poesia

CÃES SEM DONO DA PAISAGEM CIVIL

não será o poste a mijar nos cachorros
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CÃES SEM DONO DA PAISAGEM CIVIL

  1. a pesca de um menino

saltado de seus arcos

rio nenhum suporta

  1. a quem tiver terreno

a casa é santa

e lá será semente
até lembrança

se alguém soubesse o fim
ninguém tinha durado

à espera nos buracos

ao vigiar a tranca
do destino
regaria o jardim

pra não secar os companheiros

  1. de longe fica o papa

-hóstia com as velas

de túmulo

à porta da matriz
salta à atenção

: o pipoqueiro igreja os pipocas

  1. o monumento

nota de parada

que não veem
os que passam

ainda menos
os estacionados

  1. nome de nenhum ninguém vai

ornamentar as estátuas

salva-se o homem
louco a decorar

aos olhos de quem passa
os papelões da paisagem

  1. os que insistem

contramão do asfalto convulso

dos estômagos
a mazela convoluta

não será o poste a mijar nos cachorros

  1. o cão arremessado por seu polegar

nenhum alerta indica o guarda-mato

a música de assalto
fede assassina à dança do tambor

indigentes balárias na sé de você
fomos em fuga das coleiras

cães sem dono da paisagem civil

  1. a carne, por recorte, ganha preço.

na vitrina, moldura, aos cães diverte.

cão não fui que adulassem a cabeça.
ninguém me encabulava, nem por breque.

mordida vinha a cana – me assobia
– se cobrassem muxoxo, respondia

linhas de soco: o vento é minha casa.

  1. máquina no cabelo,

em cada cabeça um sinal.

se todos fossem parecidos no verão –
na caixa d’água uma piscina de dourados.

máquina no cabelo,
em cada cabeça a sentença.

o aviso cabe a quem mais cedo sai de casa:
o filho da faxina, um alvo sem clareza.

máquina no cabelo,
em cada cabeça, quem sabe?

na rua, um arsenal. os espelhos espreitam.
à direita, à esquerda, um comboio inimiga.

máquina no cabelo,
em cada cabeça a balança.

logo chega a cancela. à direita, à esquerda,
os espelhos espreitam. deriva a passagem.

máquina no cabelo,
em cada cabeça ninguém

: a fina linha que separa uns de zeros.


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Poeta, professor e tradutor, é editor da revista Escamandro. Seus livros mais recentes são Chabu e Rebute (TextoTerritório)