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AUTOCRATAS ELEGEM A IMPRENSA COMO INIMIGA DO POVO

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DANIEL SILVEIRA

O circo foi armado na Câmara por aliados do presidente Jair Bolsonaro para blindar o indisciplinado deputado Daniel Silveira (PTB-RJ), um exemplar vergonhoso do Parlamento nacional.

E para desmoralizar a seriedade das comissões do Congresso, eis que parlamentares irresponsáveis, em inequívoco deboche à República, ao Judiciário (STF), ao próprio Congresso e aos valores éticos e morais, aprovaram o nome do referido parlamentar como membro titular, pasmem, da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) – a mais importante – e vice-presidente da Comissão de Segurança Pública (CSP), proporcionando um lamentável acinte ao povo brasileiro. Faltaram integrar às comissões, como convidados de honra, Fernandinho Beira-Mar e Marcola.

Quem não sabe que, em direito, as interpretações divergentes são possíveis? Até Lula, por estratégia de seus advogados com elucubrações várias, ficou livre da cadeia. Assim, não é nenhuma novidade que advogados, bem remunerados para defender bandidos, elaborem parecer jurídico defendendo a inocência de qualquer transgressor.

Inexiste, pois, unanimidade nas interpretações legais. Sempre haverá a corrente discordante. Até hoje os “terraplanistas” questionam a redondeza da Terra.

Veja, para o ex-ministro do STF Marco Aurélio Mello, o perdão dado por Bolsonaro é constitucional. Por outro lado, para o ex-ministro do STF Ayres Britto, o perdão dado por Bolsonaro “padece de inconstitucionalidade autoevidente”.

Agora, é fato cristalino que o perdão do presidente ao indisciplinado parlamentar é surreal, inusitado, tem sentimento revanchista contra o STF e fere o espírito constitucional da impessoalidade.

O comportamento exemplar e civilizado de um parlamentar é um dever seu. O respeito às instituições não é nenhum favor, mas uma obrigação de qualquer indivíduo.

JÚLIO CÉSAR CARDOSO_BALNEÁRIO CAMBORIÚ/SC

TRAGICOMÉDIA ERÉTIL-MILITAR

Entendo que, com tanto espaço das cartas da piauí_188, maio, destinado a respostas (do total, cerca de um terço, ainda que mal rezado) e a contemplação de missivas de dois conterrâneos, meu comentário piscoso tenha ficado de fora. Mas insisto em apontar algumas idiossincrasias, fatos pitorescos e paradoxos na edição de maio. A capa de Caio Borges mimetiza uma certa misoginia recôndita e recorrente, não acham? Em agradável contraste, os cartuns de Adão Iturrusgarai tratam da tragicomédia erétil-militar para além das piadas prontas “vi a agra tensão na tropa”, “pijama duro”, “coronel ao capitão: V.Sa. fala mole? não, falo duro”, fruto de mais uma – não seria a última por sempre haver outra – denúncia de corrupção em um desgoverno cujo presidente é um ex-capitão expulso daquelas pretensas Forças Armadas de respeito por planejar atentados. Também me deleitei entre a apreensão e o alívio na leitura do diário da jornalista francesa Opale von Kayser (Só mais cinco minutos). As regiões da França em que Le Pen foi mais votada têm uma semelhança instigante com as áreas de ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial, tirando os grandes centros. Nas áreas rurais e pequenas cidades a candidata obteve mais sucesso, mas seria interessante avaliar o quanto o voto na ultradireita foi de descontentamento e o quanto foi de ignorância. Seria uma análise importante para o que vai acontecer em nosso país, se houver eleições em outubro. Fica a dica. No mais, o sobrenome germânico da autora é paradoxal, pois é no fascismo dos césares que se baseia boa parte do discurso da extrema direita europeia, contagiando pantomimas do lado de cá do Atlântico.

ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP

NOTA CONTRADITA E INTRIGADA DA REDAÇÃO: Devemos conceder: não raro, nos excedemos nas respostas porque gostamos de nos ver espalhados por todas as páginas da revista. Vaidade de uma redação meio besta. A tua carta, Adilson, é um deleite e honraria em qualquer uma das 189 edições da piauí, mormente aquela em que foste expulso para dar lugar ao brilhareco fácil do nosso respondedor de cartas. Dito isso, alguns repórteres aqui da seção, uma gente que se toma por lexicógrafos e filologistas, iniciou um debate que vem consumindo os nossos dias: por que teus comentários seriam piscosos? Havia peixes neles? Ou é figura de linguagem? Ironias esguias como enguias? Ataques violentos como os do tubarão de Tubarão? Floreios jocosos como os de um golfinho, peixe que, salvo engano, nem peixe é, prova de que tanta distração anda nos desviando do trabalho sério?

