cartas
Mai 2022 17h17
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TERRORES BÉLICOS
Como não podia deixar de fazê-lo, a piauí_187, abril, tratou da crise ucraniana, porém com um enfoque bem diverso da grande imprensa e dos poderosos veículos de comunicação, que puderam manipular à vontade os acontecimentos escolhendo o grande herói e o vilão. As cartas da Ucrânia, da Rússia e da Polônia, com relatos daqueles que passaram pelo sufoco desse terrível conflito, mostram um quadro em que as maiores vítimas são o povo ucraniano e russo. A imprensa, de forma geral, omitiu muitas informações que resultaram nessa guerra, que só faz a alegria dos fabricantes e vendedores de armas. O proclamado heroísmo do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, é duvidoso. Parece que seu conhecimento de geopolítica é zero. Querer enfrentar os russos de peito aberto é transformar seu povo em bucha de canhão. A disparidade é tão grande que o massacre é inevitável. Enquanto mulheres, velhos e crianças emigram desesperadamente, buscando um porto seguro, o grande herói, abastecido pelas armas de alguns países da comunidade europeia, nega-se a reconhecer a impossibilidade de reverter uma situação de fato, que são a perda da Crimeia e da região de Donbass, já ocupada pelas forças rebeldes. Outro enorme empecilho é buscar uma convivência com os russos, atualmente tratados como inimigos. Jamais Putin admitirá que a Ucrânia tenha um governo hostil, principalmente que abrigue a Otan em seus domínios.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
Sou um antigo assinante da revista e fã inveterado do bardo Bob Dylan. Uma coisa que sempre me intrigou na obra de Dylan foi o seu entusiasmo, desde o princípio de sua carreira, pela tradição da canção popular americana, a música folk, como eles chamam por lá. Por que isso me intriga? Porque Bob Dylan é apenas da segunda geração de americanos de uma família cujos antepassados, tanto do lado materno como do paterno, migraram para a América fugindo da perseguição aos judeus no antigo Império Russo, os avós paternos da região de Odessa, e os maternos, da atual Lituânia. Como pode um americano tão jovem gostar tanto de uma música “de raiz” que não fala de suas raízes? Por que ele não se interessou, antes, pela música de seus antepassados?
Pois bem, essa questão surgiu novamente porque, nos círculos de “dylanólatras” que frequento via internet surgiu a ideia de ligar Bob Dylan ao povo ucraniano, fazendo dele uma espécie de protovítima do imperialismo russo. Dylan, como é de praxe, não se manifestou sobre o caso, mas não faltou quem recordasse que ele não preza muito essa ascendência, assim como, ao que parece, a maioria dos imigrantes judeus que de lá fugiram, por motivos óbvios. Alguém lembrou inclusive de uma fracassada tentativa de um grupo de Odessa em render homenagem ao seu “filho ilustre” por ocasião do Prêmio Nobel de Literatura a ele concedido. O homenageado não se dignou a comparecer e pelo jeito nem o público compareceu para uma homenagem à revelia do homenageado.
Refiro-me a esses fatos apenas para aludir à guerra de informação que, como sempre, corre a par da guerra dita “real” entre Rússia e Ucrânia. E fico triste em perceber que a piauí, que tanto prezo pela qualidade de seus autores, entrou alegremente no coro anti-imperialista, pró-Ucrânia (piauí_187, abril). Sem querer defender o autocrata que governa a Rússia (na verdade, numa briga entre Putin e Zelensky, eu torço pela briga), pergunto: então nos esquecemos de que o presidente da Ucrânia é um declarado admirador do nazismo? De repente, na mídia nacional e também na piauí, ele se tornou o defensor da liberdade e dos oprimidos? Sinceramente, eu esperava uma posição mais crítica da piauí. Trinta e duas páginas sobre o sofrimento do povo ucraniano? Tudo bem, em uma guerra há sempre os dramas sofridos por aqueles que nada têm a ver com ela, e os civis ucranianos merecem toda nossa compaixão. Mas, e quanto ao povo afegão? E o povo sírio? E os africanos? Quantas páginas renderam quando seus países foram invadidos? E aquele ridículo título “em ucraniano” (na verdade, trata-se do alfabeto cirílico, usado desde os tempos bizantinos para notar a língua dos Rus, os eslavos em geral)?
