questões samaritanas
Larissa MacFarquhar Dez 2017 16h34
32 min de leitura
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Quando jovem, Aaron Pitkin procurava uma causa a que pudesse devotar a vida – algum meio de aliviar o sofrimento que via no mundo –, e ele a encontrou nos frangos. Era uma questão de números. Mais de 8 bilhões de frangos morriam a cada ano nos Estados Unidos, quase 1 milhão por hora. Dentre os animais abatidos para consumo, eles eram, sem sombra de dúvida, a grande maioria, dadas suas reduzidas dimensões – pouca carne para muita morte, terrível. E o tratamento que recebiam nas granjas antes do abate o indignava – as aves sofriam de dor crônica praticamente durante as seis semanas que viviam, tão gordas que as pernas não sustentavam o corpo, sentadas sobre os próprios excrementos, cobertas de feridas. Aaron vislumbrou que, se descobrisse como melhorar a vida dos frangos, a carga de sofrimento a ser subtraída do mundo seria muitas vezes maior do que qualquer outro expediente que lhe passasse pela cabeça.
Não que os frangos fossem mais importantes do que as pessoas, ou mais inocentes ou fofos. Ele se impressionava por eles serem mais indefesos e até mais massacrados que as mais oprimidas das gentes; o sofrimento daquelas aves era maior, e mais injusta sua condição. Ele não perdia tempo cogitando se um frango seria de fato mais feliz em outras circunstâncias. Não lhe interessava a felicidade; seu lance era a dor.
Embora tivesse feito do sofrimento animal a missão de sua vida, isso não o comovia em especial. Quando algum abuso novo e terrível lhe chegava aos ouvidos, ou mesmo quando se deparava com imagens horrendas, sua reação imediata – ocorrência sim, outra não – era pensar: Sensacional! Isso é ótimo para a causa! Chorou assistindo um vídeo em particular, que mostrava o tratamento sádico impingido aos bois num matadouro kosher no Meio-Oeste, mas isso era raro. A postura desapaixonada, porém, não afetava seu empenho pela causa. Passado o furacão Katrina, ele percorreu de carro centenas de quilômetros até Nova Orleans para salvar frangos, pois sabia que as granjas estariam inundadas e ninguém se importaria em resgatá-los.
Aaron tem 40 e poucos anos. (Os nomes foram modificados a pedido dele.) Trabalha numa conceituada entidade de defesa dos direitos dos animais e tem sido um aliado extraordinariamente competente dos frangos, colaborando para uma mudança significativa tanto na legislação quanto nas atitudes das pessoas. Ele é vegano porque acredita que essa é a coisa certa a fazer, mas não é ortodoxo – é um sujeito pragmático, para quem aliviar o sofrimento é mais importante do que seguir à risca um determinado princípio. Por essa razão, não vê problema em comer carne em encontros com criadores de gado (ele também zela pelos bois) para mostrar que não é um fanático pronto a destruí-los, mas uma pessoa como qualquer outra, com quem eles podem negociar. O problema é que, se algum militante flagrá-lo comendo carne, sua autoridade irá por água abaixo. Ele sempre se lembra de um famoso defensor dos direitos dos animais que, segundo consta, era um indivíduo horrível, viciado em cocaína, chegado a um assédio sexual e dado a se exibir com armas de fogo, mas o que realmente escandalizara seus seguidores tinha sido o boato de que ele fora visto comendo chocolates M&M’s. É verdade que a turma que armou o escândalo dos M&M’s era meio maluca, mas esse pessoal era a base do movimento e ele dependia deles para levar seu trabalho adiante.
Foi no ensino médio que Aaron decidiu que comer carne era errado, mas só virou vegetariano seis meses depois. Todo dia ele descia do ônibus, ia até a lanchonete Hardee’s, mandava ver um x-bacon e se sentia uma pessoa horrível por isso. Então, quando a família da namorada o convidou para o jantar de Natal, sabendo que a carne a ser servida teria, muito mais do que um x-bacon, a forma reconhecível de um animal – um peru inteiro e um pernil –, ele se deu conta de que não conseguiria suportar aquela visão. E assim acabou sua vida carnívora. Passado algum tempo, foi visitar a Farm Sanctuary, uma organização que resgatava animais de propriedades do agronegócio, e descobriu que eles eram maltratados também na produção de ovos e derivados de leite – convenceu-se então de que a única posição defensável era se tornar vegano. Pensou: cara, vou sentir falta de sorvete, mas não tenho escolha.
No ensino médio, tocou numa banda de death metal e usou o cabelo comprido e despenteado. Seu animal de estimação era uma cobra píton chamada Snaky, de quase 2 metros, com quem dividia a cama. Ele não gostava que mandassem nele. Batia boca com os professores e tomou um corretivo com uma raquete de pingue-pongue. Um professor botou pimenta-de-caiena em sua língua porque ele falava demais (ele atribui ao episódio sua preferência por comidas picantes). Estava sempre à procura de um protesto ou de um macete. Em dado momento, percebeu que as bijuterias que comprava para as namoradas, por um preço absurdo, eram mercadorias adquiridas no atacado e depois revendidas. Por 25 dólares, conseguiu uma licença para poder comprá-las no atacado, e assim passou a revendê-las aos amigos e a doar os lucros para a caridade.
