cartas
Jun 2018 19h48
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O ANTIFENÔMENO
No perfil do Geraldo Alckmin (“Estranhos no ninho”, piauí_141, junho), Consuelo Dieguez escreve que a truculência da polícia paulista muito preocupa as entidades de direitos humanos. Corretíssimo. Eu trabalho para uma dessas entidades e posso afirmar que esta é de fato uma preocupação (ou melhor, uma crítica). Porém, os números citados na matéria estão incorretos. Em primeiro lugar, pergunto por que optaram por citar dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) de 2014, uma vez que o 11º Anuário com dados de 2016 já está disponível no site. Em 2014, a polícia de São Paulo efetivamente matou 965 pessoas, o que, em números absolutos, a posicionou como a polícia que mais matou naquele ano. Ao mesmo tempo a matéria afirma que a polícia do estado é a segunda que mais mata – sem especificar de que ano está falando –, atrás apenas da do Amapá. Tenho enorme respeito pela revista e principalmente pela Consuelo, autora dos melhores perfis já publicados na piauí, mas essa frase é uma verdadeira salada de frutas! Vamos lá: de acordo com os dados de 2016 (sempre do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ver p. 31 do 11º Anuário), a polícia de São Paulo matou 856 pessoas, atrás apenas da polícia do Rio, que matou 925 pessoas (em números absolutos). Já no Amapá, 59 pessoas foram mortas pela polícia. Porém, levar em consideração números absolutos não é a melhor forma de se fazer essa comparação, uma vez que as populações dos estados são drasticamente diferentes. Por isso o FBSP também publica a taxa (por 100 mil habitantes) de mortes decorrentes de intervenção policial. Comparando as taxas, o Amapá é efetivamente o estado onde, proporcionalmente à população, a polícia mais mata: 7,5 assassinatos para cada 100 mil pessoas. Mas em segundo lugar aparece o Rio de Janeiro, com uma taxa de 5,6. São Paulo compartilha o nono lugar na lista com o Rio Grande do Norte, com uma taxa de 1,9, abaixo da taxa média nacional de 2,0. Enfim, não desejo contribuir para que o perfil seja (ainda mais!) simpático ao ex-governador paulista, mas escrevo convencida de que compartilho com a piauí o compromisso com a transparência e com a verdade.
CAROLINA COOPER_RIO DE JANEIRO/RJ
NOTA DA REDAÇÃO: A leitora tem razão. A piauí errou ao se basear em dados desatualizados e adotou um critério impróprio para analisar a letalidade policial.
2013 NÃO ACABOU
O professor Marcos Nobre busca um paralelo entre as manifestações ocorridas em maio de 1968 na França e as que aconteceram em junho de 2013 no nosso país (“Junho, ano V”, piauí_141, junho). Situações muito diferentes, principalmente porque vivíamos no auge da Guerra Fria, com um acirramento das posições e objetivos diversos. Pode-se fazer uma aproximação relativamente à pauta de reivindicações, pois no auge do movimento francês pediase tudo, algo parecido com o que ocorreu no segundo tempo das jornadas de junho, quando a população acorreu às ruas num protesto totalmente anárquico, sem direção definida, mas com um alvo em comum – a corrupção que permitiu a construção das arenas futebolísticas bilionárias em função da Copa de 2014.
Já as manifestações que aqui ocorreram em 2015, após as eleições e as denúncias da Lava Jato, tiveram como alvo o governo petista, em função do estelionato eleitoral praticado. A crise que afundou o país na maior recessão de sua história já começara a refletir na opinião pública.
