cartas

A FALTA QUE FAZ UMA BOA BANCA DE JORNAL

Imagem A falta que faz uma boa banca de jornal

7 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

INVERSÃO

“Queridos amigos da íuaip”, começa a carta de Arthur Nestrovski. “Abri a revista de dezembro de trás para a frente, como muitas vezes faço, seguindo um atávico hábito hebraico. E logo levei um choque: uma foto de página inteira de Gal Costa tocando o violão com as mãos trocadas (Gal, para sempre legal, piauí_195, dezembro). Quer dizer: a mão esquerda dedilhando as cordas, a direita fazendo um acorde de Fá maior no braço do instrumento (pestana na primeira casa).” E completa: “Enfim, além de falso, é muito desconfortável ver o mundo invertido, desse jeito. Esse negócio de esquerda e direita tem de ser levado a sério, fotograficamente falando. Ossi siam maçaf oãn rovaf orp!” Como Nestrovksi tem razão, só nos resta prometer que nunca mais faremos ossi. Abaixo, está a fotografia de Gal em seu correto esplendor. Devidamente admoestado, o departamento de checagem, que no momento está ajoelhado no milho, admite a falha e toma a liberdade de fazer uma única observação: não é opr rovaf, mas rop rovaf.

CRÉDITO: TEREZA EUGÊNIA_1979

VARIEGADOS

Se sobrevivermos às “ações patriotas” pós-diplomações estaduais e ao “esperançoso” 22 de dezembro – movimentos propalados pelas redes sociais para a redenção dos criminosos pelas Forças Armadas –, então podemos dizer que o Natal ao menos existiu. E Camille Lichotti nos mostrou a profundidade em que esse mecanismo atua nas comunidades influenciadas por evangélicos para mudar votos (No império das fake news, piauí_195, dezembro). O estereótipo do templo ser dinheiro se faz presente com a teologia da prosperidade atuando, ainda que o crente tenha fé, “só não se sabe fé em quê”. Em contraponto, Breno Pires revelou a defesa feita pelo PT contra a milícia digital da extrema direita (O show de Jair). Ao menos agora a tragédia foi contida, mas o fim não está próximo, pois as ondas golpistas continuam. Ondas que não são as de Euclides da Cunha em seus poemas juvenis, nem as eletromagnéticas, mas as físicas e mecânicas, lembrando que o pneu da capa se origina do termo grego para ar, um dos quatro elementos que um dia foram divindades e cuja movimentação leva a ondas de vento e tempestades. Dessa vez, Caio Borges – finalmente creditado – e os adoradores de verde e amarelo não divagaram tanto.

ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP

RACISMO

Na piauí_194, novembro, a reportagem Um caso raríssimo trata do assunto racismo que podemos ver em situações cotidianas. Mas na Operação Lava Jato não teve nenhum negro preso; não porque eles sejam mais honestos que os brancos, mas porque não ocupam postos onde se manipule o dinheiro.

DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/SP 

A IMAGEM E O PODER

A reportagem de Ana Clara Costa sobre Ricardo Stuckert, o fotógrafo de Lula, na piauí_195, dezembro (O fotógrafo), revela um viés autoritário do presidente eleito ao impedir que outro profissional o fotografe em suas apresentações públicas, privilégio exclusivo do Stuckinha, como o trata publicamente. O pai dele, Roberto Stuckert, também ganhou fama por ter feito a cobertura fotojornalística do governo João Baptista Figueiredo durante os seis anos de mandato. Essa ligação profunda com o último general-presidente criou um elo de submissão ao chefe, a ponto de ele manifestar sua admiração por Figueiredo, independentemente da ojeriza que ele provocava entre os que batalhavam pelo retorno da democracia. Parece que essa sabujice também contaminou o filho, que ao se acercar de Lula tornou-se uma espécie de escravo do presidente para atender seus caprichos desde que assumiu o cargo em 2002 até os dias atuais, dando-lhe em troca a exclusividade do direito de imagem.

É uma faceta que mostra a vaidade do presidente eleito ao pretender ter toda sua trajetória política e familiar registrada por imagens, para satisfazer seu enorme ego. Considera-se um iluminado, uma vez que é tratado pela militância como líder intocável.  É servil aos empresários e banqueiros poderosos, a quem trata com todo o respeito. Já para os subalternos, revela todo seu ranço autoritário.

Quanto ao Stuckinha, deve ser frustrante comparar sua obra com a do grande Sebastião Salgado, este sim, que faz história com o fotojornalismo.

DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ

MUDANÇAS NA PIAUÍ

Talvez seja apenas impressão minha, mas desde que ocorreu a mudança de “controle” da revista (a instituição do que seria seu fundo mantenedor), a qualidade vem se deteriorando a olhos vistos, ladeira abaixo. Já enviei outra mensagem para vocês informando que não sou vinculado a qualquer corrente ideológica, aliás acho o governo Bolsonaro abominável, o que me fez votar em Lula pela primeira vez na vida (em 2018 nem apareci para votar). No entanto, a revista vem adotando uma linha claramente ideológica, o que a fez entrar na vala comum da imprensa brasileira (não, não estou chamando vocês de uma Carta Capital que escreve melhor…), infelizmente. Leio a piauí desde 2011 por indicação do meu então orientador de mestrado, já fui assinante, me decepcionei com o atendimento e voltei a comprar religiosamente nas bancas, enfim, adoro a revista. Mas já não tenho o mesmo ânimo para a leitura, está muito panfletária. Tomara que volte a ser a piauí que eu conheci, mas em 2023 já decidi que não comprarei mais. Sucesso para vocês! Sei que o trabalho é difícil, e espero que críticas como esta possam ajudar.

LEONARDO ANDRÉ GANDARA_BELO HORIZONTE/MG

NOTA CONFORMADA DA REDAÇÃO: Ao menos escrevemos melhor do que a Carta Capital

PROJETO QUERINO

Não poderia deixar passar em branco e registrar o quanto me encantei com o portfólio de Walter Firmo (Donas de si, piauí_194, novembro) mostrando suas exuberantes fotografias das cenas corriqueiras de mulheres negras no seu dia a dia simples e tão humano. O dossiê piauí e o projeto Querino nos emocionam por mostrar um Brasil que é raramente visto e valorizado e que traz visibilidade para a cultura negra.  Também digno de nota é o texto no mesmo dossiê, que retrata o escritor Lima Barreto (De ressentido a visionário), que sofreu toda sorte de preconceitos e foi tão marginalizado em sua época, devido à origem humilde e sua cor, e que o levou a se entregar ao alcoolismo e depressão e, por fim, à loucura.  Temos que valorizar a cultura e incentivar a percepção, principalmente nas mentes mais jovens, pois o que conta mesmo é que o Brasil é um país diverso e multicultural, e é essa a nossa maior riqueza.

VALÉRIA VIEIRA BORDIN_FLORIANÓPOLIS/SC

BOLSONARO

Quando vocês vão parar de descer o cacete no governo Bolsonaro e começar a elogiar o governo Lula?

LEONARDO BARROSO_via e-mail

NOTA ESPECULATIVA DA REDAÇÃO: Se a pergunta fosse feita pro Leonardo lá de cima – volta, Leonardo! –, ele provavelmente diria: “Agorinha mesmo, nessa edição de janeiro”. A ver, a ver. Certeza mesmo é que os elogios serão muito mais bem escritos do que os da Carta Capital! Leva isso em conta, Leonardo! Pô, não é nada, não é nada…

ALENTO

Leitor da piauí desde a primeira edição (inesquecível Papai Noel escutando Oswaldo Montenegro), a partir de 2009 adquiri o hábito de ler todos os textos da revista. Sei que vocês passaram a não recomendar isso, mas eu era um estudante de jornalismo recém-formado e sem emprego. Raramente acabo por pular um poema intransponível ou um ensaio filosófico mais hermético.

No entanto, em meados de 2019 tudo mudou. Segurei a leitura para tentar terminar Graça Infinita (culpa de vocês) antes do meu filho nascer, mas ele nasceu duas semanas antes do previsto. Então vieram as noites sem dormir, o cansaço e a falta de tempo. Então veio a pandemia, o home office com criança aprendendo a andar em casa. E as revistas começaram a se acumular. Quando fui ver, catorze edições estavam empilhadas.

Minha esposa me pedia para desistir, mas em janeiro de 2022 me programei para tirar o atraso. E dia após dia fui vencendo as edições. Acompanhei o desespero do Fernando de Barros e Silva, com pequeno distanciamento histórico. Mas, o fato é que hoje, 29 de novembro, termino a leitura da edição do mês, sem nenhuma outra me observando. Talvez sinta algum vazio existencial, mas espero que, assim como eu, o Fernando esteja um pouco mais otimista do que estava na edição de novembro de 2020.

P.S.: Mantenham sempre a parceria com a Livraria da Travessa. É a única forma que eu tenho de comprar  a revista, porque já não existem mais bancas de jornal em Cuiabá.

GUILHERME BLATT_CUIABÁ/MT

NOTA DE QUEIXO CAÍDO DA REDAÇÃO: Nem Amundsen na sua viagem ao Polo Sul, nem Sir Edmund Hillary na sua escalada do Everest, nem Amir Klink remando sozinho da África à América do Sul – não, não, é preciso ir além: ousamos dizer que nem a epopeia de Ulisses tentando voltar pra casa encerra a dimensão épica e a tenacidade transcendental do teu feito, Guilherme! Ó triste mundo contemporâneo, onde está o teu Homero capaz narrar essa Odisseia contemporânea? Estamos diante de uma história que precisa ser imortalizada! Nos contentaríamos até com um poema menos bem escrito do que a Carta Capital!

Por questões de clareza e espaço, a piauí se reserva o direito de editar as cartas selecionadas para publicação. Solicitamos que as cartas informem o nome e o endereço completo do remetente.

Cartas para a redação:
redacaopiaui@revistapiaui.com.br


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.