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NOTAS ECONÔMICAS E UM NOVO BUSINESS MODEL

Imagem Notas econômicas e um novo <i>business model</i>

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ABRIL

O perfil de João Campos traçado por Consuelo Dieguez (O herdeiro, piauí_175, abril) se expandiu pela história dos Arraes e da própria política pernambucana. Um documento de referência. Chegou à política nacional e, por isso, creio que faltaram dois eventos significativos que ampliam a paleta de cores desse embate do clã familiar e respingam nos partidos envolvidos. Eduardo Campos havia sido propalado como um potencial sucessor de Dilma Rousseff, caso aguardasse sua vez, segundo sussurros petistas da época. A precipitação de sua candidatura à Presidência em 2014 foi um desses dissabores que, em função da fatalidade de sua morte, levou ao segundo evento: a herdeira da candidatura, Marina Silva, apoiou Aécio Neves no segundo turno e tudo o que ele representou em termos de revanchismo, culminando no golpe de 2016, completados cinco anos neste mês de abril. É assustador que redutos progressistas sejam palco da mesma carnificina eleitoral que levou o bolsonarismo ao poder, revelando que a democracia não é herdada, mas deve ser conquistada e cultivada diuturnamente para ter alguma chance de sobrevivência.

P.S.: A econômica capa que, pelo jeito, não pagou nenhum artista, foi malfeita, revelada pela fita preta colada às pressas, enrugada, quase dando para ler o nome do genocida. Parece começar com B e rimar com ignaro.

ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP

PRIMEIRA NOTA ECONÔMICA DA REDAÇÃO: Estamos testando um novo business model. Não pagar. Começamos pela capa e pretendemos estender o experimento para as reportagens. Nossos investidores estão very excited. Confiamos que os leitores saberão dar o devido desconto toda vez que esbarrarem numa barrigada jornalística. É o tal do trade off. Eu, por exemplo, não ressebo desde janeiro e, pior, minhas notas já n]ao paçam pela revisâo.

ARRABALDE

De tudo, na excepcional série Arrabalde (piauí_170 a piauí_175, novembro a abril) de João Moreira Salles, o que mais me impactou ainda foram duas frases da primeira reportagem (A floresta difícil): “Nas palavras de Luiz Braga, a Amazônia é ‘o que se esquece do Brasil’. ‘É resto’, resume Jatene.” No livro O Ardor, o escritor italiano Roberto Calasso conta sobre um deus do panteão dos Vedas, Rudra, o Selvagem, que era o deus do resto, do resíduo. Esquecido na Terra, todos os outros deuses o temiam. Se penetrasse em qualquer Ordem, Rudra a desarranjaria por dentro e nada mais restaria. A Amazônia, talvez, seja sempre um componente de desarranjo na nossa ordem imaginária, ela grita, zomba: “Definitivamente, vocês não são europeus, nem nova-iorquinos.” Fingimos não vê-la, mas sua imensidão sempre nos vence. E essa falta de valorizar o que somos, de conhecimento de si e nosso déficit de realidade resultaram na existência de um Estado patriota antibrasileiro e, por extensão, antifloresta. Já do ponto de vista da floresta, talvez nós (como espécie) sejamos também o resíduo de uma floresta longínqua ainda mais antiga que, por algum motivo, quer vingança.

RAUL DUARTE_SÃO BERNARDO DO CAMPO/SP

Estou maravilhado com a série Arrabalde, que precisa ser compilada em livro pois se tornou um material de referência sobre a economia da floresta, sociologia, antropologia e direito.

Na piauí_175, abril, há menção a uma “distribuição desigual da riqueza” da atividade de mineração, mencionando que “a legislação tributária brasileira é extraordinariamente favorável a empresas exportadoras”. Vamos por partes: a Lei Kandir isentou de ICMS a exportação de produtos, o que até hoje é objeto de disputa entre os estados e a União. Do ponto de vista de governança tributária, a OCDE e várias instituições refutam a tributação de exportações, em função da lógica de não exportar tributos, neutralizando o preço em relação aos concorrentes globais. No entanto, as tributações pelo imposto sobre a renda (IRPJ) e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) continuam normalmente sendo impostos nas operações de qualquer empresa exportadora na carga de 34%, sendo que o IRPJ posteriormente é repartido conforme determina a Constituição.

O ex-governador do Pará, Simão Jatene, e o ex-prefeito de Paragominas afirmam que há “muito pouco retorno aos estados e municípios”, e nisso ouso discordar deles. Eles não se lembraram de mencionar a Cfem, Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais, conhecida como os royalties da mineração. Diferentemente dos tributos, a Cfem é dividida na proporção de 65% para o município, 23% para o estado e 12% para a União. E o mais interessante, não passa por contingenciamento ou gestão de um órgão como o Ministério da Economia. As mineradoras precisam creditar mensalmente em contas correntes específicas os valores devidos, e os prefeitos têm uma receita livre de qualquer contenção em crises ou discussão de teto.

Uma coisa é a discussão do pacto federativo da tributação, em que a União, a partir do primeiro governo FHC, iniciou um movimento de criação de contribuições e centralização dos recursos. Mas falar que os estados e municípios não recebem nada é um equívoco.

