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Ó FILHO DA MORTE, NÃO LHE DESEJAMOS A MORTE

Que viva insone cinco milhões de noites
Imagem Ó filho da morte, não lhe desejamos a morte

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Tradução de Maurício Santana Dias

Segunda-feira

O que é mais triste que um trem?
Que parte quando deve partir,
Que tem somente uma voz,
Que tem somente um caminho.
Nada é mais triste que um trem.

Ou talvez um burro de carga.
Está preso entre duas barras,
E nem pode olhar para o lado.
Sua vida é só caminhar.

E um homem? Não é triste um homem?
Se vive há muito em solidão,
Se acha que o tempo terminou,
Um homem também é coisa triste.
17 de janeiro de 1946

Lunedì

Che cosa è più triste di un treno?
Che parte quando deve,
Che non ha che una voce,
Che non ha che una strada.
Niente è più triste di un treno.

O forse un cavallo da tiro.
È chiuso fra due stanghe,
Non può neppure guardarsi a lato.
La sua vita è camminare.

E un uomo? Non è triste un uomo?
Se vive a lungo in solitudine
Se crede che il tempo è concluso
Anche un uomo è una cosa triste.

17 gennaio 1946

Eram cem

Eram cem homens em armas.
Quando o sol surgiu no céu,
Todos deram um passo à frente.
Horas passaram, sem som:
Suas pálpebras não tremiam.
Quando soaram os sinos,
Todos deram um passo à frente.
Assim passou o dia, e foi noite,
Mas quando no céu floriu a primeira estrela,
Todos juntos deram um passo à frente.
“Um passo atrás, fora daqui, fantasmas imundos:
Retornem à sua velha noite”;
Mas ninguém respondeu, ao contrário,
Todos em círculo deram um passo à frente.

1o de março de 1959

Erano cento

Erano cento uomini in arme.
Quando il sole sorse nel cielo,
Tutti fecero un passo avanti.
Ore passarono, senza suono:
Le loro palpebre non battevano.
Quando suonarono le campane,
Tutti mossero un passo avanti.
Così passò il giorno, e fu sera,
Ma quando fiorì in cielo la prima stella,
Tutti insieme, fecero un passo avanti.
“Indietro, via di qui, fantasmi immondi: 
Ritornate alla vostra vecchia notte”;
Ma nessuno rispose, e invece,
Tutti in cerchio, fecero un passo avanti.

1o marzo 1959

Almanaque

Continuarão correndo pro mar
Os rios indiferentes
Ou a transbordar ruinosos os diques
Obras antigas de homens tenazes.
Continuarão as geleiras
A crepitar consumindo o fundo
Ou precipitando repentinas
A extirpar a vida dos abetos.
Continuará o mar a debater-se
Cativo entre os continentes
Sempre mais avaro de sua riqueza.
Continuarão seu curso
Sol estrelas planetas e cometas.
Mesmo a Terra temerá as leis
Imutáveis da criação.
Nós não. Nós, linhagem rebelde
De muito engenho e pouco siso,
Vamos destruir e corromper
Sempre mais depressa;
Logo, logo, dilataremos o deserto
Nas selvas da Amazônia,
No coração vivo de nossas cidades,
Em nossos próprios corações.

2 de janeiro de 1987

Almanacco

Continueranno a fluire a mare
I fiumi indifferenti
O a valicare rovinosi gli argini
Opere antiche d’uomini tenaci.
Continueranno i ghiacciai
A stridere levigando il fondo
Od a precipitare improvvisi
Recidendo la vita degli abeti.
Continuerà il mare a dibattersi
Captivo tra i continenti
Sempre più avaro della sua ricchezza.
Continueranno il loro corso
Sole stelle pianeti e comete.
Anche la Terra temerà le leggi
Immutabili del creato.
Noi no. Noi propaggine ribelle
Di molto ingegno e poco senno,
Distruggeremo e corromperemo
Sempre più in fretta;
Presto presto, dilatiamo il deserto
Nelle selve dell’Amazzonia,
Nel cuore vivo delle nostre città,
Nei nostri stessi cuori.

