história pessoal

PREPARATIVOS PARA O FIM DO MUNDO

Minha mãe e seu mergulho no mundo das teorias conspiratórias
Imagem Preparativos para o fim do mundo

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Primeiro viria o aguaceiro. Seria uma tempestade de proporções bíblicas, como ninguém jamais tinha visto. As ruas virariam rios, os carros boiariam como brinquedinhos de plástico na banheira das crianças, a água jorraria dos bueiros em gêiseres altos como os prédios. Depois escutaríamos um estrondo, e uma onda gigante lavaria as ruas, arrastando postes, casas, árvores, bichos, pessoas. Mas eu não tinha o que temer. Minha mãe – foi ela quem me deu a notícia – havia se inteirado de tudo nas viagens astrais que fazia durante o sono ou nas suas meditações do fim da tarde. Seus informantes “lá do outro lado” haviam sido categóricos: “O mundo como a gente conhece vai deixar de existir”, ela repetia com os olhos brilhando. “Alguns vão sobreviver, poucos, e nós estaremos entre eles. Vamos ficar aqui para repovoar o planeta e recomeçar a humanidade do zero.”

Era o comecinho dos anos 1990, eu tinha 12 ou 13 anos, e achei essa conversa de que estávamos às vésperas de uma hecatombe meio pesada. Eu mal tinha dado meu primeiro beijo, por que motivo os seres “do outro lado” iriam escolher logo a mim, alguém sem experiência no ramo, para repovoar a Terra? Eu desconfiava, e muito, dos arroubos apocalípticos da minha mãe, mas não chegava a duvidar completamente de tudo o que ela dizia. Por um tempo, consegui me manter indiferente às “boas-novas” que ela revelava a conta-gotas, como alguém que confessa um segredo dos mais íntimos. Mas depois de algumas semanas me vi fisgado pelo enredo que, com os recursos da sua imaginação fértil, ela vinha há anos concebendo. Acho que me encantei com o último ato, o desfecho da peça: a cena em que nos prepararíamos em família, como se fôssemos um time invencível, para esperar o fim do mundo.

Morávamos num prédio baixinho, desses de três andares, no Jardim Oceânico, início da Barra da Tijuca. Teríamos que nos mudar para um lugar mais alto? Faltaria luz por quantos dias? Como nos protegeríamos do gás que iria escapar dos canos? Consumido pela ansiedade que já naquela época inviabilizava minhas noites de sono, eu me fazia essas perguntas enquanto rolava na cama – e no dia seguinte expunha minhas angústias. Minha mãe me acalmava, dizia para confiar nela, que sabia o que estava fazendo. E para mostrar que realmente sabia ela me arrastava para o supermercado. Juntos, escolhíamos e separávamos os itens indispensáveis à sobrevivência nos primeiros meses, que seriam os mais duros: velas, lanternas, fogareiros, caixas de fósforo, capas de chuva, comida enlatada, fita isolante para vedar ralos e portas e nos proteger dos gases tóxicos que se espalhariam pela atmosfera. Me lembro de separar uma quantidade absurda de pacotes de cigarros – um agrado a meu pai, que não andava lá muito contente com o fuzuê em torno dos “últimos dias”. Ele não tinha absolutamente nada contra o “mundo como a gente conhece”: a resenha esportiva no radinho, os cochilos no sofá da sala, o almoço de domingo na churrascaria rodízio. Não se mostrou nada entusiasmado com a boa-nova.

No fim das contas, a equipe que deveria atuar unida acabou se dividindo em times rivais: de um lado os salvacionistas (o filho e a mãe), do outro os descrentes (a filha e o pai). Para aliviar a tensão da espera, acabei gravando dezenas de fitas cassete: elas seriam a trilha sonora para o fim do mundo (Beatles e Caetano para mim, músicas lentas de bandas gringas para minha irmã, mantras indianos e canções de dor de cotovelo para minha mãe). Meu pai não ligava para música, então fiz um estoque de pilhas palito que daria para manter o radinho funcionando por uns seis meses. Não que fossem montar uma programação especial para o Apocalipse. Mas como os sistemas de comunicação entrariam em colapso, e as notícias urgentes só poderiam vir das outras esferas, eu tinha a esperança de que meu pai, engenheiro e professor de física, daria um jeito de sintonizar no rádio as frequências de outras galáxias: elas nos trariam instruções precisas sobre o que fazer, como agir.

