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O ENCONTRO DE BATMAN COM O POVO

Um vídeo feito na esteira de Junho de 2013 ainda guarda lições sobre os traumas da esquerda e o futuro

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Quanto tempo será preciso até o Brasil encontrar um novo ponto de equilíbrio? Ninguém sério se arriscaria a responder. Repactuações como aquela por que passamos na década de 1980 só ocorrem quando um arranjo deixa de ser viável (como aconteceu com o regime militar) ou o balanço de forças se altera de maneira radical (como recentemente no Chile). Por ora, não há nada assim no horizonte. Se algum dia isso mudar, no entanto, pode ser que os brasileiros do futuro olhem para este período e decidam celebrar 19 de janeiro de 2014 como o Dia em que o País Parou de Fazer Sentido.

Para quem não se lembra, foi nesse dia que ativistas convocaram um rolezinho no Shopping Leblon, frequentado pela classe alta do Rio de Janeiro. O protesto, que contou com a presença de uma fração muito reduzida de seus 9 mil confirmados no Facebook, não chegou a acontecer porque o estabelecimento fechou as portas preventivamente. Mas a tentativa frustrada daria origem a um vídeo brevemente famoso – um delírio tropicalista que ficou conhecido como “Batman no Leblon”.

No vídeo, o protético Eron Morais de Melo, famoso por frequentar todas as manifestações que então ocorriam na cidade trajando um uniforme completo do herói dos quadrinhos, discute com o diretor de cinema Rodolfo “Dodô” Brandão, conhecido por seus trabalhos da década de 1980. Simpatizante do então governo petista, o cineasta ataca o “Batman dos Protestos” por vestir-se como um símbolo do imperialismo norte-americano e denuncia os manifestantes como “manipulados” ou “de direita”. A cena se amplia com a participação de outros transeuntes exaltados, de uma equipe de tevê francesa e de uma fotógrafa, autodeclarada direitista, que demonstra familiaridade com teorias conspiratórias que na época eram praticamente monopólio do ex-astrólogo Olavo de Carvalho. No vaivém da câmera e dos personagens, as posições políticas parecem ir mudando de lugar à medida que se definem por oposição umas às outras. Quem é a esquerda? Quem é a direita?

A referência ao tropicalismo não é arbitrária. O episódio carioca guarda várias semelhanças, tanto formais quanto temáticas, com a sequência chamada “Encontro de um líder com o povo” de Terra em Transe, filme de Glauber Rocha que inspirou a Tropicália. Encenando uma grande festa popular em torno do líder populista Vieira, a sequência chega ao clímax quando o sindicalista Jerônimo, instado a falar porque ele “é o povo”, se expressa de maneira tímida e conciliadora, resignada à subalternidade de quem “não [sabe] mesmo o que fazer” e considera que “o melhor é aguardar a ordem do presidente”. O protagonista do filme, o jornalista de esquerda Paulo Martins, cobre-lhe então a boca e, quebrando a quarta parede, dirige-se diretamente ao público: “Estão vendo o que é o povo? Um imbecil! Um analfabeto! Um despolitizado! Já pensaram um Jerônimo no poder?” Feito isso, porém, a câmera passa a acompanhar um homem que vem rastejando pela multidão até chegar ao centro da cena e tomar a palavra: “Com a licença dos doutores, Seu Jerônimo faz a política da gente, mas Seu Jerônimo não é o povo.” Um grupo de camponeses começa silenciosamente a ocupar o fundo da cena. “O povo sou eu, que tenho sete filhos… e não tenho onde morar!” Mas o jogo da representação populista não pode tolerar essa irrupção do que não estava representado: aos gritos de “extremista! extremista!”, o homem é espancado e morto.

A alegoria cinematográfica de 1967 ressoa no vídeo de 2014 de maneira espontânea. Enquanto o filme põe em cena um carnaval ao mesmo tempo literal (com passistas e bateria) e figurativo (com tipos como o Sindicalista, o Camponês, o Bacharel, o Padre e os Estudantes Radicais), o rolezinho frustrado oferece uma situação carnavalesca em que se enfrentam personagens reais, mas igualmente esquemáticos (o Batman dos Protestos, o Cineasta Petista do Leblon, a Fotógrafa Olavista). Tanto na ficção quanto no registro documental, estamos às voltas com uma questão de máscaras: o povo e quem “faz a política do povo”, o ativismo que se disfarça atrás de máscaras e o que estas representam e escondem. Serão um símbolo da alienação e da revolta juvenil vazia, como acusa o Cineasta? Um plano de desestabilização promovido por fascistas, como ele também sugere? Ou um plano de desestabilização orquestrado pela esquerda, como retruca a Olavista?

