anais da natureza
Kathryn Schulz Mar 2022 16h02
28 min de leitura
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Tradução de Sergio Tellaroli
Uma das coisas mais incríveis que já testemunhei é a história de um gato doméstico chamado Billy. Foi alguns anos atrás, pouco depois que me mudei para uma pequena casa de aluguel em Hudson Valley, no estado de Nova York. Billy, um gato grande, velho, meio feioso e mal-humorado, pertencia ao inquilino anterior, um sujeito chamado Phil. Ele adorava aquele gato, e o gato correspondia a seu amor – uma improbabilidade, considerando o pouco entusiasmo que o bichano demonstrava por humanos.
No dia em que se mudou, Phil precisou lutar para enfiar um Billy furioso na caixa de transporte. Quando finalmente conseguiu, Phil partiu no furgão rumo a seu novo apartamento, no Brooklyn. Trinta minutos adiante pela autoestrada, no meio de uma tempestade, o gato encontrou um jeito de escapar da caixa. Phil parou no acostamento, mas descobriu que, do banco do motorista, não conseguiria nem seduzir nem arrastar o gato a voltar para dentro da caixa. Movendo-se com cuidado, desceu do furgão, deu a volta até o outro lado e, cautelosamente, abriu a porta apenas uns 5 cm – mas foi o suficiente para Billy saltar para fora do carro. Em seguida, o gato atravessou incólume duas faixas com veículos a mais de 100 km/h e desapareceu no meio do mato alto do canteiro central. Depois de quase uma hora tentando atravessar a pista naquela chuva torrencial, Phil desistiu. Desconsolado, seguiu caminho em direção a sua casa nova – e já apequenada.
Algumas semanas mais tarde, pouco antes das sete da manhã, acordei com batidas na minha porta. Preparada para uma emergência, desci a escada correndo. A casa tinha uma porta dupla de vidro, ladeada por janelas panorâmicas. As aberturas davam uma visão quase integral do jardim, mas não vi ninguém. Eu estava de pé ali, confusa e com sono, quando, de repente, sobre as patas traseiras, surgiu em meu campo de visão um gato cinza, esquelético e todo sujo.
Boquiaberta, eu abri a porta e, feito uma idiota, perguntei a ele: “Você é o Billy?” Desesperado, ele caminhava de um lado para outro e miava. Busquei então duas tigelas, uma com comida, outra com água, fechei a porta e fiquei observando. Ele as ignorou e voltou a bater na porta. Atordoada, tirei uma foto e enviei-a ao ex-morador com a mesma pergunta que fizera ao gato: “É o Billy?”
Uma hora e meia mais tarde, Phil chegou. O gato, que seguira caminhando sem parar, olhou uma única vez para ele e pulou em seus braços – literalmente se atirou, cobrindo assim as dezenas de centímetros necessários para se aninhar no peito de seu antigo dono. Phil, um sujeito de 1,80 metro, do tipo valentão e que trabalhava num balcão de bar, começou a chorar de imediato. Depois de uns poucos minutos de adoração mútua, o gato, ronronando, pulou para o chão, devorou a comida que eu havia trazido duas horas antes, deitou-se numa porção ensolarada de grama junto da porta e deu início a um elaborado banho.
Como Billy conseguiu realizar esse feito notável permanece um mistério, e não apenas para mim, mas para todo mundo. Em 2013, depois que uma gata de estimação chamada Holly se perdeu durante uma viagem com seus donos a Daytona Beach, na costa atlântica da Flórida, e reapareceu em casa dois meses mais tarde – em West Palm Beach, a 320 km de distância –, a resposta dos etologistas à pergunta sobre como ela conseguira achar o caminho de volta foi unânime: “Vai saber.” Podemos generalizar essa perplexidade. Gatos, morcegos, elefantes-marinhos, gnus, gaviões-de-cauda-vermelha, mariposas-ciganas, sibas, o bolor limoso, pinguins-imperadores – cada animal na face da Terra sabe como se orientar e, em maior ou menor grau, os cientistas seguem perplexos quando se trata de explicar como fazem isso.
O que surpreende aí é que estamos vivendo uma época de ouro em relação às viagens de animais. Três séculos atrás, sabíamos tão pouco sobre o assunto que um estudioso inglês sugeriu – a sério – que as cegonhas passavam o inverno na Lua. Trinta anos atrás, uma manada de elefantes-africanos, o maior mamífero do planeta, ainda podia encenar um desaparecimento anual, cruzando as fronteiras de um parque nacional na estação das chuvas e desaparecendo rumo ao desconhecido. Nas últimas décadas, porém, a tecnologia revolucionou o rastreamento de animais, assim como boa parte de nossas vidas, valendo-se de satélites, armadilhas fotográficas, drones e sequenciamento de DNA. Hoje, dispomos de equipamentos de geolocalização tão leves que podem ser carregados até mesmo por borboletas-monarcas. Dispomos também de um sistema para rastreamento desses equipamentos instalado na Estação Espacial Internacional. Nesse meio-tempo, o estudo das viagens animais ganhou dezenas de milhares de novos colaboradores sob a forma de amadores que, de seus celulares e laptops, enviam bilhões de dados coletados em suas observações. E também ganhou uma boa quantidade de novos livros – o que talvez não surpreenda, considerando que o assunto tem um apelo do tipo A Incrível Jornada.
