cartas
30 Nov 2022
7 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
CAPA
Meus caros, não contemos pra ninguém, mas tenho a segredar algo sobre os exemplares da piauí que leio desde o número 1 – leio e guardo, tenho todos os números. Vocês tiveram capas lindas, algumas pra emoldurar, outras nem tanto. Tudo dentro da probabilidade de agradar e ser agradado. Dias sim, dias não. Minha confissão, em caráter confessional, é que, desde que a piauí circula, essa foi a primeira vez que senti vergonha de andar expondo a capa por aí. Não que ela não seja boa, mas infelizmente a nossa bandeira não anda num estágio bom de confiabilidade e credibilidade. A gamação por ela é tão desabrida de patriotismo que chega a doer. Então, todos os meses circulava com a danada da piauí pra cima e pra baixo, capa exposta, propaganda gratuita para a revista, sem nunca ter pedido nada em troca. Neste mês me contive para circular com o exemplar, criei uma embalagem, ou seja, encapei a capa, e assim a leio nos cafés de minha aldeia. Mesmo com o tom de evidente crítica ao momento, só o fato de vê-la na banca, exposta junto dos produtos bolsonaristas e dos da Copa do Mundo, confunde a cabeça de muitos incautos. Tá tudo tão misturado e daí temo serem confundidos com admiradores do demo. Tomem tento, meninos(as)!
HENRIQUE PERAZZI DE AQUINO_BAURU/SP
NOTA INSTRUTIVA DA REDAÇÃO: Henrique, mas você não andava por aí com a capa do Bolsonaro beijando o Olavo de Carvalho? Do Bolsonaro beijando a morte? Do Bolsonaro dançando valsa com o Putin? Do Bolsonaro amamentando o Daniel Silveira? Do Bolsonaro brincando de ser Pinochet? No fundo era um grande prelúdio para você poder carregar a bandeira do Brasil debaixo do braço.
IMPUNIDADES
A reconquista da democracia simbolizada pela lavagem da bandeira nacional na capa da piauí_194, novembro, ainda que sem autoria atribuída no índice, não pode esconder impunidades que são denunciadas no corpo da edição. Gostei de (re)ler Felipe Botelho Corrêa, representando, por meio da obra de Lima Barreto, o racismo estrutural resistente e persistente em nossa sociedade (De ressentido a visionário). Botelho contribuiu com a descoberta de inéditos de Lima que consolidaram o autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma também em crônicas mais ácidas e satíricas, além de estimular este missivista a encontrar outros textos não catalogados ainda. Que seja o símbolo para nos transformar a todos em antirracistas. Na mesma toada, os ranços da ditadura recente, a de 1964-85, ficam mais envergonhados pelas ossadas de Perus, e vemos pela matéria de Gabriela Mayer (A cova rasa do Brasil) que, por pouco, toda a investigação não foi totalmente perdida. Fiquemos atentos para acompanhar o que dali ainda resultará no novo governo democrático a partir de janeiro. Assim, com o viés de uma suposta conciliação eufórica, primeiramente me assustei com o tom das palavras de José Genoino dadas a Luigi Mazza (“Quero ser um rebelde”), mas logo entendi que o revolucionário do Araguaia representa a legítima – e “genuína” – luta contra a referida ditadura, luta que não pode admitir impunidade para ser levada a termo. Por fim, continuamos a carregar o peso do mundo paralelo em que vivem os “bolsonarentos” de nosso país, cuja derrota eleitoral foi ilustrada por Luiz Felipe de Alencastro (Derrotados e vencedores), mas que permanecem ativos, travestidos de “patriotas de verde e amarelo”. Essa extrema direita mundo afora precisa ser devidamente combatida, terceira certeza da vida, ao lado da morte e dos impostos. Racismo, ditadura, ascensão do neofascismo – tudo isso precisa ser adequadamente resolvido, sem impunidades. A esperança venceu o ódio, mas não pode ser conivente com tais crimes.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
PROJETO QUERINO
Parabéns à piauí_194, novembro, com o artigo De ressentido a visionário. Nosso querido Lima Barreto é examinado historicamente de forma excelente. Acredito que a estrutura racista no Brasil possa ser definitivamente demolida por um ângulo anarquista. Percebo que o Brasil é a maior incubadora de “anarquia racial” do mundo. Com essa certeza, entre outras (e respirando “verde” no planeta Saturno), admito que o caminho mais sólido seja implementar uma anarquia política, derivada de votações gerais pelo aplicativo Blockchain para exercer o Legislativo e colegiadas para decisões do Executivo (governo de especialistas), colegiadas para magistrados do Judiciário e liderados por diplomatas eleitos. Particularmente prefiro a abordagem anarcotaoista em ordem do Estado (mídia, Jurídico, diplomatas, Legislativo, Executivo – cinco movimentos). Espero que estas derivadas ampliem o horizonte do debate estrutural aos interessados.
MARCELO ALCANTARA_SANTOS/SP
NOTA CONFUSA DA REDAÇÃO: Essa tal anarquia política de que você fala já não foi implementada num certo país?