Olha, vou lhes dizer uma coisa: está muito pesado! Nem com a piauí pode-se contar nestes tempos sombrios.
ANSELMO TADEU FERREIRA_CAMPINAS/SP
NOTA RESPEITOSA DE DISCORDÂNCIA DA REDAÇÃO: Anselmo, você pode contar com a piauí, sim, nem que seja para se desapontar com ela. Faz parte das experiências memoráveis da vida. Se a dor é superada, sai-se da vivência mais forte – uma dádiva, portanto! De nossa parte, tomamos a liberdade de lembrar que não nos furtamos a tratar da guerra civil na Síria (a jornalista Rania Abouzeid, autora de notável cobertura do conflito para a revista Time, foi uma das convidadas do Festival Piauí de Jornalismo de 2019); já em 2021, publicamos sobre o drama dos refugiados afegãos (Como minha família fugiu do Talibã, agosto); em 2022 editamos o relato de um médico sírio que se refugiou no Brasil (Solidariedade no exílio, janeiro). África é outra coisa – não se cobre a África, cobre-se países africanos, o que torna um pouco difícil saber o que se exige aqui. Veja se resolve: já publicamos artigos sobre a Eritréia (Roma africana, piauí_33, junho 2009), a Guiné-Bissau (Oásis ma non troppo, piauí_174, março 2021), sobre imigrantes congoleses no Brasil (Sei quando um país está em crise, piauí_186, março), uma reportagem exclusiva sobre o saldo da Copa do Mundo de futebol na África do Sul (A Copa do Cabo ao Rio, piauí_44, maio 2011) e até sobre alguns dos melhores guitarristas daquele continente (Guitarras africanas, agosto 2011). Ocorre que, no momento, o conflito do dia é aquele que infelicita um país soberano invadido por um gigante militar que, esse sim, age como potência imperialista de manual. Nesse contexto, acreditamos, ingenuamente?, que tecer equivalências entre invasor e invadido é sinal daquilo que o escritor francês Emmanuel Carrère chama, não sem ironia, de inteligência dos “espíritos sutis”. Como não somos tão sofisticados, preferimos dar voz a quem está levando bomba na cabeça, mas não sem publicar o ponto de vista de um escritor russo em Moscou (Depois da guerra, piauí_187, abril). Por fim, talvez seja o caso de lembrar que Volodymyr Zelensky é judeu e que seus bisavós morreram na ocupação nazista. Em setembro de 2021, o parlamento ucraniano sancionou uma lei que pune criminalmente o antissemitismo.
CASA DE RUI BARBOSA
Sinto muita tristeza ao ler na piauí a equivocada matéria sobre a Fundação Casa de Rui Barbosa (esquina Fratricídio na fundação, piauí_187, abril), que presido desde 2019, com sacrifício pessoal e sob constantes ameaças, inclusive de morte. O repórter teve acesso às supostas vítimas de supostos assédios graves, ouviu em confiança histórias de medo e preconceito, mas preferiu lacrar e também maltratar, reduzindo dramas que fazem chorar à mera e vulgar “briga por poder”. Os supostos assediadores agradecem a interpretação cruel, e as supostas vítimas se arrependem de terem confiado em tal pessoa que não entendeu nada do que viu e ouviu. As supostas vítimas agora temem represálias ao se verem expostas de maneira tão leviana. Não tenho tempo para disputas. Ignoro solenemente gente que só pensa em fazer o mal e “derrubar” quem inveja. Trabalho doze horas por dia e ainda tento proteger quem trabalha comigo. Não grito: falo baixo e com respeito. A informante do repórter, “ex-servidora”, alega “medo de represália” ao “denunciar” que “persigo politicamente” os trabalhadores. Como retaliar quem sequer é funcionário? Que delírio é esse? Nunca falei em política na FCRB. Nunca censurei trabalhos ou projetos. Nunca calei vozes contrárias. Evitei que a FCRB fosse fechada em 2020. Defendi até quem boicota a minha gestão. O professor Mauro Rosa não foi exonerado em outubro, mas em abril de 2021. Não fui nomeada por “agradar” à família do presidente. Na época da facada, fiz um comentário solidário sobre a “bolsa de colostomia”, pois minha mãe teve