cartas
Jun 2020 12h48
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O CERCO SE FECHA
Acabo de ler o artigo “Dentro do pesadelo” (piauí_164, maio), do excepcional jornalista Fernando de Barros e Silva. O melhor texto do ano: acredito que dificilmente outro poderá fazer sombra ao impacto que as palavras de Fernando são capazes de provocar na mente dos que ainda guardam alguma sanidade e reconhecem o pesadelo atual.
O teor confessional do texto o tornou ainda mais próximo do leitor, porque deixou transparecer com precisão a necessidade imperiosa de comunicar uma verdade de si – e esse é o mais legítimo estatuto que a escrita deve assumir.
Entre tudo o que amo na vida, a capacidade de elevar a linguagem à condição de arte ocupa um lugar muito especial. Por isso, me vi tocada por esse texto inesquecível.
A Fernando de Barros e Silva, minha gratidão e admiração. É por ele e pelos excelentes profissionais que escrevem na piauí que mantenho minha assinatura.
ANA FLÁVIA GERHARDT_VOLTA REDONDA/RJ
Em que pese a péssima – e bota péssima nisso – distribuição e entrega dos exemplares da piauí para os assinantes, o conteúdo da revista sempre compensou esse incômodo. Conteúdo esse que tinha um grande responsável: Fernando de Barros e Silva.
Por oito anos, sabíamos que a demora e a longa (longuíssima) espera seriam compensadas com uma revista espetacular. Não houve uma única edição na qual não fosse possível se informar, se emocionar ou se entreter com pelo menos uma das reportagens. O capricho na edição, apuração e seleção das matérias sempre foi uma marca da piauí sob a batuta do Fernando.
Com tristeza, observo que o nome dele não aparece mais como diretor de Redação da revista. Espero que a piauí não perca o seu norte e sua linha editorial com a nova chefia, e que tudo que fora construído na última década seja mantido.
Ao Fernando, desejo toda a sorte e felicidade do mundo. Ele merece. Só de ler o texto “Dentro do pesadelo”, já percebi que, embora tenhamos perdido um excelente diretor de Redação, ganhamos um espetacular analista.
JOÃO ALCÂNTARA_BELO HORIZONTE/MG
NOTA METAFÍSICA DA REDAÇÃO: Ao voltar para São Paulo, cidade de seu coração da qual se separou com sacrifício e dor para assumir a revista, Fernando de Barros e Silva teve o cuidado de deixar para trás o seu espírito, que hoje paira sobre nós. Agora mesmo podemos vê-lo: um ectoplasma de luz e discernimento a firmar nossa mão vacilante. Fique tranquilo, João Alcântara, que não nos desviaremos do justo caminho.
Quanto ao espetacular analista, de agora em diante você poderá encontrá-lo em praticamente todas as edições da revista. (Viu só? E você achando que essa história de não nos desviarmos era conversa fiada. Homem de pouca fé!)
Ótimo levantamento histórico, mas o que pode ser proposto aos eleitores de Bolsonaro? Que caminhos nossa democracia poderia seguir para atender aos anseios dessa parte da população?
MARCOS VINICIUS PICCININ_JARAGUÁ DO SUL/SC
PIAUÍ 164
Voltei a sentir o peso da piauí: a revista em papel chegou! A leitura, porém, tirou-me o sono. Fernando de Barros e Silva, em suas reminiscências (“Dentro do pesadelo”), apresenta uma linha temporal irretocável dos acontecimentos políticos, acrescentando uma crítica, ainda que tímida, ao papel da imprensa nos golpes recentes e na ascensão do fascismo bolsonarista.
Uma ressalva, apenas, a suas citações de Dostoiévski em tradução moderna, que não foi a que ele leu. A tradução de trinta anos atrás era do francês, e não direta do russo. No pesadelo descrito, eu incluiria a ligação do presidente com o capitão criminoso e mentiroso de 1987, que queria explodir o sistema Guandu de abastecimento de água no Rio de Janeiro.