Na faculdade, decidiu que se dedicaria à justiça social. Inicialmente, o plano era atuar como médico em países do Terceiro Mundo. Então leu um ensaio que mudou tudo: “Fome, riqueza e moralidade”, de Peter Singer. O filósofo argumentava que não se podia justificar o consumo de supérfluos quando algumas centenas de dólares, se doados a uma agência internacional de ajuda humanitária, podiam salvar uma vida. Depois de ler o artigo, cada vez que comprava alguma coisa, ainda que pequena e barata, Aaron imaginava estar roubando comida ou remédio de pessoas necessitadas. Ninguém pegaria um refrigerante de um distribuidor automático se uma criança faminta estivesse ali do lado, ele pensava; dali em diante, sempre haveria uma criança faminta na sua frente. Passou a levar uma vida muito frugal. Catava xepa do lixo. Nunca ingeria álcool, não só pelo custo, mas porque não suportava a ideia de perder o controle. Sempre que gastava dinheiro, mesmo que pouco, anotava o valor num caderno. Leu a respeito de um sujeito chamado Charles Gray, que tinha vivido com menos de 1 200 dólares por ano; mesmo não tendo ideia de como proceder, jurou chegar o mais perto possível desse marco.
Aaron agora sabia que precisava doar o máximo possível para organizações internacionais de caridade, mas o que mais deveria fazer? Chegou à conclusão de que os animais eram seres mais oprimidos do que os humanos, e de que os que estavam nos níveis inferiores da cadeia alimentar – os não mamíferos, menos inteligentes ou bonitinhos – eram os mais oprimidos de todos. Quase todo mundo cuidava de cachorros e gatos, muita gente estava de olho nos coelhos e nas vacas, mas quase ninguém pensava nos frangos. Depois de tomar a decisão de se concentrar nessa causa, ele resolveu que parte de seu tempo, todo ano, seria dedicada a ler críticas contra os direitos dos animais, a fim de colocar seus princípios à prova e certificar-se de que não existia nenhum argumento que o convencesse a mudar de rumo. Queria tratar a questão em termos racionais; afinal, escolhera o ativismo da causa animal por razões lógicas, e não emocionais. Em pouco tempo interrompeu a pesquisa – já estava convencido de que aquele era o caminho certo. Os direitos dos animais não entravam em conflito com os direitos dos humanos, pois comer menos carne fazia bem para a saúde das pessoas, era bom para o meio ambiente, e os imigrantes sem documentação empregados nos matadouros estavam entre os trabalhadores mais maltratados do país.
Tendo decidido que sua causa seria os direitos dos animais, ele passou a enxergar animais sofrendo por todos os lados. Uma vez, na faculdade, estava correndo para chegar a tempo de fazer o exame final de uma disciplina importante para continuar sua formação universitária – e o exame tinha grande peso na nota final. Mas chovia e a água da chuva havia empurrado várias minhocas para o meio da calçada. Ele sabia que, se não as recolhesse, elas seriam pisadas, esmagadas e mortas por quem passasse por ali. Diante da cena, ele parou, catou as minhocas e as devolveu à grama, o que o fez chegar atrasado para a prova. Lutando contra o tempo para concluir a última questão, com a resposta já no visor da calculadora e prestes a transcrevê-la para a folha de prova, o fiscal de sala anunciou: Tempo esgotado, larguem os lápis! Claro que os estudantes continuaram escrevendo, mas, Aaron – que já tinha o resultado pronto – largou o lápis sobre a carteira e deixou a resposta em branco.
Esse momento foi um divisor de águas. Até aquele dia, ele sempre acreditara em princípios absolutos – nunca mentir, nunca trapacear, nunca isso, nunca aquilo. Mas, quando se lembrou de sua atitude naquela prova, largando o lápis assim que o fiscal mandou enquanto todos os outros continuavam a escrever, ficando com uma nota pior do que merecia, o que poderia atrapalhar o prosseguimento dos estudos, tudo por causa de um senso moral estúpido, estremeceu. Deu-se conta de que ser ético não tinha a ver com rigor; ser ético era se importar com o sofrimento. Dali por diante, decidiu que a coisa certa a fazer em termos morais não era adotar princípios invioláveis, mas pensar nas consequências de suas ações. Claro que, em geral, era melhor ser honesto, mas, se Anne Frank está escondida na sua casa e os nazistas batem na porta, você mente.
Já na pós-graduação, ele compensava seu isolamento amoral dedicando à caridade o pouco tempo livre de que dispunha. Organizou sua grade horária de modo a poder trabalhar às sextas-feiras como voluntário na Food Not Bombs.[1] Era um trabalho desgraçado. Tinha de acordar na madrugada congelante de Boston e bater ponto numa viela coberta de dejetos humanos, descarregar inúmeras caixas de uma van até que seus dedos sangrassem e em seguida levá-las ao porão abafado onde ficava a cozinha, e então preparar as refeições. A parte boa era servi-las e ver a expressão no rosto das pessoas que recebiam a comida, mas ele geralmente ia embora antes disso. Ele percebeu que sempre havia gente disponível para essa etapa, mas só ele estava disposto a encarar o pesado, então encarava e ia cuidar da vida.
Quando não estava carregando comida, participava de protestos. Ele se vestia de lagosta e ia para a rua com um cartaz que dizia “Ser fervida dói”. Aaron sempre admirou o fato de sua mãe ter sido presa num protesto contra o racismo, então procurava um jeito de ser preso também. Ele achava injusto que houvesse uma lei proibindo as pessoas de passar a noite no Boston Common. Como os sem-teto que dormiam nos bancos do parque vinham sendo retirados à força por policiais, ele e outros camaradas resolveram acampar ali uma noite e foram presos. Quando ele ligou exultante para a mãe para contar a novidade, ela respondeu: já não era sem tempo.
