúncias fizessem o processo político como um todo degringolar. Havia o risco, escreve FHC, de que a população passasse a ver a política toda como podridão, e não havia só podridão, coisas boas também estavam sendo feitas.
Ele aproveita a crise para devolver aos críticos a acusação de neoliberalismo: à medida que as denúncias se acumulam e a política se desmoraliza, abre-se espaço para a desmoralização do próprio Estado e para a defesa da privatização total.
Há algo de verdade nisso. Os dados sugerem que o Brasil melhorou bastante desde o fim da ditadura, mas há certa percepção de que a política brasileira é só sujeira. A competição é difícil: ainda que a imprensa divulgue com a mesma ênfase as estatísticas sobre redução da pobreza e o dinheiro de Geddel, no imaginário popular predominam as malas.
É difícil, porém, não ver o aspecto virtuoso da coisa toda. Com o fim da ditadura, a imprensa tornou-se livre imediatamente, mas a política partiu do fisiologismo de sempre e mudou da forma mais gradual possível. Era inevitável que tal discrepância de ritmo nos ritmos de transformação gerasse turbulências. Podemos discutir se sempre soubemos lidar com essa tensão da melhor maneira possível; mas é indiscutível que, se a imprensa não tivesse denunciado o ex-ministro da Fazenda Eliseu Resende, Fernando Henrique Cardoso nunca o teria substituído, e outra pessoa teria escrito diários como presidente nos anos 90.
Ao longo dos volumes, FHC vai compondo uma série de perfis dos políticos com quem convive. São esboços feitos com modelo vivo, e, portanto, muito mais frequentes ao retratar os aliados, que ele via todo dia, do que os adversários. Vale destacar pelo menos quatro.
Um deles reflete a relação complicada com o clã Magalhães. O patriarca, Antônio Carlos, apoia o governo no Senado, mas é constante fonte de irritação. ACM vai à imprensa, faz comentários pouco lisonjeiros sobre o presidente da República, levanta polêmicas prejudiciais aos interesses do governo, compra brigas que racham a base governista. Em vários momentos, FHC enfatiza o quanto de teatro havia nisso: com sua pirotecnia, ACM afirmava uma influência política que não tinha, ao menos no grau em que dizia ter; como o presidente nota, nas grandes decisões – na política econômica, na política educacional, na política externa etc. –, ACM não é chamado a opinar.
Por outro lado, não há político citado que mereça maiores elogios do que Luís Eduardo Magalhães. FHC chega a escrever que aguenta o pai por causa do filho. LEM era um parlamentar hábil, um liberal de estilo muito mais sóbrio do que Antônio Carlos (não seria fácil ser menos sóbrio). Essa semelhança de estilos torna seu diálogo com o professor da Universidade de São Paulo na Presidência muito mais fácil. Quando LEM fica ao lado do pai em brigas com o governo, FHC o julga com uma leveza que nem sempre oferece aos correligionários tucanos.
E Luís Eduardo tem em FHC um interlocutor com quem discutir o que fazer com sua herança política. ACM quer o filho candidato ao governo da Bahia. Não era esse o desejo do herdeiro, mas a candidatura era necessária para a manutenção da linhagem. Numa conversa entre o presidente e o patriarca, FHC diz a ACM que Presidência é destino, que é preciso ter calma (vol. 2, pp. 501-2); mas, por tudo que se lê sobre Luís Eduardo nos Diários, é difícil imaginar que FHC ficaria triste se tivesse o jovem pefelista como seu sucessor.
Pouco depois dessas conversas, Luís Eduardo morre do coração, enquanto FHC estava em viagem oficial à Espanha. Foi no mesmo mês em que morreu Sérgio Motta, o grande articulador político do governo. A sequência de golpes deixa o presidente bastante abalado, e ele escreve: “[…] lá se foram meus dois braços” (vol. 2, p. 556).
