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NÃO TE CONHEÇO E MAL TE AMANHO/MAS À TUA VOZ SEMPRE ESTREMEÇO

Imagem Não te conheço e mal te amanho/mas à tua voz sempre estremeço

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DE UMA CORRENTE TRIFÁSICA EM MEU PESCOÇO

Aos quarenta anos tinha a transparência
dos bichos-da-seda que criava.
Seu retratinho de meio-busto
teria inspirado a Elizabeth Leseur
esta legenda:
“Uma alma que se eleva, eleva o mundo.”

Aos cinquenta e nove se revela
talhada na bruteza.
Sem retoques.
O amor que a iluminava quando eu era
um feto em seu retrato
varou o som e a luz: topou-se a pedra.

Dez anos de erosão nesta fisionomia
terceira, que retenho.
Está perplexa.
Alienou-se tanto da que fora
e até da que não era
que este é um retrato dos retratos dela.

UM CASO CLÍNICO

Era um sujeito prático
catedrático
(hoje se diz titular)
da Escola Nacional de Medicina.
Certa vez
foi perseguido no hospital
por uma dona e tanto,
em pranto, já se vê.
Diagnosticou o mal
pela raiz
(fosse charada: pelo rabo)
ante a assembleia recorrente
(colegas/estudantes/residentes)
um tanto abestalhada
como lacrimação paroxística.
Recomendou-lhe
ao longo e ao largo
um tratamento
com beladona,
adstringentes
(aplicações locais),
dieta sem sal,
severa restrição de líquido
(da água à aguardente)…
Ah,
e prescreveu-lhe chá.
Proibiu o fumo,
excessos sexuais
e, por apêndice,
no caso de falharem tais
medidas,
a apelação (de todo imper-
ativa)
para a extração cirúrgica
das glândulas lacrimais.

APRENDER A MORRER

Olhar compadecido para as coisas
que nunca foram vistas, por se olhar
distraidamente, tentando-se adiar
o dom da vida que se faz presente.

Olhar com os olhos, mas internamente.
Olhar com o coração, mais que os sentidos
que tudo captam e a tudo dão ouvidos
salvo ao mistério que circunda a gente.

Olhar como uma criança desarmada
que no colo dos pais mais se abandona
ao fruir do instante que a contém e capta
toda a alegria de viver avante.

Olhar intensamente para dentro,
mas com a sabedoria de quem sabe
que não se nasce pra morrer, mas sempre
se morre a cada instante em que se nasce

para ressuscitar gloriosamente
em outras dimensões que não nos cabe
viver antes que a morte nos frequente
a cada passo, desde a eternidade.

A FÊMEA

como uma gravura chinesa
como uma postura de ave
garça flamingo saracura
ou como um leque que se abre
de dentro de uma manhã-romã
explode em dupla: fome/fêmea/
mil, e de repente a grávida
natureza acesa recidiva agindo
morta/viva/ativa sobre(a)mesa

REFLEXÃO SOBRE UM PAPEL

Não te conheço e não te poupo
e aonde quer que eu vá te levo
(coração duplo, rins em dobro):
inteligência, amor-afetos.

Não te conheço e te perpetro
em redemoinhos pela rua.
Sofro a influência de tuas luas
quando pontuas meu sol negro.

Não te conheço e em mim perduras
como promessa e juramento.
Não te conheço ou à tua cura
que me procura pelos guetos.

Não te conheço e mal te amanho,
mas à tua voz sempre estremeço
como a uma ordem de comando
comendo solto em meus tropeços.

Não te conheço e te obedeço
tão cega é a fé que em ti deponho.
Não sei quem és, mas de ti cresço
para – Deus sabe – que horizontes.

Não te conheço e te convenho:
anuência de amores perfeitos
neste durante que se expande
em quadriláteros triângulos.

Não te conheço e arrisco o salto
qualitativo do meu pulo.
No claro-escuro que desatas
vai desvendando-se um futuro.

Não te conheço e desespero-me
por não saber lidar com o avanço
além-razão: física quântica.
Mas sei que és onda e que és substância.

Não te conheço, e te revendo
a cada instância mais atuante
minto ao falar de transferência
sem assumir que és meu transplante.

Não te conheço e te desejo
com a fome astuta de uma criança
que internaliza o leite e o peito
de onde lhe vem o que a garanta.

Não te conheço e te extrapolo
na realidade circundante
pois já ponho as unhas à mostra
como ponho de fora as mangas.

Não te conheço mas percebo
que estamos na mesma redoma:
que já te aplicas nesse enxerto
como ornitólogo e botânico

entressonhando uma avis rara
ou uma edelweiss das montanhas
com o teu terceiro olho orante
para que eu vingue única e vândala

quando romper de tuas entranhas
desvirginando-te ao meu feito.
Não te conheço e condescendo
com tua maternidade estranha.

CORAÇÃO

Mais pétreo, empedernido,
o coração atraca
temendo vir a furo

temendo o não se sabe
dos traumas e recalques:
tremores intramuros.

Veteroperdulária
a alma em si soçobra
sob a dura cerviz.

Diuturnamente escapa
um surdo grito mudo
sem encontrar saída.

Sem orvalhar a cara
persona, ora em ordálio:
máscara & cicatrizes.

