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DOIS LEITORES CONTRATADOS PARA ADJETIVAR AS MATÉRIAS

Imagem Dois leitores contratados para adjetivar as matérias

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QUESTÕES VULTOSAS

Miguel Lago fez um resumo bem preciso do que nos aguarda para os próximos anos. No texto primoroso mas difícil e aterrorizante de encarar, A insurreição permanente, piauí_193, outubro, nos mostra de forma clara que o bolsonarismo e seu criador serão muito difíceis de ser superados ou esmagados no país, e corremos o risco de ser solapados por ele. Está claro que já vivemos num país distópico quando um presidente comete todo e qualquer crime, tanto eleitoral como de responsabilidade, e as instituições seguem aparvalhadas e sem forças para reagir. Engraçado que, apesar de sermos maioria, estamos deixando que os 30% que apoiam esse desprezível ser sigam dando as cartas, aterrorizando e pautando todos os assuntos nacionais. Aliás, o Brasil agora é assunto de uma pauta só: destruir o bolsonarismo antes que ele nos destrua de vez.

VALÉRIA BORDIN_FLORIANÓPOLIS/SC

RESPOSTA SEMIÓTICA DA REDAÇÃO: “Aterrorizante”, “esmagados”, “solapados”, “distópico”, “aparvalhadas”, “desprezível”. Valéria, você acaba de ser contratada para adjetivar as próximas matérias da revista sobre o governo Bolsonaro.

ULTRAPROCESSADOS

A excelente reportagem O revolucionário, da jornalista Angélica Santa Cruz, na piauí_193, outubro, valoriza ainda mais a alentada edição da revista, em comemoração ao seu 16º ano de vida, o que não deixa de ser uma proeza em se tratando do nosso país, em que a cultura é totalmente relegada pelas autoridades.

Carlos Augusto Monteiro é o nome do nosso herói, à frente do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), que ele próprio criou na USP há três décadas. Em 2010, ele apresentou uma classificação de alimentos que mais tarde chamou de NOVA, um sistema que preconizava a ruptura total na maneira como os cientistas costumavam estudar a comida. Classificou os alimentos conforme os níveis de processos físicos, biológicos e químicos a que são submetidos até chegar a nossa mesa. Ele definiu o grupo dos alimentos ultraprocessados, que são produtos derivados do fracionamento agressivo de alimentos in natura e depois passam por sucessivos processos e adições de substâncias de uso exclusivamente industrial: “uma maçaroca de corantes, aromatizantes, emulsificantes e espessantes desenvolvidos em laboratórios para durar muito, custar pouco, ter sabor intenso e, de preferência, não saciar, para que as pessoas comam mais e mais: refrigerantes, sucos com sabor de frutas, biscoitos, lasanhas, pizzas congeladas, salgadinhos em sacos, macarrões instantâneos, produtos de carne reconstituída.” Ele considera tais produtos como “não comida, são formulações”.

Monteiro foi o primeiro cientista a usar indicadores de saúde coletiva para propor um sistema organizado de classificação da alimentação, pois antes o termo junk food era utilizado para definir comidas com poucos nutrientes e muitas calorias, com sabores viciantes. Após a divulgação de seus estudos nas revistas do campo da biomedicina, suas teorias foram acatadas pelos cientistas que encontraram neles a base para um aprofundamento da matéria.

A luta passou a ser contra uma indústria poderosa, que ele ousou enfrentar de peito aberto, sem jamais admitir a interferência dela em seus trabalhos. Gostaria de fazer uma menção especial à apresentadora Rita Lobo, que, na divulgação de suas receitas, coloca em prática as ideias do nosso Monteiro.

DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ

SAÚDE

Perdão por chegar atrasado na discussão, mas a falta de tempo me fez ler a edição de julho da revista apenas em outubro.

Gostaria de parabenizar pelo brilhante trabalho jornalístico e investigativo na reportagem Farra ilimitada (piauí_190_julho). Lido com a realidade dos serviços públicos de saúde diariamente e é com muita tristeza, pesar e revolta que vejo recursos, com potencial de salvar a vida de milhares de pessoas, sendo utilizados dessa forma.