LEONARDO GANDARA_BELO HORIZONTE/MG

Devo admitir que, quando a primeira parte da série Arrabalde foi lançada, simplesmente ignorei. Pela extensão da reportagem, diagramação distinta e assinatura do mecenas da revista, pensei que fosse um caso de dono da bola ditando as regras do jogo, um projeto de vaidade pessoal enfiado no miolo da publicação. Ledo engano. Outras leituras me atentaram para a importância de conhecer e buscar entender a Amazônia, parte tão grande do território brasileiro sobre a qual, em 30 anos de vida, nunca havia lido mais do que o obrigatório para passar de ano na escola. Decidi dar uma chance à série, peguei a piauí_169 (outubro 2020) do meio da pilha e, em dois dias, devorei todas as partes. O trabalho de reportagem é brilhante, muito diferente da cobertura Rio-São Paulo sobre o tema que domina o noticiário. Ver a floresta com os próprios olhos e, mais que isso, buscar a sua essência e a sua própria verdade fazem toda a diferença para entender o que é aquele organismo. Ajuda, também, a explicar parcialmente um dos fatores de fracasso da civilização brasileira, cujo maior expoente senta hoje no Planalto e despacha ordens que destroem a floresta. Não é possível entender o Brasil sem olhar para a Amazônia, e Arrabalde é um bom telescópio para quem está longe da região. Obrigado ao dono da bola pela reportagem excelente.

JOB HENRIQUE CASQUEL_SÃO PAULO/SP

O sexto episódio, O que queremos? (piauí_175, abril), da excelente série de reportagens de João Moreira Salles sob o sugestivo título de Arrabalde, encerra com chave de ouro esse trabalho de fôlego, que permitiu aos leitores uma visão global da Amazônia e o enorme desafio futuro de mantê-la após tanta predação, resultado dos equívocos cometidos por governos permissivos e incentivadores da dilapidação desse tesouro que a natureza nos legou, colocando em risco as condições ambientais que afetarão as gerações futuras e o próprio equilíbrio do planeta.

Seria importante a publicação dos seis episódios num livro, para ser divulgado principalmente nas escolas, pois a maioria dos jovens ignora os problemas levantados, sendo, portanto, fundamental para sua conscientização.

DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ

CAETANO ESTACIONA NO LEBLON

O artigo Eu existo!, de Elisangela Roxo (piauí_175, abril), além de muito agradável, é uma crítica ao sensacionalismo que caracteriza o jornalismo nos dias de hoje, um descanso em meio ao caos!

ERIVAN SANTANA_TEIXEIRA DE FREITAS/BA

Pelo amor dos meus filhinhos, seis páginas para a jornalista justificar o Anais da banalidade, com o artigo Eu existo!. Ou é muita falta de assunto para a revista e ela recebeu por palavra escrita ou então a neve conseguiu que ela perdesse o bom senso.

LUIZ ALMEIDA_CURITIBA/PR

SEGUNDA NOTA ECONÔMICA DA REDAÇÃO: O nosso antigo business model pagava por palavra escrita. Dado o tamanho irresponsável das nossas matérias, fomos levados à bancarrota. Essa trajetória empresarial está na origem do nosso novo business model (ver primeira nota econômica da redação).

Eu existo! foi essencial. Ao descrever o contexto da produção da famigerada matéria de Caetano Veloso estacionando o carro no Leblon, Elisangela Roxo expressou muito ilustrativamente o que Gombrich nos ensina na introdução de sua obra-prima, A História da Arte – ela quase nunca é intencional (quantos Caravaggios foram encomendas feitas à pressão por seus clientes?) e tem a característica de suscitar emoções (não necessariamente prazerosas).

Entre a superficialidade de apreciar apenas o belo e o pedantismo de apenas valorizar o que não é obvio, temos o ser humano e suas emoções como objetos de referência do que é arte.

Então, Elisangela, não sei se foi bom jornalismo (aliás, eu e você sabemos que não) e, pelo que contou, também não me parece que foi intencional a provocação, mas uma coisa não podemos perder de mente: não passou despercebida como algo irrelevante, incomodou – e apenas o que nos toca é capaz de agredir, lembre-se disso.

Olha, o que menos interessa é tentar desvendar o motivo dessa reação crítica coletiva, importante mesmo é a reação em si – mas me parece significativo ser solapado com o profano num veículo que se propõe ao extraordinário (mesmo o considerado fútil como uma coluna de celebridades, ainda é o incomum, especial). É dizer: nos incita a sair da zona de conforto de lutar para encaixar grandes eventos no nosso cotidiano – nos obriga a tornar consciente o quanto exigimos o consumo da exceção como regra.

Apesar de ser Caetano Veloso, ele também procura vaga para estacionar o carro; apesar da tragédia de Fukushima, ainda somos entediados pelo aguardo de manobristas – sabemos disso, mas não pensamos sobre isso, e ler a respeito num jornal nos obriga a refletir.

