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NOSSA ESTÉTICA URBANA ESTÁ MATANDO OS PASSARINHOS

Imagem Nossa estética urbana está matando os passarinhos

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CAPA

Vocês se suplantaram, a capa da piauí_183, dezembro, está supimpa. Infelizmente é a constatação do que ocorre no momento. Eu me sinto cada dia mais desalentada.

MÉVIA ILDA VIEIRA DIAS_SANTOS/SP

MEU XARÁ

É impressionante a quantidade de escândalos em que o meu xará presidente da Câmara está envolvido, de improbidade administrativa a violência doméstica (Arthur, o miúdo, piauí_183, dezembro) – o paroquial deputado é uma tragédia. Para além de toda a brincadeira envolvendo a coincidência ipsis litteris de nome e sobrenome, fica difícil acreditar em algum futuro para o Brasil enquanto o perfil da maioria dos parlamentares for semelhante ao do meu xará mais famoso.

ARTHUR RENNAN SANTOS LIRA_OLINDA/PE

O MIÚDO E O EXÉRCITO

Duas matérias naturalmente se destacam na piauí_183, dezembro: Arthur, o miúdo, de autoria de Angélica Santa Cruz, e Na encruzilhada, de Consuelo Dieguez. São o resultado de trabalho investigativo bem-sucedido realizado por duas jornalistas corajosas, que prestam um inestimável serviço ao revelarem fatos fundamentais para o entendimento de nossa complexa realidade.

Angélica, com sua enorme experiência jornalística, faz um levantamento completo da vida pregressa do atual presidente da Câmara, Arthur Lira, e de seu pai, Benedito de Lira, ex-senador, deputado federal e estadual por Alagoas, ex-vereador de Maceió e atual prefeito de Barra de São Miguel. Como comumente ocorre no nosso país, tais figuras nefastas conseguem, por meios esdrúxulos, projeção nacional como operadores bem-sucedidos do interesse rasteiro da maioria dos membros do denominado Centrão. No passado recente, Severino Cavalcanti e Eduardo Cunha presidiram a Câmara Federal e ambos foram cassados. Enquanto nossa Justiça, tanto estadual como federal, for complacente com a corrupção, nossa sociedade continuará sendo vítima dessas figuras medonhas, que maculam nossa democracia incipiente.

A leitura do texto da Consuelo me transmitiu uma certa tranquilidade. Por ser muito bem informada e ter circulado nos meandros do Alto Comando das Forças Armadas, fica a quase certeza de que jamais o Exército será arrastado para a aventura pessoal de Bolsonaro, que faz do enfrentamento permanente das instituições seu modus operandi, colocando em risco o processo democrático. A formação e a competência profissional dos generais, que representam a essência das Forças Armadas, jamais poderiam ser submetidas aos delírios de um governante totalmente desqualificado para governar o país. Oxalá!

DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ

VULTOS

Parabéns ao Fernando de Barros e Silva pelo artigo Última chance (piauí_182, novembro). Uma curiosidade é que o filme O Enigma de Kaspar Hauser, de Werner Herzog, citado no texto, tem o subtítulo em alemão Jeder für Sich und Gott Gegen Alle (Cada um por si e Deus contra todos) por causa do filme Macunaíma (de Joaquim Pedro de Andrade), como pode ser comprovado em uma entrevista na qual Herzog conta que assistiu ao filme brasileiro e encontrou na frase dita pelo ator Paulo José o título para o roteiro que estava escrevendo. Ou seja, a epígrafe do Brasil atual foi gerada pelo próprio Brasil, cinquenta anos atrás. Tragédia e farsa na sociedade brasileira.

GUSTAVO RIBEIRO_SÃO PAULO/SP

MUDOU PARA PIOR

Após a leitura da última edição da piauí, endosso as críticas ali lançadas pelo leitor Leonardo A. Gandara (Cartas, piauí_183, dezembro), incluindo os temas nela publicados, seja porque marcha no caminho do “politicamente correto” (rejeito a hipótese de racismo institucionalizado e de indígenas romantizados, como o figurino de Iracema, de José de Alencar), seja porque é muito suspeita a demonização de Sergio Moro, como se a Operação Lava Jato fosse coberta de ilegalidades, e a sociedade não tivesse assistido aos bilhões roubados dos cofres públicos. Obviamente, a revista está mudando para pior e assumindo um viés político-partidário, afastando-se da ideia inicial de impessoalidade com um pouco de anarquismo, ao estilo de Millôr Fernandes.