Em última análise, o que está em jogo ali é o problema da representação, em seu duplo sentido: político (quem representa quem) e cognitivo (como se representa a realidade). E, se no momento em que Glauber filmava sua sequência a pergunta urgente era “quem é o verdadeiro povo”, o que está em discussão no início da longa ressaca de 2013 documentada no vídeo do Batman no Leblon é, sobretudo, “quem é a verdadeira esquerda”.

Sintomaticamente, o “povo” não está no vídeo. Os rolezinhos, que em São Paulo haviam sido um movimento espontâneo da juventude de periferia, reunindo centenas de pessoas, no Rio eram uma promoção de redes de ativistas formadas pelas manifestações de seis meses antes, que não lograram atrair outro público que não elas mesmas. Mas a disputa sobre quem é a verdadeira esquerda passa, inevitavelmente, pelas referências a essa entidade ausente. O ativista mascarado alega falar em nome daqueles que estão sendo deixados de lado pelo desenvolvimentismo petista; as credenciais progressistas do Cineasta se sustentam na memória da luta pela redemocratização e em seu apoio a um governo durante o qual “o país avançou, […] tem emprego”. Ambos se identificam como “de esquerda” na medida em que falam em nome de alguém que não está lá. Por ironia, o momento em que o Cineasta está de acordo com a Olavista – também moradora do Leblon – é quando o jornalista francês pergunta se os manifestantes têm razão em criticar a discriminação social no acesso à cidade, ao que ambos respondem dizendo que esse é um discurso que semeia “o ódio entre irmãos”. Para fomentar uma “guerra civil”, segundo ela. Para criar divisão onde não existe nenhuma, segundo o Cineasta, que comprova sua afirmação, contando que ele, “que [ganha] muito dinheiro”, costuma beber nos bares da região com moradores de um conjunto habitacional.

Fora seu valor em igual medida cômico e profético, Batman no Leblon é importante, em primeiro lugar, porque representa, com um poder de síntese glauberiano, a operação pela qual o fechamento do espaço à esquerda do PT acabaria abrindo caminho para a extrema direita fazer-se herdeira de 2013. É notável que, no vídeo de 2014, o momento que equivale ao grito de “Eu sou o povo!” de 1967 tenha por objeto (e sujeito) a direita. Ele começa com o Cineasta e a Olavista, que acabara de aparecer, chamando os ativistas de “manipulados”. É quando o petista explica que os manifestantes são em última análise “fascistas” e “de direita”, no entanto, que sua até então aliada interrompe: “Fascistas, sim, mas não de direita. Eu sou de direita!” É só então que os dois entendem que, embora estejam dizendo a mesma coisa, o fazem com sinais invertidos. Que os protestos são parte de uma trama oculta e nefasta eles não discutem; mas o que para o Cineasta é um ataque a um bom governo de esquerda, para a Olavista é “um plano de ocupação comunista totalitarista no país”.

Assistimos aí à gênese de duas operações de polarização. A extrema direita rejeita, no limite, todos aqueles que estão fazendo política, institucionalmente ou nas ruas, e os opõe às pessoas comuns, cuja unidade é como “entre irmãos”. O petismo assevera que a única posição possível de esquerda é a sua, o que automaticamente joga para a direita todos que tenham críticas ao governo. No meio das duas operações, rechaçado ao mesmo tempo pela direita e a esquerda, o Batman das ruas não tem como constituir a sua própria. A dele é uma polarização abortada.