De novo, acho que, como redatora júnior trabalhando incansavelmente até o começo da noite naquele período suspensivo do pós-Carnaval de 2011, nada disso foi o objetivo da sua matéria (cumpriu uma meta e desligou o computador) – então, talvez você tenha sido a “mera” transmissora das emoções e angústias (principalmente) das pessoas que foram atingidas, ainda que negativamente, pela sua matéria.

Nada disso tira a genialidade daquilo. Me tocou também – mas, de minha parte, de forma positiva, pois me fez sentir e depois pensar e escrever este texto. Parabéns.

DANIEL GERSTLER_SÃO PAULO/SP

LEITOR APAZIGUADO

Senti um alívio imenso ao ler o texto Lacunas (piauí_175, abril). Estou me achando o máximo por ter lido muito José Mauro de Vasconcelos e não me sinto menor por não ter lido Ulysses e, melhor, saber que jamais lerei.

JOSÉ ANÍBAL SILVA SANTOS_TEÓFILO OTONI/MG 

NOTA ERUDITA DA REDAÇÃO: Kant, na Crítica da Razão Prática: “O único pecado moral é não ler a piauí.” [Die einzige moralische Sünde ist nicht das piauí-Magazin zu lesen.]

DOUTOR OLÍMPIO

Linda, admirável e, confesso, invejável trajetória de Olímpio Barbosa de Moraes Filho relatada na matéria A gente acolhe, na piauí_174, março.

Como advogado criminalista, me chama a atenção o descompasso entre a quase centenária descriminalização do aborto em caso de estupro e as políticas públicas para garantir (digo: viabilizar) esse direito. Parece que extirpar a pena foi apenas uma lavada de mão do Estado – tipo um “não me enche o saco” –  e a preocupação com a vida na realidade é nula – tipo um “não é problema meu”. É sim! Chega a ser hipócrita.

Já como judeu (provavelmente) agnóstico que ama a tradição e a liturgia, me dói o coração ler relatos da religião tratando o ser humano como objeto. Parece que ninguém se preocupa de fato com a vida, como um fenômeno experienciado pelo sujeito, pela pessoa – é uma instituição etérea, desconectada do ser, justamente porque passa a perder importância (pasmem) com o nascimento… que ironia!

Pesado. É por isso que, entre o direito criminal e a realidade, esse relato me faz sentir profundamente na alma o apelo que Juarez Tavares faz em sua mais recente atualização de obra: trazer o sujeito de volta ao injusto penal. Sem isso, temos barbárie. Somos medievais.

DANIEL GERSTLER_SÃO PAULO/SP

MULHERES E OS TEMPOS DE PESTE

Li na piauí_174 (março) a reportagem Prato vazio, sobre a falta de alimentos e a fome encarada por moradores de comunidades do Rio de Janeiro durante a pandemia. Chamou a minha atenção o fato de grande parte das moradoras citadas na reportagem criarem seus filhos sozinhas. Na sequência, li o texto em forma de diário Abracildo, Pintassilgo e Lilica, em que um pai precisa cuidar de seus três filhos pequenos com Covid-19 enquanto a mãe está doente, mas veja só, para isso ele conta com a ajuda da madrasta, uma jovem de 25 anos, recém-casada com o pai das crianças.

A ausência de pais na primeira reportagem e a presença do que podemos chamar de duas mães na segunda evidenciam como as mulheres se responsabilizam pelo trabalho fundamental de cuidado. Fica o meu questionamento: E quem cuida das mulheres?

ELIANA MARILIA G. CESAR_JAMBEIRO/SP

QUE BELEZA!

Depois de ter lido a reportagem O ano da luta, piauí_169 (outubro de 2020), de Tiago Coelho, fiquei impressionado com a batalha da Pâmella Menezes Santos de Campos, uma adolescente carioca, negra, pobre, e seu sonho de seguir nos estudos em meio a toda a precariedade do ensino remoto. Entrei em contato com ela e me comprometi: até que ela se forme na faculdade eu bancarei todos os livros que ela precisar, seja de estudo ou lazer. Minha esposa, professora de geografia, passou a dar aulas de reforço para ela e um amigo meu se responsabilizou em bancar suas despesas de internet. Soube que outras pessoas também contribuíram com equipamentos e outros materiais para ajudá-la a estudar.

O resultado foi que nossa querida Pâmella passou em quarto lugar para o curso de direito na UFRJ. Fiquei muito feliz com esse resultado. Minha vida foi seriamente impactada. Pâmella e eu manteremos contato até ela se tornar advogada.

Em tempo: as notas da Redação na seção de cartas são espetaculares. Parabéns para quem pensa nas respostas cômicas e cirúrgicas. Caso essa carta seja publicada, será que eu mereço uma nota da Redação?

THIAGO QUIRINO_SANTO ANDRÉ/SP

TERCEIRA NOTA ECONÔMICA (NO SENTIDO DE NÃO DESPERDIÇAR PALAVRAS DA REDAÇÃO): Não.

(Adendo acrescentado sub-repticiamente pela Redação enquanto o crápula que escreve as notas foi tomar um cafezinho: Parabéns pela iniciativa, Thiago. Pâmella é uma das poucas boas notícias nesses tempos tão tristes.)


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