Um coração de carne,
Senhor, sensível ao tato
da vida que se fez

para impedir um faça-se
e alçar ao dom do dia
o fiat feliz.

Mais nada. Não. Mais nada.
Não se perturbe em vão
o que é de mão beijada.

Abandonar-me aos idos
e reaprender o riso
da criança que se lança

ao colo do Pai. Mais
nada me interessa:
já é pedir demais.

O MILAGRE

Invoquei o milagre como pessoa física.
Ele chegou, tocou a campainha.
Trazia carta de apresentação.
Tinha um sorriso azul de veias claras
e estava em seu belém de aniversário.

Já hospedado em mim
por via anagramática
cantei-lhe os parabéns.
Fiz comidinha pro milagre.
Ele papeou feliz com o céu da boca.
Depois trocou de roupa
e foi tomar banho de mar.

Então fiquei a sós com o ar
que ele me trouxe.
A casa aos poucos emergiu do caos.
A vida era possível: fóssil
fosse
trivialgo se tornou
fácil demais.

OS NÃO-POEMAS

Sem saber a que vem
o lápis de ponta fina
sobre o papel pautado.

Sem traquejo na mão
a ponta do lápis se quebra
e um furo no papel
já se mistura às lágrimas
por não conseguir sequer
copiar o próprio nome
do modelo indicado.

As mil e uma versões
do poema-modelo.
As descartáveis versões
do poema-modess
batucadas na lettera portátil
o pulsar de cada dedo
desfiando suas contas
desafiadoras de quantas
madrugadas.

O poema-piercing
o poema-pendant
o poema-pingente
dos trens que atravessaram
os subúrbios de’mentes
e algum pressentimento
(a moeda corrente da fala)
hoje quer se assentar
na sala de estar
no camarim do star
na cadeira numerada
no anfiteatro/circo
ciclotímico da praça.

O poema-não-estou-nem-aí:
olhe pra mim, olhe pra isso.
O poema-participante
o poema lírico
o poema sexual: pan-/trans-
o poema anfíbio
o poema o porquê
não sei por que nem como
o poema comestível
o poema antropofágico
o poema abaixo as regras
de gramática
o poema abaixo a rima
a métrica o ritmo
o poema abaixo a periodização
histórica
a corrente literária
abaixo os -ismos
o poema abaixa-as-calças.

O poema ao natural
como o arroz com casca
o poema permissivo
o poema circunstancial
e, claro,
o poema omisso.

E as velas pandas da poesia
anunciando aos quatro ventos
que o poema pôde tudo
como pode ainda agorinha:
ode elegia encômio endecha
soneto balada canção gazal
rondó triolé repente desafio…

O poema não carece de inventores,
mestres porta-estandartes balizas
neste pós-tudo de seus diluidores:
o poema se tem pressa é de pertença
ele só quer ser taxado de poema
ora essa!

Que, ao poema, tudo se lhe deve.
Isso que hoje se escreve
já deixou de ser poesia:
não dói, não cheira, não fede,
não quer assumir o risco
de ser um artefato, artesania
verbivocovisual
como na parede um quadro
ou no palco um ballet
na ópera uma ária
com sua complicada indumentária
e na pedra um Rodin.

O poema não é
um mote que se glosa
um desabafo de arranco
uma ligeira dor de corno
uma enxada no ombro
um diário de memórias.
Não é, o poema, enxadrista
passista de samba
anedótico esotérico inato
um grito épico de algum sindicato.

O poema aspira ao que devia ser:
a nota de um silêncio alto
varando três quatro oitavas
antes de entrar em órbita.

As cores sem poente
o vaso nu sem rosas
tão nu que se dispensa
com os sentidos, captá-lo,
apenas a lembrança de.

E por detrás da lembrança
a vaga trajetória de um aroma
há muito (e ainda agora) exalado.

SAFO VERSUS SAFÁRI

A SAFO DE LESBOS, ponte
safenada em cor § ações
nanja nádegas anódinas
de apodrecidas ma)(çãs
a cair de quatro: trinca!
a cair de quatro: treme!
a cair de quatro: ainda!
a cair de quatro: sempre.

A SAFO DE LESBOS, poeta
de anacreônticalendas:
píncaro, vênus de monte.
E o fauno à costela preme
a cair de quatro: finca-a!
a cair de quatro: rende-a!
a cair de quatro: agride-a!
a cair de quatro… prenhe.

SAFO DE LESBOS, destampa
o silêncio que encatenas
à interdição eólio-tântala
do som de tua doce avena:
às teúdas, manteúdas, mu
lheres mudas de Atenas,
canta teu erótico mantra
num cantochão de almagêmea.

Mesmo às zelosas de um nome
e, de outras zonas, jumentas,
repõe o azul, transfigura
teus mitilênios em poemas
por amor do amor de amantes,
dramatis persona e pena:
SAFO DE LESBOS, ars e ársis,
acima de falo & fêmea.


Estes poemas integram os livros Coram populo, Cave Carmen e Quantum Satis, de Maria do Carmo Ferreira, organizados por Silvana Guimarães e Fabrício Marques, a serem publicados no primeiro semestre de 2022, pela Martelo Casa Editorial.


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É poeta mineira