cartas
Dez 2018 10h05
10 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
IBOPE NOS TRILHOS
Na reportagem sobre as pesquisas eleitorais (“Contadores de votos”, piauí_146, novembro), José Roberto de Toledo conta que a diretora do Ibope brincou quando ele disse ter ido de Uber, e não de metrô, acompanhar o pesquisador nas residências do Jabaquara. “Não vale ter ido de Uber. Tinha que ter ido de metrô e ônibus.” Ela deve ter mandado mais uma mensagem quando viu que ele escreveu que os trens que passam perto do Ibope, na Zona Oeste de São Paulo, são da emtu (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos). Só para constar: a emtu manda nos ônibus intermunicipais, enquanto a cptm (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) é que cuida dos trens.
Trilhos à parte, que bom estar mais por dentro desse ambiente das pesquisas nessa reportagem que mostra como é difícil ser um dos seletos entrevistados e quantos interesses estão em jogo. Aproveito para elogiar Tiago Coelho e a grande matéria sobre a ativista Buba Aguiar (“A exilada”, piauí_146, novembro), enquanto a gente vai aí para um ano sem respostas sobre a morte de Marielle Franco. E a aula que foi a reportagem sobre Três Corações (“Uma cidade exemplar”, piauí_145, outubro) e o resumo da bagunça que, em resumo, somos nós, brasileiros.
PAULO TALARICO_SÃO PAULO/SP
NOTA DA REDAÇÃO: O Toledo bota pinta de ser um democrata, um sujeito do povo, mas na verdade ele só anda de táxi. E ainda lamenta que os aplicativos tenham desglamourizado o serviço.
EFEMÉRIDES
Perdi o timing ao enviar a carta do mês passado, tal como a revista quase perde o dela ao falar das eleições de outubro antes do segundo turno – apenas a parte final do artigo de Jairo Nicolau (“O triunfo do bolsonarismo”, piauí_146, novembro) conseguiu vislumbrar o resultado final. Sendo uma edição de novembro, nenhuma linha sobre o Dia da Consciência Negra, apenas uma arranhada no tema racismo & preconceito com a esquina “A roteirista negra” e a matéria “A exilada”, ambas de Tiago Coelho. Com a volta da educação moral e cívica foi imperdoável não tecer loas ao Dia da Bandeira e à Proclamação da República, todas datas escorpianas, para lembrar que astrologia deve vir a ser matéria obrigatória. De qualquer forma, as lágrimas do Museu Nacional (“Do carvão às cinzas”, piauí_145, outubro) daquela missiva foram retratadas pelo diretor Alexander Kellner. O assassinato de Marley, o cão da despedida “Marley e nós” (piauí_146, novembro), em nada influenciou o resultado final e fatal da eleição, pois o Ibope já trombeteava o apocalipse. Da bela história desse instituto, mesclando passado, presente e futuro, contada pelo José Roberto de Toledo (“Contadores de votos”, piauí_146, novembro), ficou a dúvida sobre o cardápio de frutos do mar que ele dividiu com Luís Paulo Montenegro e por que não foi mais a fundo para saber qual candidato quis comprar três pontos no Ibope – bastava consultar os arquivos da época. Por fim, Toledo ter chamado a companheira de Carlos Augusto Montenegro de “mulher” nos leva a questões de gênero ainda permitidas. Ou já não são mais?
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
VENEZUELA
Um amigo me contou a história de Liz, para ilustrar como somos capazes de nos acostumar a qualquer situação. “Liz era uma pessoa média. Nem muito boa, nem muito ruim. Ao morrer, nos portões do céu, são Pedro lhe disse: ‘Você vai entrar. Mas não de imediato. Primeiro vai pro inferno por cinco anos pra pagar teus pecados.’ Vencido o prazo, os anjos foram anunciar o fim da sentença: ‘Acabou seu sofrimento. Pode ir pro céu.’ Mas Liz respondeu: ‘Quero ir mais não. Já me acostumei aqui.’” Ao ler a reportagem de Paula Ramón (“O arroz chegou”, piauí_146, novembro), alguns dos personagens me fizeram lembrar de Liz. Obrigado, Paula, por compartilhar sua história conosco. Meus votos de melhora para os irmãos venezuelanos.
BRUNO CALHEIRA_ITABUNA/BA
Apesar de achar importante o relato de Paula Ramón (“O arroz chegou”, piauí_146, novembro), ele pouco acrescenta ao texto “Notícias de Maracaibo” (piauí_138, março), da mesma jornalista, e parece servir muito mais para alimentar o espantalho preferido da extrema direita brasileira que para explicar as razões por trás da grave crise vivida pela Venezuela.
Ao longo de toda a reportagem, pouco mais de três parágrafos se ocupam de explicar as razões da crise venezuelana. O que explicaria o sucesso de Chávez e a derrocada de Maduro? Seria apenas a baixa no preço do petróleo (que voltou a subir nos últimos anos)? Seria a diferença de habilidade política e de preparo dos dois presidentes? Seria o “carisma” citado pela jornalista? O que mudou de um governo para o outro?