Já os preparativos da minha mãe eram mais introspectivos. Ela passava o dia com a cara enfiada nos livros, ou rabiscando folhas de papel almaço com imagens do mundo por vir: mulheres em transe místico, discos voadores sobrevoando ilhas desertas, homens com adagas de cristal junto ao peito. Sentada com as pernas dobradas para o mesmo lado, acendendo um cigarro no outro, ela abria um grosso livro verde, feito só de números – o livro das efemérides astrológicas – e se empenhava na matemática. Depois cotejava o que descobria com as centúrias de Nostradamus: foi como ela cravou a data do Evento. Ela gostava de ler em voz alta as profecias do místico francês. Eu não entendia absolutamente nada, os versos eram enigmáticos, e ainda assim, ou talvez por isso, um deles ficou gravado num cantinho da minha mente e veio à tona anos mais tarde, enquanto via pela tevê a imagem de um avião se chocando contra uma torre muito alta: “O céu se incendiará em 45 graus e o fogo devorará o mundo.” Estava acontecendo? Ela tinha razão? O fim era iminente?

Mas isso foi uns dez anos depois. Naquele dia de verão do comecinho dos anos 1990, quando tudo acabaria segundo os cálculos da minha mãe, fiquei de olhos abertos, atento aos prenúncios do fim: pássaros se aglomerariam no ar e formariam palavras, nuvens se uniriam num desenho sinistro, dois sóis despontariam no fim da tarde e as aves tombariam do céu, esturricadas. Eu esperei e esperei… Mas as gaivotas voavam despreocupadas, analfabetas, e não caiu nem uma gota de chuva.

Quando meu pai anunciou que estava saindo para comprar cigarro – havia uma infinidade deles no armário do banheiro – entendi que tudo estava acabado, que era o fim do nosso fim do mundo. Guardei lanternas e velas, arranquei a fita isolante das portas, deixei a água que estava armazenada no tanque e nas pias escorrer pelo ralo. Minha mãe não disse nada: era como se as últimas semanas não tivessem existido. Sem fazer qualquer pergunta, peguei meu walkman e as fitas cassete e, a exemplo do meu pai, saí para dar uma volta lá fora.

Desse dia em diante, e lá se vão trinta anos, o mundo esteve a ponto de acabar muitas outras vezes. O alerta mais recente foi no dia 10 de agosto de 2021, uma terça-feira. Guardei a data na memória porque, justo nesse dia, recebi uma mensagem alarmista da minha mãe enquanto estava na fila para tomar a segunda dose da vacina contra a Covid – todo contente, pensando que em breve reencontraria meus amigos e festejaríamos juntos e a vida voltaria ao normal. Mas na mensagem ela me alertava, num tom que lembrava o de Nostradamus em pessoa, que o mundo iria pelos ares naquele fim de semana: “Está escrito na Bíblia que existirão três dias de escuridão. Alguns estão dizendo que será agora. Meu filho, não saia de forma alguma de casa. Feche todas as janelas e portas. Não abra as janelas, pois as dimensões estarão sendo fundidas e podem-se ver seres de outros mundos. Tudo vai passar em três dias, não tenha medo. Eu aguardo você na nova dimensão.”