Continuando a prática saudável nesse momento de pandemia, Roberto Kaz traz conceitos de bioquímica e medicina para explicar os vírus (“Uma biografia improvável”). Aplausos. Mas tenho de ressalvar que a obtenção de substâncias orgânicas a partir das inorgânicas, derrubando a teoria da “força vital”, já havia sido realizada em 1828 por Friedrich Wöhler, quando sintetizou a ureia. O mérito de Miller e Urey foi o de obter substâncias complexas (especificamente aminoácidos) a partir de substâncias mais simples em condições que simularam as existentes na Terra há bilhões de anos. E o metano, por conter carbono ligado a átomos de hidrogênio, é considerado uma molécula orgânica, e não inorgânica, como está no artigo. Peculiaridades importantes nesses tempos de curandeirismo oficial. Por fim, respondendo à “pergunta sino-linguística da Redação”, feita à minha carta na piauí_163, de abril, pode, sim, ter havido um jogo de palavras do Zero Três, dos outros zeros à esquerda e do próprio sinistro da Educação quanto à dislalia, uma vez que PF agora se revela como “Por Favor”.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
NOTA DISCIPLINAR DA REDAÇÃO: Inoculamos Roberto Kaz com um vírus composto de proteínas, metano e ureia. Embora não propriamente patogênico, o organismo é capaz de provocar episódios embaraçosos de dislalia (busquem no dicionário) no hospedeiro. Pareceu-nos uma medida pedagógica para que o repórter não se esqueça mais das aulas de química orgânica e inorgânica que recebeu na escola. Se é que frequentou escola.
Abril é um mês cruel. Houve erupção no Krakatoa, praga de gafanhotos na África, seca no Sul, Estados Unidos confirmando vídeo de OVNI… mas a piauí_164 só fala de gripe?
Nah, sério: essa edição está nas minhas Top 5; vai para o hall da fama das que nunca vão virar banheiro do cachorro. Até os poemas estão de parabéns (aliás, googlei “bebena” e apareceu um monte de vídeos de “bebê na praia…”; era isso?); só não entendi por que não estão abertos no site como o resto do conteúdo sobre coronavírus.
A matéria sobre renda básica de Alessandra Orofino (“O levante”) foi a que mais me chamou atenção. Revela uma história muito diferente da contada pelo resto da imprensa, que ignorou a trabalhosa mobilização da sociedade civil junto a servidores e congressistas de diferentes partidos. Não fica claro, no fim, o quanto essa mobilização de fato impactou a redação da lei; mas sem ela, é provável que a barganha entre governo e parlamentares houvesse resultado em algo pífio. Vide o exemplo da ampliação do Benefício de Prestação Continuada, aprovado em março, e depois suspenso pelo TCU e STF sob a alegação de que não houve indicação da fonte de custeio (claro, essa exigência foi relativizada para ações emergenciais relacionadas à “corona crise”).
RAMIRO PERES_PORTO ALEGRE/RS
NOTA FILOLÓGICA E INCOERENTE ESCRITA EM RICHMOND, VIRGÍNIA: Xiba de xexo xexelento! O gayzista não sabe o que é bebena! É galdéria! Biraia! Troquilheira! Samarrão! Mulher que não faz a janta do marido! Zabaneira! Ervoeira! Traviata! Mulher que pede divórcio! Que trabalha fora de casa! Que leu O Segundo Sexo! É Pechenga! Cachopa! Hetaira! Mulher que não se depila! Barregã! Coirão! É mulher que goza!
A ROTINA NO BALCÃO
Sou assinante há algum tempo e, embora a piauí seja minha fonte de leitura regular, sempre senti falta de algo. Descobri o que era diante do diário de Sandro Aurélio, o jornalista que dá expediente no balcão da farmácia e nas ruas de Copacabana (“Tem cloroquina?”, piauí_164, maio).
Quero dizer: há nas letras dele a percepção singular de quem, fora de sua área, reporta a vida a si mesmo, com a propriedade de quem sente o peso proletário e vislumbra a ternura das pequenas realidades.
Faço aqui um apelo: Sandro tem muito a agregar à pluralidade de percepções de mundo, tão necessária a um perfil editorial. Sou um leitor atento e me vi motivado a lhes escrever na tentativa de convencê-los de que esse rapaz merece uma chance.
