cartas
Jul 2022 13h32
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AMBIENTE DE MILICOS
A piauí não poderia prever mais um conjunto de assassinatos de defensores da floresta, com o desaparecimento de Bruno Pereira e Dom Phillips, emblematicamente acontecido no dia em que se deveria comemorar o meio ambiente. Na edição corrente não faltarão reportagens sobre o assunto, mas foi significativo Natalia Viana demonstrar o mito da competência militar (O mito do mito, piauí_189, junho), novamente vindo à tona pela forma como o crime em Atalaia do Norte (AM) foi tratado pelos fardados. A expressão “inteligência militar” é uma contradição per se, mas ainda usada fora de textos de ficção, não entendo o porquê. Nessa toada, não é à toa que as “forças desalmadas” são uma das incógnitas na consagração do golpe em curso, avaliadas em parte no capítulo do livro do professor Marcos Nobre (O hacker do sistema político, na mesma edição da piauí). Ali, a ênfase foi o enfrentamento digital, verbal e miliciano, mas creio que a obra completa do filósofo tratará de outras ações e omissões ao longo desses anos. Por fim, agradeço à deferência, mas cabe ressaltar que a “Nota contrita e intrigada da Redação” na seção Cartas de junho revela que minha missiva de abril sequer foi lida, pois o comentário piscoso lá contido era por ser referente a peixes, nada de figura de linguagem ou qualquer outra alegoria sintática. Piauí é “rio dos peixes” em tupi e foi a isso que me referia em relação à má transliteração para o alfabeto cirílico do nome da revista na capa da piauí_187, abril.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
NOTA OFENDIDA DA REDAÇÃO: Como assim, “minha missiva de abril sequer foi lida”? Está para ser escrita a carta sobre nosotros que esta redação não corra para ler. Quando a correspondência chega, os repórteres saem em disparada distribuindo cotoveladas à esquerda e à direita. Consuelo Dieguez chega a montar na sua patinete Prada, tanto assim que já atropelou dois estagiários. É um caso muito sério.
BOZO
A profunda análise do professor e cientista político Marcos Nobre sobre o governo altamente disfuncional de Bolsonaro (O hacker do sistema político, piauí_189, junho), como ele muito bem qualifica, realmente causa enorme apreensão àqueles que temem pelo futuro da nossa democracia, pois a linha de atuação dessa extrema direita que se apoderou do poder tem como meta a destruição das nossas instituições, o antiestablishment, tendo como régua e compasso as ideias reacionárias defendidas pelos ideólogos antiglobalistas, como Steve Bannon e Olavo de Carvalho. O primeiro foi o grande responsável pela improvável vitória de Trump na eleição de 2016. Atualmente ele se empenha em organizar os movimentos de extrema direita na Europa, apesar do insucesso recente na Itália e na França.
Mais do que nunca a grande maioria de nós, brasileiros, ansiamos pelo retorno do “antigo normal”, conforme o articulista definiu com propriedade nossas presidências anteriores. Temos perfeita consciência de que o populismo é uma praga difícil de extirpar no atual estágio do nosso desenvolvimento, com um Poder Legislativo composto de membros vorazes e corruptos, a exemplo do Centrão, que hoje domina nosso Congresso. No entanto, estamos acostumados com a alternância de poder, algo que ocorreu até no governo dos militares, e detestamos a situação atual de total suspense com o desafio de Bolsonaro ao nosso processo eleitoral – álibi para questionar os resultados das urnas, que tudo indica lhe serão desfavoráveis –, tumultuando o processo. Há uma incógnita em relação ao comportamento dos militares e o receio das forças de segurança pelo país, pois foram cooptadas pelo bolsonarismo em função dos benefícios recebidos.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
PROPAGANDA ELEITORAL
Não sei se a coluna que abre a edição mensal da piauí (Questões vultosas) funciona como uma espécie de editorial da revista, já que Fernando de Barros e Silva era o seu diretor de redação e costuma assinar aquele espaço, mas na piauí_189, junho, a matéria do jornalista pode ser lida como uma entusiasmada propaganda eleitoral da campanha do Partido dos Trabalhadores, com direito à depreciação de todo o espectro político não alinhado àquele partido. Assino a revista desde o seu início e não gostaria que ela se transformasse em uma Terça Livre com o sinal trocado.