Comentei que estava na fila para me vacinar, e que se ela tivesse algum juízo iria até o posto de saúde mais próximo e faria o mesmo, se imunizaria. Ela sequer havia tomado a primeira dose: repetia a arenga de que as vacinas são perigosas, e de todo modo não seriam necessárias no lugar aonde iria em breve, a nova dimensão. O mais espantoso é que, quando eu era criança, ela nunca deixou de atender aos chamados do Zé Gotinha: minha cartela de vacinação foi preenchida do começo ao fim, e, como quase todas as pessoas da minha idade, carrego no braço a marca da BCG. Apocalipses à parte, tive uma infância das mais normais. Minha mãe nos levava e buscava no colégio, abria negócios que às vezes davam certo e às vezes fracassavam, se tornou uma avó presente quando minha irmã teve filhos. Mas de uma hora para outra, sem aviso prévio – ou pode ter sido desatenção da minha parte –, ela acabou se convertendo numa incansável militante antivacina. Passado o susto inicial, tentei fazer o que podia para mostrar que ela estava espalhando mentiras grosseiras. Mandei links com reportagens sobre a eficácia das vacinas, enviei depoimentos de pessoas que passaram meses na UTI, disse que a levaria para se imunizar. Nada funcionou. Por fim, apelei à chantagem barata:

– Se você não tomar a vacina eu nunca mais piso aí.

– Você já não vem nunca, meu filho.

Cada alerta de que o “mundo que conhecemos” estava com os dias contados – e esses avisos se repetiam ano após ano – trazia uma novidade em relação à profecia anterior, que não havia se consumado. No episódio do ano passado, a pecinha que tinha faltado no quebra-cabeça, e que justificava o ajuste nas previsões, era o planeta Nibiru. É claro que esse planeta não existe – mas isso não vem ao caso. Nibiru tiraria uma lasquinha da Terra bem naquele fim de semana, e isso ocasionaria todo tipo de catástrofes – as de sempre: dilúvios, terremotos, tsunamis, vendavais, erupções vulcânicas. Além desses flagelos, o que também permanecia inalterado era a ideia de que a humanidade passaria por uma “faxina” e seria dividida em duas metades. Dessa vez, os desafortunados que seguiriam nesse planeta assolado por doenças eram os vacinados. Já os restantes, os que sabiam da “verdade”, seriam enviados em naves intergalácticas para algum planeta aprazível, onde teriam uma existência de delícias e viveriam numa paz de mil anos.

Seu maior medo – por isso ela me implorava para não tomar o “veneno” – era de que nunca mais fôssemos nos encontrar, visto que, vacinado, o meu acesso às naves não iria ser concedido. Tratei de tranquilizá-la: até onde eu tinha me inteirado, e minhas fontes eram seguras, as autoridades sanitárias de todo o sistema solar estavam exigindo o certificado de vacinação. Então, se ela quisesse entrar naquele mundo de delícias, teria que se dirigir agora mesmo ao posto de saúde mais próximo e tomar a primeira dose da vacina contra a Covid, antes que o mundo explodisse. Não colou.

Quase todo dia minha mãe encaminhava um novo absurdo pelo WhatsApp. Fazia um bom tempo que ela estava bloqueada nas minhas redes sociais, mas eu não tinha coragem de agir da mesma maneira em relação ao aplicativo de mensagens. Se o grande medo que minha mãe tinha era passarmos o resto da eternidade em planetas diferentes, o meu era que ela adoecesse e, por não estar vacinada, acabasse desenvolvendo a forma grave da Covid. No meu catastrofismo particular, eu fantasiava que seu pedido de socorro – e ele era inevitável – viria por meio do aplicativo que, nos últimos anos, havia se tornado seu púlpito, sua praça pública e local de encontros e conversas. No fim das contas, tínhamos o mesmo temor: a real possibilidade de nunca mais nos vermos.

Hoje, mais de um ano depois do fim do mundo de agosto de 2021, penso que havia um segundo motivo, menos nobre, para não bloqueá-la no WhatsApp. Por mais que eu me recusasse a abrir os links, e apertasse o botão mute sempre que os vídeos compartilhados por ela eram reproduzidos de forma automática, minha curiosidade acabou vencendo a queda de braço contra os meus imperativos éticos, quaisquer que fossem eles – o mais provável é que o que eu grandiloquentemente chamava de ética fosse só receio, vontade de não saber nada, de me manter alheio àquela insanidade. Quis conhecer a fundo como funcionavam as teorias da conspiração que se espalhavam pelo mundo numa velocidade espantosa. Ou não tão a fundo: bastaria uma olhadela na superfície, para não ficar nauseado. O que eu sabia era o que todos diziam, quase sempre recorrendo a termos abstratos: havia no mundo uma ascensão da extrema direita, do negacionismo científico, dos movimentos antivacina, dos “gabinetes do ódio” que espalhavam mentiras e especulações fantasiosas de grande impacto nas redes. Mas uma coisa é ter consciência das “linhas gerais” de um determinado fenômeno social. Outra bem diferente é encarar o monstro com os próprios olhos.

