poesia
José Almino Fev 2019 11h21
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UM OUTRO
Era o som do rádio que unia o sol, o azul e a comoção do instante;
a distinção da graça e a nitidez do amor.
Você não era nascido.
Eu convivia com os enigmas, com o olhar da nuvem,
o cheiro verde de mangue e futebol.
Então, você irrompeu
em uma curva brusca, um lapso no instante
e eu fiquei mais ríspido ou distraído ou mais triste
à espera de quê?
E não surgiram palavras para o que aconteceu.
O DESÂNIMO MANSO
Vamos viver de brisa, Anarina
Manuel Bandeira
Volto nada.
Vou até aí não.
Prefiro ficar cismando a praia,
ruminando as altas esferas.
E de noite,
quando vem uma vontade macia de fazer alguma coisa,
aí eu durmo.
Já vi esse filme.
Sou besta,
mas nem tanto.
A UM PASSANTE
Passa por mim fulano, a sombra do que foi.
Fora amigo de meu pai e essa imagem,
realidade fortuita, logo morta,
é tão inútil como a Rua da Matriz,
assim, desassombrada e vazia,
longe de meu afeto e de minha memória.
E, no entanto, esse traço, esse momento
sopros de um registro involuntário
perseguem-me por um instante;
não, até agora nessas mal traçadas linhas,
onde a banalidade das coisas se impõe
inconclusa.
FIAPO DE PAISAGEM
Era um doido pobre de uma terra pobre.
Cacto arrastado, doente e seco,
guardava o desespero em anonimato.
Fiapo de paisagem.
Lambia o chão da calçada.
Não dormia, não sonhava.
Um andar eterno lhe percorria o sono.
VEJA BEM
São farinha do mesmo saco
beiradas do mesmo caminho,
salvo melhor juízo.
Que diferença faz?
Quanto a mim,
não digo mais nada.
Forçosamente.
Mais nada.
ISTO AQUI TEM FUTURO?
I
Por aqui não acontece
nada.
Se eu fosse você
não voltava.
São doces as manhãs que nos acariciam,
é o que eu acho.
Falta-me apenas
uma ampla visão da história.
Não é pedir muito.
II
Se eu fosse você
não voltava.
Eu queria a sua vida,
é sim,
queria,
mas perdi muito
da esperança
do gosto das coisas
ainda gosto
um pouco
de vez em quando me levam pra passear.