Gostaria de pontuar apenas que a ultrassonografia transvaginal não é um exame de rotina ou preventivo, como apontado na reportagem. É uma confusão comum e até uma prática recorrente, mas as evidências científicas são robustas em afirmar a ausência de benefícios na realização desse exame quando não há sintomas ou indicação clínica precisa.

Inclusive, apesar de não ser o mais comum entre pessoas com baixa renda, o excesso de exames desnecessários é um dos grandes problemas que enfrentamos na prática clínica. Para alguns, o excesso; para outros, a falta. Mais um sintoma da nossa desigualdade.

LUIZ PAULO ROSA_SERRINHADOS PINTOS/RN

BOLSONARO
Este governo atual é um desastre ambiental, social, político e de saúde pública. Bolsonaro é uma vergonha nacional perante a comunidade internacional. Permite desmatamentos e tenta amparar grileiros e exploradores de nossa floresta. Esnoba os direitos de nossos povos indígenas. Quer armar a classe média e rica contra os mais pobres e vulneráveis, que se dependessem dele, no auge da pandemia, não receberiam de auxílio mais do que a bagatela de 200 reais. Ele demonstra não ter respeito e caráter, tampouco educação ou cultura para ser um mandatário. Debochou de pacientes que padeciam de Covid nas UTIs, fazendo gracinhas e imitando uma pessoa no leito de morte sem conseguir respirar. Como podemos dar crédito a um político tão desumano, que não tem tolerância nem o mínimo de sensatez e firmeza para governar com respeito e decência?

CÉLIO BORBA_CURITIBA/PR

MAIS UMA RESPOSTA SEMIÓTICA DA REDAÇÃO: Desastre”, “vergonha”, “esnoba”, “debochou”, “desumano”. Célio, quer fazer parte da equipe da Valéria, ali da primeira carta?

ANIVERSÁRIO

Com 16 anos, piauí já pode votar. Parabéns! Veio uma edição de aniversário bem recheada, com várias cartas do mundo (não a minha) e interessantes questões do passado. Haverá futuro? Era tanta coisa que o índice ficou pequeno para caber a autoria da capa hitch-cockiana, em homenagem ao mestre do suspense. Espero que a mensagem subliminar não seja premonitória, uma vez que os dois postulantes que sobraram para o segundo turno já ganharam a eleição a que concorrem ao menos uma vez. Mas o que me incomodou mesmo foi o termo “mulher de Lula” usado no lugar de esposa ou companheira na matéria de Thais Bilenky sobre Janja (Com vocês, a Leoa, piauí_193, outubro). Em se tratando da personagem perfilada combativa quanto a machismo e misoginia, creio que a repórter quis fazer algum contraponto ou alerta que não fui capaz de perceber. Causou espécie, diz meu anacrônico dicionário. No mais, gostei da construção feita por Clara Rellstab e Fernanda Santana para a formação do escritor Itamar Vieira Junior (“Trabalhar é tá na luta”, piauí_193, outubro) a partir de uma narrativa iniciada com o órgão público em que trabalha. O badalado autor de Torto Arado possui uma história de vida tão instigante quanto a suposta ficção que escreve. Por fim, espero que o curso dos acontecimentos não resulte na redução da maioridade penal que pode levar a revista aniversariante a responder também criminalmente por simplesmente existir.

ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP

RESPOSTA FILOLÓGICA DA REDAÇÃO: Pedimos perdão. Janja não é mulher do Lula. É conge.

NOTA DE ALÍVIO DA REDAÇÃO: Ufa!! Laerte, nossa colaboradora de longa data, nos mandou esse presente de aniversário. Ela não nos esqueceu!!

GUERRA

Vocês têm publicado relatos excelentes (como o recente Um lugar no mundo, na piauí_193, outubro, de Jonathan Littell) sobre a invasão da Ucrânia e os sofrimentos que esse país tem suportado – por vezes salientando as consequências econômicas que o conflito teve para o Brasil e o mundo, bem como o impacto sobre o que resta do sistema de coordenação global (como nas análises de Oliver Stuenkel no site da revista, Na guerra, sobe a geopolítica, desce a globalização, em março, e de Jamil Chade, Após anos de sabotagem de Trump, onu afunda mais com Guerra da Ucrânia, em abril). No entanto, tenho a impressão de que falta ênfase no que talvez seja o aspecto mais importante do conflito: a possibilidade de que a guerra leve a um conflito nuclear entre Rússia e Otan.