2 gennaio 1987

Coração de madeira

É robusto o meu vizinho de casa.
Um castanheiro da avenida Re Umberto;
Tem minha idade, mas não parece.
Abriga pardais e melros e não tem vergonha,
Em abril, de expelir brotos e folhas,
Flores frágeis em maio,
Em setembro cachos de inócuos espinhos
Com lustrosas castanhas tânicas dentro.
É um impostor, mas ingênuo: quer fazer-se passar
Por êmulo de seu bravo irmão da montanha
Senhor de frutos doces e fungos preciosos.
Não vive bem. Pisam-lhe as raízes
As linhas oito e dezenove do bonde
A cada cinco minutos; ele fica aturdido
E cresce torto, como se quisesse ir embora.
Ano a ano, sorve lentos venenos
Do subsolo saturado de metano;
E embebido da urina dos cães,
As rugas de sua cortiça se entopem
Com o pó séptico das alamedas;
Sob sua casca pendem crisálidas
Mortas, que nunca serão borboletas.
Todavia, em seu tardo coração de madeira
Sente e goza o tornar das estações.

10 de maio de 1980

Cuore di legno

Il mio vicino di casa è robusto.
É un ippocastano di corso Re Umberto;
Ha la mia età ma non la dimostra.
Alberga passeri e merli, e non ha vergogna,
In aprile, di spingere gemme e foglie,
Fiori fragili a maggio,
A settembre ricci dalle spine innocue
Con dentro lucide castagne tanniche.
È un impostore, ma ingenuo: vuole farsi credere
Emulo del suo bravo fratello di montagna
Signore di frutti dolci e di funghi preziosi.
Non vive bene. Gli calpestano le radici
I tram numero otto e diciannove 
Ogni cinque minuti; ne rimane intronato
E cresce storto, come se volesse andarsene.
Anno per anno, succhia lenti veleni
Dal sottosuolo saturo di metano;
È abbeverato d’orina di cani,
Le rughe del suo sughero sono intasate
Dalla polvere settica dei viali;
Sotto la scorza pendono crisalidi
Morte, che non saranno mai farfalle.
Eppure, nel suo tardo cuore di legno
Sente e gode il tornare delle stagioni.

10 maggio 1980

Para Adolf Eichmann

Corre livre o vento por nossas planícies,
Eterno pulsa o mar vivo em nossas praias.
O homem semeia a terra, a terra lhe dá flores e frutos:
Vive em ânsia e alegria, espera e teme, procria ternos filhos.

… E você chegou, nosso precioso inimigo,
Você, criatura deserta, homem cercado de morte.
O que saberá dizer agora, diante de nossa assembleia?
Jurará por um deus? Mas que deus?
Saltará contente sobre o túmulo?
Ou se lamentará, como o homem operoso por fim se lamenta,
A quem a vida foi breve para tão longa arte,
De sua terrível arte incompleta,
Dos treze milhões que ainda vivem?

Ó filho da morte, não lhe desejamos a morte.
Que você viva tanto quanto ninguém nunca viveu:
Que viva insone cinco milhões de noites,
E que toda noite lhe visite a dor de cada um que viu
Encerrar-se a porta que barrou o caminho de volta,
O breu crescer em torno de si, o ar carregar-se de morte.

20 de julho de 1960

Per Adolf Eichmann

Corre libero il vento per le nostre pianure,
Eterno pulsa il mare vivo alle nostre spiagge.
L’uomo feconda la terra, la terra gli dà fiori e frutti:
Vive in travaglio e in gioia, spera e teme, procrea dolci figli.

… E tu sei giunto, nostro prezioso nemico,
Tu creatura deserta, uomo cerchiato di morte.
Che saprai dire ora, davanti al nostro consesso?
Giurerai per un dio? Quale dio?
Salterai nel sepolcro allegramente?
O ti dorrai, come in ultimo l’uomo operoso si duole,  
Cui fu la vita breve per l’arte sua troppo lunga,
Dell’opera tua trista non compiuta,
Dei tredici milioni ancora vivi?

O figlio della morte, non ti auguriamo la morte.
Possa tu vivere a lungo quanto nessuno mai visse:
Possa tu vivere insonne cinque milioni di notti,
E visitarti ogni notte la doglia di ognuno che vide
Rinserrarsi la porta che tolse la via del ritorno,
Intorno a sé farsi buio, l’aria gremirsi di morte.

20 luglio 1960


Trechos do livro Mil Sóis, a ser lançado em julho pela Todavia.
© 2004, Garzanti S.r.l., Milano Gruppo editoriale Mauri Spagnol.


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Escritor e poeta italiano. Sua experiência como sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz foi retratada no livro É Isto um Homem?