poesia

MEU CORAÇÃO FICOU ANCORADO NO MAPA DE UMA CIDADE ANTIGA

Imagem Meu coração ficou ancorado no mapa de uma cidade antiga

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CANÇÃO DA LINHA

num poema o corte
pode ser só
respiro      como às vezes
o salto serve para
seguir

eu me levanto e começo a
falar      você se vira
e liga a cafeteira

um estrondo
é como termina
– você disse rima? –
as palavras suspensas
debaixo do som

assim são as coisas
você tenta seguir a linha mas
o corte
a pausa

por que você não escreve com
emoção?
alguém pergunta
e eu amarro a pergunta
na ponta desse poema    deixo tombar
até o fundo
do mar

meu coração ficou
ancorado
no mapa de uma cidade
antiga       mapa de linhas
esmaecidas

aqui o poema para porque está sem
ar
tenta encontrar uma resposta
mas a âncora vai
descendo
tudo fica muito
escuro
 já dá para fechar
os olhos

ao caminhar
deter os passos para poder continuar
um dia ia pela rua do
sim
             mas chegou a hora do não
corto a rota e olho
pra cima
– você viu o avião?
já passou       mas vai voltar adiante

agora preciso conter
o movimento da água:
uma lágrima escorre pelo rosto      segurar
a gota ou um volume de água
tão grande que encherá
todo o cômodo
num instante

a mãe avança pela água
quero dizer
a mão avança pela água
e a outra segura o fluxo
então é preciso trocar de pista: saltar uma linha

pular uma etapa

de novo
a linha se corta
– tudo veio para partir –
e a respiração desiste
o pulso parou
foi o que disseram

diante da janela
ele é alto e verde
fincado num terreno de pedras
pinho pinheiro
parece parado
mas se olho bem sinto um leve tremor
metros de árvore tombando pro
lado é assim que o mundo
acaba:
bang

entendo
que chegou o fim
o que deve sobrar é a cor

TUDO VEIO PARA PARTIR

a chuva também é processo
diz do alto do terraço quase tocando
no céu e aos poucos vai embora sem
se despedir
depois de um dois dias
não está mais aqui

a memória entra
pelos olhos

será que lembro dela ou
da foto? as coisas se misturam
um pouco        a mão congelada
o gesto      a cabeça projetada pra frente

o calor da imagem vem de antes
as palavras coladas no que o olho vê
a memória entra pela fina
película e passa
pela tela de dentro

tudo veio para partir
um caule     um abraço    ajeita
o xale na hora de ir

pelos meus olhos
aquilo que queima
e permanece

PERDER O CHÃO

você tem dedos
você é uma máquina
o polegar não deve se ouvir
indicador  médio  anular  dedo mínimo ou
auricular

as teclas vão num ritmo que varia
soltar os dedos    os punhos engessados
procurar aquela palavra que estava
colada na mão       não encontra
onde ela caiu? caminhar num lugar
sem chão
perder o chão

era um ponto vermelho
minúsculo escondido
um cisco

“Trinta dias sem ver você”
“Em silêncio sem saber nem ouvir nada”

escrevi as duas frases
a lápis num caderno
estava no meio de um sonho
depois li e chorei pensando que
ela tinha acabado

saturno não tem superfície
não tem chão      é um planeta feito
de gás com um pequeno núcleo de
rocha e metais

não ter onde pisar é estarrecedor


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É poeta e autora de Câmera Lenta (Companhia das Letras), vencedor do Prêmio Oceanos 2018