câncer, usou, e me vi atingida pelos deboches ao então candidato. Viralizou. Recebi um “muito obrigado” de um filho do presidente. Nunca vi Carlos pessoalmente e não bajulo ninguém nas redes sociais. Falo de projetos. Dou satisfação à sociedade sobre gestão e recursos. Enviei meu currículo para três ministros. Como qualquer profissional em busca de emprego e que quer construir um país melhor. Tenho curso de gestão pública. Trabalho com cultura há trinta anos. Fui convidada por dois ministérios e escolhi o que abriga a Cultura. Colho os frutos. Fui convidada a criar e organizar uma exposição para a ONU. Após diplomatas verem a produção, fui convidada a realizar outra exposição na OEA, em Washington. E também levar a exposição Rui Barbosa para Haia. A exposição que farei na ONU será enviada a todos os consulados do Brasil nos Estados Unidos. No Consulado do Brasil em Nova York, terei a honra de exibir Clarice Lispector e Cecília Meireles: Fases como a Lua, que criei para a FCRB. Em plena pandemia, consegui 4 milhões de reais em recursos para recuperação do museu, que corria o risco de desabar, e contratei a primeira brigada de incêndio. Com mais 3 milhões de reais, vou trocar todo o sistema elétrico. Criei a Biblioteca Braille, realizei dez palestras e eventos sobre Rui Barbosa, Margaret Mee e o Sítio Burle Marx, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Carlos Drummond, Cora Coralina. Estou com projeto aprovado para a obra de acessibilidade ao museu. Estou finalizando o projeto do Jardim Sensorial. Esta sou eu. Inteira, íntegra, e que dorme em paz. Meu salário é fruto de muito suor e dedicação. Tenho nojo de assediadores. Lamento que o repórter da piauí não saiba a diferença entre gente e verme.
LETICIA DORNELLES, PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO CASA DE RUI BARBOSA_RIO DE JANEIRO/RJ
NOTA BREVE E FACTUAL DA REDAÇÃO: Mauro Rosa, de fato, foi exonerado em abril de 2021, e não em outubro (como a presidente da FCRB diz que a piauí publicou), nem em setembro, como a piauí realmente publicou – informação já corrigida em nosso site. Como a missivista grafa certos termos entre aspas, sugerindo que são citações literais da reportagem que contesta, convém esclarecer que o texto publicado não fala em “ex-servidora”, mas em ex-funcionária, e não faz menção a “medo de represália”, mas a temer retaliações. Alterações sutis, sim, mas ainda assim alterações. Se as citamos aqui é por julgar que a presidente de uma instituição que, ao menos até o passado recente, era reconhecida pela excelência de seu compromisso com o rigor textual, deveria ser mais cuidadosa quando atribui a uma fonte o que a fonte não escreveu. A presidente nos perdoará se dissermos que isso nos instila uma sementinha de dúvida sobre os padrões de qualidade que vêm sendo disseminados pela veneranda casa.
Mas, voltando às retaliações, a presidente escreve: “Nunca calei vozes contrárias.” Talvez, talvez, mas certamente tentou calá-las: o ex-presidente da fundação José Almino, crítico da nova gestão, teve uma ação judicial contra si julgada improcedente – e, sem delírio, já era um ex-funcionário. “Tenho curso de gestão pública”, afirma a presidente. De fato, tem, sim: cursos de extensão, desses de curto período. Não devem ser confundidos com formação superior (consta no currículo que a presidente cursou jornalismo). “Esta sou eu. Inteira, íntegra, e que dorme em paz”, encerra a presidente, num belo floreio autocongratulatório. Recebemos a informação com alívio. Mas… como somos um pouco ranzinzas e invejosos, não vamos deixar escapar a oportunidade de reclamar um pouquinho: demonstrando impecável austeridade administrativa e zelo pela impessoalidade do cargo, a presidente promoveu a festa do filho na sala da presidência da própria fundação. E o pior: nenhum amiguinho da piauí foi convidado!
