poesia

OS MESMOS HOMENS VOLTAM COM OS MESMOS GESTOS

Imagem Os mesmos homens voltam com os mesmos gestos

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VAMOS REPRODUZIR UMA CENA DO GODARD
você me pergunta qual parte do seu corpo eu mais gosto

eu respondo “os cílios”

OCASO
quando você ficar careca
e eu não tiver mais dentes
pra ranger à noite
unhas pra roer de dia
talvez use postiças

quando você ficar careca
eu não vou ver a bolsa
sobre meus olhos vai ter
caído talvez eu faça a
plástica que mamãe
sempre sonhou pra mim
seu pau não vai mais ficar
duro ao me olhar de saia
sem calcinha deitada na rede
da varanda de uma casa
sem parede com vista pro mar
o gozo na cara
com vista pro mar

não, não
você vai estar careca
e nós dois ainda lamentando
a separação dos nossos pais

AI DE MIM
na minha boca não há mais caninos
sinto muito, sofro de bruxismo
não me nasceram sisos
nunca terei juízo
ou marido

ETIMOLOGIA
esposas
substantivo feminino plural
diacronismo: antigo
algemas

O DIA ACABA NA NOITE
os mesmos homens voltam com os mesmos gestos

TROUXINHA
você me trouxe um pé de tomate
um pé de pimenta
um buquê de angélicas uma orquídea
quatro garrafas de vinho
de todas as cores de todas as uvas
um conjunto de taças
de vinho um livro do matisse
a fera na selva do henry james
philip roth autografado
o apuro em escrever um poema
a cada manhã geleia chá band-aid
a certeza de ser trouxa
e um gosto amargo que não me deixa mais


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Sofia Mariutti é poeta, editora e tradutora paulistana.