Os pais de Aaron, Barbara e Mike, se conheciam desde pequenos – ela morava em Flatbush, no Brooklyn, e no verão frequentava a praia perto da casa dele, em Long Island. Casaram em 1964. Barbara foi trabalhar como inspetora no departamento de bem-estar social da Prefeitura de Nova York; Mike começou uma carreira de fotógrafo, registrando protestos políticos. Ambos militavam no Core, Congress of Racial Equality, e participavam de muitas manifestações. A foto mais famosa de Mike mostrava um homem negro sendo preso pela polícia numa passeata contra a discriminação racial. Centenas de pessoas foram detidas naquele dia, inclusive Barbara. Mike a fotografou sentada no chão, sorrindo, pouco antes de ser levada; ao lado dela, um policial de pé. Aaron tinha uma cópia da foto sobre a escrivaninha e gostava de dizer que sua mãe estava sendo arrastada pela polícia.
Em 1965, Mike e Barbara deixaram o Brooklyn e foram para o Colorado, onde ele trabalharia em um diário local. Ela gostou da mudança, mas alguma coisa parecia ter ocorrido a Mike, que passou a se comportar de um modo bizarro, a ponto de acabar sendo mandado embora. A partir daí, a situação só piorou. Ele arrumou um emprego em Wyoming e, então, depois de ter sido demitido, arranjou outro, numa agência dos correios, mas estava cada vez mais esquisito. Exibia fotos em que aparecia sem roupa; fazia ameaças; dava em cima das mulheres; praticamente não dormia. Barbara tentava esconder dos filhos a loucura do pai; certa vez precisou levá-lo ao hospital psiquiátrico e disse aos meninos que ele viajara a trabalho. Quando ele estava em casa ela ficava em pânico: ele sempre inventava coisas malucas e perigosas para fazer com os filhos, e os dois adoravam – ele era tão mais divertido que ela.
Depois que ele foi demitido do último emprego, no Arkansas, sua deterioração foi bem mais acelerada. Cismou que nazistas lançavam gás venenoso pela fresta da porta, e mandava todo mundo falar baixo porque um dos vizinhos seria um nazista que espionava sua família. Começou a comprar armas. Julgava-se o Messias. Barbara não se sentia mais segura com todas aquelas armas em casa. O pessoal da clínica de saúde mental onde ele se tratava tampouco; por fim, a situação degringolou a ponto de ela despachar o marido, sozinho, de volta para a casa dos pais dele.
Barbara sempre protegeu Aaron, não queria que ele soubesse muito sobre o pai. Nunca lhe contou sobre suas frequentes traições. Disse que estava se separando dele porque Mike estava doente. Aaron, que tinha uns 9 anos, ficou horrorizado e começou a chorar. Se o pai estava doente, era preciso cuidar dele, e não abandoná-lo! E se ele, Aaron, ficasse doente, a mãe também o abandonaria?
Depois do divórcio, Barbara decidiu voltar com os meninos para a Costa Leste, sobretudo porque se cansou de ser a única família judia na cidade; Aaron andava apanhando na escola porque os judeus eram os assassinos de Jesus. Mas o estrago já estava feito. Enquanto apanhava por ser judeu, ele pensava: se eu tivesse nascido aqui, no meio dessa gente, minha fé seria a deles, e agora eu também estaria batendo em mim. Então como posso ter certeza de que minha fé é a verdadeira? Aos 8 anos, Aaron disse para a mãe que não acreditava em Deus.
Quando tinha 20 e poucos anos, Aaron conheceu Jen. Ela trabalhava na New England Anti-Vivisection Society, organização de proteção aos animais em Boston, e um dia ele apareceu oferecendo seus serviços como especialista na doença da vaca louca. De cara ela detestou aquele sujeitinho reservado, arrogante e mal-educado. Ele começava a se tornar uma espécie de celebridade no movimento pelos direitos dos animais, e vivia cercado de mulheres. Alguns meses depois, num jantar, sentados em cadeiras vizinhas, ele resolveu bancar o sedutor. Encantada, ela aceitou o convite para sair com ele.
Na ocasião, eles se identificaram um com o outro. Ambos se dedicavam integralmente a pôr fim às injustiças. Ela chegara aos direitos dos animais por caminhos mais tortuosos – começara no movimento feminista e, pela via do ecofeminismo, desenvolvera a percepção de que animais e mulheres eram igualmente oprimidos –, mas os dois acabaram no mesmo lugar. Também riam das mesmas coisas; adoravam cartuns de humor grotesco. Para surpresa dela, ele era divertido. As pessoas riam até em suas palestras sobre veganismo. Ele mostrava um gráfico com ilustrações dos sete tipos de cocô, com as respectivas descrições, para concluir que o mais saudável era, é claro, o dos veganos.