IMPRENSA
Fundamental e certeira a crítica do professor Antonio Engelke (Parem as máquinas, piauí_187, abril) aos enquadramentos e, por conseguinte, às posições tomadas pela grande mídia em relação a alguns fatos que marcaram a história recente do Brasil e que foram decisivos para a conjuntura atual. As cúpulas dos jornalões, que vivem cobrando autocrítica de determinadas instituições políticas (de outras, não), deveriam dar um jeito de aprender alguma coisa com essa aula, mas autocrítica no dos outros é refresco.
Mais um ponto importante levantado por Engelke é a urgência de se acabar com a ilusão da imparcialidade jornalística, tanto do lado de quem escreve, que melhor faria se fosse apenas responsável na construção da moldura narrativa e respeitasse os princípios básicos da profissão, quanto do lado de quem lê, que mais razoável seria se cobrasse honestidade intelectual em vez de imparcialidade.
De todo modo, o histórico da grande imprensa no Brasil não nos conduz a uma perspectiva animadora de mudanças nesse sentido. Sendo assim, tô fora: pego a minha piauí e vou embora.
CLEBER GORDIANO DOS SANTOS_CAMPINA GRANDE/PB
CARTUNS DE J.CARLOS
Como neto do caricaturista J.Carlos, manifestamos desacordo com a forma como foram publicados os desenhos na piauí_187, abril, independentemente de a obra estar em domínio público. As interferências nas imagens originais e as legendas recriadas desfiguraram o inestimável valor da obra do artista.
JOSÉ CARLOS DE BRITO E CUNHA_RIO DE JANEIRO/RJ
MATUTO & XENOFOBIA
Eu entendi as razões que levaram a leitora Mayra Moreyra Carvalho a escrever para a revista na edição de março (em referência à reportagem O dono da voz, piauí_185, fevereiro: “Como um matuto de Goiás virou o maior empresário da música sertaneja do Brasil”). Aqui no Nordeste a expressão “matuto” também carrega uma conotação forte de xenofobia. Ela é usada por alguns moradores das capitais para se referir de forma pejorativa aos que moram ou nasceram no interior, como se estes estivessem em um estágio mais atrasado da civilização. Mais ou menos como o “jeca” que vocês usam aí no Sudeste.
BRUNO R. LEITE_JOÃO PESSOA/PB
Achei tosca a resposta à carta de Mayra Moreyra Carvalho. A docente faz uma interessante reflexão sobre o uso da palavra, e a resposta da revista é repleta de ironia. Por quê? Fosse homem, a resposta seria assim?
O que ganha a piauí com esse tipo de ironia com os leitores? Será que a ironia não devia ser reservada aos donos do poder que a revista contesta? Mas nesses casos, a revista pia. Por exemplo, na reportagem sobre os cartórios (No reino dos interinos, piauí_186, março). A investigação foi mínima. Lançou nomes, não foi atrás de interesse.
Gosto muito da revista, mas machismo não aceito. Tem de repensar isso aí.
JOSÉ PAULO GUIDA_CAMPINAS/SP
ESCLARECIMENTO DIAGNÓSTICO
Na reportagem O influencer do Tremembé (piauí_187, abril) consta o seguinte trecho: “O profissional [o psiquiatra Leandro C. S. Gavinier] atesta que Rugai tem ‘transtorno de personalidade obsessivo-compulsiva’, conhecido pela sigla TOC”. A título de correção, o avaliado Gil Grego Rugai foi diagnosticado como portador de transtorno de personalidade do tipo obsessivo-compulsivo (TPOC), também chamado de personalidade anancástica.
LEANDRO C. S. GAVINIER, PSIQUIATRA FORENSE DA PENITENCIÁ-RIA DOUTOR JOSÉ AUGUSTO CÉSAR SALGADO_TREMEMBÉ/SP