Diversos experts concordam que, exceto pelo auge da crise dos mísseis de 1962, nunca estivemos tão próximos de uma guerra nuclear. Algumas pessoas consideram isso uma possibilidade remota; no fim de 2019 e início de 2020, elas também consideravam remota a chance de o mundo adotar o isolamento social em razão de uma pandemia. Elas provavelmente não entendem que a política de “destruição mútua assegurada” só funciona porque os agentes não ignoram a possibilidade de conflito total. De fato, é provável que hoje ninguém tenha interesse numa guerra mundial, mas as pessoas diziam a mesma coisa em 1914 (até ocorrer um atentado e uma série de erros e infortúnios – como um diplomata alemão enfartando após esboçar um tratado com um colega russo) e em 1939 (quando se ignorava que uma das partes acreditava que venceria a guerra rapidamente).

Há mais de um mês, comemorava-se a debandada russa de diversas posições; mas logo a seguir, a Rússia convocou 300 mil reservistas e, após um rapidíssimo referendo aceito apenas pela Coreia do Norte – e considerado ilegal pelas Nações Unidas, anexou Donetsk e Lugansk. Agora elas estariam dentro da “pátria” que Putin afirma estar disposto a defender por quaisquer meios necessários – como mostram os bombardeios de 10 de outubro. Assim, ele se colocou numa situação da qual não pode recuar sem assumir alto risco de perder o poder. Mas a Ucrânia também não pode recuar, sob pena de se arriscar a perder uma região a cada década.

Enquanto isso, a Europa, depois de receber milhões de refugiados, passa por uma crise energética. Felizmente, a Otan ainda tem espaço de manobra, e não tem motivos para se engajar diretamente no conflito – a menos que algo aconteça: que armas de destruição em massa sejam usadas, ou que a Rússia ataque mais alguém, ou que a China (que até recentemente parecia prestes a invadir Taiwan) mude sua atual política de relativa neutralidade. Embora a Otan não tenha interesse em enviar tropas, basta alguém fazer uma bobagem.

Uma guerra nuclear seria uma ameaça à civilização como conhecemos; a quantidade de mortos superaria a dos conflitos do século passado, já que o clube das potências nucleares abrange as nações mais populosas do globo, e há uma possibilidade não remota de que as bombas levantassem partículas suficientes para bloquear parte da radiação solar e diminuir a temperatura global – com impacto profundo sobre a agricultura. Além disso, foros de coordenação global derreteriam, e é provável que as nações não afetadas diretamente passassem a considerar todo tipo de arma de destruição em massa (inclusive as proscritas armas químicas e biológicas, que são “fáceis” de produzir).

Esse cenário não é impossível, e é imprudente ignorar riscos de catástrofes apenas porque não são prováveis – afinal, usamos cinto de segurança mesmo quando confiamos no motorista, sem que isso seja chamado de alarmismo. E é difícil ver de que forma a atual situação na Ucrânia pode acabar bem; nas melhores hipóteses, teremos uma nova Guerra Fria se arrastando por décadas, afetando o comércio e a política global, ou instabilidade política na Rússia. Nesse caso, se conseguisse manter o estado de direito, o Brasil poderia fornecer refúgio e alimentos para milhões de pessoas. Quando considero essa questão, tudo o que vejo nas campanhas sobre as atuais eleições presidenciais parece irrelevante. A questão prioritária que um eleitor deveria ter em mente é se o Brasil será governado de forma racional quando a próxima crise chegar.

RAMIRO PERES_PORTO ALEGRE/RS

ERRATA

A reportagem “Trabalhar é tá na luta”, publicada na piauí_193, outubro, informou equivocadamente que o título da obra de Jorge Amado era Capitães de Areia. O correto é Capitães da Areia. A correção foi inserida na versão digital da reportagem.

Por questões de clareza e espaço, a piauí se reserva o direito de editar as cartas selecionadas para publicação. Solicitamos que as cartas informem o nome e o endereço completo do remetente.

Cartas para a redação:

redacaopiaui@revistapiaui.com.br


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