A operação da direita tem vocação claramente hegemônica, já que se dirige a todos os que ainda não possuem uma identidade definida, ou seja, a maioria. A do petismo se organiza em torno de uma identidade – a “verdadeira” esquerda –, cujo apelo pressupõe uma identificação prévia: apenas quem já se entende como “de esquerda” pode desejar pertencer à “verdadeira” esquerda. O problema desta última estratégia é que ela depende, para conquistar a sociedade como um todo, de uma associação entre “apoiar o governo” e “ser de esquerda” que o petismo se empenhara justamente em enfraquecer. Mais que isso, ela opta por repelir todo e qualquer questionamento do governo Dilma no exato momento em que as críticas estão mais disseminadas, o que fatalmente limita seu alcance. No fim, o que ela consegue é restabelecer a hegemonia do partido sobre seu próprio campo político. Já os que acenderam a fagulha de Junho de 2013, excluídos do espaço político pela oposição dos outros dois polos, não tinham condições de traçar uma linha de antagonismo capaz de disputar a sociedade, e acabariam reduzidos a reafirmar sua identidade contra os dois lados, em vez de tentar constituir uma nova, que comunicasse com mais gente. O resultado seria um isolamento cada vez maior.

Batman no Leblon também importa por chamar atenção para a figura de Eron Morais de Melo, cuja trajetória é exemplar desse período. Após aderir à colossal manifestação de 20 de junho de 2013, ele continuou sendo uma figura assídua em todos os protestos no Rio de Janeiro, mesmo quando eles se tornaram cada vez mais conflitivos. Batalhador evangélico do subúrbio carioca, sem experiência política pregressa, foi na esquerda que ele encontrou inicialmente o espaço para exprimir uma indignação que, embora confusa, não deixava de ser sincera. Em 2015, ele ressurgiu em cima do carro de som do grupo Revoltados Online nas manifestações pró-impeachment de Dilma Rousseff no Rio de Janeiro e, no ano seguinte, declarou apoio a Bolsonaro e concorreu a vereador, sem sucesso. Tornou-se figura folclórica na mídia e, em 2017, rompeu publicamente com a família do futuro presidente, afastando-se da política.

É confortável concluir que, ao se aproximar da extrema direita, ele apenas descobriu quem sempre fora, já que isso nos exime de perguntar se seu percurso não poderia ter acabado em outro lugar. Mais difícil é assumirmos que as identidades não estão dadas, mas se formam a partir dos estímulos disponíveis: as pessoas não são isso ou aquilo, mas se tornam. Pois isso implica pensar que, em seu auge, Junho de 2013 atraiu para a política milhares de pessoas que poderiam ter seguido caminhos diferentes, caso a esquerda tivesse sabido oferecer respostas adequadas aos manifestantes, em vez de contribuir para que as pressões evolutivas do ambiente selecionassem trajetórias majoritariamente de direita.

A verdade é que, diante de uma massa de pessoas que não reconheciam, tanto a esquerda institucional quanto a autônoma – cuja única chance de sucesso naquelas circunstâncias residia numa improvável colaboração – entraram em pânico e desistiram de tentar imprimir uma orientação à multidão recém-despertada, priorizando a disputa interna em seu próprio campo. Como consequência, a maior oportunidade pedagógica que a política brasileira conheceu em muito tempo acabou sendo aproveitada predominantemente pela direita, que ademais podia contar com a simpatia da mídia e de interlocutores institucionais para impulsionar sua mensagem.

E este é o último motivo pelo qual Batman no Leblon ainda importa: não está claro que tenhamos superado o momento que o vídeo retrata. É certo que aquela janela de oportunidade para um processo de formação política em larga escala se fechou – e deixou o saldo de uma base social de extrema direita de tamanho expressivo, convicta e ativa. É certo, por outro lado, que o desgaste de Bolsonaro com praticamente todos os que não pertencem a essa base, combinado à memória positiva do governo Lula e à completa irrelevância de tudo o que se especulou como “terceira via”, torna a volta do líder petista à Presidência uma forte possibilidade. Mesmo que isso aconteça, porém, a grande questão é o que virá a seguir, caso o PT seja devolvido à condição de hegemonia eleitoral, mas não política, em condições econômicas adversas, com um quadro internacional instável e um sistema político e institucional convulsionado, atravessado por tendências golpistas e com um repositório de forças sociais reacionárias ao qual dificilmente alguns atores se absterão de recorrer. E com um campo de esquerda que, sob muitos aspectos, permanece apegado ao trauma de 2013, incapaz de elaborá-lo ou deixá-lo para trás.