LUIS ROBERTO FERREIRA_SANTOS/SP
NATUREZA
A natureza não é estúpida e não deve ser banalizada! No texto A estupidez da natureza (piauí_189, junho), autodefinido como “questões cinefilosóficas”, o autor comete equívocos quando apresenta como “verdade” o fato de que sem “imensos extermínios e catástrofes na Terra” a espécie humana não teria surgido. E, no final, procura relacionar a extinção dos dinossauros como tendo influência direta no aparecimento da “vida humana”, além de considerar o petróleo e o carvão igualmente como “resquícios de uma destruição inimaginável ocorrida no passado”.
Evitando entrar no mérito do texto em si – uma salada na qual foram misturados ingredientes muito diferentes, que não necessariamente combinam –, é importante não apresentar extermínios e catástrofes como eventos que tragam algo de positivo, o que certamente não era a intenção do autor. Sem querer usar de pedantismo científico, e a título de esclarecimento, os dinossauros surgiram em torno de 231 milhões de anos atrás e continuam entre nós nos dias de hoje na forma de aves (que são dinos modificados). A extinção à qual possivelmente o autor se refere ocorreu há cerca de 66 milhões de anos (limite entre os períodos Cretáceo e Paleógeno – K-Pg) quando, de fato, todos os vertebrados de grande porte, incluindo os dinossauros não avianos (pois as aves já haviam surgido bem antes e não se extinguiram na queda do asteroide) como o T. rex e o Triceratops, desapareceram. Os primeiros mamíferos apareceram ao redor de 160 milhões de anos atrás e eram de pequeno porte – geralmente do tamanho comparável ao de ratos, e assim ficaram até a extinção do K-Pg. Dessa forma, mamíferos e dinos compartilharam o planeta por pelo menos 94 milhões de anos antes da extinção em massa ocorrida no final do período Cretáceo. O primata mais antigo possui a idade de 57 milhões de anos; a primeira evidência do gênero Homo data de aproximadamente 2,8 milhões de anos; e a espécie humana (Homo sapiens) somente aparece no planeta há cerca de 300 mil anos. Ou seja, o nosso surgimento em nada tem a ver com os dinos e a extinção do K-Pg. A mesma análise pode ser feita sobre a formação dos depósitos de petróleo e carvão, que ocorreu ao longo de milhões de anos e não está ligada a algo catastrófico em sua origem. Já não sei se o mesmo pode ser dito sobre a sua presente utilização e as consequências cada vez mais sentidas por todos na questão do aquecimento global.
A banalização de questões relativas a extermínios e catástrofes de uma natureza longe de ser estúpida deve ser evitada, ainda mais nos dias de hoje.
