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DAQUI DO PERTO E LONGE EM QUE ME ENCONTRO, JÁ TE VEJO

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MUXIMA

1.
São cenas bem pequenas, e isso todos sabem do seu jeito,
mas do teu jeito um teu qualquer aceno me calcina
um pouco, um tanto, um fogo, uma manhã de cinzas
pelos teus braços; teu toque me descende estrelas
ao meio-dia quando as sombras todas já sumiram,
teu toque me contorce os nervos, os tendões, os dentes;
e quando digo te amo, é uma cena bem pequena,
entre um café e outro, é uma cena ínfima que se anuncia
nestes cartazes coloridos, num sorriso leve
até o fim da tarde, até que a noite adentre toda
e você já cansada aqui também se deita, estreita,
do meu lado, e tudo é calma e tudo chama.

7.
É como nas doenças: nossa garganta muita vez arranha
como entre brigas ou gemidos, nosso curtume continua
ativo e estranho, e se te firo aqui te curo, exponho furos
que sou; até que vem você e aufere a minha febre:
são dedos que conhecem bem a nossa carne fresca,
são falas que penetram cada fresta, e a palavra escava
escaras mais fundo do que faca; aguardo só um toque
e serei salvo, tua água de cacimba, umbu no mato,
tua romã multiplicando o vermelhão em minha boca.
Será que algum de nós completará um dia, meu amor,
o mistério encarnado de sermos um corpo na história?
Quem sabe, se estivermos realmente livres ao fracasso.
Eu desconheço um fim e assim dou-te-me os braços,
enlaçados na deriva, como que ao mar amarrados.

14.
Eu sou o seu cavalo há tempos, onde monta distraída
e sem rumo, e assim de monta vou sem trote, lento,
até nenhures e ela destacando estrelas me devolve
um fardo pleno à boca: ela, capim-do-mato, ela,
aonde aponto, onde também cavalgo, invertendo-nos
num estranho centauro em movimento. E como:
e nela me rumino e nela acerto a mina d’água
onde me farto, cavalo do cavalo, acumulando
calos sobre a terra seca, acinzelando o falo na vereda,
onde desponta um buriti com casca, fruto e sumo,
pasto sua mata, acima e abaixo, e nunca basta.

17.
A cerejeira insiste em berrar nos teus ouvidos dia e noite e noite e dia
porque vive no inverno tudo: a queda, a flor, a crisma. Berra de
cores novas
que de mil flores hoje estão a contrastar com tua pele fina; a cerejeira
jamais conhecerá um hematoma, uma ferida de que se abra feito
graça até os confins do nosso inverno. Eu estou lá, você também,
as carnes tesas, e você me chama à porta e entro e lá por fim descubro
como a casa ali sou eu e trago dentro a chaga acesa de um rebento
e dentro do dentro viveremos juntos só pra ver a gestação do ipê.

21.
Daqui do perto e longe em que me encontro, já te vejo,
muito além do desejo de hoje, além desta ferida acesa,
como um visionário que atravessa a sua presa e vara
a própria visão além do tempo, pra entrever talvez
a mãe na filha, a neta numa avó; e assim te avisto
futuramente, ainda amante, atenta aos gostos todos,
te invisto de uma forma velha e linda e vera e ainda
infinda, entregue ao sono sem certeza, aberta ao gozo
de coisas pequeninas, feito pétalas e pérolas,
feito poças meio rasas sob a chuva mansa, vejo,
sabendo que em seu sumo oculto escorre a minha vida
à sombra dessa planta e deito ali guardando a fruta.


Os poemas da série Muxima fazem parte do livro Panapaná, inédito.


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É poeta, tradutor e professor na UFPR. Publicou, entre outros livros, História de Joia e Potlatch (ambos pela Todavia)