Um dos primeiros vídeos a que assisti foi a live de um sujeito que se autointitulava “terapeuta vibracional quântico”. Nada de túnicas brancas, cabelos compridos ou longos cajados: os gurus dos novos tempos vestem camisa polo, usam óculos escuros e estão sempre agarrados a uma bandeira verde e amarela. Pelo visual, poderia ser um militar da reserva, desses que caminham de peito estufado por Copacabana só de chinelos, sunga e óculos escuros. Às vezes eu me sentia como se estivesse assistindo a uma mesa-redonda sobre Star Wars: os debatedores discutiam aos berros a atuação dos “comandos estelares” (nunca entendi o que eram) na Operação Tempestade (um evento de ruptura) que libertaria a humanidade do opressor “Estado Profundo” (uma rede secreta e global formada por políticos, grande mídia e gente poderosa do mercado de entretenimento). Termos científicos eram mesclados sem pudor a devaneios dignos de Dan Brown — os Illuminati estavam em todas.

No começo eu achava graça, mas não custei a perceber que as pessoas realmente acreditavam naquilo.

Foi surfando no algoritmo que tomei conhecimento do QAnon, uma teoria conspiratória associada a ideias de extrema direita que, há alguns anos, começou a se alastrar nos Estados Unidos com a celeridade de uma doença altamente contagiosa. Poucas vezes um grupo tão vasto de seres humanos acreditou em especulações tão grotescas, que não só beiram como ultrapassam, e muito, o enredo mais nonsense que um diretor de filme B dos anos 1970 seria capaz de imaginar.

As especulações começaram a ganhar força em 2017, a partir das postagens de um certo “Q” em fóruns anônimos da internet (daí o “anon”, uma abreviação de “anônimo”). Q alega que o mundo é controlado por uma elite global de satanistas pedófilos canibais que se alimentam do sangue de criancinhas. Essa gente má supostamente estaria infiltrada em todos os setores da sociedade, controlando governos, a grande mídia, o sistema financeiro e até Hollywood. Foi com a eleição de Donald Trump que essa conspiração global teria sido desmascarada por (supostos) militares com (suposto) acesso a informações sigilosas. O QAnon tem milhões de seguidores – a deputada republicana de extrema direita Marjorie Taylor Greene, eleita para o Congresso americano em 2020, é uma das defensoras mais notórias das ideias conspiratórias do grupo.

As postagens de Q viralizaram com uma rapidez espantosa, e passaram a povoar as redes sociais de gente comum, como minha mãe. Alguns, os chamados QTubers, agiam como se fossem evangelistas da Palavra de Q, se dedicando com afinco a uma ginástica hermenêutica das mais bizarras: a produção de vídeos com análises detalhadas dos “Q drops”, as postagens a conta-gotas que o anônimo (alguns acreditavam ser o próprio Trump) fazia com frequência incerta (dez num único dia, às vezes uma por semana).

Esses vídeos e postagens guardam certa semelhança com o modo como minha mãe, no comecinho dos anos 1990, revirava do avesso as centúrias de Nostradamus: basta pegar um texto evasivo, redigido de modo críptico e numa linguagem profética, e deixar a imaginação fluir.

Em meados de 2018, comecei a notar uma movimentação atípica no Facebook dela. Até esse momento, o tema mais comum no seu feed eram aparições de discos voadores nos cantos mais variados do planeta. Quando eu era criança – antes, portanto, dos preparativos para o fim do mundo –, assisti a um vídeo que ela e meu pai gravaram com uma câmera super-8. Era um dia bonito, aquele azul inconfundível do outono carioca, e um objeto branco e redondo que mais parecia um Sol em miniatura fazia piruetas no céu e dava mergulhos verticais seguidos de loopings – a acrobacia improvável que os pilotos de óvnis adoram fazer para impressionar os terráqueos.