Aaron e Jen foram morar juntos, e foi então que os problemas começaram. A bagunça dele, por exemplo. Aaron não era só desorganizado, era sujo. A roupa para lavar ficava jogada no quarto, a louça usada sobre a pia. Ele cozinhava um monte de comida para economizar – quilos e mais quilos de lentilha cozida ou homus – e largava as panelas e tigelas cheias de restos. Quando ela reclamava, ele dizia que o tempo gasto com a louça era tempo perdido no trabalho pelos direitos dos animais, bem mais importante. Ela não conseguia pensar num contra-argumento satisfatório – na verdade, achava que, do ponto de vista moral, ele estava certo. Quando sentia que ia enlouquecer com aquela sujeira toda, ela só conseguia dizer: “Mas eu preciso que você ajude, eu quero, eu estou te pedindo.” Anos mais tarde, ela desejaria ter gritado: “Sabe de uma coisa? A questão é de equilíbrio, e a gente vive num mundo imperfeito, e você tem razão, se você lavar prato vai ter menos tempo para os animais, agora lava essa porra dessa louça antes que eu tenha um colapso nervoso.” Mas ela era jovem, não sabia direito o que era certo, ou normal, ou o que ela merecia. E ficava para morrer porque sempre se vira como uma pessoa ética, e agora se sentia egoísta, burguesa. Como assim, lavar pratos, quando animais eram torturados e pessoas morriam de fome? Pratos?
A história familiar de Jen era uma desgraça só. Sua mãe fora criada num orfanato e engravidara ainda muito jovem. O pai, dono de uma oficina mecânica, faturava um bom dinheiro, mas perdeu tudo ao se tornar um alcoólatra violento. Quando criança, Jen foi molestada pelo pai e pelos dois irmãos. Ao contar à mãe sobre os abusos e dizer que pensava em se matar, ouviu dela que, se era isso que queria fazer, que fosse em frente, ela entendia. O pai começou a comprar armas e certa vez tentou estrangular Jen e a mãe. Anos mais tarde, um dos irmãos foi preso por assassinar a mulher.
Certa noite, quando tinha 15 anos, Jen foi despertada pela mãe – deveriam fugir imediatamente ou seriam mortas pelo pai. Ela conseguiu sair, mas a mãe continuou lutando por uma hora contra ele, mantida sob a mira de uma arma. Do lado de fora, debaixo de neve, à espera do desfecho, Jen pensava: ela vai morrer, ela vai morrer. Por fim, a mãe deu um jeito de escapulir e as duas foram parar num abrigo para mulheres vítimas de violência. Por alguns meses não tiveram onde morar. Jen dormia em sofás na casa de amigos, mas continuou frequentando a escola e tirando boas notas, pois sabia que, se não fizesse isso, estava condenada.
Até concluir o ensino médio, ela trabalhou para ajudar a mãe com o aluguel; na faculdade, às vezes descolava um dinheirinho para comprar comida recolhendo latas para reciclagem. Começou a se endividar no cartão. Acreditava no movimento feminista, de modo que, ao se formar, em vez de procurar um emprego que lhe pagasse um bom salário, foi trabalhar praticamente de graça para o grupo que apoiava mulheres vítimas de violência. Considerando sua história de vida, porém, ela não via problema em, vez por outra, comprar um par de sapatos para se sentir melhor. Ela não era perdulária, mas Aaron controlava tanto os próprios gastos que ela se sentia culpada. Ele mantinha o aquecimento no mínimo, mesmo em pleno inverno. Reduzira seu planejamento de gastos a 24 mil dólares anuais, depois a 20 mil, por fim, a 9 mil. Não dava um pio quando ela voltava para casa com alguma compra que ele considerava supérflua, mas nem era preciso. Ela sabia o que ele pensava sobre aquilo.
Jen trabalhava muito, mas Aaron estava sempre trabalhando, e o trabalho vinha sempre em primeiro lugar. Ele sentia – inclusive fisicamente – o peso do sofrimento no mundo. Como poderia relaxar assistindo tevê com gente passando fome? Mesmo quando estavam juntos, ela percebia que ele não via a hora de voltar ao trabalho. Quando se queixava, ele ficava abismado por ela ser tão egoísta. Quando ficava triste, ele se entristecia também, mas não abandonava seus princípios. Às vezes ela achava que ele tinha razão em agir daquele jeito, às vezes pensava que, na condição de namorada, merecia tratamento especial – as pessoas deviam mais satisfação aos mais próximos do que a algum desconhecido. Havia ocasiões em que debatiam o assunto filosoficamente: imagine que dois desconhecidos estão se afogando, propunha Jen, e eu também estou me afogando. Se pudesse salvar ou as duas pessoas ou a mim, o que você faria? Essas discussões sempre acabavam mal.
Ela se deu conta de que o ativismo dele era a outra na relação do casal, a amante com a qual jamais poderia competir. Quando não estava frequentando algum curso, ele ficava na estrada por semanas dando palestras. Ela cozinhava para ele, limpava a casa, arrumava as malas dele, despachava caixas para onde quer que ele estivesse. O único momento em que ele se dedicou totalmente a Jen foi quando ela passou por uma crise tão terrível que ele achou defensável desviar sua atenção. Quando o pai dela morreu, ela ficou apavorada de ter de ir ao funeral porque seus irmãos, que haviam abusado dela, também estariam lá. Aaron cuidou dela. No dia da cerimônia, ele a ajudou a se vestir, pois ela mal conseguia se mexer, de tão entorpecida. Deixou de lado sua birra pela religião e recitou o kadish com ela, que não queria fazer a oração sozinha.
Não por acaso Aaron escolheu alguém com uma história de vida como a de Jen. Ele mesmo tinha um histórico com mulheres traumatizadas. Quando cursava o ensino médio, começou a sair com uma garota que vinha sofrendo abusos desde pequena, estuprada pelo pai e pelo irmão. O pai era viciado em jogo e alcoólatra. Ela sofria de terrores noturnos e não conseguia dormir. Aaron decidiu salvá-la. Por ter sido tão machucada e ter passado por coisas tão terríveis, ela merecia alguém que a tratasse bem, ele pensou. Desde criança tivera aquela vontade acachapante de ajudar as pessoas, mas não sabia como; agora se deparava com uma situação que pensava dar conta. Se abandonada à própria sorte, ela desabaria; por isso ele se aproximou dela.
