anais da luxúria

SANTO AGOSTINHO, INVENTOR DO SEXO

Como o autor das Confissões concebeu a doutrina do pecado original
Imagem Santo Agostinho, inventor do sexo

21 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Num dia qualquer do ano 370 da era comum, um rapaz de 16 anos e seu pai foram juntos aos banhos públicos da cidade provincial romana de Tagaste, onde hoje fica a Argélia. Em certo momento da visita, o pai talvez tenha percebido que o menino experimentava uma ereção involuntária; ou simplesmente observou, no filho, a floração recente de pelos pubianos. Algo que dificilmente poderia ser considerado um grande acontecimento, com repercussões na história mundial, não fosse pelo fato de que o rapaz se chamava Agostinho, e que mais tarde ele viria a dar forma à teologia cristã, tanto para os católicos quanto para os protestantes, explorando recessos ocultos de nossa vida interior, legando a todos nós a convicção de que há algo de profundamente errado com a espécie humana. É provável que não tenha existido pensador ocidental mais importante nos últimos 1 500 anos.

Em suas Confissões, escritas em torno de 397, Agostinho descreveu o que havia acontecido tantos anos antes, na casa de banhos. Naquele dia, Patrício, seu pai, viu nele os sinais de uma jovem masculinidade indócil, inquieta adulescentia, e ficou encantado com a ideia de poder vir a ter netos em breve. É fácil, mesmo tantos anos mais tarde, imaginar o profundo embaraço do adolescente em questão. O que ficou fixado na memória de Agostinho, porém, foi algo que aconteceu depois que ele e o pai já tinham voltado para casa: “[Meu pai] o anunciou feliz a minha mãe, como se já imaginasse seus netos, feliz da ebriedade pela qual este mundo se esqueceu de Ti, seu criador, e amou em Teu lugar Tua criatura” (nas Confissões[1] Agostinho se dirige o tempo todo a Deus). Ocorre que sua mãe, Mônica, era uma cristã devota – e reagiu de maneira muito diversa. Como Deus já havia começado a construir Seu tempo no peito dela, ela “estremeceu de trepidação e tremor”, e a maturidade sexual do adolescente pagão foi oportunidade – não a primeira e nem certamente a última – para um sério desentendimento entre seus pais.

Patrício não se envolvia com o desenvolvimento espiritual do filho à luz de Cristo, e nem encarou a prova de virilidade do rapaz com outro sentimento que não o deleite. Em resposta, Mônica cuidou de cravar uma cunha entre pai e filho. “Com efeito, minha mãe se esforçava”, escreve Agostinho, em tom de admiração, “para que Tu [meu Deus] fosses meu pai mais do que ele.”

O pai e a mãe concordavam num ponto, contudo: aquele filho tão brilhante devia ter uma formação à altura dos seus dotes naturais. Mandaram o jovem Agostinho estudar na bela cidade de Madaura, onde ele demonstrou impressionante facilidade para a gramática e a retórica. A Universidade de Cartago deveria ser o passo seguinte – sucedida, possivelmente, por uma próspera carreira de advogado ou orador. Patrício, homem de recursos modestos, economizou o quanto pôde e passou um ano recorrendo à sua rede de conhecidos para arrecadar os fundos necessários. Quando Agostinho deixou Tagaste, deve ter visto o pai pela última vez, pois em suas Confissões conta que, quando tinha 17 anos, Patrício morreu. O fato é relatado com notável frieza.

Se a viúva enlutada também sentiu algum alívio com a morte de Patrício – visto tratar-se de má influência para seu amado filho –, sua eventual esperança de ver Agostinho enveredar pela trilha da castidade acabou rapidamente frustrada. “E fui para Cartago”, ele conta, “e por toda parte ao meu redor fervilhava o estrago dos amores pecaminosos.” Seu reconhecimento de que “poluía a fonte do afeto pelas sujeiras da concupiscência” soa como uma alusão exagerada à masturbação ou à homossexualidade; outras expressões igualmente intensas e enigmáticas evocam uma série de casos infelizes com mulheres. Mas essa promiscuidade febril, se era disso que se tratava, logo daria lugar a uma situação bem mais estável. Dali a um ou dois anos, Agostinho amigou-se com uma mulher com quem viveria – e, pelo que conta, a quem se manteve fiel – pelos catorze anos seguintes.