Um perfil bem menos lisonjeiro que se desenha ao longo dos Diários é o de Itamar Franco. Foi no governo Itamar que FHC, como ministro da Fazenda, lançou o Plano Real. FHC tem todo interesse do mundo em manter relações amigáveis com o mineiro, até para preservar a história do real e sua história pessoal. Mas Itamar tinha outros planos.
Até o Plano Real, o governo Itamar havia sido um desastre. O vice de Collor evidentemente não tinha estatura para ocupar o cargo mais importante do país. Em vários momentos, ele deu a nítida impressão de que não tinha a mais remota ideia do que devia ser feito (ao contrário de Dilma, por exemplo, que tinha ideias que se provaram ruins). É, inclusive, razoável perguntar se o impeachment de Collor não seria visto hoje de modo menos favorável se o Plano Real não tivesse salvado Itamar Franco.
Depois de sair da Presidência, Itamar decidiu se reposicionar diante da opinião pública como o verdadeiro “pai do Real”. Seu plano era disputar a Presidência, desta vez como cabeça de chapa. Nesse esforço, Itamar se distanciou de FHC e passou a criticar o governo cada vez mais abertamente, inclusive, o que é meio esquisito, enquanto ocupava cargos de embaixador por indicação do presidente da República.
Os Diários mostram o esforço de FHC para conter Itamar, mas o respeito mútuo acaba e FHC solta o verbo: durante sua passagem pela Fazenda, escreve, foi a “ama-seca” de Itamar (vol. 3, p. 41), o que, para quem se lembra do período, é mais ou menos verdade. Ele descreve um episódio em que militares, apavorados com a imagem de Itamar ao lado de uma modelo sem calcinha no Carnaval (teve isso, jovens), pensaram em forçar um golpe parlamentar que instalasse Jarbas Passarinho como presidente (vol. 3, p. 41). Segundo os Diários, teriam pedido a FHC a garantia de que continuaria ministro da Fazenda e fiador da política econômica, mas o tucano não aceitou. FHC afirma que Itamar Franco sequer leu o Plano Real quando o assinou (vol. 3, p. 652). Se este resenhista fosse duvidar de algo na obra aqui comentada, não seria disto.
Entretanto, ao contrário de alguns de seus aliados, FHC não confere a Itamar a responsabilidade pela desvalorização de 1999, ocorrida pouco depois do então governador de Minas Gerais ameaçar dar calote na dívida com a União (esse era o nível da briga; algo que não se viu nem mesmo na crise atual). Para FHC, Itamar foi apenas “o japonês da piada que puxou a descarga em Hiroshima” (vol. 3, p. 58).
Um retrato muito mais nuançado é o de Mário Covas, o líder tucano de maior estatura política depois do FHC pós-real. Como no caso de Luís Eduardo Magalhães, a admiração mútua é evidente. FHC sabe que Covas é importantíssimo para manter São Paulo na órbita de influência tucana e segurar Maluf, que, mesmo aliado do governo, sabota tudo que pode, sempre que tem a chance, com um nível de deslealdade que o qualificaria para ser vice-presidente de Dilma Rousseff. FHC considera Covas seu sucessor natural e, não fosse o câncer, é difícil imaginar que o candidato do PSDB em 2002 pudesse ser outro.
Por outro lado, é evidente o incômodo de FHC com a imagem de Covas como a “consciência do PSDB”. Em 14 de outubro de 1996 (vol. 1, pp. 790-92), FHC afirma que é falsa a versão de que Covas teria impedido o embarque do PSDB no governo Collor. A negociação para entrar no governo teria fracassado porque, na reunião decisiva, Collor não ofereceu uma proposta de partilha efetiva de poder, uma oportunidade real de o PSDB exercer influência sobre os rumos do governo. Segundo FHC, Covas teria dado suas declarações públicas contra a participação só depois de ter sido informado do altamente provável fracasso das negociações. Nessa versão, Covas era mesmo contra, FHC e Tasso pensaram mesmo em aceitar, mas não foi Covas quem os impediu de fazê-lo.