Duas lições principais emergem desses livros – uma, desafiadora; a outra, trágica. A primeira é que, embora estejamos acumulando conhecimento sobre a navegação animal, ainda temos muito a aprender sobre como eles encontram seu caminho. A segunda é que as criaturas que postulam para si próprias o rótulo crível de serem as piores navegadoras do planeta têm reduzido as chances de todas as demais criaturas chegarem aonde precisam chegar – e fazem isso interferindo nas trajetórias dos outros animais, comprometendo a capacidade que eles têm de encontrar suas rotas e saqueando seus locais de destino. Essas criaturas irresponsáveis, é claro, somos nós. Enquanto outros animais emprestam a esse campo de estudo seu fascínio, nós, humanos, nos distinguimos por acrescentar matizes existenciais às questões fundamentais da navegação: como foi que chegamos aqui? E para onde, exatamente, estamos indo?
Em sua criatividade infinita, a natureza arquitetou diversas maneiras para que os animais fossem de A para B. Os pássaros voam, os peixes nadam e os gibões pulam de galho em galho (“braquiação” é o nome técnico desse seu modo de locomoção). Os basiliscos caminham sobre a água e as salamandras do gênero Hydromantes enrolam-se numa bola e descem colina abaixo. Certas aranhas voam por aí em balões de confecção própria, certos cefalópodes usam propulsão a jato e alguns crustáceos pegam carona com outras espécies. Mas, seja como for que se movimentem, todos os animais o fazem pelas mesmas razões: para comer, para acasalar e para escapar de predadores. Essa é a função evolutiva da mobilidade. O problema é que tudo que se move também precisa se orientar – para encontrar sua comida, seu par e seu esconderijo, sem falar no caminho de volta.
Alguns exemplos impressionantes dessa capacidade são bem conhecidos. Os salmões, que deixam seus riachos de origem meses depois de nascer, são capazes de retornar ao recanto natal depois de anos no mar, às vezes tendo que, no curso dessa empreitada, atravessar cerca de 1,5 mil km e subir mais de 2 mil metros. Pombos-correios conseguem voltar para seu pombal a mais de 1,5 mil km de distância, uma façanha admirada há muitas eras. Há cinco milênios, os egípcios os empregavam como precursores do correio aéreo, como as corujas em Hogwarts. Muitos outros navegadores excepcionais, no entanto, são pouco celebrados. Aprender sobre eles é um dos prazeres que podemos descobrir em duas obras sobre o assunto: Supernavigators: Exploring the Wonders of How Animals Find Their Way (Supernavegadores: explorando os prodígios de como os animais encontram seu caminho), de David Barrie, e Nature’s Compass: The Mystery of Animal Navigation (A bússola da natureza: o mistério da navegação animal), da divulgadora científica Carol Grant Gould e de seu marido, o biólogo evolutivo James L. Gould. A cada inverno, o chamado quebra-nozes-de-clark, um membro da família dos corvos, recupera a comida que escondeu previamente num espaço de quase 260 km2 e em até 6 mil locais diferentes. Quando aranhas da família das Salticidae são confinadas em um labirinto e lhes mostramos uma presa, elas vão apanhá-la ainda que, para tanto, precisem começar a busca movendo-se na direção contrária. As lagostas migram em massa de águas geladas para águas mais quentes, viajando, nas palavras do casal Gould, “em fila indiana, uma atrás da outra”, e mantendo um curso perfeitamente retilíneo, a despeito das poderosas correntes e do fundo irregular do oceano.
E temos a maior façanha do reino animal em se tratando de navegação: as migrações de longa distância empreendidas por muitas espécies de pássaros. Se, como eu, você mora na América do Norte e não sabe muito de ornitologia, é provável que associe essas migrações àquele V denteado que os gansos-do-canadá desenham lá em cima, sobre sua cabeça – com seu canto, em parte arruaceiro, em parte queixoso, sinalizando a chegada do outono e da primavera. Quanto às aves migratórias, porém, esses gansos não são muito representativos: eles viajam de dia e em bandos intergeracionais, nos quais os mais jovens aprendem a rota com os mais velhos. A maioria das aves migratórias, no entanto, viaja à noite e sozinha, seguindo um itinerário particular. No pico da temporada de migração, mais de 1 milhão delas pode passar sobre nossas cabeças a cada hora da noite, e, no entanto, integram um bando do mesmo modo que você, quando está dirigindo seu carro por uma estrada interestadual no fim de semana do feriado de Ação de Graças.