Grande parte da intelectualidade gosta de tachar de neoliberal qualquer governo que tenha preocupação com as contas públicas, pois julgam que tal procedimento prejudica o lado social, algo totalmente insustentável pela lógica. Essa é a verdadeira negação da realidade e não aquela à qual se refere o professor da Unicamp, especialista do peemedebismo, com seu viés de esquerda anacrônica. Parece ignorar nossa situação dramática e o risco de voltarmos a ser governados por aqueles que foram despejados do poder por incompetência, e que nunca se conformaram, pois pretendiam, por meio de manobras espúrias reveladas, sua eterna permanência no comando do país.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
VENTRE LIVRE
Mônica Manir conseguiu dar um tom bastante peculiar em relação ao aborto no Brasil (“O procedimento”, piauí_141, junho), ao trazer a história de Rebeca Mendes de forma direta e sem floreios. Humaniza-se a figura da mulher que quer interromper a gravidez, e que, neste caso, já é mãe e apresenta sólidos argumentos para sua decisão, além da natureza de sua saúde mental, desconsiderada nos corredores jurídicos do país. A reportagem apresenta um fato muito significativo, que é o desconhecimento da população colombiana sobre sua própria legislação reprodutiva. Fato importante para nós, pois, se houver algum avanço na descriminalização do aborto aqui, é possível que a ignorância continue imperando, mesmo com uma legislação moderna. A ação proposta pelo PSOL, assinada por quatro advogadas, é uma aula de reivindicação de direito sem alteração legal, com base no que já está estabelecido. Porém, diz respeito – tanto quanto outras solicitações em tramitação – às doze semanas de gestação, e pergunto-me se isso não seria um tiro no pé. Favorável à descriminalização do aborto em qualquer situação, usar a justificativa científica do início da vida com a formação do tubo neural – que não acontece antes das doze semanas – poderia ser um obstáculo para a evolução futura na legislação. De qualquer forma, esses três primeiros meses são a época de menores riscos à saúde da mulher. No entanto, isso são especulações otimistas, pois, com o Judiciário claudicante e o Congresso retrógrado que possuímos, pouca coisa de útil e necessário verdadeiramente se espera.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
CAPA
Não é de hoje que a grande imprensa dispensa o trabalho dos fotojornalistas. Não foi diferente quanto à capa da revista piauí do mês de junho, em que o desenho aludiu a uma fotografia histórica, de autoria de uma grande personalidade do jornalismo brasileiro que foi Alberto Ferreira. Ele fez essa imagem puxando um filme de ASA 400 para ASA 6 400, necessidade técnica para a qual os fotógrafos dos anos 60 tinham que apelar na maioria dos estádios brasileiros em jogos noturnos. Ele clicou este momento preciso com uma câmera Nikkormat simples, sem motor drive acoplado, produzindo apenas um fotograma do lance.
Não saber o autor desta foto emblemática revela o completo despreparo de quem fechou a página. Alberto Ferreira, já falecido, merecia já ter um livro publicado com suas histórias.
Naquela época o fotógrafo já era tido como o mais lendário e competente editor de fotografia que o Brasil já teve, chefiando uma equipe que revolucionou o jornalismo diário, com nomes como Evandro Teixeira, Ari Gomes, Almir Veiga, Rogério Reis, Ronaldo Theobald, Luiz Morier, Custódio Coimbra, Luiz Carlos David e muitas outras feras.
Identificar o verdadeiro autor da fotografia na próxima edição talvez não seja suficiente para reparar a injustiça. Melhor seria os editores incorporarem o hábito de apurar o verdadeiro autor das imagens e não atribuí-las preguiçosamente a seus distribuidores.
Em tempo: assino a piauí há cinco anos, tenho recebido meus exemplares com muitos dias de atraso. Neste mês ele chegou no dia 20 (ontem), depois de eu já ter desistido e comprado outro na banca.
RENAN CEPEDA_RIO DE JANEIRO/RJ
NOTA DA REDAÇÃO: Pedimos desculpas tanto pela injustificável omissão do crédito de Alberto Ferreira na foto de Pelé como pelo atraso na entrega do exemplar da revista. Afiançamos que não se trata de uma estratégia para que o leitor compre uma segunda piauí na banca. A greve de caminhoneiros na segunda quinzena de maio gerou um acúmulo de revistas a serem entregues, problema particularmente agudo na praça do Rio de Janeiro. A distribuidora está ciente da justa reclamação do leitor.