Quando ela começou a bater nele, escondeu da mãe o que estava acontecendo. Se ela o deixava com o lábio sangrando ou com escoriações na pele, ele dizia que tinha se metido numa briga na escola. Ela roubou dinheiro da mãe dele para comprar cocaína e ele tentou esconder isso também. Um dia sua mãe entrou no quarto dele e o flagrou encolhido num canto enquanto a namorada o enchia de socos; desde então ela não podia mais visitá-lo, mas nem assim ele terminou o namoro. Achava que era capaz de segurar a onda – era forte o suficiente e vinha de uma boa família. Pretendia casar com ela, zelar por ela e ampará-la pelo resto da vida.
Ele revidou uma vez só. Ele a levara para casa, mas ela se recusava a sair do carro. Quando ela começou a bater nele, ele tentou se esquivar, mas o carro estava entulhado de coisas e ele não conseguiu se proteger. Ela o esmurrava e ele ficava cada vez mais furioso; de repente, ele levantou o braço contra ela e acertou sua cabeça. Ela havia antecipado o golpe e se abaixara, de modo que ele a atingiu na parte de trás do crânio. A mão dele doía absurdamente, e os dois começaram a chorar, numa infelicidade histérica; no meio daquilo tudo, ele se deu conta do que tinha feito e ficou nauseado. O único objetivo de sua vida era proteger os mais fracos, e naquele momento ele tinha agredido uma garota muito traumatizada – tornara-se mais um homem violento na vida dela. Mas ao mesmo tempo compreendeu que era aquilo que ela queria: que ele revidasse, para poder culpá-lo depois. Quando ele foi para a faculdade, ela foi atrás dele e não o deixava estudar. Por fim, um dia, quando tentava sair de casa para fazer uma prova e ela não o deixava passar, ele teve uma luz: não posso continuar desse jeito – e terminou o namoro.
A certa altura, Jen descobriu, surpresa, que Aaron tinha dinheiro – não uma fortuna, mas um fundo de que ele poderia dispor como quisesse. Pediu que ele quitasse a dívida do cartão de crédito dela. Não fazia sentido para os dois, do ponto de vista financeiro, que ela continuasse pagando aquele montante de juros, e, mais do que isso, o fato de estar endividada havia tantos anos a estava deixando fora de si. Jen tinha um medo terrível de ficar pobre, traumatizada pelo período em que ela e a mãe não tinham onde morar. Mas ele se recusava a pagar. Disse que outras pessoas precisavam mais daquele dinheiro. Disse que ela estava bem alimentada e tinha uma casa onde morar, enquanto no mundo havia gente que passava fome. Ele já havia reservado esse dinheiro para uma instituição de caridade. Aos olhos de Aaron, era dinheiro sujo – o pai de sua mãe fundara uma empresa que fabricava acessórios de banheiro feitos de ouro, ao passo que o pai de seu pai fizera fortuna com casacos de pele –, que só poderia ser redimido se fosse gasto para aliviar os piores tipos de sofrimento. De um lado, havia Jen; do outro, a Somália. Ou animais enjaulados. Como ela poderia competir com eles? Não havia como. Ela sabia que ele estava certo.
Os dois casaram em 1999. Discutiram sobre isso por muito tempo – como em Massachusetts ainda não se permitia que gays e lésbicas casassem, Aaron julgava o casamento uma instituição discriminatória que eles não deveriam endossar. Jen disse que passaria os dez anos seguintes lutando pela igualdade de direitos para os gays, mas ela queria casar agora. Depois de tudo que havia aguentado durante a convivência com ele, ela queria a aliança no dedo. Sabia que ele jamais concordaria em ter filhos, de modo que deixou o assunto de lado, ainda que não tivesse certeza de como se sentia em relação a isso. Passou a manhã do dia da cerimônia vomitando.
A união durou dois anos. Um dos aspectos mais difíceis da separação, para Jen, foi ter de admitir para si mesma que ela não era a pessoa ética que imaginava ser. Não estava apenas abandonando Aaron: estava optando pelo egoísmo. Optava pela felicidade em detrimento da sobrevivência de outras criaturas. Não conseguia encontrar uma justificativa para o que estava fazendo, achava que estava fazendo a coisa errada, mas não podia evitar – ela não era ele.
Por um momento, foi horrível. Pouco a pouco, o ressentimento e a infelicidade que ela reprimira ao longo daqueles anos explodiram. Ela se rebelou. Por anos, ela e Aaron tinham observado rigorosamente a dieta vegana – e Jen agora comia queijo. Viajou para Paris e se entupiu de queijo. Comprou roupas novas. Ingeriu álcool pela primeira vez na vida. Fumou maconha e adorou. Repensou suas opiniões sobre Israel. Arrumou trabalho como “dominatrix” atendendo clientes com fetiche por pés. Deixou a reciclagem de lado.
