ficção

RELATOS SOBRE O MUNDO EM ORDEM

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UM CONTO É UMA FALHA

Um conto não corta. Um conto não quebra vidraças. Um conto não para o trânsito. Um conto não incendeia um supermercado. Para escrever um conto é preciso uma trama, uma história. Sem isso, vão dizer que não se trata de um conto – a depender do tema e de quem é a história, a opinião será a mesma. De toda forma, não importa muito o que dirão. Eu vou me sentar à mesa e escrever um conto.

Sabemos. Um conto não sangra. Um conto não corre riscos. Um conto não cerra o punho. Um conto não grita. Um conto não muda uma vida. Enquanto penso em escrever um conto, um corpo cai, assim como outro de cor semelhante cairá 23 minutos depois. Um conto não chora. Um conto não morre. Um conto é um manual. Quem o ler poderá aprender com esse fracasso. Vou escrever um conto. Vou publicar um conto. Alguém vai ler um conto em memória dos corpos que vão cair sem testemunhas, na paz prometida, no chão do país.

CARNE DE CAVALO

Na esquina da rua tinha um açougue. O dono era um velho português. Trabalhava com o filho. Usavam aventais sujos de sangue e caneta atrás da orelha. Faziam contas rápidas, escrevendo no papel grosso e rosa em que embrulhavam a mercadoria.

Era eu o incumbido de buscar a carne pra casa. O velho sempre me atendia. Mostrava por hábito o pedaço que ia ser empacotado, ainda que eu não fosse capaz de avaliá-lo. O homem não era mau. Mas não me lembro se era bom. Portanto, devia ter a bondade típica do restante do bairro, que era péssima.

Um dia quem me atendeu foi o filho. E aí, neguinho? O que vai querer? Eu não quis nada além de que não me chamasse de neguinho. Ué, você não é neguinho? Sim e não. Não e sim. Uma tese difícil de elaborar na infância. Só foram possíveis silêncio, raiva e a tarefa doméstica não cumprida.

Eu não entendia o que era crise da carne, congelamento de preço e venda clandestina. Só via as filas se formarem na porta do negócio que eu desejava que acabasse. Só via aquela prosperidade comercial que me afrontava. Desejava uma justiça ampliada que recaísse sobre os donos do comércio e sobre quem frequentava o lugar. No dia em que a polícia chegou, apenas o filho do velho saiu algemado. Eu assisti da janela. O restante foi informado pela televisão. O filho do açougueiro não ia poder mais vender carne de cavalo. Mas ninguém ia dizer para ele não me chamar mais de neguinho.

MEL COM PRÓPOLIS

Uma mulher está sentada no chão de uma farmácia. Fuça embalagens numa prateleira baixa e fala consigo mesma. Embora a máscara abafe o som, todo mundo escuta. Mel com própolis. É impossível que não tenha mel com própolis numa farmácia. Ela repete três vezes a palavra “impossível”. Pergunta pra mocinha com o uniforme da drogaria. Pelo revirar de olhos rápido e discreto da funcionária, não deve ter sido a primeira vez. Senhora, infelizmente não temos mel com própolis. Outra mulher com uma criança no colo pede, de cliente em cliente, para que comprem um pacote de fraldas para a filha – ela explica que não quer dinheiro. Ninguém compra. Nem a mulher sentada no chão fuçando a prateleira à procura de mel com própolis e que começa a falar alto, anunciando que está com dor de garganta e repetindo que é impossível que não haja mel com própolis numa farmácia. Uma velha com uma cesta cheia de remédios dá 10 reais para a moça com a criança no colo. O pacote de fraldas custa 20 reais. A mulher mel com própolis começa a reclamar do atendimento dos funcionários, que realmente não conseguem esconder a má vontade. Ela finalmente acha o que quer – o último pote disponível. Diz que vai esfregar na cara da atendente, mas não o faz. Fica reclamando na fila do caixa. Diz que uma cliente tem que ser bem atendida. Volta a informar à farmácia inteira que está estressada e com dor de garganta. A segunda informação faz com que as demais pessoas na fila se afastem e ajustem suas máscaras. Ela conseguiu seu mel com própolis. Talvez a dor de garganta não passe. Talvez seja mais do que dor de garganta. Talvez a leve à morte. Talvez não. A moça com a criança no colo continua indo atrás dos clientes – agora ela quer dinheiro. Dez reais para inteirar o pacote de fraldas para a criança mijada, que está chorando. Não vai conseguir. Não é mel com própolis.

SINTOMAS

Era mais fácil antes. O capitão cuidava de tudo. Ela nunca soube ao certo o que eram os comunistas. O capitão gostava de chamar de subversivos. Não tinha certeza se saberia identificá-los num passeio pelo calçadão. Mas tinha o capitão para apontar o perigo. Tinha o capitão para proteger.

Agora o mundo é complicado, e ela precisa usar os próprios sentidos para sua defesa. Viu no telejornal que os tempos são de guerra. Falam do inimigo invisível. Dizem que ela deve permanecer em casa. Um vizinho colocou um recado na parede do corredor. Oferece seu tempo para fazer compras para os idosos que não podem sair. O texto tem alguma coisa sobre solidariedade, mas ela não força a vista para ler até o final. Sabe que é coisa do homossexual esquerdista do 401.

Da janela, ela vê a rua vazia. Fuma seu cigarro, enquanto pensa nos tempos em que as coisas eram mais simples. Lembra que o capitão desaprovava seu tabagismo. Pensa no seu amor. Dá uma última tragada. Pega sua bolsa. Vai à rua. Não vai depender de nenhum homossexual esquerdista. Ela tosse. Tem febre, uma estranha dor no peito e saudades do capitão.


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É jornalista e escritor. Publicou Enquanto os gigantes dançam (contos), Não caberá (poemas), ambos pela Quelônio, e o romance A vida não é um animal doméstico (Diadorim).