cartas
Out 2018 15h08
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CIRO
Ainda que bem completa e rica em histórias, a reportagem de Fabio Victor sobre Ciro Gomes (“O brizolista de cátedra”, piauí_144, setembro) não atrai meu voto no pedetista. Ter pavio curto é traduzido como ser espontâneo em tempos correntes, mas esse é também um dos argumentos do candidato da extrema direita – de quem parece que não se deve dizer o nome. De qualquer forma, as pesquisas eleitorais mostram um embate entre “o coiso” e a esquerda, sendo difícil dizer se será Haddad ou Ciro no segundo turno. Esta carta será publicada – se for publicada e não mutilada, como a anterior – com o primeiro turno das eleições praticamente definido, compondo-se todo o Congresso Nacional e as assembleias legislativas, que é a parte mais importante da coalizão governamental a ser feita. De qualquer forma, vamos ver quais palavras piauí colocará em minha boca, uma vez que a expressão “impeachment de Dilma” (Cartas, piauí_144, setembro) não foi de minha lavra. Em tempo, Bernardo Esteves completou a esquina sobre a Medalha Fields – e seu furto – de forma primorosa (“A Fields de novo”). Nele tenho de basear meus escritos para ver se emplaco uma reportagem aí, nestes tempos de pós-
verdade e fake news.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
NOTA DO MUTILADOR-GERAL: De fato, caro Adilson. Sua frase original (“Não é à toa que muitos dos deputados que votaram por ele [Temer] assumir a presidência em 2016 disseram que o faziam em nome da família…”) se transformou, ao passar por nossa máquina de moer, na frase: “Não à toa, muitos dos deputados que votaram a favor do impeachment de Dilma e conduziram Temer à Presidência disseram que o faziam em nome da família…” A alteração se deu por questão de estilo, e não de golpismo; de clareza, e não de obscurantismo. Nosso açougue corta à direita e à esquerda.
POSTO IPIRANGA
Mais uma vez Malu Gaspar confirma sua competência no jornalismo investigativo ao traçar o perfil do economista Paulo Guedes (“O fiador”, piauí_144, setembro). Revela, com maestria, a trajetória desse campeão do liberalismo, um dos denominados Chicago boys com passagem no Chile de Pinochet – aliás, sua única experiência de atuação no governo, e que ocorreu fora do país.
Gestor competente nos empreen-dimentos em que se envolveu, princi-palmente na área financeira, ganhou a maioria de suas apostas, acumulando um confortável patrimônio. Crítico fer-renho de todos os governos em função de sua posição liberal, tendo como alvo preferencial a social-democracia tucana e petista, decidiu, finalmente, interferir na política. Ao intuir que o eleitor estava cansado e ansiava por mudanças profundas, inventou a candidatura de Luciano Huck, que desistiu da empreitada. Viu, então, em Bolsonaro – candidato que propunha uma plataforma de direita radical e ganhava musculatura nas redes sociais ao defender uma posição iconoclasta, encarnando o antipetismo –, a possibilidade de concretização de um ideal acalentado.
Bolsonaro, ao se opor a tudo que está aí, investindo-se como uma novidade na política (apesar de seus sete mandatos parlamentares), carecia de alguém que pudesse transmitir credibilidade ao seu programa econômico. Daí o casamento perfeito com o fiador, título perfeito da reportagem. O que parecia uma simples aventura eleitoral consolidou-se, como comprovam as recentes pesquisas eleitorais.
A dúvida é quanto à durabilidade desse casamento. Ambos têm pavio curto, são de difícil relacionamento, sendo que o militar possui um perfil autocrata, com histórico nacionalista e posições corporativistas. Como fios desencapados, há o enorme risco de um curto-circuito, pois dificilmente um ultraliberal bem-sucedido estaria disposto a engolir sapos, comprometendo sua biografia.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
APAIXONE-SE EM PROSA
Depois de ler o ótimo texto “Correio literário” na piauí_144, setembro, sobre como chegar (ou não chegar) a ser escritor, só me vem uma coisa em mente: como será a gargalhada da senhora Szymborska?
UOSTER ZIELINSKI_BELO HORIZONTE/MG
MECANISMO AUTORITÁRIO
Em “O anjo redentor” (piauí_143, agosto), o cientista político Antonio Engelke faz críticas aos filmes Tropa de Elite e à série O Mecanismo, do cineasta José Padilha. Entretanto, ele abandona a discussão sobre a qualidade e a intenção das obras, para criticar o pensamento do autor. Como resultado, ao final da leitura nos perguntamos o que, em Padilha, tanto incomoda Engelke.