TIAGO BETEL_RIO DE JANEIRO/RJ
Depois de ler o ótimo diário do balconista de farmácia Sandro Aurélio, minha empatia pelos trabalhadores que fazem entregas em domicílio aumentou. Nunca mais economizarei na simpatia ao recebê-los na porta de casa, nem deixarei de dar sempre uma boa gorjeta.
SOLANGE RODRIGUES_RIO DE JANEIRO/RJ
Meus parabéns pelo conteúdo que a revista vem produzindo. Desde que meu professor de história a recomendou, continuo acompanhando assiduamente.
Escrevo para elogiar a matéria “Tem cloroquina?”, de autoria de Sandro Aurélio. O relato – distante espacialmente de mim, que moro em Alagoas –, me trouxe uma sensação de proximidade e compreensão, de forma bem sutil, do que está acontecendo no Rio de Janeiro. Sandro escreve muito bem e seu texto me prendeu do início ao fim. Peço, como grande fã da piauí, que tragam mais textos do Sandro.
VINÍCIUS MONTEIRO_PALMEIRA DOS ÍNDIOS/AL
Recebi de uma amiga o link para o texto “Tem cloroquina?”, de Sandro Aurélio, e resolvi me cadastrar na página da revista exclusivamente para fazer este elogio. Foi o melhor texto que li em meses. Uma sensibilidade literária que não se vê muito hoje em dia.
JOSÉ ROGÉRIO DOS SANTOS MELLO_BELO HORIZONTE/MG
BOLSOZAPP
Sempre achei que eu tinha um rico léxico despudorado e um amplo arcabouço de expressões escatológicas, mas sempre aprendo coisas novas com as conversas do Guru Olavo no BolsozApp – prova de que cada página da piauí é fonte de aprendizado. Essa ainda é uma habilidade pouco reconhecida, então registro aqui o meu singelo elogio à criatividade do Olegário Ribamar/Roberto Kaz. Aquelas conversas são tão trágicas e surreais que chegam a parecer verdade nos tempos de hoje.
LEONARDO TORRES_FLORIANÓPOLIS/ SC
NOTA IMPUBLICÁVEL E INCOERENTE EM RICHMOND, VIRGÍNIA: Prexeca de ximbica crequelenta! HABILIDADE POUCO RECONHECIDA??!!! Quer reconhecimento? Então vem reconhecer a minha cloroquina, seu bulbo infeccionado de peste lasciva! Até o Mourão, que nunca leu uma bula de pastilha pra hemorroida, sabe que a única página legível nesse pasquim depravado é aquela em que eu apareço!! Lá se aprende, porra! A pedagogia e eu somos uma coisa só, sua remela de pigarro sifilítico! Tu não me engana, Torres! Esse sobrenomezinho fálico não me intimida não. Eu sou Car(v)alho, porra!
REVOLUÇÃO AUTORITÁRIA
Muito esclarecedor o artigo de Miguel Lago, “Uma esfinge na Presidência” (piauí_163, abril). Embora não nos dê a resposta completa para o enigma da Bolsoesfinge, revela os mecanismos da fera. Não quer dizer que resolver o problema ficou mais fácil. Também não significa que seremos, inevitavelmente, devorados. Ele nos dá previsões. Honra ficará, cada vez mais, fora de moda. Assim como haverá mais descolamento entre “verdade” e realidade. Caminhamos para outra guerra. Kafka talvez seja o nosso verdadeiro Big Brother. Estamos vivendo num romance surrealista. Revolução Científica, Novo Iluminismo, Humanismo 2.0. E essas são as chaves para resolver o enigma.
BRUNO CALHEIRA DOS SANTOS_ITABUNA/BA
CARTA SOBRE UMA CARTA
Não assino a piauí. Não porque não goste de suas excelentes reportagens, mas porque a migração mensal da Barra da Tijuca para a Zona Sul do Rio, para adquirir um exemplar em uma banca dedicada em um dos bairros mais chiques e contraditórios da cidade, reflete o ato de leitura da revista. É poético, porque acompanhado da minha namorada, é desafiador e foge à racionalidade comum.