Fico surpreso em ver uma reportagem tão extensa que não traz uma linha sequer sobre a crise política venezuelana e seus efeitos para a economia do país e que também ignora a atuação de Estados Unidos e aliados estrangeiros nesta crise. Pelo contrário, qualquer tentativa de ampliar esta análise é tratada como teoria da conspiração ou com pilhéria pela jornalista, que opta por ignorar as sanções econômicas impostas ao país, ainda que estas já tenham sido denunciadas por observadores independentes da ONU, como Alfred de Zayas, e que seus efeitos sejam sentidos diretamente pelos venezuelanos.
Levando-se em conta a situação política do Brasil e que a autora do relato mora no país, também salta aos olhos que, em nenhum momento, a jornalista ou seus conterrâneos tratem da possibilidade de intervenção militar estrangeira naquele país.
Em um momento tão delicado como o vivido por ambos os países, temo que relatos como este poderão servir de trampolim para determinadas narrativas que serão muito danosas para brasileiros e venezuelanos.
MARCELLO COIMBRA_RIO DE JANEIRO/RJ
CADÊ O OLAVO, GENTE?
Acabei de ler todos os editoriais dos grandes jornais e revistas da imprensa tradicional. É quase unanimidade o descontentamento com o novo ministro das Relações Exteriores de Bolsonaro. E o foco está em ele ser “discípulo” do filósofo Olavo de Carvalho, apoiar Donald Trump e acreditar em Deus. A curiosidade é que nenhum dos veículos deu-se ao trabalho de entrevistar aquele que supostamente lhe foi fiador na nomeação: Olavo. Por quê?
Está parecendo que só o site O Antagonista está fazendo pente-fino nas possíveis indicações do Bolsonaro. Ele deveria agradecer por isso. Por outro lado, os outros jornais e revistas tão somente se preocupam em informar o currículo acadêmico e profissional dos sujeitos. Nada sobre suas posições ideológicas, relações suspeitas e ficha criminal. De duas uma: 1) ou o resto da imprensa apoia bandidos; 2) ou está extremamente atrasada. Bolsonaro, agradeça a O Antagonista e abra o olho. Dê carta branca aos ministros, mas tenha uma caneta reserva.
WERLY DA G. DOS SANTOS_RIO DE JANEIRO/RJ
DISCREPÂNCIA
Já escrevi uma vez para vocês sobre isto: verborragias vazias e autorreferenciadas.
A diferença entre os artigos “O triunfo do bolsonarismo” (piauí_146, novembro), do Jairo Nicolau (curto e claro), e “O arroz chegou” (piauí_146, novembro), da Paula Ramón (verborrágica e oca), é gritante. Enfim. A oferta de revistas no país varonil faz com que etc. etc. etc.
HEITOR MANSUR CAULLIRAUX_ RIO DE JANEIRO/RJ
POLÔNIA
O relato da jornalista norte-americana Anne Applebaum, “O pior está por vir” (piauí_146, novembro), a respeito dos acontecimentos políticos ocorridos após a queda do Muro de Berlim na Polônia, onde mora, casada na época com o vice-ministro das Relações Exteriores do governo polonês, e também na Hungria, dirigida com mão de ferro por Viktor Orbán, mostra como esses países, que viveram o período de euforia democrática ao escaparem da Cortina de Ferro, mergulharam no domínio da extrema direita populista.
Em virtude de sua intimidade com figurantes de relevo da política polonesa, ela mostra o comportamento de muitos deles, que em troca dos benefícios se entregaram de corpo e alma aos novos donos do poder.
Podemos traçar um paralelo com o que ocorreu no nosso país após a conquista do poder pelo petismo, com o sinal trocado. Vivemos por mais de treze anos sob a égide de um populismo de esquerda, que provocou uma situação caótica nas finanças públicas e a maior recessão da história, com índices alarmantes de desemprego. Tal situação provocou forte reação raivosa da população com a rejeição da classe política, abrindo terreno para a vitória da direita mais extremada, cujos resultados são uma incógnita.
DIRCEU LUIZ NATAL _RIO DE JANEIRO/RJ
JUDEUS CONTRA BOLSONARO
Antes de mais nada, gostaríamos de agradecer a Jairo Nicolau pela análise apresentada na matéria “O triunfo do bolsonarismo” (piauí_146, novembro). Como pessoas identificadas com um campo progressista e democrático, interpretações como essa nos auxiliam na compreensão do turbilhão de acontecimentos políticos que varreram nosso país nos últimos anos e, quem sabe, a ter mais esperança diante de um processo político tão violento.
O motivo de nossa carta, entretanto, é mais específico. Em determinado momento do texto, está escrito: “Fui a São Paulo em junho e percebi que Bolsonaro já era o preferido dos motoristas de Uber e dos trabalhadores do hotel onde me hospedei. Em setembro, em nova viagem, soube que a comunidade judaica o apoiava em peso. O mesmo acontecia com a elite da cidade, outrora eleitora do PSDB.”