A essa altura, dificilmente Mônica poderia esperar um arranjo melhor para o filho, tendo em vista sua efervescente energia sexual. O que ela mais temia era um casamento precipitado que pudesse prejudicar sua carreira. Limitar-se a dividir um teto com uma mulher representava um risco muito menor, mesmo depois que essa mulher deu à luz um filho, Adeodato. Pelos padrões da época, a relação era respeitável. Pelo menos do ponto de vista de Agostinho – o único que conhecemos – não havia nenhuma intenção de desposar esta mulher, cujo nome ele nem se dá ao trabalho de informar. Espera que seus leitores compreendam a diferença “entre o laço do contrato conjugal, estipulado para o fim da procriação, e o pacto de um amor libidinoso”.

Orgulhoso de sua inteligência e de sua sensibilidade literária, Agostinho estudou direito; aperfeiçoou seu talento retórico; entrou em concursos dramáticos; consultou astrólogos; e dominou o pensamento complexo e sinuoso associado ao culto de origem persa conhecido como maniqueísmo. E seguiu com seu maniqueísmo, além da companhia da amante e do filho, de Cartago para Tagaste, onde ensinou gramática, depois de volta a Cartago, onde deu aulas de oratória, e em seguida até Milão, onde assumiu uma ilustre cátedra de retórica.

Nos dez anos que a ascensão de Agostinho levou para consolidar-se, um problema importante persistia, e seu nome era Mônica. Quando ele chegou a Tagaste para seu primeiro emprego como professor, a mãe se recusou a ir morar na mesma casa que ele, não pela presença da amante e do neto, mas devido à crença maniqueísta do filho. Esta fé – a convicção de que havia duas forças em guerra, uma boa e a outra má, presentes no universo – parecia repugnante à mãe de Agostinho, e a fazia chorar ostensivas lágrimas amargas, como se o filho tivesse morrido.

As lágrimas redobraram quando, de volta a Cartago, ele decidiu seguir para Roma: “Ela me retinha com todas as forças, chamando-me de volta ou querendo viajar comigo.” Ele disse à mãe, faltando com a verdade, que só iria se despedir de um amigo, convencendo-a a passar a noite num templo próximo ao porto. “Menti a minha mãe, […] parti às escondidas.” O filho deve ter sentido certa dose de culpa. Ainda assim, quando rememora esse momento, permite-se manifestar alguma irritação com a mãe, falando do “desejo carnal dela pelo justo flagelo das dores”. Essa expressão que utiliza para descrever o sentimento dela – carnale desiderium – poderia parecer mais adequada para falar de uma amante. Para Mônica, tudo que estivera bloqueado ou ficara insatisfeito em sua relação com o marido havia sido transferido para o filho. Agostinho, sufocado, precisou fugir. E o sofrimento que essa fuga trouxe a Mônica, reflete ele, era o destino que lhe reservava sua condição de mulher: “Aqueles tormentos revelavam nela os vestígios de Eva, buscando nos gemidos o que pariu entre os gemidos.”

No livro bíblico do Gênesis, a consequência da desobediência de Eva é dupla: as mulheres são condenadas a parir seus filhos em meio a dores e a desejar os maridos que as subjugam. Quando Agostinho fala de sua relação com a mãe, fundem-se nele o filho e o marido: ela o trouxe ao mundo em meio a dores, e em meio a dores o seguia pelo mundo. Pois a busca dolorosa de sua mãe não terminou no porto de Cartago. Poucos anos depois, quando Agostinho assumiu sua cadeira em Milão, Mônica tomou um navio no norte da África e partiu a seu encontro.

Dessa vez ele não fugiu. Embora não se dispusesse a se batizar e virar católico, admitiu para a mãe que havia ficado muito impressionado com Ambrósio, o bispo católico de Milão. Os vigorosos sermões de Ambrósio ajudaram a reverter o desprezo que Agostinho sentia pela aparente precariedade das narrativas bíblicas. Os absurdos que o deixavam originalmente chocado começaram a lhe parecer mistérios profundos. Suas certezas intelectuais e estéticas bem estabelecidas começavam a desmoronar.