ARANHAS
Encasquetado com o cientista Hilton Japyassú a propósito do alentado texto sobre o comportamento pouco convencional da aranha Zosis geniculata (“Teço, logo existo”, piauí_141, junho), achei que havia algo de misterioso, talvez um código a ser decifrado apenas por membros de uma sociedade secreta.
Consultei um velho amigo do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, especialista em códigos e enigmas, sobre a possibilidade de uma mensagem oculta. A resposta não foi nada agradável: “É paranoia do consulente.”
Pensei então no imbróglio acontecido com a Casa da Moeda e Palácio de la Moneda.
A matéria deveria ser encaminhada à Nature e veio parar na piauí. Talvez aquela revista publique um trabalho da filósofa Marilena Chaui sobre Lula com Spinoza, fazendo uma aproximação da ética comum a estes personagens, à maneira de Lacan no livro Sade com Kant.
De qualquer modo, a etologia é fascinante, e ouso sugerir a publicação de excertos do livro Girafa tem Torcicolo?, do biólogo Guilherme Domenichelli.
SEBASTIÃO MAURÍCIO DUARTE PESSOA_RIO DE JANEIRO/RJ
NOTA REALISTA DA REDAÇÃO: Às vezes, uma Zosis geniculata é apenas uma Zosis geniculata. Ou seja, uma simples aranha esquisitona. Seria perda de tempo buscar sentidos ocultos na existência tecelã dela. Mais interessante é indagar, à moda de Guilherme Domenichelli, se, com suas oito patas constantemente ativas, a Zosis geniculata sofre de L.E.R. Cãibra. Entorce. Tropeços como os do Neymar.
NA TUA AUSÊNCIA CONVERSO CONTIGO
Parabéns pela composição multiescrita, um grande acerto (“Poesia”, piauí_141, junho). Mas pelo amor de Alá, jamais apliquem tracking positivo em texto árabe.
RAFAEL SARAIVA_RIO DE JANEIRO/RJ
NOTA DA REDAÇÃO: Depois de uma erudita troca de correspondência com um especialista na literatura do médio-oriente, na qual enveredamos por uma fascinante discussão pelo mundo das línguas indo-europeias, dos idiomas semíticos, das variantes lexicográficas persa, perse, pársi e farsi, fomos informados de que o espaçamento adotado (o tal tracking positivo) está correto. Aceitamos, contudo, o contraditório, mesmo porque essa revistamuitasvezescomemoscaatémesmoquando escreve em português.
PIAUÍFLIX
Por muito tempo eu quis ser assinante da piauí, mas só consegui realizar este meu desejo, por questões financeiras, há cerca de dois anos. Curtia desde o nome e o design até o conteúdo da revista, que sempre considerei inteligente. Deslumbrei-me com as reportagens minuciosas sobre o desastre de Mariana e a guerra na Síria, entre outras – incluindo a história da estagiária Yasmin Santos, merecedora da seção Chegada (“Do lado de cá”, piauí_139, abril).
Curiosamente, enquanto aumentava minha percepção de mundo, mais me desiludia com a postura profissional dos jornalistas e da imprensa em geral, todos preocupados em conservar o status quo e, simultaneamente, a ignorância do povo brasileiro. Atualmente, num país rachado como o nosso – onde dividido seria até um eufemismo –, caberia à imprensa não só escancarar os fatos, com imparcialidade, como também surpreender os leitores com diferentes pontos de vista. No segundo item, a piauí tem se destacado na diversidade.
Porém, num país pós-golpe (parlamentar, como descrito por André Singer) em que nossa democracia se encontra perigosamente fragilizada, com a perda da credibilidade nas instituições, na classe política, no Judiciário e na imprensa, quem fomenta a discórdia mascara a verdade ou compactua com a mentira, e também cai no descrédito. Foi essa decepção que senti quando me deparei com a página dupla chamada “Piauíflix”, no piauí Herald (piauí_140, maio). Talvez os leitores mais à direita, bem posicionados e de uma inteligência mais refinada, tenham aplaudido: “A culpa deve ser do sol, que bate na moleira” (Chico Buarque).