REDE SOCIAL

Antes da internet, tomávamos conhecimento do que se passava por meio do que denominamos mídia: jornais, revistas, rádio, cinema, tevê, satélites e meios eletrônicos de comunicação. Cada passo desse revolucionou sua época, dando conhecimento dos fatos ocorridos no mundo. Após a criação da internet, surgiu a possibilidade de conexão entre as pessoas, papel que coube às redes sociais, que na sua gênese seriam uma estrutura formada por indivíduos que compartilham interesses comuns. Beleza pura. No entanto, em se tratando de humanos e com objetivos os mais diversos, algo que parecia tão espetacular tornou-se um instrumento infernal, pois passou a ser o desafio dos governos de todo o mundo controlá-lo, para o bem e para o mal. Os usuários, que inocentemente aderiram a essas redes, transformaram-se em massa de manobra de interesses políticos, típico efeito de manada. Foram capturados e só bebem naquela fonte perigosa, pois pode estar contaminada.

A piauí de maio apresentou um exaustivo ensaio sobre a mais controversa das redes, de criação mais recente, o Telegram, a promessa de um aplicativo sem algoritmo, sem anúncios e libertário (Por dentro do Telegram, piauí_188, maio). E deu no que deu, ele passou a ser o instrumento preferido de governantes autoritários, como Trump e Bolsonaro, que aderiu ao aplicativo criado pelos irmãos Durov gerando um problemão para o TSE, pois, embora seus responsáveis aqui sediados tenham concordado (após bloqueio da rede no Brasil) em monitorar os cem canais mais populares no país e evitar a propagação de fake news, o Telegram continua a abrigar postagens com desinformação relacionada às eleições presidenciais, à vacina contra a Covid e ao uso de máscara.

Vamos assistir ao desenlace dessa autêntica batalha, pois envolve os interesses nefastos do presidente, que tentará fazer o diabo para se reeleger, infelizmente apoiado por militares de alta patente. Nossa democracia corre enorme risco com essa autêntica guerra entre as instituições, principalmente a ingerência militar nos assuntos civis.

DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ

Sobre a reportagem Por dentro do Telegram, a qual anuncia que o Telegram é a rede social preferida da extrema direita, acho curioso o fato de essa tal extrema direita preferir o Telegram, pois vejo órgãos de comunicação estrangeiros dizerem que Putin luta contra o nazismo, como o que li hoje, por exemplo: “‘Temos de destruir o nazismo.’ Homenagem a militares no Donbass marca discurso de Putin. Num discurso de onze minutos, Vladimir Putin acusou Kiev de representar ‘uma ameaça inaceitável’ para a Rússia e Ocidente de russofobia.”

Ora, isso me faz pensar o seguinte: se há quem diga que o nazismo surgiu como esquerda, hoje, há quem diga que os nazistas contemporâneos são de direita. Posto isso, entendo que quando Putin diz que está combatendo o nazismo significa que ele está lutando contra uma facção de direita. Seguindo essa ideia e considerando que o Telegram é russo, a extrema direita que prefere o Telegram parece-me ignorante, pois ela se comunica por meio de uma rede social que, aparentemente, pode ser contra a direita. Além disso, sabendo que o Telegram é semelhante ao WhatsApp e que este é monitorado por algum governo nacional, há a possibilidade de o Telegram também ser monitorado por algum governo nacional, neste caso a própria Rússia. Assim, essa extrema direita em causa, que usa o Telegram, pode estar sendo monitorada e até controlada por russos, os quais a extrema direita brasileira, sabidamente, afirma serem de esquerda.

Para abreviar, essa gente da extrema direita, a meu ver, é equivocada quando se autodenomina inteligente.

Continuem colocando mais parafusos nas cabeças das pessoas.

CHICO JUNIOR_RIO DE JANEIRO/ RJ 

NOTA PERPLEXA DA REDAÇÃO: Rapaz, visto assim essa história de extrema direita contém mais paradoxos do que a teoria quântica. Uma coisa é a coisa e o contrário da coisa. Talvez por isso Carluxo seja tão incompreensível.

VOLTA ÀS ORIGENS

Dá-lhe, Helio de La Peña! Sou branquinho (a cor da pele), mas viajei junto contigo na epopeia narrada (O retorno, piauí_187, abril). Várias passagens me foram familiares. Parafraseando o grande Ziraldo, em um de seus livros infantis, se misturar tinta preta com branca, fica mais escuro, mas se girarmos um disco pintado de preto e branco fica mais claro.

Também achei brilhante a matéria Por que os animais não se perdem (piauí_187, abril). Ainda de quebra, o texto termina com a frase “o caminho que precisamos aprender a encontrar agora não é geográfico – é moral”. O recado está dado há milhões de anos, mas continuamos desorientados.

GILSON MARINHO LUZ_ITAOCARA/RJ

PITACOS NO JORNALISMO

Em relação à matéria Parem as máquinas, de Antonio Engelke, publicada na piauí_187, abril, aqui vão uns pitacos.

Como é que a “grande mídia” combate a corrupção, se, no geral, os órgãos de imprensa nasceram ou tornaram-se poderosos sujando as mãos?