Podemos isolar cinco nós traumáticos em Junho de 2013, que se distribuem de maneira desigual entre a esquerda institucional e a nova geração política que começou a se formar ali.

Do lado do petismo, o trauma foi descobrir que o monopólio da convocação de manifestações de massa, que lhe havia pertencido desde o início da redemocratização, se rompera – e com isso também a certeza de ser o canal por meio do qual se expressava a vontade popular. Esse trauma gerou o desconforto de saber que, dali em diante, seria necessário lidar com atores que também eram capazes de mobilizar uma base social, nas ruas ou nas redes sociais; e, pior ainda, que alguns desses atores se encontrariam no próprio campo político da esquerda – que o PT e as organizações de massa associadas ao partido estavam habituados a ter sob sua hegemonia.

O segundo trauma é o daquela juventude que deu a partida aos protestos e rapidamente se viu ultrapassada por forças que despertara, mas não sabia como controlar. Tendo tido a fugaz sensação de exprimir a vontade popular, essa juventude logo se descobriu politicamente isolada e obsoleta. A isso, vem somar-se o terceiro trauma, nascido da contradição de se colocar como porta-voz dos excluídos do desenvolvimentismo petista (“não nos representam”, como dizia um slogan de então) em nome de um país muito mais amplo, complexo e diverso do que eles eram. O petismo, formado em meio a grandes movimentos populares (o novo sindicalismo, as Comunidades Eclesiais de Base, o MST), podia apontar para o apoio das organizações nascidas naquele contexto como prova de que “o povo” estava a seu lado. Os manifestantes não tinham nada comparável para mostrar – e seu perfil social os tornava a um só tempo ótimos exemplos dos avanços do petismo e relativamente deslocados em relação à maioria da população.

Dado que os acontecimentos posteriores restituíram a polarização entre petismo e antipetismo ao centro da arena e deixaram cada vez menos espaço para posições alternativas, esse desconforto acabou encontrando sua válvula de escape em um fenômeno ocorrido em paralelo. É notável que o período de 2015 a 2018, quando a iniciativa política estava quase inteiramente nas mãos da direita, assistiu também a um florescimento do ativismo feminista, negro, indígena e LGBTQIA+ como não se via desde os anos 1980.

Sem dúvida devemos perceber aí um sintoma dos mesmos processos que contribuíram para a explosão de 2013 (a democratização do acesso à educação, à informação e à capacidade de se comunicar), bem como uma resposta às investidas da extrema direita nas questões de costumes. Mas essa deriva também exprime a busca de um novo espaço de participação depois que a restauração pós-Junho devolveu a discussão sobre os rumos do país ao controle exclusivo dos políticos profissionais; bem como um desejo genuíno de enfrentar pontos cegos no pensamento e na prática da esquerda que os anos anteriores haviam explicitado (em relação à raça, gênero, orientação sexual etc.). É um movimento certamente positivo, mas que também comporta seus riscos. Um deles é o de acabar fazendo das questões ditas “identitárias” uma esfera de discussão separada do debate sobre o modelo econômico e político, o qual seguiria exclusivamente na mão dos dirigentes partidários. Outro é o fato de que ter as redes sociais como veículo por excelência torna esse tipo de ativismo presa fácil de dinâmicas que são altamente prejudiciais a uma prática política coletiva.

O quarto nó traumático de Junho de 2013 reside, evidentemente, na repressão. A violência encontrada nas ruas e a perseguição judicial, real ou ameaçada, serviram para afastar muita gente da política. Mas é o quinto trauma que talvez seja o mais importante hoje.

Se é verdade que a janela de possibilidades aberta por Junho foi fechada principalmente por motivos externos, também ficou claro, desde agosto de 2013, que os protestos haviam encontrado sérios limites internos. O impasse era palpável: o desejo de continuar ocupando as ruas depois de junho esbarrava em uma total falta de clareza sobre como fazê-lo e com que fins. Isso se verificou na falta de inovação do repertório de ação: sempre o mesmo tipo de manifestação, reprimido da mesma maneira e se encerrando do mesmo jeito. E verifica-se, até hoje, no entendimento empobrecido da noção de ação direta – que, de seu sentido original, de ação que realiza diretamente uma demanda ao invés de solicitar a intervenção de um terceiro (normalmente o Estado), passou a designar um tipo de dano material de valor eminentemente simbólico, já que mesmo seu custo econômico pouco preocupa os alvos contra os quais se volta.