A World on the Wing: The Global Odyssey of Migratory Birds (Um mundo no ar: a odisseia global das aves migratórias), de Scott Weidensaul, conta muitas histórias desses pássaros viajantes. Ornitólogo apaixonado, Weidensaul às vezes nos dá detalhes demais sobre espécies demais, mas compreendemos: virtualmente cada ave que menciona faz coisas dignas de serem relatadas num livro. O ganso-de-cabeça-listada, por exemplo, migra todo ano da Ásia Central para a planície indiana – e faz isso numa altitude que rivaliza com a dos aviões comerciais. Em 1953, quando Tenzing Norgay e Edmund Hillary alcançaram o topo do Everest, um membro de sua equipe olhou para o alto enquanto subia e viu gansos-de-cabeça-listada voando acima do pico da montanha. Outro exemplo é a andorinha do Ártico, que tem um gosto pelos polos que intimidaria até Ernest Shackleton e suas heroicas expedições antárticas. Ela põe seus ovos no Ártico, mas passa o inverno na costa da Antártida, fazendo viagens anuais que podem ultrapassar 80 mil km – mais do que voar de São Paulo a Pequim, voltar, ir de novo e voltar outra vez. Em comparação com isso, a migração de 6,5 mil km do Selasphorus rufus, um beija-flor-ruivo, não parece impressionante, mas só até nos darmos conta de que esse viajante em particular pesa cerca de 3 gramas. O espantoso nem é que um passarinho desse tamanho seja capaz de fazer tal viagem, com ventos alísios e furiosas tempestades a fustigá-lo. O espantoso é que sua fisiologia minúscula contenha um GPS poderoso capaz de mantê-lo no curso.
De maneira geral, é surpreendente que qualquer fisiologia possa abrigar um sistema de navegação que permita viagens semelhantes. Um pássaro que migra longas distâncias precisa manter sua trajetória de dia e de noite, em todo tipo de clima, muitas vezes sem pontos de referência à vista. Se suas viagens duram mais do que alguns poucos dias, ele precisará encontrar uma forma de lidar com o fato de que, na prática, tudo aquilo que poderia orientá-lo vai mudar – da elevação do Sol à duração do dia, passando pelas constelações no céu noturno. Mais desconcertante ainda: ele precisará saber para onde está indo – sem nunca ter empreendido a viagem antes – e onde fica seu destino em relação a sua posição atual. Outras espécies, fazendo viagens diversas, enfrentam dificuldades adicionais: como se orientar debaixo da terra ou navegar sob as águas de um oceano vasto e aparentemente sempre igual?
Como um animal consegue realizar feitos assim? Em Nature’s Compass, os Gould delineiam várias estratégias comuns empregadas para manter o curso. Elas incluem a fototaxia e a fonotaxia, nomes que se dá ao movimento instintivo em direção ou em oposição à luz (no caso da fototaxia) ou ao som (fonotaxia). Incluem ainda a pilotagem (rumar para pontos de referência), a orientação (manter um rumo constante em uma certa direção), a navegação vetorial (articular uma sequência de pontos cardeais – por exemplo, rumar para o Sul, depois para Sul-sudoeste e seguir, então, para Oeste, sempre por uma distância específica) e a navegação estimada (calcular a posição com base no rumo, na velocidade e no tempo transcorrido desde a partida de uma posição anterior).
Cada uma dessas estratégias requer um ou mais mecanismos biológicos, e é aí que a ciência da navegação animal se torna interessante, porque, para ter um senso de direção, uma espécie pode precisar, entre outras coisas, de algo como uma bússola, um mapa, uma boa memória, uma capacidade de monitorar o tempo e uma percepção de seu ambiente bastante rica em informações.
Desses mecanismos, os mais fáceis de entender são aqueles de que nós mesmos dispomos. Boa parte dos seres humanos em geral navega com base numa combinação da visão e da memória. Não somos os únicos a fazê-lo. Um cientista, perplexo ao descobrir que seus ratos bem treinados não conseguiam mais se orientar num labirinto depois de terem sido deslocados para outro canto do laboratório, acabou por constatar que os animais navegavam com base em pontos de referência no teto. (A constatação foi um golpe fatal na ideia, muito apreciada pelos behavioristas, de que os ratos não faziam mais do que aprender sequências motoras: dez passos adiante, virar à direita, mais três passos adiante, e aí está a comida.) Outros animais se valem de sentidos que nós também possuímos, mas não sabemos empregar muito bem, como o olfato. Aqueles salmões migrantes, por exemplo, são capazes de detectar o cheiro de uma única gota de água de seu riacho natal em meio a 950 litros de água do mar. Outros se valem da audição, mas não do modo simples da fonotaxia, em que o som serve para determinar se estamos mais perto ou mais longe, e sim usando os sons como uma espécie de marcador auditivo, como placas de trânsito sonoras. Assim, um pássaro em voo pode usar o coro de sapos num lago bem mais abaixo para se orientar e corrigir eventuais desvios.