ALEXANDER KELLNER, PROF. TITULAR DO LABORATÓRIO DE SISTEMÁTICA E TAFONOMIA DE VERTEBRADOS FÓSSEIS DO DEPARTAMENTO DE GEOLOGIA E PALEONTOLOGIA DO MUSEU NACIONAL/UFRJ_RIO DE JANEIRO/RJ
A ARTE DE TRADUZIR
Muito oportuna a matéria sobre o tradutor José Francisco Botelho (Shakespeare na fronteira, piauí_189, junho). Como algumas outras categorias de profissionais da escrita (revisores de literatura, bibliógrafos etc.), os tradutores sérios dedicam-se a uma tarefa hercúlea, geralmente mal remunerada e menos ainda reconhecida pelo grande público, e até mesmo pelos círculos restritos mais diretamente beneficiados pelo seu trabalho. O texto faz referência a “dois brasileiros que realizaram o feito de traduzir todas as peças de Shakespeare”. Creio que o autor do texto queria se referir apenas a traduções em verso e, nesse caso, a afirmação é verdadeira. Mas para o leitor que talvez não estivesse atento a esse detalhe, gostaria que registrassem a existência de uma terceira tradução de todas as peças. Embora não seja uma tradução em verso e nem realizada por apenas um tradutor, mas dois (Oscar Mendes e F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros), trata-se de um trabalho que merece ser reconhecido pela dimensão da empreitada. Pois traduziram não apenas todas as peças, mas também o restante da produção shakespeariana, que inclui um trabalho poético substancial. Foi publicado com o título de Obra Completa, originalmente editada pela José Aguilar em 1969, numa conhecida coleção de obras em papel-bíblia dessa editora, e republicado pela Nova Aguilar em 1989 e em 1995. Logicamente, essas edições não são mais vistas nas livrarias, apenas em sebos. Podem ser encontradas também, é claro, em bibliotecas.
EDUARDO WENSE-DIAS_BELO HORIZONTE/MG
O QUE REALMENTE IMPORTA
Reveladora a matéria Por dentro do Telegram (piauí_188, maio). Ela mostra a falência das instituições estabelecidas, nos aspectos decisivos. Na corrida presidencial, a maioria dos postulantes se ocupa de aspectos mirabolantes com pesquisas e conchavos, mas as pessoas que estão no limite da sobrevivência nunca fazem parte da equação; os que tocam nessa variável, o fazem de forma tangencial. Raríssimos candidatos ao Parlamento, que serão encarregados de dar consistência à sociedade, levam isso em conta.
Considerando que a maioria poucas vezes tem razão, numa época em que a velocidade e a superficialidade são a norma e a intolerância é a regra, chegamos ao ponto da falência da democracia. Pois é fácil disseminar mentiras montando realidades paralelas; mas não se muda a realidade e não vão conseguir administrar esse choque.
DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/SP
BECO SEM SAÍDA
Com essa reportagem extensa (“Irruuuu!!”, piauí_188, maio) que nos mostra como o despresidente aparelhou de forma escandalosa e desavergonhada a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), a gente entende o porquê de ele ainda ter mais de 30% de intenção de votos. Ele segue a cartilha do Goebbels no quesito como fazer propaganda de um governo desqualificado, anestesiando e manipulando a população com desinformação e mentiras. Na verdade, tudo o que os bolsonaristas acusaram o PT de fazer durante seus governos quem faz agora são eles. E descaradamente, sem ter quem consiga botar freio e impedi-los.
VALÉRIA APARECIDA SILVA VIEIRA BORDIN_FLORIANÓPOLIS/SC
PIAUÍ EM ÁUDIO
“Opa”, Tol… gente, queria dividir com vocês uma alegria e uma frustração. A alegria é quando chega em casa a piauí, da qual sou assinante. A frustração é ver todos os exemplares se acumularem, sem que eu tenha tido tempo de lê-los. Eu amo revista. Sou revisteira desde criancinha. Fiz jornalismo e fui produzir revistas (editei mais de 2 mil!). Na universidade, leciono jornalismo de revista (quando vocês poderão conversar com meus alunes? Convite feito. Sério mesmo, próximo semestre!) e sempre levo pilhas da piauí para eles conhecerem e dissecarem. Mais revisteira, impossível.
Mas não tá dando tempo de ler. Meu sonho é ter as reportagens da piauí em áudio, para escutar enquanto faço e tomo café, limpo a casa, dirijo, passeio com a cachorra etc. Consigo tempo para escutar uma hora do podcast da piauí, mas não consigo tempo para ler uma só reportagem. É tão frustrante!
Pensem nisso.
