poesia
Marília Garcia Ago 2022 17h38
3 min de leitura
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CANÇÃO DA LINHA
num poema o corte
pode ser só
respiro como às vezes
o salto serve para
seguir
eu me levanto e começo a
falar você se vira
e liga a cafeteira
um estrondo
é como termina
– você disse rima? –
as palavras suspensas
debaixo do som
assim são as coisas
você tenta seguir a linha mas
o corte
a pausa
por que você não escreve com
emoção?
alguém pergunta
e eu amarro a pergunta
na ponta desse poema deixo tombar
até o fundo
do mar
meu coração ficou
ancorado
no mapa de uma cidade
antiga mapa de linhas
esmaecidas
aqui o poema para porque está sem
ar
tenta encontrar uma resposta
mas a âncora vai
descendo
tudo fica muito
escuro
– já dá para fechar
os olhos
ao caminhar
deter os passos para poder continuar
um dia ia pela rua do
sim
mas chegou a hora do não
corto a rota e olho
pra cima
– você viu o avião?
já passou mas vai voltar adiante
agora preciso conter
o movimento da água:
uma lágrima escorre pelo rosto segurar
a gota ou um volume de água
tão grande que encherá
todo o cômodo
num instante
a mãe avança pela água
quero dizer
a mão avança pela água
e a outra segura o fluxo
então é preciso trocar de pista: saltar uma linha
pular uma etapa
de novo
a linha se corta
– tudo veio para partir –
e a respiração desiste
o pulso parou
foi o que disseram
diante da janela
ele é alto e verde
fincado num terreno de pedras
pinho pinheiro
parece parado
mas se olho bem sinto um leve tremor
metros de árvore tombando pro
lado é assim que o mundo
acaba:
bang
entendo
que chegou o fim
o que deve sobrar é a cor
TUDO VEIO PARA PARTIR
a chuva também é processo
diz do alto do terraço quase tocando
no céu e aos poucos vai embora sem
se despedir
depois de um dois dias
não está mais aqui
a memória entra
pelos olhos
será que lembro dela ou
da foto? as coisas se misturam
um pouco a mão congelada
o gesto a cabeça projetada pra frente
o calor da imagem vem de antes
as palavras coladas no que o olho vê
a memória entra pela fina
película e passa
pela tela de dentro
tudo veio para partir
um caule um abraço ajeita
o xale na hora de ir
pelos meus olhos
aquilo que queima
e permanece
PERDER O CHÃO
você tem dedos
você é uma máquina
o polegar não deve se ouvir
indicador médio anular dedo mínimo ou
auricular
as teclas vão num ritmo que varia
soltar os dedos os punhos engessados
procurar aquela palavra que estava
colada na mão não encontra
onde ela caiu? caminhar num lugar
sem chão
perder o chão
era um ponto vermelho
minúsculo escondido
um cisco
“Trinta dias sem ver você”
“Em silêncio sem saber nem ouvir nada”
escrevi as duas frases
a lápis num caderno
estava no meio de um sonho
depois li e chorei pensando que
ela tinha acabado
saturno não tem superfície
não tem chão é um planeta feito
de gás com um pequeno núcleo de
rocha e metais
não ter onde pisar é estarrecedor