ELIAS NOGUEIRA SAADE_BELO HORIZONTE/MG

NOTA PERPLEXA E ALGO INCRÉDULA DA REDAÇÃO: É isso mesmo? Acabamos de ser comparados a Millôr Fernandes? Parem as máquinas! Chegamos lá! É a glória!

SALVEM OS PASSARINHOS

Sou fã do trabalho de vocês. Considero que são a única revista da atualidade que realiza um trabalho profundo sobre temas culturais e socialmente relevantes. Todas as vezes que leio a piauí sinto que saio mais instruída.

Dito isso, gostaria de sugerir uma pesquisa e tema de extrema relevância: os vidros da cidade e a morte de pássaros silvestres.

Explico: recentemente, instalei na minha residência uma proteção de vidro para que meu filho de 1 ano não se aproxime da varanda. Qual não foi a minha surpresa ao me deparar com dois passarinhos silvestres mortos, no mesmo dia em que instalei o tal vidro. Meu desespero foi enorme. Primeiro porque não tinha conhecimento de que isso poderia ser tão danoso aos pássaros (me considero uma pessoa instruída e informada. Me parece que, realmente, não se fala muito sobre este tema). Segundo porque, ao procurar películas de proteção, cheguei à conclusão de que apenas uma única empresa possui a tecnologia para confeccionar o tipo específico de proteção baseado em pesquisa científica sobre a visão dos pássaros e como evitar a colisão. Me chama a atenção que numa metrópole como São Paulo, com milhares de edifícios espelhados, não haja concorrência para esse tipo de película, tampouco regras e normas que minimamente regulem essa absurda situação.

Enfim, eu, realmente, gostaria de ler algo na piauí sobre o tema, porque considero ser de interesse público. Acho que ajudaria a pressionar o poder público a agir, instruir a população sobre o tema e, mais do que isso, a colocar luz sobre esta triste realidade: nossa estética urbana está matando os passarinhos.

ADRIANA HELLERING_SÃO PAULO/SP

NOTA DA REDAÇÃO QUE COMEÇA TRISTE E TERMINA PROPOSITIVA E CHIQUE: Sugestão anotada, Adriana. De fato, a colisão contra prédios envidraçados é uma das grandes causas de mortalidade de pássaros mundo afora – segundo pesquisadores, somente na América do Norte centenas de milhões de aves morrem assim todos os anos (gatos são outro grande problema). Sempre engenhosos, os alemães desenvolveram um vidro especial dotado de uma fina trama interna que pássaros conseguem ver. Chama-se ornilux. Infelizmente, neste mundo de Guedes, o seu custo em reais é proibitivo. Uma solução mais em conta é aplicar adesivos circulares na janela. Uma matriz de bolinhas. O pássaro avista e desvia. Outra solução bastante usada até pouco tempo atrás era aplicar decalques de aves de rapina nos vidros. Vultos negros, sem cor ou detalhe. A forma do predador afastaria o pássaro. Estudos recentes demonstraram que o método não é eficaz, o que é uma pena pois ficava até bonito. Consuelo Dieguez, por exemplo, sempre afinada com o último grito do chique, aplicou águias-reais, condores e falcões-imperiais na sua elegante varanda com vista para os Alpes austríacos. Agora terá de substituí-los por bolinhas. Já avisou que terão a forma de bombons de licor.

ELEIÇÕES 2022

Não sou assinante nem leitor assíduo. Comprei a piauí_179, agosto, para um primeiro contato e gostei do conteúdo e das ilustrações.

Tenho enviado cartas para o Fórum dos Leitores do Estadão quando tem algum assunto relevante – Brasília, nesse quesito, é fecundo –, entrementes, muito raramente tenho tido o privilégio de ver publicado. Por certo, o espaço é pequeno para tantas cartas; excelentes, por sinal. Gostaria de ver mais pessoas escrevendo e opinando, ainda mais agora, que falta menos de um ano para as eleições. Acredito que se iniciarmos a divulgação de nomes de políticos (candidatos à reeleição, principalmente) que agem inescrupulosamente, não têm nenhuma representatividade, são falsos ou mentirosos, e, também, em contrapartida, a divulgação de políticos produtivos, atuantes e dignos, reprovando-os ou elogiando-os, poderia se oferecer opção de voto aos eleitores conscientes e sérios. Ouço com uma frequência desanimadora frases como: O Brasil não tem conserto, políticos são todos ladrões, são corruptos etc.