Por todo esse tempo, a carreira de Agostinho seguiu seu curso. Lecionava pela manhã e passava as tardes com os amigos mais próximos, discutindo filosofia. Sua mãe, agora instalada na mesma casa que ele, tentava mudar a vida do filho. Fazia o possível para lhe conseguir um casamento favorável, e afinal encontrou uma herdeira católica adequada, cujos pais concordaram com o enlace. A jovem, entretanto, ainda tinha dois anos menos que a idade mínima para o casamento, e as bodas precisaram ser adiadas.

Enquanto isso, Mônica tramava outra mudança na vida do filho. A mulher com quem ele vivia “foi arrancada do meu flanco por ser um empecilho ao casamento”, escreve Agostinho. “Meu coração, que se apegara a ela, despedaçado e ferido, deixou um rastro de sangue.” Dos sentimentos da amante ele não nos dá qualquer notícia, observando apenas: “Ela voltou para a África, prometendo a Ti que não conheceria outros homens.” E então ela desaparece do relato, deixando Agostinho às voltas com o insistente apetite sexual que ela servira para aplacar. Rapidamente, ele encontra uma nova amante.

Ainda assim, como Agostinho testemunharia pouco depois, a graça de Deus pode tomar estranhos caminhos. Dali a pouco mais de um ano, Agostinho converteu-se à fé católica. Pouco depois, já batizado, rompe seu noivado, renuncia à sua cátedra, faz voto de castidade perpétua, decide voltar para a África e funda uma comunidade monástica. Ao fugir de sua mãe, sem se dar conta, embarcara numa jornada espiritual que acabaria ultrapassando os mais extremados sonhos maternos.

Caracteristicamente, Agostinho só consegue adotar a continência, como dizia, como parte de uma reflexão muito mais ampla sobre a natureza da sexualidade. Precisou entender a intensidade peculiar da excitação, da urgência compulsiva, do prazer e da dor que caracterizam a realização do desejo humano. Não contemplava esses sentimentos do alto do mirante seguro de uma libido refreada, nem se iludia achando que fossem anormais. Sendo jovem, e já tendo gerado um filho, sabia que, para toda a espécie humana, a reprodução envolvia precisamente as relações sexuais a que pretendia renunciar. Como podia a mais alta vocação religiosa cristã rejeitar coisa tão obviamente natural? Ao tentar responder a essa pergunta, Agostinho articulou uma visão da sexualidade que viria a adquirir uma influência profunda, e que ainda hoje se mantém controvertida. Chegou a essas ideias sondando suas próprias experiências – as mais profundas – e também projetando sua curiosidade ao passado mais remoto da espécie humana.

No porto romano de Óstia, dias antes de zarpar para a África, Agostinho e sua mãe conversaram em tom íntimo junto a uma janela que dava para um jardim interno. A conversa entre os dois, serena e alegre, os levou a concluir que nenhum prazer corpóreo, por maior que fosse, jamais equivaleria à felicidade dos santos. E então, “alçados por um sentimento mais intenso”, Agostinho e Mônica experimentaram uma sensação extraordinária: sentiam que subiam cada vez mais, percorrendo todos os graus da matéria e das esferas celestes, e, ainda mais, chegando à região das próprias almas e ao caminho da eternidade que se estende para além do próprio tempo. E, “enquanto falávamos e a desejávamos [a eternidade], a atingimos pela duração total de um batimento de coração”.

É difícil transmitir, numa tradução, o vigor desse relato, e o que terá significado, para um jovem de 32 anos e sua mãe de 55, chegarem juntos a esse clímax. Que logo passa: suspiravimus. “Suspiramos”, conta Agostinho, “e voltamos ao ruído das nossas bocas.”

O momento de êxtase que Agostinho compartilha com sua mãe foi a experiência mais intensa da sua vida – talvez, como assinalou a escritora britânica Rebecca West, “a experiência mais intensa jamais rememorada”. Alguns dias mais tarde, Mônica adoeceria, vindo a morrer pouco depois. As Confissões não vão muito mais longe no relato da vida de Agostinho. Em vez disso, passam a dedicar-se a uma extensa meditação filosófica sobre a memória e a uma interpretação do início do Gênesis, como se toda sua autobiografia só pudesse levar a isso. Por que o Gênesis? E por que, nos anos seguintes, a atenção de Agostinho viria a se concentrar especialmente na história de Adão e Eva?