Covas também é criticado, em outros momentos, por governar São Paulo como Brizola governava o Rio, e por ter um discurso moralista derivado de sua origem no janismo (o movimento de apoio a Jânio Quadros), o que, em outros tempos, seria chamado de discurso pequeno-burguês (vol. 2, p. 435).
Para evitar mais spoilers e porque algo tão fascinante exigiria o espaço inteiro desta resenha, sugiro que o leitor vá aos Diários para assistir à construção progressiva do melhor personagem literário dos anos 90: José Serra.
Fica claro, no decorrer dos volumes, o desespero de FHC com o sistema partidário brasileiro. Em diversos momentos ele afirma que os partidos não têm base social (à exceção do PT, que, na sua visão, também já estava em processo de perder esse vínculo). O próprio PSDB é caracterizado como um “partido de segunda divisão” (vol. 3, p. 424). Na verdade, seu pessimismo diante dos partidos políticos vai além do caso brasileiro: em 2009, a revista americana Foreign Policy pediu a um grupo de intelectuais que escrevesse sobre que valor, ideia ou instituição importante da sociedade atual poderia desaparecer no futuro próximo. Fernando Henrique Cardoso, então já ex-presidente, cravou: os partidos políticos. Até agora, pelo menos, a previsão não se confirmou, mas fica claro que a experiência do ex-presidente com os partidos brasileiros deixou traumas.
FHC chega a afirmar que o que garantiu a estabilidade do sistema foi sua própria eleição e que talvez a calmaria de seus governos fosse um interregno. Em alguns momentos, simplesmente para de pensar em seu governo como uma coalizão de partidos e forças sociais, e passa a enxergar, sobretudo, o grupo de acadêmicos que chegou ao poder com ele, muitos deles amigos uns dos outros. Vem a cogitar se não era o caso de pensar nesse grupo como o sociólogo Karl Mannheim pensava nos intelectuais: como mediadores entre as visões de mundo de diferentes classes sociais. Em ao menos um desses momentos interrompe esse tipo de reflexão e se pergunta: “Será que não estou racionalizando? Um pouco é isso” (vol. 2, p. 473).
Novamente, há uma explicação mais simples para o desenvolvimento do sistema partidário brasileiro. Após a queda de Collor, o principal partido da direita – o PFL – se aliou ao PSDB como estratégia de se aproximar do centro e derrotar a esquerda. Deu certo. Alguns anos depois, o principal partido da esquerda se aliou a pequenos partidos da direita para conquistar o centro. Também deu certo. Essa é a dinâmica mais “normal” possível numa democracia moderna. Muita coisa fica muito mais fácil de entender na vida política brasileira quando se aceita que o PSDB fez o papel de centro-direita nas últimas décadas – mesmo que, muitas vezes, contra sua vontade. A visão dominante na ciência política brasileira é essa: ao menos até a crise atual, a democracia funcionou de modo muito mais parecido com uma democracia “normal” do que o público brasileiro imagina.
Por outro lado, ao menos duas tendências identificadas por FHC parecem ter atuado na recente crise do sistema partidário brasileiro: o aumento das pressões fisiológicas diante de governos fracos – o PT, que teve dificuldades ainda maiores que as dos tucanos para formar maiorias parlamentares, perdeu o poder para “o atraso” assim que sua popularidade caiu; e o jogo de denúncias de corrupção.
Não há dúvida de que a imprensa cumpriu seu papel, mas a tendência do público de se concentrar nos efeitos dos escândalos sobre os partidos líderes das coalizões rivais – PT e PSDB – acabou levando ao poder o PMDB e seus similares (“o atraso”). Essa massa fisiológica, bem descrita nos trabalhos de Marcos Nobre sobre o pemedebismo, sempre foi o principal argumento contra a tese de que o Brasil era uma democracia “normal”. No fim das contas, ao menos no momento atual, quem venceu a batalha da ética entre tucanos e petralhas foi “o atraso”.
Os três volumes já publicados dos Diários da Presidência constituem um importantíssimo documento histórico. Haverá teses acadêmicas sobre eles, e nenhuma discussão historiográfica aprofundada sobre os anos 90 no Brasil será aceitável sem levá-los em conta.