Penso que o mundo político, principalmente no Brasil, acabou nesse atoleiro porque o povo se resignou, perdeu a esperança na sua capacidade de reagir e perdeu a crença nas instituições.

O povo em geral precisa confiar na força do voto, que é a única arma capaz de impedir a proliferação de PECs que têm desfigurado a nossa Constituição. Uma PEC, no meu entender, só poderia ser implementada após consulta popular. Há que se lembrar que nem mesmo o PL proposto pelos procuradores e nem o pacote anticrime apresentado pelo ministro Sergio Moro tiveram boa acolhida – ao contrário, foram convenientemente desfigurados.

Há que se bafejar com novos ares o ambiente viciado daquelas paragens por meio do voto, dentro das regras do jogo. Ainda é tempo de arejar as nossas cabeças para o voto responsável, mesmo que obrigatório.

MASSAFUMI ARAKI_SÃO PAULO/SP

NOTA COMPARATIVA DA REDAÇÃO: Ao contrário do Estadão, não hesitamos um só segundo antes de publicar a tua boa carta, Massafumi. Agora é a tua vez de não hesitar em fazer uma assinatura da revista! E se não isso, que ao menos você se torne nosso leitor assíduo. Não é pedir muito, vá! Como dizia o outro (um santo!), é dando que se recebe!

CARTAS

Talvez eu esteja abusando de nossa relação epistolar – eu devia ter enviado esta missiva em vez da anterior sobre o leite condensado (Cartas, piauí_183, dezembro) –, mas me tem sido difícil parar de pensar no caso de Judith Baguidy – a refugiada haitiana que quer trazer os filhos para o Brasil. Eu esperava que com a publicação da matéria País do futuro (piauí_182, novembro), houvesse um aumento significativo no crowdfunding (a “vakinha 2264313”); porém ele foi menor que 10%, e Judith ainda precisa de 49% do valor total. Além da perspectiva de reunir a família, não paro de pensar que, apesar de todos os nossos problemas, considerando a diferença no IDH e na expectativa de vida dos dois países, reunir essa família é mais ou menos equivalente, na minha estatística de conta de padaria, a adicionar cerca de trinta anos de bem-estar ao mundo – comparável a salvar uma vida.

Só que encontrei muitas outras campanhas de crowdfunding de refugiados haitianos (ainda nem olhei outras origens) com projetos semelhantes que estagnaram antes de preencher 30% de seu objetivo. O que chamou minha atenção para Judith, em vez dos demais, é que a revista confirmou sua história e tornou seu caso saliente; afinal, é difícil analisar e selecionar campanhas de crowdfunding, e os sites raramente fornecem o mínimo de informação para que o doador tome uma decisão com segurança. Por isso, seria bom ler outras matérias assim. Mas o problema que mais me preocupa é que provavelmente nenhum desses imigrantes alcançará seus objetivos dessa forma: eles estão competindo por recursos escassos e estariam em melhor situação se pudessem se coordenar, assegurar aos doadores que suas histórias são verdadeiras, reunir as doações num único projeto, e estabelecer um procedimento para dividir o “bolo” e dar a todos uma chance de ter seus filhos de volta – talvez uma loteria. Pensar dessa forma pode parecer calculista para alguns, mas é menos cruel do que a situação atual, em que esses jovens crescem sem seus pais num lugar que, nas palavras da haitiana Rosy Ducéna (Os sobreviventes, piauí_179, agosto), se encontra “em derretimento”.

RAMIRO PERES_PORTO ALEGRE/RS

 NOTA ENCORAJADORA DA REDAÇÃO: Siga abusando da nossa relação, Ramiro. Principalmente quando a causa for boa, como é o caso.

MOÇA

A reportagem O leite que condensa o Brasil (piauí_182, novembro) é bem interessante do ponto de vista histórico, mas faltou dizer que mais da metade dele é açúcar.

PAULO MADUREIRA_ILHABELA/SP

NOTA CONCLUSIVA DA REDAÇÃO: Mais da metade dele é açúcar. (Pronto, agora está dito.)


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