Os pagãos ridicularizavam essa história, que julgavam tosca e incoerente do ponto de vista ético. Como um deus merecedor de respeito tenta barrar aos homens o conhecimento do bem e do mal? Os judeus e os cristãos com alguma sofisticação preferiam não se deter sobre o relato, ou distanciavam-se argumentando tratar-se de uma alegoria. Para Fílon, autor judeu que escrevia em grego na Alexandria do século I, o primeiro ser humano – o ser humano do primeiro capítulo do Gênesis – não era uma criatura de carne e osso, mas uma ideia platônica. Para Orígenes, um cristão do século III, o Paraíso não era um lugar, mas uma condição da alma.

O relato arcaico sobre o homem e a mulher nus, a serpente falante e as árvores mágicas era um tanto embaraçoso. Foi Agostinho quem o resgatou do justo esquecimento ao qual parecia relegado. E é Agostinho o maior responsável por sua proeminência – inclusive pelo fato de que, hoje, quatro em cada dez americanos afirmem crer em sua verdade literal. Durante os mais de quarenta anos que se sucederam à sua momentosa conversão – anos dedicados a intermináveis polêmicas, ao exercício de algum poder e à escrita febril – ele se convenceu de que não se tratava de mera fábula ou mito. Ali estava a chave de tudo.

Empregou em sua interpretação não só sua acuidade filosófica como também memórias pessoais que abarcavam várias décadas – a contar dos sinais da inquieta adulescentia que estimularam seu pai a falar de netos com a mulher. Por meio de uma prolongada reflexão sobre Adão e Eva, Agostinho chega à compreensão de que, em sua experiência pessoal, o crucial não tinha sido o florescimento da maturidade sexual, mas, na verdade, o caráter incontrolável e involuntário desse impulso. Mais de cinquenta anos depois, ainda cismava sobre essa questão. Temos o poder, quando somos saudáveis, de mobilizar ou não outras partes do corpo de acordo com a nossa intenção. “Mas quando se trata da grande função da procriação do homem”, escreve ele, “os membros expressamente criados com esta finalidade não obedecem à direção da vontade, mas é a luxúria que aciona esses membros, como se lhe coubesse algum direito legal sobre eles.”

É muito estranho, pensava Agostinho, não conseguirmos simplesmente comandar essa parte crucial do nosso corpo. Ficamos excitados e a excitação acontece dentro de nós – nesse sentido, é totalmente nossa –, mas ainda assim não se submete ao poder executivo da nossa vontade. Obviamente, o modelo aqui é o corpo masculino, mas ele estava convencido de que as mulheres deviam passar por alguma experiência equivalente, não visível, mas essencialmente idêntica. E é por isso que, depois de sua transgressão, tanto a primeira mulher quanto o primeiro homem sentem vergonha e cobrem seus corpos.

Agostinho volta vezes sem conta às mesmas perguntas: De quem é este corpo, afinal? De onde vem o desejo? Por que não comando o meu próprio pênis? “Às vezes ele se recusa a atuar quando a mente quer, e com frequência atua contra a sua vontade!” Mesmo um monge envelhecido em sua cela, reconhece Agostinho em Contra Juliano, é atormentado por “memórias inquietantes” que sobrepujam suas “santas e castas intenções”. E nem os cônjuges mais devotos podem conseguir o que for “sem o ardor da luxúria”. E esse ardor, a que Agostinho dá o nome técnico de “concupiscência”, não é um simples dote natural ou uma bênção divina; é um toque do mal. O que fazem juntos um homem e uma mulher casados decididos a gerar um filho não é maligno, insiste Agostinho; é uma coisa boa. “Mas o ato não ocorre sem a presença de algum mal.” A verdade é que a relação sexual – como Agostinho sabia por uma extensa experiência com sua amante e outras pessoas – é o maior dos prazeres do corpo. Mas a insuperável intensidade do prazer é justamente sua sedução perigosa, seu doce veneno. “Não há dúvida de que qualquer amigo da sabedoria e das alegrias puras […] haveria de preferir, se possível, gerar filhos sem concupiscência.”

Oreconhecimento atormentado de Agostinho de que a excitação involuntária era inescapável – não só nas relações conjugais, mas também no que ele descreve como “os próprios movimentos que ela provoca, para nossa tristeza, até no sono, e mesmo nos corpos de homens castos” – deu forma à mais influente das suas ideias, transformando a história de Adão e Eva e adquirindo maior peso com o passar dos séculos seguintes: o pecado original.