O livro reflete o ponto de vista de Fernando Henrique Cardoso, mas, sendo um diário, que outro ponto de vista refletiria? Se há um gênero que merece perdão pela parcialidade é este. Mesmo o memorialismo permite mais distanciamento do que anotações feitas no calor do momento.
E os aspectos aqui discutidos são apenas algumas das linhas de leitura possíveis. Por exemplo, é fascinante notar como a voz do FHC escritor muda ao longo do mandato, ou conforme o assunto; reconstruir a personalidade de FHC a partir dos Diários, porém, é tarefa que excede minha competência, e deve ficar para psicólogos ou romancistas. No vol. 3, há revelações importantes dos bastidores de nossa política internacional (em especial sobre os primeiros anos do chavismo) que, sozinhas, justificariam um artigo longo. As negociações dentro da base aliada ocupam parte importante dos registros e oferecem uma perspectiva única de como funciona o presidencialismo de coalizão. Há dúzias de personagens construídos de forma bastante rica. Tive, a propósito, a impressão de que ao longo do tempo FHC foi dominando melhor a técnica de escrever um diário interessante.
O quarto e último volume correspondente aos anos 2001 e 2002 deve ser publicado no ano que vem. Será interessante acompanhar FHC assistindo ao processo de sua própria sucessão, o esforço de moderação de Lula, a desintegração da coalizão governista nos últimos anos de seu governo, a ascensão e queda da candidatura de Ciro Gomes. O principal cliffhanger reside na dúvida se haverá alguma espécie de balanço, uma reflexão ao fim do dia sobre o próprio mandato.
E o livro é incompreensível sem a história do momento de sua publicação. Hoje assistimos à crise da crise do varguismo, a um declínio mundial do otimismo com a globalização, processo que começou com a debacle de 2008. Em diversos momentos, FHC se assusta com o risco de uma crise financeira grande nos Estados Unidos e nas consequências que isso teria para a economia global como um todo. Chegou a ver uma, o estouro da bolha da internet, mas só dez anos depois uma crise realmente sistêmica começou em solo americano.
A esperança de FHC de que haveria uma globalização com forte senso de solidariedade global, com imposto Tobin, com uma governança global mais desenvolvida, foi frustrada. Talvez, em parte, porque o discurso dos anos 90 fosse excessivamente desenraizado, excessivamente otimista. Mas é difícil aceitar que o máximo que se possa esperar, no lugar disso tudo, seja Donald Trump, Brexit, Vladimir Putin e Nicolás Maduro.
Os Diários também estão sendo publicados em meio à crise da Nova República, da qual FHC foi um dos arquitetos. Participei do debate de lançamento do primeiro volume com o ex-presidente e o economista Eduardo Giannetti. Um dia antes, Delcídio do Amaral havia sido preso, desencadeando uma série de denúncias que seriam decisivas para a queda de Dilma Rousseff e a ascensão de Michel Temer, aquele que no governo FHC queria indicar o chefe dos presídios.
Lendo a crise à luz dos Diários, a impressão que se tem é que o padrão geral que FHC identificou na política brasileira desde Vargas foi rompido com a queda abrupta do primeiro experimento sério de governo de esquerda no Brasil. Com a crise da esquerda, o atraso desponta tão forte que parece dispensar quaisquer progressistas em sua coalizão. O programa de modernização de FHC agora é implementado pelos fisiologistas. Na feliz expressão do jornalista Marcos Augusto Gonçalves, Temer é uma mesóclise ligando a direita “liberal” à fisiológica. Só não é possível escrever “agora sim, temos um governo neoliberal” porque soaria estranho chamar nosso velho estamento patrimonial de “neo” o que quer que seja.
Nos próximos anos veremos se será possível uma reorganização da centro-esquerda para fazer frente a esse quadro. E talvez tenhamos de descobrir se a direita brasileira consegue assumir uma forma minimamente democrática e decente sem a liderança do PSDB. Até o momento, a resposta para as duas perguntas é não.