Nós, judias e judeus progressistas, acreditamos que o recorte étnico-religioso referente à nossa comunidade não reflete a sua heterogeneidade. Apesar da palavra “em peso” ter a função de ponderar, presume-se pela leitura que uma ampla maioria da comunidade judaica (de São Paulo, pelo menos), apoiou o candidato Jair Bolsonaro à Presidência da República.
Por fazermos parte desta comunidade e nos posicionarmos abertamente contra Bolsonaro e as ameaças que sua figura acarreta, tomamos a liberdade de lhe escrever e apresentar dois dados que consideramos relevantes, e uma hipótese alternativa àquela contida na afirmação acima citada:
1) Embora não sejam representativas da totalidade de judeus no Brasil, as páginas de Facebook são bons indicativos da heterogeneidade de posições no interior da comunidade judaica. A página Judeus Unidos Contra Bolsonaro possui cerca de 11 mil membros, enquanto a página Comunidade Judaica Brasil, segunda maior página e sem posicionamento explícito nestas eleições, possui cerca de 8 mil membros. As interpretações desses dados são múltiplas e falhas, mas indicam que, pelo menos no âmbito das redes sociais, definidoras do atual pleito presidencial, como reafirma o texto, a posição da comunidade judaica não foi exatamente em peso;
2) Bolsonaro explorou a relação criada no clube Hebraica Rio para se mostrar menos outsider. Tentou, e de certo modo conseguiu, aproximar-se da ideia de que uma minoria, que no Brasil é associada à estabilidade financeira, profissional e intelectual, lhe abriu as portas. E, principalmente, recebeu o apoio de alguns judeus de alto poder aquisitivo que se identificam com suas pautas, mas não representam, nem do ponto de vista financeiro, nem ideológico, a maioria da comunidade judaica, muito menos uma pretensa totalidade;
3) Hipótese: por nossa própria ação, acreditamos que o fator relevante não foi o étnico-religioso e a frase seguinte do argumento engloba, de certo modo, aquela que diz respeito aos judeus. Ou seja, a correlação está no fato de que pessoas ricas e da classe média abandonaram historicamente o PSDB para votar em Bolsonaro, e não delas serem judias ou não. Como alguns judeus (muito) ricos deram declarações sensacionalistas na mídia, prevaleceu a impressão de que o fator de peso seria o fato de eles serem judeus. Mas tanto judeus ricos, como judeus não ricos (pois eles existem), também apresentaram oposição a esse discurso.
Parece haver uma expectativa, por parte da sociedade brasileira “progressista”, de que os judeus, por terem vivido durante séculos a violência e o genocídio oriundos das formas de ódio contra minorias na Europa e em outros continentes, se posicionassem “em peso” contrários à candidatura de Bolsonaro. Por sermos contrários à utilização de nossa história para apoiar posições autoritárias, temos nos organizado em inúmeros momentos. Entre eles, a presença de judeus nos atos contrários a Bolsonaro no fim de semana anterior ao primeiro turno, em várias cidades do país, (atos do #elenão, entre outros). Organizamos também, no dia 24 de outubro deste ano, um evento em homenagem a Vladimir Herzog e demais judeus torturados e assassinados pela ditadura brasileira.
É essa a memória que queremos trazer à tona. Judeus são uma minoria, e muitos de nós recordamos esse passado violento ao qual nossos familiares foram submetidos, seja nos campos de concentração ou nos porões da ditadura militar brasileira, para nos posicionarmos criticamente no mundo, resistindo à barbárie que, mais uma vez, parece que volta a ter lugar de destaque.
FABIO ZUCKER E DEMAIS MEMBROS DO GRUPO JUDEUS PELA DEMOCRACIA_SÃO PAULO/SP
ERRATA DA REDAÇÃO
O vice-presidente do Ibope Inteligência, Luís Paulo Montenegro, é torcedor do Flamengo, e não do Fluminense, como foi publicado em “Contadores de votos” (piauí_146, novembro). “Quem torcia pelo Fluminense era meu pai”, explica o rubro-negro. Seu irmão mais velho, Carlos Augusto Montenegro, é mesmo botafoguense, como saiu na reportagem. Pedimos perdão pela falha. Não espalhem, mas já nascemos tortos. Somos publicados pela editora Alvinegra e nossas reportagens terminam sempre com uma estrela solitária. Não é preciso ser muito perspicaz para deduzir que a chefia só exige rigor factual quando o assunto diz respeito a certo clube preto e branco.
Por questões de clareza e espaço, piauí se reserva o direito de editar as cartas selecionadas para publicação. Somente serão consideradas as cartas que informarem o nome e o endereço completo do remetente.
Cartas para a redação:
redacaopiaui@revistapiaui.com.br