Mas muitos animais navegam usando sentidos que nos são desconhecidos. Pombas, baleias e girafas, entre outros, são capazes de detectar infrassons – ondas sonoras de baixa frequência que viajam centenas de quilômetros no ar e vão ainda mais longe na água. Enguias e tubarões sentem campos elétricos e se orientam debaixo d’água por meio de assinaturas elétricas. E muitos outros animais – de efemerópteros a tamarutacas, de lagartos a morcegos – são capazes de perceber a polarização da luz, uma dica muito útil de navegação, que, entre outras coisas, pode ser usada para determinar a posição do Sol em dias nublados.
Outras ferramentas de navegação são a um só tempo mais prosaicas e mais espantosas. Se você apanhar formigas do gênero Cataglyphis junto a uma fonte de comida e dotá-las de pernas de tamanhos diferentes – por exemplo, construir perninhas de pau para algumas e amputar parcialmente as perninhas de outras – elas vão voltar para o seu ninho, mas com uma diferença: as de pernas mais longas vão passar do ponto do ninho e as de perninhas amputadas vão achar que chegaram antes de terem chegado. Isso acontece porque elas navegam contando passos, como se seus cérebros, do tamanho da cabeça de um alfinete, contivessem um minúsculo Fitbit, aquela pulseira que monitora os passos do seu usuário. (Mas, na tentativa seguinte, todas acertam o ponto exato do ninho, porque elas se recalibram a cada viagem.) Da mesma forma, as abelhas ajustam sua velocidade em relação ao ar com base nos ventos de proa e de popa, a fim de manter uma velocidade constante em relação ao solo de 24 km/h – o que significa, os Gould sugerem, que, computando as batidas de suas asas, as abelhas podem determinar a distância que viajaram.
Listei aqui diversos mecanismos de navegação, mas a maioria das criaturas dispõe de mais de um mecanismo, porque condições diferentes demandam ferramentas diferentes. O que funciona ao meio-dia pode não funcionar à noite, o que funciona perto de casa pode não funcionar mais longe, e o que funciona num dia ensolarado pode não funcionar no meio de uma tempestade. Ainda assim, nem mesmo a combinação de todas essas ferramentas é capaz de explicar a última estratégia de orientação descrita pelos Gould, que é sem dúvida a mais surpreendente e a mais intrigante: a navegação verdadeira.
A navegação verdadeira é a capacidade de chegar a um destino distante sem o auxílio de pontos de referência. Se alguém é sequestrado, levado por milhares de quilômetros na mais completa escuridão e então abandonado em algum local desabitado, a navegação verdadeira seria sua única chance de encontrar o caminho de casa.
Para fazer isso, é preciso uma bússola e a capacidade para usá-la e saber, por exemplo, que o Norte magnético não é idêntico ao Norte geográfico. Sem bússola, é preciso recorrer à capacidade de se orientar com base no movimento do Sol – algo complicado, sobretudo se os sequestradores não fizeram a gentileza de informar ao refém a sua latitude. Se o sequestrado pretende encontrar o caminho de volta depois de escurecer, é bom que seja capaz de seguir a estrela Polar ou o Cruzeiro do Sul, a depender do hemisfério em que se estiver. Mas, mesmo que tenha essa habilidade, nosso personagem ainda estaria encrencado sem um mapa. A capacidade de manter um curso com precisão não é lá muito útil quando não se tem ideia de onde se está em relação ao destino.
Alguns animais claramente possuem um mapa assim, ou, como dizem os cientistas, uma “noção de mapa” – ou seja: uma percepção, misteriosa em sua origem, de onde estão em relação ao destino. Para alguns deles, certas coordenadas geográficas simplesmente são parte de sua herança evolutiva. As pulgas-do-mar, aqueles crustáceos minúsculos e nervosos que saltam para fora e saem correndo quando caminhamos pela praia, nascem sabendo como encontrar o oceano. Quando ameaçadas, as pulgas-do-mar que vivem na costa atlântica da Espanha fogem para o Oeste, ao passo que as da costa mediterrânea fogem para o Sul – e saberão para onde fugir mesmo que suas mães tenham sido retiradas de seu hábitat durante a gestação. Da mesma forma, todos aqueles pássaros que embarcam sozinhos em sua primeira migração devem, de alguma forma, saber instintivamente para onde estão indo.