Esta ideia se transformou numa das pedras de toque da ortodoxia cristã – mas não antes de décadas de polêmica. O mais destacado entre os que achavam o argumento do autor das Confissões tanto absurdo quanto repulsivo era um monge britânico chamado Pelágio. Contemporâneo quase exato de Agostinho, era num certo sentido sua perfeita contrapartida: um natural das fímbrias do mundo romano que, por força do intelecto, do carisma e da ambição acabou chegando à capital, produzindo um impacto significativo sobre a vida espiritual do império.

Pelágio e seus seguidores eram otimistas morais. Acreditavam que os seres humanos nasciam inocentes. Os bebês não chegam ao mundo com um dote especial de virtude, mas tampouco trazem a mancha inata do vício. É verdade que somos todos descendentes de Adão e Eva, e que vivemos num mundo marcado pelas consequências de seu gesto primordial de desobediência. Mas esse ato, num passado distante, não nos condena inescapavelmente à condição de pecadores. Como poderia condenar? Qual seria o mecanismo da infecção? Por que um Deus benevolente haveria de aprovar uma condição tão monstruosa? Temos a liberdade de dar forma às nossas vidas, para servir seja a Deus, seja ao Diabo.

Agostinho retrucou que estamos todos marcados, desde a nossa origem inicial, pelo mal. E a culpa não cabe a atos específicos de crueldade ou violência, a formas particulares de patologia social, nem a essa ou aquela pessoa que tenha feito uma péssima escolha. É totalmente raso e ingênuo imaginar, como os seguidores de Pelágio, que partimos de um estado de neutralidade, que a maioria de nós seja basicamente decente ou que a escolha do bem só dependa da nossa vontade. Existe em nós um defeito profundo e essencial. Nossa espécie inteira é o que Agostinho define como uma massa peccati, uma massa de pecado.

Os discípulos de Pelágio disseram que Agostinho estava simplesmente revertendo à antiga crença maniqueísta de que a carne era criação de uma força malévola, e possuída por ela. E isso só podia ser uma traição do cristianismo, com sua fé num Messias feito carne. Não é verdade, respondeu Agostinho. É fato que Deus optou por fazer-se homem, mas para tanto escolheu “uma virgem, cuja concepção, não carne, mas espírito, não concupiscência, mas virtude, é o mais importante”. A existência de Jesus, noutras palavras, não dependeu da mínima presença do ardor necessário para a geração de todos os demais humanos: “A santa Virgem emprenhou-se não por relações conjugais, mas pela fé – na ausência absoluta de concupiscência –, de modo que o que nascesse da raiz do primeiro homem pudesse derivar apenas da origem da raça, e não também da culpa.”

A palavra-chave, aqui, é crimen, que além de “delito” também significa “culpabilidade”. Cabe a nós a culpa por não nos mantermos intocados pela concupiscência – que não é um resultado da vontade de Deus, mas consequência de algo que fizemos. E é aqui, quando precisa apresentar alguma prova de nossa perfídia individual e coletiva, que Agostinho convoca o testemunho de Adão e Eva. Pois o pecado original que macula cada um de nós não é só um pecado inerente às nossas origens individuais – ou seja, à excitação sexual que permite a nossos pais a concepção de cada um de nós –, mas também um pecado que pode ser atribuído ao casal de que se origina toda a nossa raça.

E agora, a fim de proteger Deus da acusação de que tenha sido responsável pelos defeitos congênitos de Sua criação, tudo dependia de Agostinho demonstrar, de alguma forma, que no Paraíso tudo poderia ter ocorrido de outra maneira; que nossos progenitores Adão e Eva não foram originalmente criados para se reproduzir como hoje nos reproduzimos, mas que perversamente tenham feito a escolha errada, uma escolha de que todos participamos. Para tanto, Agostinho precisaria mergulhar mais fundo nas palavras enigmáticas do Gênesis do que qualquer outro antes dele. Precisaria reconstruir as vidas perdidas de nossos ancestrais mais remotos. Precisaria encontrar o caminho de volta para o Jardim do Éden, e presenciar a conjunção carnal entre nossos primeiros antepassados.