Aaron, enquanto isso, radicalizava na direção contrária. Depois do rompimento com Jen, ficou sem ter onde morar por quase um ano. Espalhou que estava disposto a ir a qualquer lugar para discorrer sobre veganismo, nutrição, direitos dos animais ou justiça social, de graça, desde que lhe pagassem a passagem e arrumassem um canto onde dormir, mesmo que fosse o chão da casa de alguém. No começo, estava em êxtase. Depois de tantos anos de culpa vivendo com Jen, enfim se via livre para se dedicar por completo ao ativismo. Não ganhava nada, tampouco gastava. Estava em permanente movimento. Fazia cerca de quarenta palestras por mês, rodava o país num carro doado, no qual dormia se ninguém se dispusesse a hospedá-lo. Mas aí, depois de oito meses nessa vida, concluiu que já bastava: queria voltar a ter uma casa. Fez entrevista para um emprego numa organização de defesa dos direitos dos animais, e nesse mesmo dia alugou um apartamento minúsculo e soturno em cima de uma loja de móveis.
Adorava o novo trabalho – tanto que logo percebeu que gastar um dia inteiro, toda semana, no preparo de lentilhas não era um emprego eficiente do tempo. Quando era mais jovem, tinha a impressão de que seu tempo não valia basicamente nada, então o negócio era empregá-lo para economizar dinheiro. Agora que era um especialista com diploma e plataforma de atuação, percebeu que seu tempo era valioso. Continuava a doar quase a metade do salário, mas seu foco não era esse. Não demorou muito, e ele passou a ser tão obsessivo com o tempo quanto havia sido com o dinheiro. Elaborava gráficos de controle de fluxo e fazia listas, tentando descobrir como usar seus dias de modo mais eficiente. Instalou o computador no quarto, pois assim podia, com um único movimento, levantar e apertar o botão para ligar a máquina; os 4 metros e meio até o banheiro o exasperavam. Experimentou dormir menos – três, quatro horas por noite – para ver se produzia mais e quanto aguentava antes de desabar. Seu médico lhe disse que precisava se exercitar, e ele se deu conta de que acabava cochilando na escrivaninha porque dormia pouco, então decidiu que trabalharia enquanto fazia esteira, o que o manteria acordado e resolveria o problema dos exercícios sem que ele precisasse se afastar do trabalho. Usava um cinto com pesos para ajudar na estabilidade e prendia o corpo à mobília com cordas elásticas para firmar o tronco e não sentir vertigem. Parecia tantã, mas e daí?
Mal tinha tempo para os amigos, e nunca se dava um tempo para sentar e pensar. Sabia, no plano intelectual, que sair com amigos ou meditar sobre os rumos da vida podia ser bom para o trabalho – talvez aprendesse algo importante, ou percebesse que alguma coisa precisava mudar –, mas ele preferia evitar riscos. Se fizesse essas coisas, talvez não aprendesse nada e teria desperdiçado um tempo precioso. Se passasse a noite trabalhando, sabia que teria cumprido uma tarefa.
Quando os avós não puderam mais cuidar do pai de Aaron, a solução foi arrumar uma casa de repouso na Califórnia. Mas ele ficou tão deprimido que parou de comer, e o estabelecimento acabou por interná-lo num hospital psiquiátrico que não estava nem aí se ele ficasse deitado em posição fetal por horas seguidas, a ponto de não conseguir esticar as pernas no final do dia. Chamaram a família e disseram que seu destino seria um asilo. Como o pai ainda era jovem e não tinha nenhum problema físico de maior gravidade, Aaron ficou indignado e providenciou sua transferência para um hospital na cidade onde vivia. Mike chegou em péssimo estado. Como não podia andar, sofria com infecções pulmonares e outras doenças, além de escaras que o corroíam até os ossos; vivia entrando e saindo do pronto-socorro. Caía numa depressão catatônica que durava meses, e então voltava à tona e agia como um maníaco, falante e animado, mas ao mesmo tempo profundamente paranoico. Apesar de estar convencido de que o pessoal do hospital tentava envenená-lo, passava o dia feliz, perdido em reminiscências.
Agora que tinha o pai perto de si, Aaron se perguntava quantas vezes devia visitá-lo. Como equilibrar as obrigações com o pai e a responsabilidade do trabalho? Nessa equação, será que deveria pesar o fato de o pai ter sido um marido terrível e ter tornado a mãe tão infeliz? Decidiu fazer o que era minimamente decente – só aparecia durante as crises (que eram muitas). Ele se perguntava como agiria se fosse a mãe quem estivesse naquela situação. Ele a amava muito. Faria a mesma coisa, porque era a coisa certa a fazer, mas seria muito mais difícil.
Nos momentos em que o pai estava lúcido, Aaron lhe contava o que tinha ocorrido durante as crises, descrevia os mais terríveis cenários que poderiam ocorrer e lhe perguntava se queria ser ressuscitado naqueles casos; o pai sempre respondia que sim. Aaron não conseguia entender: ele ficava olhando para o teto o dia inteiro, não conseguia nem mexer o pescoço para olhar pela janela, odiava tevê e rádio, a vista cansada o impedia de ler, e seu maior prazer era comer comida chinesa. Aaron pensava que, no lugar dele, enlouqueceria. Mas seu pai queria viver; e ele faria tudo que fosse preciso para tanto.