Mas só o instinto não explica do que esses pássaros são capazes. Em 2006, cientistas no estado de Washington capturaram pardais-de-coroa-branca que haviam começado sua migração anual do Canadá para o México e os transportaram num compartimento sem janelas para Nova Jersey – para as aves, algo equivalente àquele exercício mental do sequestro que descrevi acima. Uma vez soltos, os pássaros jovens – os que faziam a viagem pela primeira vez – rumaram para o Sul, mantendo o mesmo curso que vinham usando desde Washington. Os adultos, porém, voaram na direção Oeste-sudoeste, corrigindo um deslocamento que nada em sua história evolutiva permitiria prever. Essa descoberta é coerente com muitas outras, todas mostrando que os pássaros se tornam navegadores melhores durante seu primeiro voo longo, em muitos casos aprendendo estratégias inteiramente novas e mais eficientes. Experimentos subsequentes descobriram que pássaros adultos podem ser desviados até 10 mil km de sua trajetória e, ainda assim, serão capazes de se reorientar com exatidão para chegar ao seu destino.
Como fazem isso? Atualmente, a teoria mais convincente é a de que se valem do campo magnético da Terra. Sabemos que os pássaros têm essa capacidade porque é fácil interferir nela: se soltarmos pombos-correios sobre uma mina de ferro, por exemplo, eles vão se desorientar por completo, até que tenham voado para longe dali. Quando os cientistas foram procurar explicações para essa descoberta e para outras, similares, encontraram pequenos depósitos de magnetita – o mais magnético dos minerais naturais presentes na Terra – dentro do bico de muitos pássaros, assim como de golfinhos, tartarugas, bactérias e outras criaturas. Foi uma descoberta sensacional, que logo se popularizou na ideia de que alguns animais possuem uma bússola embutida.
Contudo, como muitas ideias científicas sensacionais e populares, também essa passou a parecer um tanto estranha, quando examinada mais de perto. Para começar, revelou-se que os pássaros com magnetita no bico não navegavam com base no alinhamento Norte-Sul, como fazem os humanos quando se valem de uma bússola. Em vez disso, fiavam-se na inclinação do campo magnético terrestre – o ângulo cambiante em que ele intercepta a superfície do planeta, conforme nos movemos dos polos para a linha do Equador. Mas a inclinação não fornece nenhuma pista sobre a polaridade; se pudéssemos senti-la, saberíamos nossa posição em relação ao polo mais próximo, mas não saberíamos que polo seria esse. Seja qual for a utilidade da magnetita para os pássaros, não parece ser igual à da agulha de uma bússola. Mais curioso: os experimentos mostraram que os pássaros com magnetita se desorientavam temporariamente quando expostos à luz vermelha, embora a luz não exerça nenhum efeito conhecido no funcionamento dos imãs.
Uma explicação possível para esse estranho fenômeno está numa proteína chamada criptocromo, encontrada na retina de certos animais. Alguns cientistas postulam que, quando uma molécula de criptocromo é atingida por um fóton de luz (do Sol ou das estrelas), um elétron dentro dela é deslocado de sua posição, gerando o que é conhecido como par radical: ou seja, duas partes de uma mesma molécula, uma contendo o elétron deslocado e a outra contendo o elétron que ficou sem par devido ao deslocamento. O consequente estado de spin desses dois elétrons depende da orientação da molécula em relação ao campo magnético da Terra. Uma série dessas reações, ainda segundo a teoria, de algum modo daria ao animal uma percepção constante de como o campo magnético está se modificando ao seu redor.
Quem não entendeu bem isso tudo deve ter coragem: mesmo os pesquisadores que estudam a relação entre criptocromo e navegação ainda não sabem dizer ao certo como ela funciona – e alguns de seus colegas, inclusive, questionam se de fato funciona. No entanto, pelo que sabemos, é quase certo que o campo magnético terrestre é crucial para a capacidade de navegação de incontáveis espécies – tão crucial que a evolução pode muito bem tê-los dotado de muitos mecanismos diferentes para perceber a polaridade, a intensidade e a inclinação do campo magnético. Em conjunto, esses mecanismos talvez comecem a solucionar o mistério da navegação verdadeira. E seria uma solução elegante, capaz de explicar o fenômeno para toda uma gama de criaturas e sob múltiplas condições, porque o campo magnético é onipresente no planeta. Dispondo de alguns meios para detectá-lo, poderíamos nos fiar nele de dia e de noite, com tempo bom ou ruim, no ar, debaixo da terra e dentro da água.