Depois de ler a carta de Carlos Otavio na piauí_163, senti a necessidade de defender a revista. E por que não fazê-lo citando um dos melhores artigos que li por aqui, “A beleza e a evolução”, na piauí_162, março? Se a revista não é Grande, certamente é Bela. Se sua beleza decorre de melhores condições de adaptação (reportagens extensas, fundamentadas e provocativas) ou de mero subjetivismo aleatório (figurinhas, ilustração da capa e tamanho único), não saberemos. Diante do mal-estar da verdade, é tão bom se deliciar com algo Belo, que isso pouco importa.
LUCCAS REAL_RIO DE JANEIRO/RJ
NOTA LOGÍSTICA DA REDAÇÃO: Luccas, a revista também é vendida nas bancas da Barra. Simples informação de utilidade pública, nada contra o passeio à Zona Sul, principalmente em companhia da namorada. Mas se nos permite uma sugestão, aqui vai: assine a revista para você e leve a amada a um bairro chique e contraditório para comprar um exemplar só para ela. Assim todo mundo fica feliz: ela, você, nós.
ECLIPSE DA RAZÃO
Somente agora estou terminando a edição de fevereiro, por acúmulo de afazeres e também porque elas têm chegado com atraso, mas o fato é que a matéria da Tatiana Roque (“O negacionismo no poder”, piauí_161) agora faz mais sentido do que nunca. Ela conclui – quase profeticamente – sobre o fato de que momentos de crise podem suscitar novos arranjos políticos que impactem o presente e ajudem a lidar com os desafios atuais, e que ações coletivas podem ser eficazes contra o negacionismo da ciência. A atual pandemia tem suscitado novos arranjos políticos, além de muitas ações coletivas para lidar com o negacionismo, que infelizmente permeia a questão do coronavírus. É assombroso o negacionismo por parte de pessoas públicas, que minimizam fatos sérios e descredibilizam a ciência. Mas sigo esperançosa de que, com esforço coletivo, as estratégias científicas e políticas consigam um dia andar de mãos dadas.
MARIANE SAUER_JOINVILLE/SC
NOS IDOS DE 2013
Aproveitei essa quarentena forçada para – finalmente – ler a piauí_85 (de outubro de 2013!). Não lida à época, salvou-se de três mudanças de endereço. É um exercício interessante ler do futuro fatos do passado. A edição, na espessura de suas 110 páginas, serviu de banquete para uma sortuda traça: foi comida de capa a capa. Além da trágica história do acidente do voo JJ 3054 da TAM, que veio a reboque dos desacertos iniciais na criação da Anac (“O desastre”, de Consuelo Dieguez), a revista trouxe duas matérias mais do que premonitórias. A primeira, “As regras do jogo: Como a Fifa se tornou o novo FMI”, de Marcos de Azambuja. Em certo trecho, o Nostradamus autor escreve: “Os escândalos e as denúncias envolvendo a entidade deverão se acumular, tanto em termos corporativos quanto pessoais, de maneira irresistível. Acredito que, em algum momento, a cúpula da Fifa irá receber um previsível cartão vermelho.” Pois bem, o cartão vermelho veio em maio de 2015, com parte da cúpula presa na Suíça, suspeita de participar de um gigantesco esquema de suborno e corrupção. A segunda matéria, “Na boca do povo”, de Daniela “Mãe Dináh” Pinheiro. A renomada jornalista narra as agruras enfrentadas já naquela época pelo governador do Rio, Sérgio Cabral, após as jornadas de junho, que fizeram sua popularidade despencar. A reportagem abre com Sérgio Cabral, Pezão (vice-governador) e Jonas Lopes de Carvalho Júnior (presidente do TCE/RJ) ficando “presos” em um elevador. A repórter escreve: “Terminava uma manhã do final de setembro e o grupo de presos…”. A seguir, depois de um bombeiro abrir a porta do elevador, Sérgio Cabral diz: “Só faltava eu ficar preso, né?” Mal sabia Daniela – e menos ainda os enclausurados – que todos seriam efetivamente presos e condenados alguns anos depois na esteira da Operação Lava Jato.
LUCAS DE OLIVEIRA JAQUES, PORTO ALEGRE/RS
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