Quando perguntei ao meu pai sobre o vídeo, ele titubeou. Me disse que era autêntico, não havia dúvidas quanto a isso, mas logo tratou de justificar aquele balé a partir das leis da ótica e da mecânica, matérias que ele havia lecionado por vários anos. Mas – ao menos era o que eu sentia –, ele não demonstrava acreditar sinceramente nas próprias elucubrações. O que aconteceu naquela tarde, quando eu ainda não era nascido, pode ser resumido assim: eles identificaram algo estranho no céu, pegaram a câmera, filmaram, e isso era tudo o que se podia saber a respeito.

Ver todos esses vídeos de discos voadores no Facebook dela – alguns eram montagens que, de tão fajutas, chegavam a ser comoventes – era como ser transportado ao passado, aos dias felizes em que me encontrava próximo dela e do seu universo de referências, que também era o meu. Longe de seguir as religiões existentes, minha mãe foi construindo, com o passar dos anos, uma cosmovisão peculiar. Era como se ela fosse uma versão contemporânea do moleiro Menocchio, perseguido pela Inquisição no século XVI e imortalizado pelo historiador italiano Carlo Ginzburg em O Queijo e os Vermes – alguém que leu de tudo para elaborar uma teoria só dele sobre a origem do universo. Ou de Pico della Mirandola, o filósofo renascentista que estudou uma quantidade colossal de religiões e de sistemas filosóficos antigos, em busca de uma síntese entre eles. Minha mãe estava sempre com um livro da mística Helena Blavatsky nas mãos, e discorria sobre o “plano astral” com a autoridade de uma testemunha ocular da geografia do além: alguém que (a exemplo de Er, o personagem de A República de Platão, ou do delegado Kevin da série The Leftovers) desceu ao mundo dos mortos e retornou para dar notícias do que viu.

Mas no que diz respeito a discos voadores, a sua principal referência vinha de trás do bidê, que era onde ficava a coleção de revistas Planeta. Sempre que saía uma nova matéria de ufologia, ela lia a reportagem em voz alta. Eu me entusiasmava com as fotografias, sugestivamente fora de foco, de objetos estranhos flutuando no céu, e vibrava com a possibilidade de não estarmos sozinhos no Universo. Seu filme preferido era – talvez ainda seja – Contatos Imediatos do Terceiro Grau. “É um retrato perfeito do que vejo nas minhas meditações”, ela costumava dizer.

Não sei se foi de uma hora para outra, se custei a notar, se não quis ver – a última alternativa me parece a mais provável – que a coisa estava ficando estranha. No lugar de memes com alienígenas de queixo fino e olhos imensos, ela começou a publicar imagens de tanques e gente armada até os dentes. Ou, em vez de montagens toscas com personagens da novela A Viagem, ela passou a compartilhar fotos de Trump fazendo pose de galo de briga. Foi nesse momento que um certo ex-capitão do Exército Brasileiro passou a dar as caras no seu feed. Decidi mandar uma mensagem para tentar esclarecer as coisas:

– Mãe, me diz que você não vai votar em quem eu acho que você vai votar.

Sua resposta veio imediatamente, o que me deixou com o estranho sentimento de que ela estava de prontidão, aguardando há dias aquele meu contato:

– Nunca gostei de política, meu filho. Mas estou do lado da verdade. E só o que posso te revelar agora é que a vida como a gente conhece está com os dias contados.