Esse tipo de explicação seria muito cômodo, pois parece cada vez mais provável que a verdadeira navegação – que, no passado, se acreditava demandar raciocínios avançados e ferramentas sofisticadas exclusivas dos seres humanos – seja uma capacidade amplamente disseminada. Inúmeras espécies de pássaros a possuem, assim como os salmões. Aquelas lagostas que andam em fila indiana são tão boas nisso que parece impossível desorientá-las – os cientistas já tentaram de tudo para fazê-lo, sempre em vão. Como Barrie descreve em Supernavigators, pode-se cobrir os olhos de uma lagosta, mergulhá-la num recipiente opaco cheio da água do mar de seu ambiente nativo, guarnecer o recipiente com imãs suspensos por cordas balançando em todas as direções, e então colocá-lo num caminhão, dirigir em círculos a caminho de um barco e rumar, também em círculos, para um local distante, devolver a lagosta à água e voilà: ela partirá confiante na direção de sua casa.
Nem preciso dizer que você e eu não conseguimos fazer isso. Basta vendar um grupo de seres humanos, levá-los numa viagem de ônibus desorientadora, desembarcá-los num campo, remover as vendas e pedir que voltem a seu ponto de origem – e cada um vai partir numa direção. Podemos dispensar o ônibus e as vendas e apenas pedir que atravessem um campo em direção a um determinado alvo – e, se escondermos o alvo assim que começarem a caminhar, os humanos vão se desviar do curso em cerca de oito segundos.
O problema não é que os humanos não tenham ferramentas inatas para encontrar o caminho. Também nós somos capazes de nos guiar por pontos de referência e de localizar a fonte de sons ou de outras pistas ambientais e, assim, abrir caminho rumo ao destino desejado. (Quanto a sons, fazemos como os sapos: avaliamos inconscientemente ou a diferença de intensidade ou a diferença temporal com que um ruído nos chega ao ouvido direito e ao ouvido esquerdo.) Dispomos também de toda uma série de neurônios especializados que ajudam em nossa orientação: células de direção da cabeça, que disparam quando olhamos para determinado lado (em relação ao ambiente em que nos encontramos, e não aos pontos cardeais); células de lugar, que disparam quando estamos em local conhecido; células de grade, que disparam a intervalos regulares quando caminhamos por uma área aberta, ajudando a atualizar nossa posição; e células de borda, que disparam em resposta a um obstáculo ou um limite em nosso campo de visão.
Tudo isso é crucial para nosso funcionamento cotidiano, mas nada nos dá nem metade da capacidade de navegação de uma salamandra. Ainda assim, às vezes nosso desempenho é extraordinário, quando se trata de encontrar o caminho; só que, ao contrário das lagostas, temos de aprender a fazer isso. Para quem nunca entendeu direito o efeito de paralaxe e não distingue azimute de zênite, esse processo pode ser penoso. Mas a competência básica para encontrar caminhos já foi uma característica mais disseminada em nossa espécie do que é hoje. Simplesmente porque era uma habilidade central para nossa sobrevivência: não podemos caçar ou colher sem nos afastarmos de casa.
Além disso, certos indivíduos e culturas destacaram-se há muito tempo no quesito navegação. Em From Here to There: The Art and Science of Finding and Losing Our Way (Daqui até lá: a arte e a ciência de se encontrar e se perder), o jornalista britânico Michael Bond admira-se, e com razão, com o brilhantismo dos primeiros polinésios nesse campo. Cerca de 5 mil anos atrás, eles começaram a remar em suas canoas por uma vasta extensão do Oceano Pacífico hoje conhecida como Triângulo Polinésio: mais de 25 milhões de km2 de água, delimitados pela Nova Zelândia, o Havaí e a Ilha de Páscoa, com talvez mil outras ilhas esparramadas dentro desse perímetro. Para ir de uma dessas ilhas para outra, em rotas que chegam à casa dos 4 mil km, aqueles primeiros navegadores fiavam-se no “padrão das ondas, na direção do vento, nas formas e cores das nuvens, na força das correntes no fundo do oceano, no comportamento dos pássaros, no cheiro da vegetação e nos movimentos do Sol, da Lua e das estrelas”. O preço de qualquer distração era terrível; nas vastas águas do Pacífico, as chances de encontrar uma ilha por acaso são próximas de zero. É compreensível, portanto, por que aqueles primeiros polinésios, que tanto respeitavam os bons navegadores, começavam bem cedo a treinar cada nova geração.
Com alguns séculos e quilômetros de diferença, encontramos feitos semelhantes em quase todas as culturas. Muitos povos nativos do Ártico eram peritos maravilhosos na navegação de um terreno que a maioria de nós consideraria absolutamente uniforme. Os inuítes, por exemplo, viajavam por terra valendo-se de extensos sistemas de pontos de referência e eram capazes de navegar águas costeiras em meio à neblina intensa, o que faziam prestando atenção especial ao padrão das ondas e aos cantos dos pássaros de sua enseada natal. Pela paisagem também inclemente do sudoeste norte-americano e da Austrália Central, povos nativos navegavam, em parte, graças ao cultivo de uma tradição oral repleta de topônimos que continham pormenorizada informação geográfica. No século IV a.C., os gregos abriram caminho até o Círculo Polar Ártico. Por volta do século II, os romanos chegaram à China. E no século IX, os indonésios desembarcaram em Madagascar. Com o passar do tempo, começamos a conciliar a observação e a memória com um número cada vez maior de ferramentas físicas: o astrolábio, o sextante, a bússola, o mapa, a carta náutica e o sistema de posicionamento global (GPS).
