cartas
Nov 2019 20h39
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NOVEMBRO
A edição de novembro da piauí trouxe os perfis de dois brasileiros brancos, criados em lares privilegiados, de inteligência brilhante e grande ambição profissional.
Um deles, Claudio Ferraz (“Cientista da democracia”), resolve dedicar seu talento a aprofundar a compreensão dos problemas brasileiros, e com isso foi capaz de construir propostas conceituais úteis para a discussão em economia política nas universidades de todo o mundo.
O outro, Alexandre Nogueira (“O estelionatário”), desde criança tem manifestado sua vocação para a falsidade ideológica e o estelionato, usando suas capacidades para beneficiar apenas a si mesmo, o que fez nas várias vezes em que realizou movimentos ascendentes e descendentes no arriscado esporte do alpinismo social e criminal.
Ocorre que os predicados de ambos tornaram suas vidas impossíveis no Brasil, reforçando a hipótese da existência de uma força centrífuga que expulsa muitos cérebros brilhantes para fora daqui.
Evidentemente, o que os fez emigrar foram os efeitos de seus atos, para o bem e para o mal.
A pergunta é: o fato de estarem juntos no mesmo número da revista foi coincidência?
ANA FLÁVIA GERHARDT_VOLTA REDONDA/RJ
NOTA SINCERONA DA REDAÇÃO: Pior que foi, Ana Flávia. Coincidência pura. A gente devia dizer que foi tudo muito pensado. Ou jogar no mistério. Teses e mais teses em departamentos de semiótica seriam dedicadas à genial edição da piauí_158.
O MULTIVIGARISTA
Impressionante a reportagem de Allan de Abreu desvendando o submundo da alta gatunagem internacional (“O estelionatário”, piauí_158, novembro), que envolve desde o presidente da nação mais poderosa deste desventurado planeta até o mais obscuro emissor de vistos num quartinho de Panama City. Cabe se perguntar: como um simples repórter consegue achar o fio e as visíveis pegadas do sofisticado malandro, mas as polícias, deas, Coafs, stfs etc. não conseguem? Brilhante, Allan, digno de um prêmio jornalístico.
HÉCTOR BOTTAI_SÃO PAULO/SP
A reportagem de Allan de Abreu na edição 158 sobre um estelionatário brasileiro é das melhores dos últimos tempos. Ágil, cheia de reviravoltas, coisa de cinema. Não tem como não pensar no clássico Prenda-me Se For Capaz. Imagino quanto tempo ele trabalhou nessa pauta. Parabéns, fantástica reportagem!
LEANDRO MARÇAL PEREIRA_SÃO VICENTE/SP
NEGÓCIO DE FAMÍLIA
Muito interessante o artigo do professor Fernando Limongi (“Presidencialismo do desleixo”, piauí_158, novembro) sobre os primeiros onze calamitosos meses desse cara que não conseguiria sequer ser síndico de prédio de periferia. Contudo, é preciso ressaltar que, no seu afã de se isolar numa poltrona de couro e apontar o dedo para diabinhos de estimação, o presidente mais parece um Don Corleone – que pedia cabeças, manipulava resultados, escondia os estupros dos filhos e passava a mão em Luca Brasi – do que um governante que se atém aos seus limites. Daria para fazer piauís inteiras com The BolsozApp Herald só zoando as incursões do poderoso em searas que não lhe dizem respeito. Considero que seja mais uma “ditabranda” (por enquanto) da malandragem do que um presidencialismo do desleixo, como o articulista parece fazer crer. Pegou leve.
RODRIGO CONTRERA_TABOÃO DA SERRA/SP
O texto “Presidencialismo do desleixo”, de Fernando Limongi, derrapa no uso do termo “libertário”, tomando-o como é reivindicado pela direita norte-americana, como sinônimo de individualismo capitalista radical. Só que o termo é muito antigo e se referia aos militantes antiautoritários do movimento operário. Ou seja, algo como libertários de esquerda. E justo agora que o Brasil está tendo a chance de aprender a dissociar o que é (neo)liberalismo na economia do liberalismo de fato, não é nada conveniente fazer confusão com outro termo.
THIAGO CASTANHO DE CARVALHO_PETRÓPOLIS/RJ
Sou leitor das antigas, daquele modelo que lê primeiro sem saber o nome do escritor, depois volta e “aprende” quem escreveu o texto e passa a acompanhá-lo. E por ser antigo classifico como algo de excêntrico em mim, que trabalho ainda com marca-texto “amarelo-limão”.
Acompanho a piauí desde antes do 50º número e tenho me preocupado que a tiragem esteja abaixo de 50 mil. Ainda assim, estou feliz porque a qualidade não se alterou e diante de dezenas de matérias memoráveis nenhuma se aproximou de “Presidencialismo do desleixo” do Fernando Limongi, texto em que não grifei nada, pois se o fizesse teria que fazer com a matéria completa. Cada linha. Cada palavra.