NAVALHA NA CARNE
O diário de Homero Velho, cantor lírico e professor da Escola de Música da UFRJ, na piauí_194, novembro (A ópera e o hospício), mostra todas as dificuldades que sofrem aqueles que se dedicam ao bel canto, principalmente no caso em questão, no qual o artista pretende participar da encenação de uma ópera nacional, desempenhando um dos três papéis principais, tendo assinado oficialmente o contrato para a futura apresentação no Theatro Municipal de São Paulo de Navalha na Carne, baseada na peça teatral homônima, de autoria do artista múltiplo Plínio Marcos. A partitura da ópera é do compositor paulista Leonardo Martinelli, realmente um enorme desafio em se tratando de transformar o famoso texto teatral, que estreou em 1967, em plena ditadura militar. Era um texto forte, com a ação passada num bordel, no qual foi marcante o desempenho de Tônia Carrero como a prostituta Neusa Sueli. Como ocorria naqueles tenebrosos tempos, a censura proibiu a peça, só voltando a ser encenada em 1980.
O relato descreve as peripécias passadas pelo elenco na preparação do espetáculo em questão, realmente um enorme desafio para todos os que participaram dessa saga, verdadeiro salto no escuro com relação à reação da plateia, não acostumada a um libreto tão radical na exposição de cenas que chocam pelo seu realismo, pois Plínio Marcos foi um exímio autor desse universo marginal.
A estreia da ópera ocorreu no dia 8 de abril deste ano com enorme sucesso, para alívio geral. No entanto, o relato mostra todas as dificuldades que alguém dedicado ao canto lírico em nossa terra encontra para exercer a sua arte, daí a necessidade de ir para o exterior ou dedicar-se a outras atividades, como o ensino da música, para a sobrevivência. São verdadeiros heróis.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
AGROTÓXICOS
No artigo da revista piauí_193, outubro, A insurreição permanente, há um parágrafo afirmando que “rever os subsídios diretos e indiretos do agronegócio é uma necessidade de ordem democrática”, com colocações muito pertinentes quanto a externalidades negativas que afetam a população e o meio ambiente, solo, água e ar, decorrentes da atividade agrícola.
Prossegue ainda o artigo “as constantes e sucessivas flexibilizações de agrotóxicos poluem a água que consumimos em nossas cidades”. Aqui chegamos a um ponto a ser tratado de forma muito cuidadosa, tendo em vista que a ciência brasileira e mundial tem desenvolvido muitos biopesticidas com toxicidade baixa ou ausente, em condições de substituir muitos dos agrotóxicos químicos de alta toxicidade (Langenbach et al., 2021).
Esses biopesticidas de baixa toxicidade eram muito poucos – em torno de apenas três – até o ano 2000, e hoje registramos mais de duzentos no Ministério da Agricultura. É importante salientar que o número de registros aumentou muito, porém com mistura de produtos já existentes no mercado e grande número de biopesticidas que representam um avanço; portanto, o simples número de produtos registrados não pode ser usado como parâmetro de avaliação de agrotóxicos.
A situação brasileira é paradoxal: de um lado está no Senado o projeto de lei (PL) 6299/02, chamado de “pacote do veneno”, que facilita o registro de muitos produtos de alta periculosidade – inclusive agrotóxicos banidos –, ao mesmo tempo há uma demanda na sociedade brasileira e no mercado internacional por produtos sustentáveis para os quais os biopesticidas são o principal instrumento de realização.
A política brasileira até agora acompanhou a tendência mundial de restringir produtos de alta toxicidade e ecotoxicidade, num processo lento e gradativo que para ser mantido não pode aprovar o pacote do veneno, facilitando a venda de produtos de alta toxicidade ou ecotoxicidade a preços baixos. Outro pilar é incentivar o uso de biopesticidas, dando não só condições de pesquisa, mas apoiando uma divulgação eficiente para essas tecnologias chegarem ao produtor rural. A conjugação dessas duas vertentes permitirá a substituição de agrotóxicos perniciosos por outros muito menos tóxicos, configurando uma política em direção à sustentabilidade.
TOMAZ LANGENBACH_RIO DE JANEIRO/RJ
ERRATA
Na reportagem O abismo em que caímos (piauí_194, novembro), o nome de Alain de Almeida Carneiro, avô da diretora Christiane Jatahy, foi citado erroneamente como João de Assis de Almeida Carneiro. O cenógrafo Marcelo Lipiani era marido, e não namorado, de Jatahy na época em que construíram a casa no bairro Humaitá, no Rio de Janeiro. O curso que a diretora fez com Carlos Wilson e Bia Lessa foi na antiga Faculdade da Cidade, e não no grupo O Tablado. A baiana Gal Pereira não era guia na Chapada Diamantina, mas parente de uma guia. A peça Conjugado foi uma criação de Jatahy com a atriz Malu Galli. As correções foram inseridas na versão digital da reportagem.
Por questões de clareza e espaço, a piauí se reserva o direito de editar as cartas selecionadas para publicação. Solicitamos que as cartas informem o nome e o endereço completo do remetente.
Cartas para a redação:
redacaopiaui@revistapiaui.com.br