É perverso que, em parte devido ao aperfeiçoamento dessas ferramentas, tantos de nós tenhamos desaprendido a navegar sem elas. Nos últimos vinte anos, a onipresença dos mapas com GPS praticamente erradicou a necessidade de nos orientarmos por conta própria. Mas, muito antes da chegada dessa tecnologia, outros fatores já vinham erodindo nossa aptidão para encontrar caminhos. No topo dessa lista está a urbanização: depois de cerca de 300 mil anos vivendo muito próximos da natureza, migramos em grande número para as cidades – e a maioria de nós o fez em apenas uns poucos séculos. À sua maneira, também as cidades podem demandar capacidade de navegação, mas elas estão cheias de pontos óbvios de referência, sinalização escrita, sistemas de transporte público, motoristas de táxi e multidões de moradores mais ou menos capazes de oferecer orientação. Além disso, todo esse auxílio artificial tornou inúteis certas características naturais muito valiosas. Rios que se podiam seguir com facilidade foram direcionados para debaixo da terra; o movimento do Sol durante o dia e durante as estações é grandemente neutralizado por ruas estreitas e prédios altos. Hoje, 99% dos norte-americanos vivem em lugares onde a poluição luminosa reduziu o número de estrelas visíveis no céu noturno. Às vezes, não se vê mais do que um punhado delas.
A essas alterações em nosso ambiente natural vieram se somar – e talvez de forma mais deletéria – as mudanças em nossas normas sociais. Incontáveis estudos ensinam que, quanto mais as crianças exploram o mundo, melhor se torna seu senso de direção. Mas, como Michael Bond observa, em apenas duas ou três gerações reduzimos drasticamente a distância que nossos filhos estão autorizados a perambular sozinhos. Na Inglaterra de 1971, os pais permitiam que 94% das crianças no ensino primário se deslocassem sozinhas para algum outro lugar que não de casa para a escola ou vice-versa. Por volta de 2010, eram apenas 7% das crianças.
Esses fatores cobram um preço de nossa capacidade de nos orientar. Os mapas da vizinhança desenhados por crianças que circulam de carro são lamentavelmente mais pobres do que os mapas desenhados por crianças que têm o costume de caminhar ou andar de bicicleta na sua vizinhança. A memória espacial dos adultos que fazem uso contínuo de GPS decai mais do que a dos que não o fazem. Não sabemos qual será o preço adicional por deixarmos que nossa capacidade de orientação se atrofie. Avançando bem além do conhecimento científico atual, Bond supõe que haja uma correlação entre a diminuição de nossa capacidade de encontrar caminhos e o Alzheimer. Mas, com base em outras áreas da aprendizagem e outras espécies, sabemos que tudo aquilo que internalizamos – ou não – em nossos primeiros anos de vida pode ser determinante. Talvez haja gansos-do-canadá vivendo o ano todo num campo de golfe ou num parque de uma cidade. Se isso acontece, é porque eles, ou seus ancestrais, por algum motivo perderam aquele primeiro voo com o resto do bando quando ainda eram pequenos – e nunca aprenderam a viajar para bem longe e, ainda assim, encontrar o caminho de casa.
Não é apenas nossa capacidade de orientação que nós, humanos, estamos colocando em risco. Tudo aquilo que ajudou a deteriorá-la – a crescente urbanização, a dependência exagerada dos automóveis, a distância cada vez maior do mundo natural – está destruindo a capacidade de outros animais de chegarem ao seu destino.
Nos dias de hoje, essa destruição assume inúmeras formas. A exploração ilegal da madeira está devastando os ecossistemas das montanhas do Oeste do México, onde as borboletas-monarcas passam o inverno. O glifosato, um dos herbicidas mais usados no mundo, está interferindo na capacidade de navegação das abelhas. Nossas cidades permanecem iluminadas a noite toda, confundindo e expondo a riscos tanto os animais que são atraídos pela luz quanto aqueles que dependem das estrelas para traçar seu curso. Como nos apropriamos cada vez de mais terra para as cidades, e para a madeira e a agricultura, reduzimos na mesma proporção a parte disponível para outras espécies. O Mar Amarelo, por exemplo, já foi costeado por quase 1,2 milhão de hectares de pântanos, que serviam de escala vital para milhões de aves migrantes. Nos últimos cinquenta anos, dois terços desses pântanos desapareceram, depois de obras destinadas a resgatá-los para uso humano – essa palavra, “resgatar”, que, como observa Weidensaul com amargura, mas com precisão, sugere que “a humanidade [está] tomando de volta algo que lhe tinha sido roubado, quando, na verdade, é o contrário”. As espécies que dependem desses pântanos estão se reduzindo à razão de 25% a cada ano.