O problema ficaria ainda mais evidente quando o governo Michel Temer deixou claro que mesmo um sistema político emparedado e lutando pela sobrevivência pode se acostumar a operar com baixíssima legitimidade, tornando instrumentos de pressão como manifestações praticamente irrelevantes a não ser que atinjam proporções colossais. A eficácia da greve dos caminhoneiros – que rapidamente levou governo e empresas à mesa de negociação – deixou claro que “ação direta” é bater onde efetivamente dói, não naquilo que causa mais estilhaços.

Junho de 2013 expôs uma contradição evidente entre a grandiloquência de um imaginário insurrecional e retóricas que recusavam qualquer mediação institucional, por um lado; e, por outro, uma prática que colocava uma série de demandas cujo destinatário não podia ser senão o Estado (custo do transporte, qualificação dos serviços públicos, reforma eleitoral, fim da Polícia Militar). Também explicitou a tensão entre o desejo de conquistar o apoio da população e o temor de lidar com a diferença, a comunicação entre realidades distintas e o exercício da liderança e do convencimento. Era como se os manifestantes desejassem determinados fins e quisessem obtê-los por determinados meios; mas, ao perceber que os meios talvez não servissem aos fins, tivessem entrado num dilema que os condenava a repetir, sem sucesso, os mesmos gestos que haviam funcionado por um breve momento no passado.

Nesse ponto, tanto Junho de 2013 como o ciclo global de protestos iniciados em 2011, do qual ele fazia parte, são herdeiros de um trauma maior que atravessa a história da esquerda do fim do século XX até hoje: o medo de que a organização de que se necessita para mudar o mundo seja também o que pode nos impedir de fazê-lo – e os sentimentos de melancolia e impotência que decorrem daí.

A muitos pode parecer que esses traumas não têm importância hoje. Afinal, o caminho que vai de Junho de 2013 a Bolsonaro teria demonstrado que aqueles que rechaçavam os protestos (e as críticas a Belo Monte, aos megaeventos, ao modelo de desenvolvimento…) tinham razão. Tudo que se seguiu àqueles poucos dias de arrebatamento seria a prova de que vivemos num país fundamentalmente conservador, com uma elite sempre pronta a dar o bote, onde um governo de esquerda é, a qualquer momento, a frágil barreira entre um mínimo de sociabilidade e a barbárie. Onde concessões são inevitáveis, portanto, e mais ainda nas condições disponíveis no futuro próximo; o que exige, finalmente, um apoio constante e incondicional às lideranças, dado que qualquer hesitação ou dissenso pode ser fatal. Nesse sentido, nem a esquerda institucional deveria elaborar o trauma da perda de monopólio sobre as ruas (uma vez que essa perda só trouxe prejuízos), nem a esquerda não institucional deveria superar os seus traumas (já que a ninguém interessa que ela amplie sua capacidade de agir). Seria preciso, ao contrário, um retorno ao equilíbrio que Junho perturbou.

Falar em “fazer concessões” nesses termos parece, contudo, supor que haveria uma quantidade ideal destas, e bastaria descobri-la (e ater-se a ela) para encontrar uma situação de equilíbrio permanente. No entanto, as conjunturas são dinâmicas, e isso implica não só que as condições de equilíbrio estão sempre em movimento (o equilíbrio de hoje não necessariamente será o de amanhã), mas também que é em torno dessas condições que a luta mais importante se dá: quem não trabalha ativamente para se tornar mais forte que aqueles a quem faz concessões hoje tende a ter de conceder sempre mais no futuro.

