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BASTIDORES DE 1 POEMA E 6 EM ANDAMENTO

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BASTIDOR DE 1 POEMA E 6 EM ANDAMENTO

Andando a pé, pensando na passagem do tempo.

No jornal, a foto de página inteira da cara de Miles Davis.

Meu filho fez 10 anos: “entrar na casa de dois dígitos para sempre.”

Esta linha entre aspas acima veio inteira, pronta.

Sem caneta, pedi emprestada a do jornaleiro.

E escrevi na testa cinza-preta de Miles o que pensei.

O resto do poema veio vindo ou eu fui a ele

durante a caminhada, escrito com outras canetas de empréstimo.

Em cores diversas: azul, preta, vermelha.

A testa lisa de antes foi se franzindo.

E Miles Davis foi envelhecendo à força

à medida do que ia sendo escrito, com rasuras.

10 ANOS*

                                                            para Carlos

Flor masculina do meu bosque

seu cheiro começa a ser íngreme

árduo – de cabelo e músculo –

de dias ardidos de escalada.

Subsiste o primeiro suor da noite

inodoro porque em repouso

a pele lisa que a barba e a acne

ainda não contrariam, o ar de entrega

se mantém embalsamado

pelo sono ou por algum sonho

de maldade, com mulher de celofane.

Mas a infância já se feriu, inevitável

ao entrar na casa de dois dígitos para sempre.

A dor de alterar-se, de altear-se

estala, e a inocência também é de sangue.

Uma e outra se quebram e reanimam-se:

têm o mesmo comportamento, prazo

bravio e breve, das ondas no mar.

*In: Máquina de Escrever. Nova Fronteira, 2003.

SURDEZ

Socorro! Por escrito

perde o som da exclamação

do uivo da imagem

tampando os próprios

ouvidos, embaixo

do pincel pesado

de tinta do grito

no quadro de Munch!

ENCONTRO

“Kauka”, como entendeu

Carpeaux, frente a ele

em Berlim. O outro encontro

uns cinco anos depois

foi em livros empilhados.

Todos, O Processo

sem venda alguma, lixo puro

de Kafka, e começou a ler:

então era aquele de 1921?

CERTEIRA

Ana matou a morte

antes que ela decidisse por isso.

Estava certa de que viveria

melhor se fosse por escrito

em plena glória e paz.

BREU/ BRANCO

A dor não dorme

a noite avança.

Conter com quê

sem remédio à mão?

Despido de socorro

a voz gagueja na mudez

a mão treme sozinha

o silêncio amarra!

No quadrado do quarto

no negro quadro sobre fundo

branco “eu sentia apenas a noite

dentro de mim, foi então que concebi

a nova arte, que chamei de suprematismo”

que numa outra hipótese podia ser

branco sobre branco.

Assinado – Malevich. Verso e frente.

P.S. Perdi a terceira estrofe

a genuína, a melhor delas

onde no papel da memória

foi escrita perdida esquecida

TEMAS E METAS

O mar repetitivo como as marinhas

ininterruptas pintadas por Pancetti

tal e qual as sucessivas mensagens

das garrafas de Morandi, que cintilam

diferentes, dependendo das ondas.

Como as incessantes maçãs de Cézanne

também capaz de pintar vezes sem conta

o ar livre que cerca a montanha de Sainte-Victoire

em toda ocasião em que a viu, visitou, dura

durante a vida, pintada e meditada.

Leitmotiv adesão identidade decorado

pelas inúmeras declinações do olhar e do mar.

A mão o leva do chão

às telas no cavalete, não molha

ao seu redor, nada – de mar a mar:

mancha pictórica, com a colaboração do céu

onde o tempo de um sonho é o tempo de uma nuvem.

AINDA PANCETTI, MORANDI E DE QUEBRA GUIGNARD

Pancetti mimetiza o mar

pintando sucessivas marinhas.

A paleta de cores

tem o formato da baía, do mar

que o polegar de Pancetti detém.

Parecem uma só, mas vistas de perto

os matizes as diferenciam, a posição

do sol, da luz é quase a mesma, e não é.

Se vistas de longe quem anda na praia

aparentemente paralisada

passa vencendo o marasmo

deixa pegadas como prova

antes que as ondas as apaguem.

*

O sol batendo no alvo

das garrafas equilibradas de Morandi

em cima do muro do maralto.

Reparava que de acordo

com a estação, com o seu sol particular

com sua disposição, elas variavam: eram outras.

Naturezas mortas por um instante apenas.

*

O mar vertical de montanhas

o sino que sai de si e soa

sobre os telhados de Guignard

não é o que se reflete no mar

feito de horizonte em Pancetti, ou então

é o mesmo em dois estágios:

a) levanta brusco em ondas paradas

b) e alisa ao reencontrar a praia

depois do tormento do maremoto.

De novo pensando e andando: Oscar Wilde dizia que quem inventou a neblina tão constante em Londres foi Turner. Se é assim, quem levantou a montanha piramidal de Sainte-Victoire tantas vezes foi Cézanne, pintando-a, pensando, comendo uma maçã.


Os poemas fazem parte do livro Arremate, a ser lançado neste mês pela Companhia das Letras.


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Armando Freitas Filho é poeta e seu livro mais recente é Dever, da Companhia das Letras.