Escuto falar na “verdade” desde os 12 anos, mas nunca vi, nunca senti o cheiro: era algo que não me cabia enxergar sozinho. Quando notei que minha mãe associava suas velhas crenças milenaristas à eleição presidencial que aconteceria em poucos meses, gelei. Acho que foi quando me dei conta de que a vitória de Bolsonaro – naquele momento ele ainda não liderava as pesquisas – era uma possibilidade concreta. Pela primeira vez, eu estava vendo minha mãe se engajar numa campanha política: os mortos sempre a interessaram mais que os vivos. Como as coisas chegaram a esse ponto, e tão rápido? Como alguém que leu tanto e sempre se orgulhou de pensar com a própria cabeça foi seduzida pelos discursos da nova direita? Não tenho boas respostas para essas perguntas. E a realidade é que, num primeiro momento, consumido pela raiva, nem me esforcei para entender. Nosso contato se limitou ao mínimo, e foi só com a pandemia, quando passei a dar atenção às mensagens que ela me encaminhava pelo WhatsApp, só aí me dei conta de que não havia nada de estranho nesse seu movimento – que o fim do mundo era, sempre foi, um acontecimento político.

No último episódio do documentário Q: No Olho da Tempestade, que trata da origem e expansão do QAnon, o diretor norte-americano Cullen Hoback sugere que o primeiro ano da pandemia da Covid foi um prato cheio para os adeptos do movimento. Logo nas primeiras semanas da quarentena comecei a receber uma enxurrada de mensagens da minha mãe. Até aquele momento, sua atuação como militante virtual era esporádica. Mas agora ela estava online o dia todo, sempre disposta a passar adiante o que recebia nos grupos de desinformação. A Covid era uma “fábula da máfia financeira internacional”, um vírus criado em laboratório. As vacinas eram parte de um plano ardiloso para adoecer a humanidade. A qualquer momento Trump decretaria a “lei marcial global” que levaria à prisão (em Guantánamo) de políticos e celebridades. “A lei marcial global vai acontecer até o final desse mês”, ela me escreveu em agosto de 2020. “Então se previna com água e alimentos. Eu sei que você não acredita em nada do que digo, mas faz compras com mais capricho.”

Em todo o mundo, a extrema direita recorria a ideias conspiratórias como as do QAnon para incendiar a sua base de apoiadores. E eles sabiam jogar com o alarmismo: tudo (as vacinas, a quarentena, o 5G, as urnas eletrônicas, a grande mídia) era parte de um complô para manter as pessoas alheias à “verdade”, qualquer que fosse ela. Um elemento sempre presente nesses discursos era a ideia de uma “grande limpeza”, que se seguiria a um movimento súbito de ruptura – a “Tempestade” sugerida por Trump numa fala enigmática de outubro de 2017.

Ao ler as mensagens dela sobre uma “lei marcial global” que desencadearia acontecimentos surpreendentes, me dei conta de que minha mãe agora dispunha de um manancial infinito de especulações desvairadas que tinham origem na “internet profunda” e alimentavam sua convicção de que nos aproximávamos do fim dos tempos. Depois de anos fazendo cálculos, decifrando profecias e realizando incursões solitárias ao “plano astral”, ela havia encontrado quem pensasse do mesmo jeito: pessoas que não a julgavam, não faziam tediosos apelos à razão, e que acima de tudo renovavam com grande eficiência a matéria-prima que tornava possível a atualização não mais anual, e sim semanal ou mesmo diária, das suas versões particulares do Armagedom.

Nesse ponto, ela agia como a maior parte dos seguidores do QAnon, que a cada dia que passava mais se pareciam com membros de uma seita de fanáticos, sempre repetindo, de um jeito alucinado, a frase que acabou se tornando o lema do grupo: “Aonde um de nós vai, vamos todos.” Em um ensaio publicado em junho de 2020 na revista The Atlantic, a repórter Adrienne LaFrance reflete sobre os traços milenaristas nas postagens de Q, especialmente a noção de um “Grande Despertar”, a revelação da “verdade” que viria num Evento de grandes proporções, previsto para acontecer em breve. Eu estava bastante familiarizado com esse enredo.