Nunca fui petista ou militante de partido político. Mas sempre me identifiquei com o discurso da esquerda. Votei várias vezes no Lula antes de poder comemorar. Tenho minhas críticas aos governos petistas, mas considero Lula o melhor presidente que o povo brasileiro já elegeu. Dilma iniciou uma “faxina ética” para acabar com o furto do patrimônio público. E ambos foram arbitrariamente condenados por erros até o momento refutáveis. Enquanto isso, os verdadeiros bandidos continuam a dilapidar nosso patrimônio, em liberdade e com liberdade, mesmo com provas em abundância sobre seus delitos.
Por esses e muitos outros motivos, considero um desrespeito com nossa história e um incentivo à mediocridade dualista desses nossos tempos, responder às críticas negativas a José Padilha, pela série O Mecanismo, com mais insinuações mordazes e levianas aos governos do PT e a seus partidários. José Padilha tem seus méritos, é um profissional talentoso, mas não é isento de críticas. Isso nem seria inteligente. Mais sábia é a Superinteressante, que convida seus leitores à meditação, porque ao estimular o hábito de pensar modifica a percepção de mundo daquele que faz dela sua prática diária. Ainda que a piauí também estimule meu pensamento – na maioria dos textos, positivamente –, aqui estou pela primeira vez, para dizer: adeus!
SHEILA SAAD_GUAXUPÉ/MG
NOTA CABISBAIXA DA REDAÇÃO: Estamos tristes com a tua partida, Sheila. Como agora você terá mais tempo – nossos leitores não se cansam de nos lembrar que a piauí é caudalosa como um romance de Dostoiévski –, sugerimos que vá a um dicionário e perca alguns minutos se familiarizando com os conceitos de sátira e paródia. São gêneros antigos que, desde a Grécia clássica, vêm prestando bons serviços à humanidade.
SITE
Eis que a piauí resolve se debruçar sobre a questão das fake news, e brinda seus leitores com uma extensa reportagem sobre os procedimentos adotados pelo Facebook (“Dois anos que abalaram o Facebook”, piauí_141, junho). Como é lindo o mundo dos que dizem: “A culpa não é minha!”
Por anos, a revista do banqueiro se esquivou de traçar perfis de figuras suspeitíssimas, como o “juiz” Moro e seu bando de Curitiba. Ninguém sabe quem são essas figuras, qual sua vinculação com o PSDB, nem sequer sua relação com Alberto Youssef. piauí nunca fez questão de informar.
E quem ler aquelas caudalosas dez páginas desavisado pode até pensar que piauí tem compromisso contra as fake news. Nada mais longe da verdade, já que piauí criou uma agência de checagem (Lupa) que está ligada diretamente ao Facebook, bem como ao UOL. Seria difícil pensar em algo mais absurdo do que uma agência de fact-checking dependente da imprensa. Proponho à piauí que explique a seus leitores essa insólita mistura. Também poderia aproveitar para explicar que papelão ridículo foi aquele do terço do papa enviado a Lula. Nem vou pedir a vocês que investiguem a condenação absurda de Lula. Seria ingênuo demais.
Para terminar, lhes afirmo: duvido que publiquem minha missiva. Já sabemos, leitores, que o negócio de vocês é publicar cartas de pessoas que nem existem, tal como Dirceu Luiz Natal. Mas se minha carta for a público, renunciarei à minha promessa íntima e seguirei comprando essa merda de revista, da qual sou fã.
FABRICIO CRISPIM TAVARES_SANTA MARIA/RS
NOTA INQUISITIVA DA REDAÇÃO: Já tendo perdido um leitor nesta edição e descoberto que outro é um ectoplasma (Dirceu), não podemos correr o risco de perder mais gente. Publicada a carta, aproveitamos para tirar uma dúvida. Leitor fã de revista inteligente é leitor inteligente? Leitor fã de revista fútil é leitor fútil? Leitor fã de revista esquisita é leitor esquisito?
Por questões de clareza e espaço, piauí se reserva o direito de editar as cartas selecionadas para publicação. Somente serão consideradas as cartas que informarem o nome e o endereço completo do remetente.
Cartas para a redação:
redacaopiaui@revistapiaui.com.br