ANA VASCONCELOS_SÃO PAULO/SP
NOTA METODOLÓGICA DA REDAÇÃO: Ana, entendemos o problema e somos solidários. Como já escrevemos noutra ocasião, nós mesmos não lemos a revista. Cadê o tempo? Diante de situação tão constrangedora, contratamos um desses gurus da autoajuda e/ou gestão corporativa para nos ajudar a vencer o bloqueio. Ele sugeriu que adotássemos o famoso método do “É só por hoje”. Funciona assim: (1) pegue a revista; (2) vá para o índice; (3) leia o índice; (4) diga em voz alta: “É só por hoje”; (5) largue a revista e saia com a cachorra. Repita a dose no dia seguinte, mas com a seguinte variação: (1) vá direto para a matéria do índice que mais te apeteceu; (2) leia o título dela, a linha fina, e siga assim até dar com a primeira quebra de capitular; (3) diga em voz alta: “É só por hoje”; (4) largue a revista e saia com a cachorra (ou faça um café, sei lá, o guru não deu maiores detalhes sobre essa fase). No dia seguinte, retome de onde parou e, dependendo da insistência da cachorra para sair, vá até a terceira ou quarta capitular. Voilà! Quando você perceber terá lido pelo menos uma reportagem inteirinha da piauí! Se for Esquina, então, é bem possível que termine o mês gabaritando a sessão, feito que ainda nos escapa. Quanto às reportagens em áudio, sugestão anotada. (A cachorra nos mandou um Zap prometendo pagar um por fora se implementarmos a novidade. Mais áudio é mais passeio!)
VOU DE BIKE
Excelente e extremamente oportuno o artigo A conquista do asfalto, de Roberto Andrés, na piauí_188, maio. O século XX foi a era do automóvel nas cidades, imposto – como bem citado no livro fundamental de Peter Norton, Fighting Traffic: The Dawn of the Motor Age in the American City (Combate ao trânsito: o alvorecer da era do motor na cidade americana) – por uma convergência de interesses da indústria automobilística e do petróleo que, com o mantra publicitário que enfatizava o automóvel como vetor de “autonomia” e “liberdade”, impuseram seu uso em detrimento dos pedestres (que atrapalhavam o movimento dos veículos) e dos transportes públicos (taxados de ineficientes), sem falar no quase desaparecimento das bicicletas. Nada disso, no entanto, teria funcionado sem os pilares fundamentais de abordagens pseudocientíficas: a engenharia de tráfego – que deixou de se ocupar da mobilidade das pessoas para tratar da mobilidade dos veículos – e as famigeradas leis de zoneamento urbano, que impuseram a separação entre usos do solo, criando distâncias só possíveis de atingir por meio do automóvel, e da exigência de vagas de estacionamento no interior das edificações – o que, nos Estados Unidos, representam subsídios anuais de cerca de 250 bilhões de dólares, segundo estimativas do professor Donald Shoup, da Ucla, em seu livro com o título irônico de The High Cost of Free Parking (O alto custo do estacionamento grátis).
Nesse contexto, é triste ver o posicionamento de certos ambientalistas, para quem o único problema do automóvel são as emissões de gases do efeito estufa. Para eles, basta a substituição dos combustíveis fósseis pelos carros elétricos. Incrível que eles não consigam enxergar o “elefante na sala” – na expressão de um outro autor importante. O carro elétrico é solucionismo tecnológico, a cloroquina da mobilidade urbana.
Soluções paliativas já se mostraram erradas. Nós precisamos de uma revolução científica no tratamento da mobilidade urbana. Seria ótimo que a revista piauí aproveitasse os artigos sobre “questões urbanas” (que inclui naquela mesma edição a reportagem de Tiago Coelho sobre urbanismo social, intitulada Como escapar do inferno) para lançar o debate essencial e urgente sobre a necessidade dessa mudança de paradigma.
HENRIQUE MENDES TORRES_RIO DE JANEIRO/RJ