Por fim, seu pai foi entubado, não podia mais falar nem comer. Entrou em coma. Os médicos disseram a Aaron que ele não sairia mais do respirador artificial, nem recobraria a consciência. Recomendaram que Aaron os autorizasse a desligar os aparelhos, e ele concordou. Não era de hoje que ele se sentia desconfortável com os gastos do tratamento do pai, quando aquele dinheiro poderia ter poupado muito sofrimento se empregado de outro modo. Ele era indulgente consigo próprio porque o dinheiro era do pai; uma vez que seu pai queria continuar vivendo, ele não se sentia no direito de lhe negar isso. Por outro lado, fazia anos que seu pai tinha sido considerado incapaz, o que significava que as escolhas, afinal, recaíam sobre Aaron, e ele não podia fingir que as coisas não eram assim.
No dia em que o ventilador mecânico do pai seria desligado, Aaron chegou cedo ao hospital para se despedir. Sentou-se ao lado da cama; pouco antes de a enfermeira injetar uma derradeira dose de morfina, o pai abriu os olhos. Parecia cena de filme de terror, pensou Aaron, um cadáver de volta à vida. Os olhos do pai seguiam os movimentos de Aaron pelo quarto; ele conseguia mover a cabeça e respondia o que lhe perguntavam. Aaron, apavorado pelo que estivera na iminência de fazer, foi falar com o médico – e soube que Mike abrira os olhos também na véspera, mas o médico, acreditando que não valia a pena mantê-lo vivo e percebendo que Aaron estava tendo dificuldade em deixar o pai partir, resolvera não contar nada. Aaron ficou furioso. Mandou que interrompessem o desligamento dos aparelhos e retomassem o tratamento. Foi a decisão errada, como ele pôde constatar.
Era caro demais manter seu pai na UTI, de modo que o hospital o transferiu para uma clínica equipada com respiradores artificiais. No fundo da família havia dinheiro para cobrir os gastos com instalações boas, mas mesmo assim o lugar era deprimente: camas e mais camas com seres humanos que mal viviam, cada um ligado a uma máquina. Muitos estavam em coma, sem nenhuma atividade cerebral. Era como a linha de produção de uma granja, Aaron pensou. Ali não havia parentes nem visitantes. Qual o propósito daquilo? Seu pai não estava em coma – agonizava, a despeito dos analgésicos cada vez mais fortes que as enfermeiras lhe aplicavam, e continuava consciente. Acabou voltando à UTI com outra infecção, entrou em coma, e os médicos novamente aconselharam Aaron a autorizar o desligamento dos aparelhos. Dessa vez ele concordou, e o respirador artificial foi removido – e, de novo, o pai retomou a consciência. Os médicos disseram a Aaron que seu pai morreria em poucos minutos, seus pulmões estavam atrofiados demais para manter o funcionamento autônomo, mas o pai não morria. Respirava, estava consciente, e sofria. Não podiam mais aplicar morfina, pois ela apressaria a morte e isso era ilegal. Aaron ficou ali, em agonia, sentindo que assassinava o pai, e que o fazia sofrer, mas seria pior enviá-lo de volta àquela granja de ventiladores mecânicos. Passaram-se minutos, passaram-se horas, e seu pai não morria. Demorou vinte horas para que tudo acabasse.
Até o dia em que assistiu à morte do pai, a principal preocupação de Aaron havia sido o sofrimento dos animais. Tinha visto por tanto tempo imagens de animais aterrorizados gritando em matadouros, animais aleijados e doentes sangrando em jaulas, animais cujas patas doíam tanto que eles não conseguiam andar – tinha passado tantos anos de sua vida entre imagens e sons como esses na cabeça que, para ele, sofrimento significava algo que os seres humanos infligiam aos animais, a agonia a que os mais fracos e desprovidos de voz eram submetidos pelos mais fortes. Agora ele sabia que havia seres humanos aprisionados em lugares brutais como jaulas, e que, quando esses seres humanos sofriam, seu tormento era tão atroz quanto o dos animais que viviam em condições terríveis apenas para morrer. Ele já sabia que seres humanos podiam sofrer, é claro. Mas que havia humanos tão impotentes diante do tormento que sofriam – que havia humanos incapazes de se mover e de se alimentar por conta própria, desprovidos de linguagem para dizer o que se passava com eles ou implorar para que seu sofrimento fosse aliviado –, disso ele não se lembrava.
Pouco depois de ter começado a trabalhar na organização de defesa dos direitos dos animais, Aaron conheceu Leana, o amor da sua vida. Ela também trabalhava na entidade; ele, com frangos, ela, com focas. Leana era uma vegana de Waterford, Connecticut. Vivia quase tão frugalmente quanto ele, e ela também, como ele, desconfiava que, dados seus princípios em relação ao dinheiro e outras coisas, ela sempre viveria sozinha. Aos 13 anos chegou à conclusão de que ter filhos não era ético, e não mudou de ideia desde então. Ela, como ele, achava as obrigações familiares um tédio e em geral procurava evitá-las. Em certos aspectos, era até mais xiita que ele: importava-se mais com o meio ambiente, de modo que, quando foram morar juntos num prédio em que o aquecimento e o ar-condicionado estavam incluídos no aluguel, ele se permitia usar esses recursos, mas ela bloqueou as saídas de ventilação do próprio quarto, e congelava ou derretia conforme a estação. Logo no início do relacionamento, ele lhe deu de presente um aparelho de DVD usado, e ela caiu no choro: pouco antes havia visto um filme sobre a exploração de mão de obra infantil na China, e como o aparelho era made in China ele talvez carregasse essa mácula. Aaron ficou encantado: ela era uma criatura tão pura, tão moralmente sensível que nem deveria existir neste mundo decaído.