A matéria de LaFrance me levou de volta a um livro pelo qual eu tinha passado os olhos muitos anos atrás, motivado, possivelmente, por minha história pessoal: Na Senda do Milênio, do historiador britânico Norman Cohn, um clássico sobre o “milenarismo revolucionário” na Idade Média. Originalmente, o termo milenarismo tinha uma acepção precisa: era a doutrina que dizia respeito aos “últimos dias”, à paz de mil anos que se seguiria à Segunda Chegada do Messias. Mas, com o passar dos séculos, o significado do termo foi se alargando, e acabou virando sinônimo de salvacionismo. Cohn propõe uma síntese fascinante dos traços que caracterizavam o milenarismo medieval: a ideia de que a salvação é resultado de uma ação coletiva (daí o empenho em converter os que não creem nela), é terrena (seu lugar é aqui), é iminente (seu tempo é agora), é total (não há como barganhar, existem dois lados e você precisa definir qual é o seu) e é milagrosa (depende da intervenção de forças sobrenaturais).

O QAnon reúne todos esses elementos – com exceção, talvez, do último. Outro ponto de semelhança com algumas seitas milenaristas é o uso da violência como modo de acelerar o Evento. Na véspera da invasão ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021, minha mãe me mandou uma mensagem. Eu estava em Teresópolis, numa casa que alugamos com um grupo de amigos – todos isolados e testados. Recebi uma mensagem dela, me dizendo para ficar de olho na tevê no dia seguinte. Fiz pouco caso, disse que Trump estava de malas prontas para Miami, onde levaria uma vida insossa de aposentado. Mas, do mesmo jeito que me lembrei das profecias de Nostradamus enquanto via as torres gêmeas vindo abaixo, pensei na mensagem dela ao ver a turba de pessoas ensandecidas, algumas armadas, outras fantasiadas, invadindo a sede do Congresso norte-americano no esforço golpista de impedir a posse de Joe Biden. Eles tinham escapado da internet, do espaço virtual, e agora ocupavam as ruas num dos momentos mais críticos da pandemia, sem máscara, irmanados, dispostos a pegar em armas para acelerar a Tempestade que tanto aguardavam. E a impor à força a sua tosca e perigosa visão de mundo.

Mantive a minha promessa por dois anos e meio: sem vacina, sem visitas. Depois da avalanche da Ômicron e do verão febril, veio a calmaria – e a enxurrada de mensagens com que ela me bombardeava foi aos poucos diminuindo. Ela agora tinha outras ocupações, uma “vida lá fora” que ia além do aplicativo de mensagens: voltou a ir ao shopping e ao supermercado, encontrava amigos, ficava com os netos nos fins de semana, estava menos obcecada com o Fim. Viajei, passei alguns meses fora do país. Mais ou menos nessa época um amigo muito próximo estava lidando com a doença da mãe, e aquilo me sensibilizou – perder a mãe, seja para o câncer ou para uma seita de fanáticos, é algo horrível.

Voltei de viagem e, por intermédio da minha irmã, aceitei não exatamente uma reconciliação, mas uma trégua. Nos encontramos após todo esse tempo, e rimos juntos das suas histórias de fantasmas e viagens astrais. Toda noite, enquanto dorme – foi o que ela nos disse –, minha mãe entra numa nave interestelar e realiza missões importantíssimas em outros planetas. Ela me disse que às vezes estou junto dela, que sou o piloto de um imenso disco voador. Digo que não é possível, pois meu brevê interestelar está vencido, do mesmo jeito que a minha carteira de motorista aqui na Terra.

Sei que essa paz é provisória, e que a humanidade – com toda a certeza o país em que vivemos – já se dividiu há tempos em duas metades. Agora nós dois fazemos parte de equipes rivais, e não estamos dispostos a ceder um só milímetro. Eu pelo menos não estou. Em certa medida, o “mundo como a gente conhece” já acabou: nem nos meus piores pesadelos de adolescente, quando me preparei com afinco para esperar o fim do mundo, a realidade poderia adquirir em algum momento os contornos que tem hoje em dia. Sei também que em breve ela vai anunciar um novo Evento, que vai me pedir para ficar em casa, estocar água e comida e não olhar pela janela. E que alguns dias depois virá a trégua, e ela vai passar um tempo sem tocar no assunto – e o relógio continuará girando, e apenas um Sol aparecerá todas as manhãs para brilhar no céu.


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É professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor de Janelas Irreais: Um Diário de Releituras (Relicário Edições)