JAMERSON ALBUQUERQUE TIOSSI_NANUQUE/MG
NOTA ESPERANÇOSA DA REDAÇÃO: Jamerson, continue empunhando a sua caneta marca-texto amarelo-limão. É um símbolo fosforescente de resistência. Oxalá um dia sejam 100 mil os leitores excêntricos como você, grifando loucamente as nossas páginas.
IMPRENSA E RACISMO
Li o texto de Yasmin Santos, “Letra preta”, na piauí de outubro deste ano. Pensei longamente sobre ele e mapeei a sensação que me causou. Ele não é um texto estéril. É um ato violento travestido de “Sei o que digo, pois é meu lugar de fala”. Mas, veja, não sou preta. (Me senti forçada a confessar minha cor de pele.) Só que também não sou branca. Sou descendente de imigrantes italianos, de franceses, soldado alemão, nobres portugueses, indígenas e africanos pretos. Até fiz aquele teste genético que mapeia as percentagens, e me arrependi. Aquela análise tem um dado eugenista bem estranho.
Outro dia minha dermatologista me disse que sou falsa branca, tenho poucas pintas na pele clara, mas fico bem morena do sol, e isso é característico de gente misturada. Tenho olho claro e cabelo liso de índio. Algum nazista poderia me confundir com uma branca pura “geneticamente desejável” para propagar a raça ariana, nenhum índio jamais me reconheceria como descendente de sua tribo, e sou proibida pelo ambiente ideológico atual de professar meu sangue preto.
Yasmin poderia dizer que tenho privilégios por ter a pele clara, que foi mais fácil para mim, que não sei nada dos desafios de quem tem a pele escura.
Não vou entrar nessa disputa de qual pele ou mistura sofre mais, porque não acredito que o vencedor de uma discussão dessas realmente vença algo. E nem proponho que a história seja esquecida. O que acho é que não poderemos suportar mais uma guerra étnica. Tivemos várias ao longo da história e nenhuma experiência de separação racial nos fez bem.
Acredito que um bom ponto de partida para pensarmos o futuro de nossa comunidade humana é a ideia de que é chegado o tempo de nossa herança cultural brasileira, proveniente de centenas de povos, ser entendida como a nossa maior virtude. De verdade.
Ailton Krenak disse que “essa diversidade, que sempre foi anunciada como uma virtude, ela tem se manifestado ultimamente como um verdadeiro campo de batalha onde os brasileiros estão a ponto de morder uns aos outros”.
E seu texto é uma mordida.
Acredito que olhar para o futuro tem a ver com deixar de enxergar primeiro a cor da pele, o órgão genital, o que um indivíduo faz com suas protuberâncias e reentrâncias, e deixar a humanidade de cada um falar primeiro. E isso não é negar o passado, ou esquecê-lo.
Enfim, deixo aqui o meu pedido para reavaliar a identificação dos “três homens brancos de meia-idade” da redação da piauí com o estereótipo do “senhor de engenho”, pois se formos investigar os documentos históricos e mapear o discurso político por trás dessa fala, corremos o risco de descobrir que esse posicionamento foi importado de outros povos, com culturas completamente diferentes da nossa, como, por exemplo, uma que se fundamenta no conceito de one drop rule. Ou quem sabe achar uma ordenação régia de dom Manoel II sobre a política de miscigenação de raças por todo o Império Português, como condição para conceder as feitorias no Brasil.
Não imagino que Yasmin concorde com a faixa desfilada pelos movimentos negros em novembro de 2017 na Avenida Paulista, que dizia que “Miscigenação também é genocídio”. Mas tenho medo de que a confundam com esse tipo de ativista violento. Honestamente, eu não acredito que Yasmin engrosse o coro daqueles nazistas, e por isso considero que somos da mesma raça: a Humana.
Eu espero que possamos alcançar dias melhores em que as cores sejam só cores.
Chega de apartheid no mundo! Certo?
GABRIELA FERREIRA_RIO DE JANEIRO/RJ
A matéria “Letra preta” (piauí_157, outubro) é excelente. Me prendeu do início ao fim, fazendo-me repensar muitas coisas com as quais concordo e outras sobre as quais raramente deixo minha atenção se deter. Obrigada, Yasmin, pela oportunidade de expandir minha percepção.
MARINA COSTA_BELO HORIZONTE/MG
BOLSOZAPP
Minha solidariedade ao pessoal do BolsozApp Herald; vocês são muito bons, tentaram e fizeram o melhor, mas a realidade superou vocês. Mas com esforço podem conseguir.
DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/SP
NOTA EXPLÍCITA DE HELIO NEGÃO:
OUTUBRO
O bom da piauí é poder saboreá-la aos poucos, degustando cada matéria, começando pelo aperitivo hilário BolsozApp Herald até chegar aos pratos principais, os artigos de fundo.
Em outubro, impossível não destacar na área internacional o artigo “Estupor e tremores”, amargo e irônico retrato dos dissabores dos hermanos argentinos, bem como a incrível história dos bastidores da queda do Muro de Berlim, em “O colapso”. Uma prova de que, quando um regime está se esfarelando, nada mais funciona, e não é preciso disparar sequer um tiro para derrubá-lo.
Li também com cuidado o longo e importante artigo de Yasmin Santos, “Letra preta”. É fato que, não apenas no jornalismo, mas em todas as áreas da sociedade brasileira, a presença de pessoas negras nas funções mais qualificadas e bem remuneradas não corresponde à sua proporção na população. O enfrentamento desse problema, embora mais lento do que o desejável, é condição necessária para combatermos a histórica desigualdade no país. Me chamou a atenção o justo desejo manifestado por vários entrevistados, jornalistas negros, de não se tornarem “setoristas” da negritude.
Uma queixa recorrente da autora foi sua solidão. Mas será que esse sentimento não foi o mesmo experimentado pelas primeiras mulheres a serem médicas, engenheiras ou advogadas, em meados do século XX? Como se sentiam as jornalistas pioneiras nas redações dos grandes jornais que quisessem fugir das pautas tipicamente femininas como moda, família, decoração ou culinária? O que se passava na cabeça de Marie Curie, primeira mulher a ganhar o Prêmio Nobel, e a única pessoa a ser laureada duas vezes, como química e como física?
Mais ainda, senti falta de ao menos uma pequena, porém indispensável menção ao grande jornalista que marcou a história do Brasil, Carlos Alberto Oliveira dos Santos, o Caó. Baiano, filho de uma costureira e de um marceneiro, líder estudantil próximo ao pcb, depois filiado ao pdt, Caó passou por vários jornais cariocas e chegou a editor de economia do Jornal do Brasil e a presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio, para citar só os fatos mais marcantes. Foi deputado federal constituinte e autor da Lei Caó, que tornou o racismo um crime imprescritível e inafiançável. Caó morreu em 2018, e não há ainda uma biografia dele que vá além da Wikipédia.
Honrar os que vieram antes de nós, saber “apoiar-se nos ombros de gigantes” é também algo que as novas gerações precisam aprender a fazer.
Longa vida à piauí, e que venham novos Caós e novas Yasmins.
MILENA PIRACCINI_RIO DE JANEIRO/RJ
A QUEDA DO MURO
Gostaria apenas de enviar meu muitíssimo obrigado pela matéria “O colapso”, de Mary Elise Sarotte (piauí_157, outubro). Eu tinha apenas 8 anos quando tudo aconteceu e não sou capaz de me lembrar das notícias da tevê, mas ao terminar de ler o texto, parecia que eu tinha saído da sala de cinema. A narrativa, a concatenação dos fatos, o suspense gradativo e hipnótico, é por tudo isso que assino esta revista, mesmo ela chegando quase no final do mês. Notícia tem em qualquer lugar.
DÉBORA DE ALMEIDA GUISSO_SALVADOR/BA
NOTA DE DESCULPAS DA REDAÇÃO: Débora, esperamos sinceramente que a piauí de dezembro chegue na sua casa bem antes do Papai Noel. Ou da rabanada, do peru e daqueles familiares que a gente vê uma vez por ano.
Voltei ao passado que recende as agruras do presente com a leitura da experiência vivida por Claudia Cavalcanti (“A vida dos outros e a minha”, piauí_158, novembro). Morei na Alemanha – em Göttingen e Hamburgo – dois anos depois da queda do Muro e o discurso dos nativos ocidentais era de que a economia estava em sobressalto e o desemprego crescente porque tinham “comprado um país”, em referência à unificação. Visitando a parte oriental (Leipzig e Dresden), eram notórios os onipresentes guindastes de construção, dentro do modelo ocidental, e também a divisão, especialmente no entendimento do significado histórico que tornava aqueles cidadãos do lado de lá da extinta Cortina de Ferro inferiores em relação ao novo mundo capitalista. Ouvi relatos de desmonte de atividades de pesquisa científica, já que os contatos que eu tinha eram na área acadêmica e universitária. Hoje as marcas físicas sumiram, mas as sociais permanecem. Entendo a angústia de Claudia sobre sua ficha na Stasi. Fui fotografado por “estranhos” durante as manifestações pelas Diretas Já e penso no que o Dops arquivou sobre mim. Infelizmente são marcas passadas que insistem em persistir e se repetir.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
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