Aaron estava decidido a não estragar tudo com Leana como havia feito com Jen, então lhe disse que, no primeiro ano de vida em comum, ele se empenharia seriamente em zelar pela relação. Passado esse período, voltaria à rotina. A princípio isso a irritou, mas no fim não se importou muito; ela também gostava de passar bastante tempo sozinha. Estabeleceram que jantariam juntos na maioria das noites e viajariam alguns fins de semana prolongados por ano, e isso seria o suficiente.
Depois de tantos anos dedicados à defesa dos direitos dos animais, as coisas começaram a dar certo. Vitórias consideráveis e significativas para os frangos, tanto legislativas quanto corporativas, tinham recebido um empurrão de Aaron. Diversos gigantes empresariais – Safeway, Bon Appétit e Costco, entre outros – se comprometeram a comprar frango apenas de granjas com práticas satisfatórias. A rede Starbucks prometeu que só usaria ovos de galinhas criadas livremente. O estado da Califórnia aprovou uma lei obrigando que galinhas chocadeiras tivessem 70% mais espaço nos viveiros e proibindo a venda de ovos botados por aves mantidas em gaiolas com luz artificial. O consumo de carne nos Estados Unidos começou a cair a cada ano, o que ninguém imaginava ser possível; o índice de consumo vinha subindo constantemente desde os anos 50, mas enfim, depois de tantos anos, a mensagem – a mensagem dele – de que carne fazia mal estava sendo entendida. Sistemas públicos de ensino haviam adotado a Segunda-Feira Sem Carne.
Ele se deu conta de que era bobagem entrar em desespero se nem todas as pessoas estavam se tornando veganas; a maioria nem se tornaria vegetariana, mas se o consumo de carne continuasse diminuindo, pouco a pouco as coisas melhorariam para os animais. Às vezes ele se permitia ter a esperança de que o país inteiro iria se bandear para o seu lado: ninguém queria ver galinhas sendo torturadas, e era cada vez mais difícil negar os horrores do agronegócio. Às vezes ele tinha a impressão de que estava no limiar de assistir a um movimento pelos direitos civis dos frangos, que cresceria a tal ponto que os métodos empregados nas granjas seriam tão repulsivos e inimagináveis quanto a escravidão.
Nessas horas ele sentia que estava fazendo um bom trabalho, e que tinha feito coisas boas, e também experimentava um alívio perceptível no sentimento de culpa e na sensação arraigada de dívida que o haviam impelido a tomar aquele rumo quando mais jovem. Ele ainda precisava alcançar uma pontuação diária para se considerar útil, caso quisesse se sentir bem consigo mesmo, ter a sensação do dever cumprido, mas, uma vez que o trabalho vinha obtendo bons resultados, ficava mais fácil conseguir os pontos necessários. Nunca lhe havia passado pela cabeça, quando jovem, que algum dia ele poderia sentir que estava fazendo o suficiente. Na maior parte das vezes essa sensação era boa, mas não totalmente confiável. E se a lição a tirar de sua atual competência não era que ele merecia relaxar um pouco, mas que devia trabalhar mais justamente por estar conseguindo bons resultados? Era o mais lógico.
E se o sentimento de realização fosse ilusório – e se, como muitas vezes acontece quando as pessoas envelhecem, ele estivesse simplesmente se tornando mais flexível e complacente? Não que o mundo já estivesse consertado – ainda havia milhões de pessoas morrendo de fome, e a vida da maioria dos animais continuava horrível. Ele não deixara de sentir o enorme peso do sofrimento – um horror que ficava logo ali, na soleira da sua mente, e abrir essa porta, mesmo que uma fresta pequena, era constatar como esse sofrimento era medonho e infinito. Ele percebia que um grande número de vegetarianos, sentindo-se virtuosos por não comer carne, nunca se empenhavam pela causa maior. Ele não queria acabar assim. Disse a si mesmo que jamais deveria se comparar aos outros; as outras pessoas, na grande maioria, faziam tão pouco pelo mundo que talvez ele começasse a se achar superior. Não, a única comparação possível era entre o que ele estava fazendo e o que mais ele poderia fazer.
Sempre considerara os anos 60, a década de seus pais, a época em que muitos haviam abraçado o ativismo e repudiado o egoísmo, mas aí ele pensava: o que havia acontecido com todas aquelas pessoas? Em que momento elas se perderam, mais ou menos quando tinham a atual idade dele? Não eram mais ativistas. Para consumo interno, sem dúvida elas haviam inventado alguma história que justificava ganhar dinheiro e formar família, e os anos 60 eram um passado distante. Ele tinha certeza de que isso não aconteceria com ele, mas provavelmente aquela gente toda também pensara o mesmo. Vai ver era algo biológico, uma coisa que acontecia numa determinada idade.
Ele estava feliz, que estranho. Adorava o trabalho, fazia uma coisa que só ele era capaz de fazer. Colecionava vitórias, uma após outra. Estava apaixonado por uma mulher que não exigia dele mais do que ele podia lhe dar. E até brincara com um casal de ativistas bem próximos, dizendo que, caso percebessem que ele estava pegando leve consigo mesmo e negligenciando suas obrigações, em vez de deixá-lo ficar velho e autocomplacente, que por favor pegassem um travesseiro e o sufocassem.
[1] Formado por coletivos independentes e presente em diversas partes do mundo, é uma organização cujos voluntários servem comida vegana e vegetariana, grátis, preparada a partir dos excedentes de mercados e restaurantes. (N.E.)
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Trecho do livro A Vida pelos Outros, que a Companhia das Letras publicará em 2018.