Ocaminho que precisava seguir, concluiu Agostinho, era antes de mais nada considerar literalmente verdadeiras as palavras do Gênesis. A história hebraica da origem pode parecer um conto popular, do tipo que ele desprezava na juventude. Mas a tarefa do verdadeiro crente não é tratá-la como o revestimento ingênuo de algum sofisticado mistério filosófico. O que cabe fazer é considerá-la uma representação sem retoque da verdade histórica – torná-la real – e convencer os outros a agir da mesma forma.

Encetando seu projeto com a confiança que o caracterizava, Agostinho começou a escrever uma obra, Comentário ao Gênesis, com o objetivo de discutir “as Escrituras de acordo com o significado literal do que de fato ocorreu”. Por cerca de quinze anos, dedicou-se a essa obra, resistindo a seus amigos que o instavam a terminá-la e publicá-la logo. De todos seus muitos livros, foi provavelmente aquele a que dedicou uma atenção mais prolongada e constante.

No final, acabou derrotado pelo livro, e sabia disso. O problema é que nem tudo que diz o Gênesis pode ser aceito literalmente, por mais que se tente, e não existe uma regra simples e confiável que indique o grau apropriado de entendimento literal do texto. A Bíblia conta que, depois que Adão e Eva comeram do fruto proibido, “abriram-se os olhos dos dois”. Isto significa que tinham sido criados com os olhos fechados? Que “vagavam cegos pelo jardim das delícias, caminhando às apalpadelas, tendo assim chegado sem saber também à árvore proibida, e tendo encontrado pelo tato os frutos proibidos colheram alguns sem saber do que se tratava”? Não, não pode ser esse o sentido do texto, porque já aprendemos que os animais eram trazidos até Adão, que deve tê-los visto antes de dar-lhes seus nomes; e também sabemos que Eva viu que o fruto da árvore fatídica era bom de se comer e a árvore era “formosa à vista”. Ainda assim, reflete Agostinho, só porque uma palavra ou expressão é usada metaforicamente, “isso não significa que toda a passagem deve ser entendida em sentido figurado”.

Mas como distinguir? Como Eva sabia o que a serpente quis dizer quando lhe disse, para tentá-la, “vossos olhos se abrirão”? Não que houvesse pouca coisa em jogo. Para Agostinho, ao menos, o risco não podia ser maior: a questão era de vida ou morte, não só para os pais de todos como para todos os seus descendentes. Mesmo assim, não existe uma regra fixa para a interpretação. “O autor do livro”, escreve Agostinho, “deixa que os leitores decidam por si mesmos.”

Não admira que Agostinho tenha levado tanto tempo para escrever Comentário ao Gênesis, ou que, sempre que lhe punha as mãos, se agarrasse como um afogado ao sentido literal do seu texto. No caso de “vossos olhos se abrirão”, estava certo de que devia haver, no final das contas, algo que o casal tenha realmente visto pela primeira vez depois de sua transgressão, alguma coisa não apenas metafórica: “Puseram os olhos em seus próprios órgãos genitais, e eles lhes despertaram a concupiscência com o movimento irresistível que antes não conheciam.”

A chave para esse entendimento estava oculta desde sempre na experiência do próprio Agostinho. A inquieta adulescentia que encantou o pai do jovem e deixou sua mãe horrorizada pode remontar inicialmente ao momento original em que tanto Adão como Eva sentem luxúria e vergonha. Viram pela primeira vez o que nunca tinham visto antes, e, se essa visão os deixou excitados, também os impeliu a sair em busca de folhas de parreira para cobrir, como que com um véu, “aquilo que fora posto em movimento independente da vontade dos que o desejaram”. Até aquele momento, eles possuíam – pela única vez, achava Agostinho, em toda a história da raça humana – uma liberdade perfeita. Agora, por terem escolhido espontaneamente, inexplicavelmente e por orgulho, viver não para Deus, mas para si mesmos, tinham perdido a liberdade. E sentiam vergonha.

Mas qual seria a alternativa perdida para sempre por eles – e por todos nós? Como, especificamente, poderiam se reproduzir, se não da maneira como os humanos se reproduziram desde sempre? No Paraíso, Agostinho afirma, Adão e Eva teriam praticado o sexo sem a excitação involuntária: “Não teriam tido a atividade turbulenta da concupiscência em sua carne, mas só os movimentos da vontade tranquila que controla os outros membros dos nossos corpos.” Sem sentir qualquer paixão – sem o incômodo desse estranho aguilhão – “o marido teria relaxado no seio de sua esposa com a mente tranquila”.