Há também as mudanças climáticas, que são de longe a maior ameaça ao movimento habitual dos animais pelo planeta. Não há espécie que não seja afetada pelas alterações do clima, mas aquelas que viajam longas distâncias correm um risco especial, em parte porque dependem de mais de um ecossistema, em parte porque as pistas que usam na preparação de suas jornadas – como a proporção entre luz do dia e escuridão – vão sendo progressivamente desacopladas das condições reinantes em seu local de destino. Isso é ruim para o migrante, que, mesmo sob as mais favoráveis circunstâncias, chega absolutamente esgotado de sua viagem, prejudicando seus filhotes, que podem nascer tarde demais para tirar proveito do momento de disponibilidade máxima de comida. Em boa medida, esse padrão explica os números decrescentes de incontáveis espécies de pássaros.
Problemas assim não são, em si, causados por temperaturas mais altas. Os Gould assinalam que, ao longo da história evolucionária de 200 milhões de anos dos pássaros, e da história evolucionária de 600 milhões de anos dos vertebrados, “a média das temperaturas globais oscilou de abaixo de zero para mais de 37ºC”. Durante esse tempo, o nível dos oceanos variou, ficando dezenas de metros acima e abaixo do que apresenta hoje. Nem todas as espécies sobreviveram a essas flutuações, mas a maioria dos animais consegue se adaptar até mesmo a mudanças ambientais drásticas, contanto que elas ocorram pouco a pouco. Ornitólogos suspeitam que aqueles gansos-de-cabeça-listada voam acima do Everest porque assim o faziam antes mesmo do próprio Everest existir. Quando o monte começou a se erguer do chão, há cerca de 60 milhões de anos, os gansos simplesmente foram subindo com ele.
O primeiro problema com a crise climática atual, portanto, não está em sua natureza, e sim em seu ritmo: em termos evolucionários, é um Everest se erguendo da noite para o dia. Nos próximos sessenta anos, é provável que o hábitat de um único pássaro canoro, o sanhaço-escarlate, se desloque quase 1,6 mil km para o Norte, em direção à região central do Canadá. Por si só, o pássaro poderia se ajustar rapidamente a esse deslocamento – mas não existe na natureza uma espécie “por si só”. O sanhaço prospera nas velhas florestas de madeira dura, e as árvores não podem simplesmente recolher suas raízes e se mudar para climas mais frescos. Além do problema do ritmo, há o problema do espaço. Ao longo dos últimos séculos, com nossas fazendas, subúrbios e cidades, acabamos confinando os animais selvagens em restos cada vez menores de natureza intocada. Quando esses restos de natureza deixarem de prover o que precisam, os animais não terão para onde ir.
Se há algo de positivo nisso tudo – e é preciso olhar com muita atenção para encontrar algo positivo, tal como fazemos hoje para achar estrelas à noite – é que, quanto mais aprendemos sobre como os animais viajam, ficamos mais bem equipados para ajudá-los a seguir viajando. Por saber que os salmões seguem o cheiro de seu riacho natal, cientistas acrescentaram odor às incubadoras para atrair os peixes de volta aos Grandes Lagos, na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá, de onde haviam sido extintos por causa dos níveis de poluição (hoje menores). Por saber que o pico da migração dos pássaros canoros dura não mais que seis ou sete dias em determinada área, ornitólogos empreenderam esforços bem-sucedidos para diminuir a luz ali durante esse tempo. Por saber que uma ave costeira que migra 32 mil km por ano usa menos de 2,6 km2 de terra em seu caminho, conservacionistas puderam se dedicar a projetos de preservação ambiental mais focados, mais econômicos e mais efetivos.
Todos esses exemplos fornecem argumentos para que continuemos a refinar nossa compreensão da navegação animal. Parte do que vamos aprender pode mostrar-se decisiva para a existência não apenas das demais espécies, mas também da nossa. Em Supernavigators, Barrie observa, com a presciência de quem escreveu um ano antes da pandemia, que não podemos controlar a disseminação de doenças zoonóticas sem entendermos o padrão das viagens de seus portadores. Outras descobertas podem simplesmente satisfazer uma duradoura curiosidade, como a despertada pela aventura de Billy. Barrie escreve que, mesmo hoje, “é surpreendente que as habilidades de navegação de cães e gatos tenham sido alvo de pouquíssima curiosidade científica”. Mas o principal ensinamento a ser extraído do modo como os animais se movem pelo mundo não tem a ver com seu comportamento, e sim com o nosso: o caminho que precisamos aprender a encontrar agora não é geográfico – é moral.