Bem, minha compreensão é que jornalismo é um ideal, uma convicção: o de ver e observar a conduta de uma administração, de um agente público ou artístico. Sim, isso faz parte do ofício. Mas é similar à vida do artista, a quem Deus deu uma ferramenta para levar alegria e divertimento ao público? Claro, o artista precisa de dinheiro para sobreviver, mas agir só pensando no dinheiro, isso pode ter qualquer outro nome, menos arte.

Comparo o jornalismo aos sambistas, ao jogador de futebol: tem sempre um empresário (esperto) para ver que atraem a atenção de muitos. No caso do jornalismo, o empresário vai lá e adquire um jornal e contrata o editor. Até aí, nada de mau. Só que, com essa arma nas mãos, ele busca aumentar seu poder, que vai lhe render dinheiro, que vai alimentar suas vaidades. E quando seu ego vai crescendo, perde-se o limite. Vide Assis Chateaubriand.

Escrevo isto como observador, vivendo essa realidade desde a minha infância, como lavrador, depois em São Paulo, capital, como morador da periferia, e trabalhando como operário, comendo o pão que o diabo amassou. Numa família de oito irmãos sou o penúltimo, e por acaso sempre gostei de ler. E por esse mesmo acaso, em 1967 caí em uma redação, comprando café para jornalistas, e em um ano e meio me tornei um deles, com muito orgulho, trabalhando como diagramador (hoje designer gráfico). Vivenciei logo no início da minha carreira na imprensa o endurecimento do golpe de 1964, cujos decretos censuravam o bom jornalismo, e naquele momento houve uma tentativa de afloramento de liberdade, que durou pouco. A censura e a repressão fizeram do jornal onde eu trabalhava, a Folha da Tarde, um porta-voz dos quartéis, onde as farsas e a estupidez contadas por eles tornavam-se realidade. Claro, tudo isso com a anuência dos donos do jornal, Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho.

Depois disso, degringolou tudo. Os diretores de redação e editores-chefes que tinham autonomia, por serem bons jornalistas, foram substituídos por capatazes, verdadeiros paus-mandados. Servis e verdadeiros lambe-botas do sistema. O que era ruim ficou pior. Substituíram repórteres com R maiúsculo por fazedores de notícias. Grandes reportagens por notinhas plantadas por sabe-se lá quem. Presenciei uma discreta tentativa de denúncia de corrupção, em demissão sumária.

E para piorar, e por covardia dessa elite proprietária de jornais, a concorrência deixou de existir. Concorrência essa que, apesar de os jornais defenderem seus interesses, alguns podres vinham à tona, como nas famosas brigas entre a Folha e o Estadão. Conseguiram pasteurizar até as colunagens (o tamanho das colunas das páginas) dos jornais concorrentes, todos iguais, para capturar os mesmos anunciantes. Ou seja, as falcatruas que um anunciante faz e o concorrente denuncia acabaram!

E até na política conseguiram pasteurizar tudo. Quando os candidatos fazem campanhas para se eleger (ou se reeleger), há um silêncio total da grande imprensa. Depois do circo armado em Brasília, ou onde quer que isso aconteça, há fartos noticiários de escândalos. Hipócritas, covardes, vendilhões, com todas as ferramentas nas mãos, não conseguem fazer um jornalismo razoável, para adquirir um equilíbrio de forças. E algumas rádios de notícias 24 horas usam os ouvintes como repórteres.

Salve! Salve a mediocridade! Em vez de irem fundo, ficam no raso, como espertos vagabundos.

EDMUNDO MORAES_ITAPEVI/SP

NOTA DE RESPEITOSA DISCORDÂNCIA: Sei não, Edmundo. Não é à toa que autocratas de fato ou aprendizes de autocrata invariavelmente elegem a imprensa como inimiga do povo. Se a coisa já não anda boa, pense em que fundo de poço estaríamos sem as revelações de Patrícia Campos Mello (sobre os empresários bolsonaristas que fizeram campanha contra o PT pelo WhatsApp, na Folha de S.Paulo), Breno Pires (que descobriu a existência do orçamento secreto no Congresso, O Estado de S. Paulo), Julia Chaib, Renato Machado e Vinicius Sassine (o escândalo da vacina indiana, a Covaxin, também na Folha), Juliana Dal Piva (o caso das rachadinhas da família Bolsonaro, no Globo e no UOL), Leandro Demori (Vaza Jato, no The Intercept Brasil), Allan de Abreu (aparelhamento da Polícia Federal, aqui na piauí) ou Luigi Mazza (o caos no MEC do ministro Milton Ribeiro, também na piauí). Quanto a abrir um jornal (ou uma revista) para ganhar dinheiro, nos dê o caminho das pedras. Funcionava no século XX. Hoje em dia, a gente precisa se contentar com a tal da vaidade.

PETRÓPOLIS

Fiquei emocionada com o texto de Tiago Coelho, Gabriel!Gabriel!, na piauí_187, abril. O relato envolvente, preciso, bem apurado e bem escrito me pareceu um documentário trágico das nossas cidades. Alerta sobre o descaso, a falta de administração pública, a pobreza…

ROSE ESQUENAZI_RIO DE JANEIRO/RJ


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