Como isso seria possível, perguntaram os adeptos de Pelágio, se os corpos de Adão e Eva eram substancialmente idênticos aos nossos? Imaginem, responde Agostinho, que mesmo hoje, em nossa condição presente, algumas pessoas sejam capazes de fazer com seus corpos coisas que outros achem impossíveis. “Há pessoas que mexem as orelhas, seja uma por vez ou as duas ao mesmo tempo.” Outras, como ele testemunhara em pessoa, podiam suar na hora que quisessem, e havia até pessoas capazes de “produzir sons tão musicais a partir de seus traseiros (sem mau cheiro) que parecem estar cantando com aquela parte do corpo”. Por que então não podemos imaginar que Adão, em seu estado incorrupto, pudesse desejar que seu pênis se enrijecesse só para penetrar Eva? Tudo seria tão calmo que sua semente poderia ser “enviada ao útero sem perda da integridade da mulher, assim como o fluxo menstrual pode ser produzido pelo ventre de uma donzela sem que ela perca a virgindade”. E para o homem, também, não haveria “qualquer dano à integridade de seu corpo”.

Estes eram os planos originais para Adão e Eva. Porém, conclui Agostinho, nunca chegou a ser assim, nem mesmo uma única vez. O pecado dos dois ocorreu primeiro, “e incorreram na pena de exílio do Paraíso antes que pudessem se unir para a propagação como um ato deliberado intocado pela paixão”.

Qual foi o sentido de todo esse exercício para tentar imaginar a vida sexual de Adão e Eva? Foi determinado pelas polêmicas cristãs e pela doutrina cristã – como uma tentativa de refutar os maniqueístas e os seguidores de Pelágio, e como uma visão de Jesus como filho milagroso de uma virgem que engravidou sem a experiência do ardor. Além dessas finalidades doutrinárias, o envolvimento obsessivo de Agostinho com a história de Adão e Eva falava de alguma coisa em sua própria vida. O que ele descobriu – ou, mais propriamente, inventou – acerca do sexo no Paraíso provava a ele que os humanos, originalmente, não deveriam sentir o que ele experimentou a partir da adolescência. Provava que não lhe era necessário sentir os impulsos que o atraíam para a vida fácil de Cartago. Acima de tudo, provava que ele, pelo menos depois da redenção a que tanto almejava, não precisava sentir o que tinha sentido tantas vezes com a sua amante: a mãe de seu único filho; a mulher que mandou embora por determinação de sua mãe; aquela que prometeu nunca mais estar com homem algum, assim como ele nunca mais voltaria a estar com mulher alguma; aquela cuja separação dele, escreveu, lhe pareceu como algo que fora arrancado de seu flanco.

A queda de Adão, escreveu Agostinho em A Cidade de Deus, não se deve a ter sido enganado pela serpente. Ele escolheu pecar e, ao fazê-lo, perdeu o Paraíso, porque não podia suportar viver separado de sua única companheira. Agostinho, até onde foi capaz nos limites de sua condição decaída, desfez a escolha fatal de Adão. Com a ajuda de sua mãe santificada, separou-se de sua companheira e tentou escapar ao ardor, à excitação. Moldou-se, até onde o levou sua extraordinária capacidade, com base no modelo do Adão reconduzido ao Éden, um modelo que passou anos se empenhando em entender e explicar. É verdade que ainda lhe ocorriam aqueles sonhos involuntários, aqueles impulsos indesejados. Mas o que ele aprendeu sobre Adão e Eva em seu estado de inocência lhe assegurava que algum dia, com a ajuda de Cristo, ele havia de chegar a um controle completo de seu próprio corpo. E conquistar a liberdade.

Os trechos das Confissões citados neste texto foram retirados da tradução brasileira feita por Lorenzo Mammì, publicada pela Penguin Companhia das Letras em 2017.

O texto é uma versão condensada de dois capítulos do livro Ascensão e Queda de Adão e Eva, que a Companhia das Letras publica em abril.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


Escritor e historiador norte-americano, é autor de A Virada – O Nascimento do Mundo Moderno e Como Shakespeare Se Tornou Shakespeare.