Ao contrário de Chacrinha, gênio da comunicação, me sirvo desta para esclarecer que, assim como eu, publicitário, o cineasta, o político e todos os que precisam se comunicar em larga escala e curto tempo têm na síntese, na metáfora e na dramaticidade as ferramentas fundamentais para obter eficiência.
O mérito de um comunicador (o que todo artista é em última instância) é exatamente a destreza com que usa tais instrumentos. Padilha quer provocar a reflexão em cada um que assiste ao seu trabalho. Ao final da sessão, ninguém vai encontrá-lo na porta do cinema fazendo pesquisa para saber quantos ficaram contra ou a favor das ideias apresentadas.
O Mecanismo é síntese, a “cervejinha do guarda” é dramatização, o “mito” e o “redentor” são metáforas, recursos a serviço de tornar questões complexas acessíveis a um conjunto de cidadãos sem estofo ou tempo ou saco para erudição.
Questões como a corrupção, “o fantasma da servidão voluntária”, e se somos ou não “uma população avessa aos direitos humanos” (é Engelke que afirma isto) não serão exauridas ou aprimoradas na passividade da poltrona se deixando levar pelas interpretações de mundo de cineastas do passado ou da modernidade líquida, como bem observou Zygmunt Bauman.
O artigo traz, sim, aspectos importantes (vale a leitura), mas seria pobre se apresentado como tese em um ambiente acadêmico. Buñuel, Fellini, Fassbinder, Truffaut, Glauber e tantos outros devem estar, em seus túmulos, temendo ter suas filmografias defenestradas (ou melhor dizer cientificamente dissecadas?) por um cientista político.
Cada macaco…
PAULO VOGEL_PETRÓPOLIS/RJ
A REDOMA DE TITE
Ótimo artigo de Marcos Caetano sobre o nosso morrediço futebol representado pelo técnico Tite (“A mídia ‘parça’ de Tite”, piauí_143, agosto). Realmente, o grosso da mídia esportista – com as sempre honrosas exceções – já o escolheu como nosso redentor futebolístico. Aliás, assemelha-se aos messias apontados no artigo sobre os filmes de José Padilha, em que o país anseia pelo guiador (Capitão Nascimento ou Sérgio Moro) que nos tirará da “cegueira ideológica”.
Por derradeiro, em retificação ao texto, explique-se que Sérgio Moro exerce o cargo de juiz federal, não juiz de direito (estadual).
HELANO CID TIMBÓ_FORTALEZA/CE
A VIZINHA DE COPACABANA
Impossível não ficar emocionado com “A vizinha”, de Armando Antenore (piauí_143, agosto). Algo que me tocou no texto foi a maneira como Kika descreveu o ato de crueldade por ela sofrido. O leitor sente ao mesmo tempo compaixão por Kika – como se quisesse abraçá-la e chorar junto com ela – e uma raiva imensa por seus algozes impunes.
Antenore descreve muito bem um pouco da vida dos moradores de rua. Cidadãos diariamente ignorados por nós, tratados com indiferença, como se não fossem humanos – “bichos”, consoante o poema de Manuel Bandeira.
ANTÔNIO FIORIO_CURITIBA/PR
O AMIGO ADORÁVEL
Ler o texto “Alexandre, o grande” de João Moreira Salles na edição de agosto me levou a uma pequena montanha-russa emocional. Ora ria das tiradas do – realmente, adorável – Gontijo, ora quase ia às lágrimas, o que me fez questionar como alguém que nunca conhecemos nem mesmo ouvimos falar pode nos gerar tamanha empatia. Que personagem, que ser humano. O texto me obrigou a ouvir o famigerado podcast TOQVNQENPSSC, Tudo O Que Você Não Quer e Não Precisa Saber Sobre a Copa – sigla que adquire um charme especial no sotaque brasilianista da Flora Thomson-DeVeaux –, e escutar as piadas na voz da própria figura – e, de novo, que figura – que parecia ser o Alexandre. Tive que ouvir todos os programas, incluindo os comentários de João Brizzi, de quem já havia lido um texto formidável sobre seu pai, que também me emocionou: “O que é real não desaparece” (no site da revista). Por fim, jogando “Alexandre Gontijo” no site da piauí, me deparei com a série Diz aí, Mestre, que reúne relatos memoráveis em vídeo dos grandes mestres do futebol brasileiro, que me lembrou o livro Recados da Bola, de Jorge Vasconcellos. Obrigado, por meio desses conteúdos, por me fazerem ter conhecimento de que essa pessoa passou pela Terra. Saudações.