Por sua vez, a necessidade de agir ao mesmo tempo em dois planos diferentes – na manutenção de equilíbrios e na transformação de suas condições – costuma exigir justamente não a obediência cega e a submissão irrestrita, mas a capacidade de acolher, sustentar e administrar tensões. Historicamente, os períodos em que os de baixo obtiveram mais avanços sempre foram aqueles em que contavam com duas condições: governos sensíveis a suas demandas e uma alta capacidade de mobilização. Esse é o sentido da anedota apócrifa segundo a qual Franklin Roosevelt teria dito aos sindicalistas que lhe cobravam medidas mais radicais do New Deal: “Eu concordo com vocês, agora me obriguem a fazê-lo.”[1]

Tornar-se capaz de explorar momentos de crise e dissenso de modo a fazer avançar uma agenda de transformação social depende de a esquerda deixar de conceber sua unidade em termos de homogeneidade e centralização de comando e passar a compreendê-la em termos ecológicos, como uma forma de cooperação que não exclui a diferença, o desacordo e a competição. Isso supõe, é claro, não apenas abertura à divergência e ao conflito da parte de quem ocupa posições de autoridade, como também disciplina e inteligência estratégica da parte de quem tensiona do outro lado: manejar as tensões é uma via de mão dupla. Precisamente por isso é importante que ambos os lados da divisão que se abriu em 2013 elaborem seus traumas.

O derradeiro erro dos que creem não haver lição a tirar dos últimos anos – exceto talvez ser ainda menos aberto à contestação e às demandas sociais – consiste em pensar que os desafios de um provável novo governo de esquerda se limitarão à mera administração do que existe, sem levar em conta o novo contexto histórico e internacional.

Não é apenas que o desastre dos últimos anos nos fez recuar diversas casas do ponto de vista social, político e institucional, ou que nada garante um futuro ciclo de expansão econômica, como foi o boom das commodities do início do século. Quatro anos atrás, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas alertou que a humanidade tinha uma década para reduzir as emissões de gases de efeito estufa em cerca de 45% para ter alguma chance de evitar, até o fim deste século, um aumento superior da já calamitosa marca de 1,5°C na temperatura do planeta. Um relatório do ano passado apontou que, não obstante a desaceleração econômica causada pela pandemia, continuamos a nos afastar desse objetivo. Não há dúvida de que o problema central das próximas décadas será realizar uma transição veloz para um regime energético não baseado em combustíveis fósseis.

Se essa transição não ocorrer, ou ocorrer sem implicar uma mudança ampla nas relações econômicas e políticas hoje existentes, o que teremos será um planeta cada vez mais inóspito, no qual um sistema altamente desigual fará a triagem de quem vive e quem morre, restringindo benesses e proteções a um número cada vez menor de pessoas. Mas a transição energética também pode envolver a passagem para um sistema mais justo, igualitário e democrático. E, por seus atributos naturais e geopolíticos, o Brasil pode exercer um papel de liderança nesse processo. Para isso, será preciso uma base social ampla e mobilizada, uma forte pressão popular e a capacidade de trabalhar ao mesmo tempo dentro e fora das instituições, criando condições para as mudanças e consolidando rapidamente os ganhos obtidos.

Esse é o tamanho do desafio e da tarefa que estão postos hoje, e qualquer tentativa de nos fazer escolher entre a transição energética e outros fins mais imediatos, como a redução da pobreza ou a erradicação da fome, deve ser tratada como o que é: uma forma de negacionismo. Daqui para a frente, só pode haver combate à pobreza que seja também parte da construção de outro sistema global, só pode haver luta contra a fome que dê passos na transição para outro regime energético, econômico e social.

Isso não significa que devemos abandonar os fins mais imediatos, é óbvio, mas que precisamos buscá-los entendendo que não existem mais acomodações com o atual estado de coisas que sejam viáveis no médio e longo prazo. Já passou da hora de quem nega isso em nome de um suposto realismo entender que, no tempo em que vivemos, essa é a realidade.


O texto acima, adaptado para esta edição, faz parte do livro Do Transe à Vertigem: Ensaios sobre Bolsonarismo e um Mundo em Transição, a ser publicado em junho pela editora Ubu.

[1] Além do período de formação do Estado de bem–estar social entre os anos 1930 e 1950, podemos pensar na tensão saudável entre a Unidade Popular e o Movimento de Esquerda Revolucionária no Chile (interrompida pelo golpe de 1973) e na concorrência dura, mas produtiva, entre o Partido Comunista Italiano e a esquerda não parlamentar ao longo dos anos 1970 (interrompida pelo Compromisso Histórico com os democratas-cristãos e a opção do PCI pela repressão).


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Professor de filosofia moderna e contemporânea na PUC-Rio, é autor de Neither Vertical Nor Horizontal: A Theory of Political Organisation (Verso)