PAULO MARCONDES_ SÃO PAULO/SP
THEY LOVE TAIOBA
Na piauí_143, agosto, na esquina “They love taioba”, a jornalista Mônica Manir enaltece as qualidades gastronômicas da planta da culinária mineira. A taioba faz parte de minhas lembranças mais longínquas, filho de mineiros que sou. Mas, lamentavelmente, também de minhas agruras como vítima de cálculo renal – sim, as famosas pedras nos rins.
Depois de uma crise horrível, meu urologista recomendou uma análise de minhas pedras nem um pouco preciosas. E bingo! Tratava-se de oxalato de cálcio, nem mais nem menos. Portanto, além da divulgação das delícias desse vegetal, fica o alerta para os meus colegas “calculistas”: Do not love taioba anymore! Fujam da taioba!
LÚCIO MAZZA_GUARULHOS/SP
FRANCAMENTE
Esta carta não tem a pretensão de aparecer na edição de outubro. Se a piauí quiser publicá-la, não vou me opor de forma alguma, pelo contrário, será um momento de felicidade. O importante é que essas palavras cheguem ao pessoal da redação, para que saibam o carinho e a admiração que nutro por todos aqueles envolvidos na realização e publicação da revista.
Conheci a piauí há cerca de cinco anos, quando eu estava no ensino médio. Foi-me apresentada por um amigo, que elogiou bastante o material. No entanto, ao olhar a capa mirabolante, a impressão que eu tive era de que se tratava de uma revista de humor satírico, uma versão brasileira da revista Mad. Passaram-se anos até que eu reencontrasse a publicação numa banca de jornal. Que descoberta deliciosa! Aquela minha primeira impressão não poderia ter sido mais enganosa. Sim, há humor, especialmente na seção Cartas, mas a qualidade reside muito além disso: está no trato com os textos, na diversidade dos temas, na excelência do corpo de redação e, principalmente, na seguinte equação: a qualidade das matérias é diretamente proporcional ao número de páginas. Sim, de início me assombrou tamanha quantidade, mas confesso que me apaixonei.
Compro religiosamente cada edição desde outubro do ano passado. Poderia ter assinado, porém a sensação de ir a uma banca e descobrir outros prazeres, além dos habituais, é impagável. Inclusive, ao visitar a casa de minha tia neste ano, descobri que minha prima jornalista assinou a piauí nos seus primórdios, após uma palestra do João Moreira Salles na faculdade dela. Pude pegar os exemplares mais antigos, começando pela edição de nº 17. Na minha próxima visita, pegarei os demais.
Aliás, não poderia terminar o e-mail sem dizer que, diferentemente dos outros leitores, eu não começo pela seção das cartas. Guardo tal prazer para o final, pois a sensação é intangível. É como acordar e encontrar a família reunida na sala conversando, sem nenhuma motivação em especial. Ou então chegar dos estudos ou do trabalho e encontrar os amigos jogando bola na rua, esperando você guardar as coisas e pegar sua chuteira. Em suma, o sentimento é de pura fraternidade e companheirismo por aqueles que, assim como eu, desfrutam momentos prazerosos com o trabalho de vocês.
Obs.: Adoro o podcast Foro de Teresina – esse eu pude acompanhar desde o início, sem edições atrasadas.
JOÃO GABRIEL DE OLIVEIRA FERNANDES_GUARULHOS/SP
NOTA ESTUPEFATA DA REDAÇÃO: João, invejamos o teu olhar gentil sobre o mundo. Enxergar esta seção de cartas como uma doce família reunida na sala exige uma pureza de alma digna de Irmã Dulce em seus dias de maior candura. Para você ter uma ideia, a turma que edita as cartas costuma vestir colete à prova de balas. É que é tiro para todo lado.
Por questões de clareza e espaço, piauí se reserva o direito de editar as cartas selecionadas para publicação. Somente serão consideradas as cartas que informarem o nome e o endereço completo do remetente.
Cartas para a redação: