heróis do gramado I
Marcos Caetano Jan 2023 17h21
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Pelé foi mais um dos grandes símbolos nacionais vilipendiados por um povo que parece nutrir uma espécie de fetiche pela devastação. Obviamente, não se trata de um sentimento generalizado, mas é impossível negá-lo. A impressão que tenho é a de que, para muitos de seus compatriotas, o Rei nunca foi bom o suficiente a ponto de merecer a mesma admiração que despertava no resto do mundo. E acredito que só agora, quando o perdemos para sempre, é que começamos a perceber a insanidade de não termos dado a ele, antes, o devido valor. Ocorreu o mesmo com o Palácio Monroe e a Avenida Central, com o Museu Histórico Nacional e com as Sete Quedas, com João Gilberto e com Garrincha, e, claro, com a Taça Jules Rimet.
Acabo de redigir essas primeiras linhas e já me dou conta de que esse não era o parágrafo de abertura que sonhei escrever quando Pelé nos deixasse. Entretanto, diante da quadra tão difícil que o país atravessa, a necessidade de falar de devastação em um ensaio que deveria ser uma gloriosa epopeia se tornou indeclinável. Eu trairia a memória do grande ídolo se me deixasse levar pela tentação de colocar no papel, como muita gente talentosa já fez, nada mais do que um fluxo de palavras formidáveis com as façanhas que o Rei produziu nos gramados. Sendo assim, preciso aceitar que o texto para o qual me preparei por mais de vinte anos começou e terminará bem diferente do que eu havia imaginado.
Alguém poderá considerar exagero que um jornalista seja assombrado há duas décadas por um texto póstumo, mesmo sendo ele sobre o maior atleta de todos os tempos. Mas só quem trabalhou na seção de esportes de um grande jornal ou num canal esportivo conhece a obsessão despertada apenas por aquilo que precisaria ser feito quando chegasse a notícia da morte de Pelé. Em todas as redações pelas quais passei, toda vez que discutíamos a importância da prontidão na profissão de jornalista, essas perguntas vinham em seguida: “E se Pelé morresse agora? Quem entraria ao vivo do hospital, do velório? Quem estaria no estúdio para dar a notícia no meio da transmissão de um jogo?” Da mesma maneira que as fábricas realizam treinamento para ensinar aos operários como reagir no caso de um incêndio, o jornalismo esportivo tinha um protocolo de atuação especificamente definido para quando o Rei morresse. Os colunistas ficavam tensos, porque sabiam que caberia a eles a impossível tarefa de preparar textos que estivessem à altura do homenageado. E eu não fui exceção.
Na verdade, tão logo eu soube da deterioração do quadro de saúde de Pelé, combinei com a piauí que eu me encarregaria da despedida. Minha única exigência foi não escrever uma palavra sequer antes da partida do Rei. Sei que as regras do bom jornalismo ditam que é sensato ter um texto de gaveta para situações assim. Mas, no meu ofício de cronista esportivo, o cronista costuma vir depois do esportivo. O lado torcedor fala mais alto e, como torcedor, eu achava que escrever sobre a morte de Pelé antes do seu último suspiro poderia trazer má sorte. Para ele ou, até mesmo, para mim. Nunca tente entender a superstição de um apaixonado por futebol. Nossa vida é um sem-fim de rituais e mandingas.
Dito isso, cá estou, diante da tela do computador e do maior assunto de todos os assuntos da crônica esportiva. A verdade é que, crendices à parte, acho que fiz bem em ficar longe do teclado do computador antes da consumação do fato. Por duas razões: a primeira, mais óbvia, é que seria inútil escrever o texto heroico que eu vinha imaginando para publicá-lo mais de um mês depois da partida do homenageado e da avalanche de palavras de veneração que cobriu as capas e páginas de todas as publicações mundo afora. Nada mais seria inédito; nada mais conteria a emoção e o espanto dos que tiveram a missão de escrever sobre o Rei enquanto seu corpo era velado no solo sagrado da Vila Belmiro. A segunda razão, mais pessoal, é que só fui compreender com mais profundidade a diferença marcante entre a relação que o mundo e o Brasil têm com Pelé depois de acompanhar as reações ao seu desaparecimento.
“Pelé morreu, se é que Pelé morre” foi a manchete do jornal O Estado de S. Paulo. A Folha de S.Paulo foi lacônica: “Morre Pelé.” Dos três grandes jornais brasileiros, O Globo arriscou um adjetivo: “Pelé eterno.” Enquanto isso, as manchetes de jornais estrangeiros captaram de forma mais profunda o significado do acontecimento. Cito apenas duas, entre tantas, as que me causaram mais emoção: È morto Pelé, l’uomo che inventò il Brasile (Morreu Pelé, o homem que inventou o Brasil), publicou o jornal italiano Domani. O francês L’Équipe foi mais categórico: La fin d’un monde (O fim de um mundo). A simples contraposição das manchetes internacionais e nacionais já seria suficiente para demonstrar a tese de que o Brasil amou Pelé muito menos do que deveria ter amado. Mas há outros exemplos que ajudam a explicar um pouco mais essa sensação que tenho.
Uma das formas de escancarar a relação complexa que boa parte dos brasileiros tinha com Pelé é observando como outros países se relacionam com seus ídolos, por mais imperfeitos que eles sejam. O exemplo mais óbvio – até porque essa disputa dominou o mundo do futebol por décadas – é Maradona.
Cerca de vinte anos atrás, publiquei no Jornal do Brasil que havia muito tempo que as pessoas vinham discutindo quem era o Pelé do basquete, do vôlei, da natação, da política, do cinema – e até o Pelé do fliperama da Rua Augusta. O escritor argentino Adolfo Bioy Casares defendia que não há graça alguma em ter inimigos distantes, pois o melhor inimigo é sempre o mais próximo. Talvez por isso, nossos vizinhos resolveram decretar que o Pelé do futebol se chamava Maradona. Apoiaram-se numa eleição eletrônica fajuta, parecida com aquelas adotadas para eliminar alguém do BBB, mas pouco importava. Para os argentinos, Maradona foi maior do que Pelé e ponto final (a única discussão que eles admitem ter, hoje em dia, é se Maradona continua a ser o maior ou se Messi, depois da Copa do Catar, assumiu o posto). Sempre achei curioso que uma enorme quantidade de brasileiros admitisse não apenas que esse debate era válido, mas que os hermanos pudessem ter razão.
Quando morei em Buenos Aires, tive a chance de ver Maradona em ação muitas vezes. Era um gênio. Ganhou uma Copa praticamente sozinho e foi um imperador na Itália, onde jogou no Napoli. Fazia o que queria com a bola, mas, acima de tudo, foi apaixonado pelo seu ofício, apaixonado pela arte de jogar com classe, coisa em extinção hoje. Daí a compará-lo com Pelé, no entanto, vai uma diferença intransponível. Em artigo que escrevi em 2017, tracei um paralelo com base em números. Maradona fez 345 gols ao todo – quase o mesmo que Pelé depois de seu milésimo gol. O brasileiro fez mais gols de todos os jeitos – de cabeça, de falta, de pé direito, de peito. Até com o pé esquerdo superou Maradona, que era canhoto. Mas, indo além da frieza estatística, Pelé alegrou o mundo como nenhum outro jogador. Nem é preciso lembrar que uniu nações, interrompeu guerras, derrubou fronteiras políticas e raciais. Transcendeu.
Entretanto, a maior façanha de Pelé foi o fato de ter sido Pelé – e ter sobrevivido a isso. Está além do meu entendimento que ele tenha conseguido manter-se mentalmente são, sabendo-se um dos rostos mais conhecidos do planeta, uma pessoa tão venerada e tão visada. Maradona não suportou a pressão de ser Maradona. Foi demais para ele conviver com o massacre psicológico da idolatria de milhões. Como tantos outros mitos do esporte, não suportou o peso da fama e desabou.
Recordo que, já sessentão, Pelé aceitou participar do jogo de despedida de Maradona, em 2001. Àquela altura, o craque argentino era uma sombra do que fora. Pelé, por sua vez, apesar dos vinte anos a mais que Maradona, continuava a luzir o físico de quando abandonou os campos. Só aquela imagem, a do senhor preservado e atlético, contraposta à do jovem devastado, já seria suficiente para provar o óbvio: Pelé não jogou mais que Maradona apenas enquanto esteve na ativa. Pelé jogava mais do que Maradona ainda naquele dia.
O Pelé do futebol foi, obviamente, o próprio. E provou isso, mais uma vez, quando foi à Argentina desfilar sua majestade com discrição, em respeito ao anjo caído Diego Maradona, a quem eu chamava de “o homem que queria ser rei” – e que se deixou destruir por não haver conseguido.
Na vitória ou na derrota, magro ou gordo, erguendo a Copa do Mundo ou sendo pego no doping, driblando ou mandando bala nos jornalistas, fazendo gols ou xingando o papa, Maradona foi e continua sendo amado pelos argentinos de forma incondicional, com todos os defeitos e virtudes. Para os brasileiros, bastava uma frase infeliz de Pelé para que ele fosse desalojado do altar dos heróis.
Eu poderia listar muitos ídolos esportivos cheios de defeitos que receberam mais amor de seus compatriotas do que Pelé dos brasileiros, mas citarei apenas Michael Jordan. Poucos atletas obtiveram a projeção global – e, sobretudo, a admiração nacional – que o basquetebolista norte-americano. Sua fama e influência são tão notáveis que, no ranking das marcas esportivas que mais faturam nos Estados Unidos, a Air Jordan, uma joint venture entre o atleta e a Nike, aparece em terceiro lugar, atrás da própria Nike e da Adidas. Não perca tempo perguntando aos norte-americanos se Pelé foi maior do que Jordan. Para eles, o único atleta que talvez tenha superado o craque das quadras foi o boxeador Muhammad Ali.
A série documental Arremesso Final, um dos sucessos da Netflix em 2020, acompanha a última temporada de Michael Jordan no Chicago Bulls, time pelo qual viria a conquistar seu sexto título da NBA, a liga de basquete norte-americana. Além da esplendorosa performance do time e de seu líder, o documentário chama a atenção por ter criado um dos memes mais difundidos nas redes sociais. É bem provável que você já o tenha visto. O meme mostra Jordan às gargalhadas, com um tablet nas mãos, assistindo aos depoimentos de alguns de seus rivais das quadras. O desprezo do ídolo pelos outros craques que ousaram dizer que se sentiam capazes de vencê-lo está escancarado naquelas risadas. É um momento perturbador até para quem o considera, digamos assim, o Pelé das quadras. Pois bem, imagine o que diríamos do Rei se ele adotasse tal postura em relação aos rivais. E aqui vale notar que, ao contrário de Pelé, Jordan não foi o jogador que mais ganhou títulos importantes, nem o que mais venceu jogos, nem o que mais marcou pontos ao longo de sua trajetória.
Sempre nutri certo sentimento de inferioridade por pertencer a uma geração que não viveu a época das chanchadas, da bossa nova ou do Cinema Novo, que não enfrentou ditaduras para valer, que fez poucas passeatas e, principalmente, não acompanhou a epopeia do tricampeonato mundial de futebol, em 1970. Meu pai, que tinha um afiado sentimento da História, fez questão de me manter acordado para assistir na tevê à transmissão do ápice da missão Apollo 11. “O homem está caminhando na Lua, filho. Lembre-se de que você viu isso ao meu lado”, disse ele, na noite de 20 de julho de 1969. Por causa disso, consigo recordar até hoje da cor do sofá da sala da pequena casa de vila, em Madureira, onde morava minha família. Lamentavelmente, meu pai não teve a mesma visão de longo alcance em relação ao futebol. Temendo tumultos no Maracanã, ele me deixou em casa na noite em que Pelé marcou o milésimo gol, em 19 de novembro de 1969, e também na tarde que marcou sua despedida da Seleção, em 11 de julho de 1971.
Não condeno a decisão do meu saudoso velho, que morreu tão moço, antes que pudesse ver craques como Maradona, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Messi. Mas o fato de eu não ter visto Pelé em campo agravou minha certeza de ser um indivíduo menor. Amar o futebol sem ter deparado com o maior dos gênios envergando a imaculada camisa branca de uma equipe interiorana – que ele transformou em lendária – ou a camisa amarela da Seleção, que ele transformou em patrimônio da humanidade, é inconcebível. Meu valor como pessoa é ainda menor porque não acompanhei as copas de 1958, 1962 e 1970; porque não vi o chapéu-coco que Pelé exibiu aos galeses nem a cartola que aplicou nos suecos; porque não testemunhei o Rei desmaiar no gramado após marcar o gol que sacramentou o fim do nosso complexo de vira-latas; porque não vi sua fugaz participação no bicampeonato do Chile, uma conquista com a marca de Mané Garrincha, ao lado de quem ele jamais perdeu um mísero jogo; porque não vi os maravilhosos gols que fez em 1970 nem os gols ainda mais extraordinários que perdeu; porque não acompanhei sua cabeçada certeira contra a Itália nem o passe açucarado para Carlos Alberto Torres colocar um ponto final no maior concerto de futebol de todos os tempos; porque não vi o gênio de joelhos, braços abertos como o Cristo de Salvador Dalí, despedindo-se da torcida santista nos quatro pontos cardeais do estádio; e, acima de tudo, porque pertenço a um tempo de jogadores majoritariamente arrogantes e sem identificação com seus clubes.
(Mencionei o Santos e aqui cabe um comentário desavergonhadamente clubista: se Pelé tivesse jogado pelo meu Fluminense, em vez do glorioso alvinegro praiano, eu simplesmente me recusaria a discutir futebol com qualquer indivíduo, exceto, talvez, com algum fanático do Real Madrid, a quem eu dedicaria no máximo uns dois ou três minutos de prosa. Mas, aqui, no Brasil? Ora, o que mais pode querer um torcedor de um clube pelo qual jogou, por quase duas décadas, o maior entre todos os gigantes, marcando mais de mil gols? Deus deveria castigar os santistas que cobiçam novos títulos. Depois de Pelé, o Santos jamais precisará de outras glórias. Mesmo que o time vagasse pela terceira divisão até a consumação dos tempos, seus torcedores teriam pleno direito de andar dois palmos acima do chão, numa atitude de insuportável superioridade moral, estética e intelectual em relação aos pobres-diabos que escolheram apoiar outras equipes.)
A verdade é que, da mesma maneira que ecoa até hoje a façanha atlética de Fidípides – que há dois milênios e meio correu de Maratona a Atenas para informar aos atenienses que eles tinham vencido a batalha contra os persas –, acredito que o próprio futebol acabará antes que acabem as lendas sobre Pelé. Porque, se fatos históricos e batalhas como a de Maratona acabam se perdendo na poeira da história, grandes heróis, como Fidípides e Pelé, são eternos. Embora improvável, é possível que um dia a humanidade perca o interesse por esse esporte chamado futebol. Entretanto, jamais desaparecerá o interesse pela figura de Pelé e por tudo o que ela representou para o mundo e, em especial, para o Brasil.
Apesar disso, é triste observar que não soubemos entregar flores em vida ao Rei e, quando eventualmente as entregamos, deixamos os espinhos. Tenho a impressão de que todas as vezes que enaltecíamos os feitos extraordinários de Pelé, precisávamos logo arrematar o comentário com alguma crítica à vida pessoal de Edson Arantes do Nascimento. É célebre o mecanismo psicológico que o Atleta do Século encontrou para separar o cidadão Edson do gênio esportivo Pelé. Resta saber se ele fazia isso para preservar a sanidade do Edson ou a imagem de Pelé – ou ambas as coisas. Seja como for, esse mecanismo abriu as portas para que muitas pessoas passassem a elogiá-lo com entusiasmo e criticá-lo cruelmente na mesma sentença. Nunca tive notícia de que algum outro ídolo esportivo de dimensão mundial tenha recebido semelhante tratamento de seus compatriotas.
As razões para a má vontade meio que generalizada dos brasileiros com Pelé sempre me intrigaram. Cheguei a esboçar explicações que, embora constrangedoras, eram mais diretas, como nosso racismo estrutural e o preconceito de classe. É claro que os pecados ancestrais da sociedade brasileira continuam mais do que presentes – os últimos quatro anos deixaram isso ainda mais evidente – e com certeza tiveram sua parcela de culpa. Mas o problema do Brasil com seu filho mais famoso não se limitava a isso.
Em termos esportivos, Pelé era inatacável. Ele não teve que lidar sequer com um drama comum a todos os desportistas: a decadência. Basta recordar que, nos últimos campeonatos que disputou com as três camisas que vestiu (Seleção Brasileira, Santos e New York Cosmos), o Rei terminou com uma taça de campeão nas mãos. Já como cidadão – o tal Edson –, ele colecionou algumas quedas. Nada, em minha opinião, com dimensão ultrajante.
Entre os maiores tropeços de Pelé estão algumas frases típicas de um homem simples, quase matuto, e muito desconfiado de gente mais sofisticada. Havia também a dificuldade de confrontar os poderosos, pois não tinha noção do próprio poder e temia prejudicar sua carreira. Acima de tudo, tivemos o lamentável episódio da filha que ele se negou a reconhecer, Sandra Regina. Aqueles que conheceram Pelé de perto garantem que isso aconteceu por razões financeiras, explicitadas, desde os primeiros contatos, por Sandra, seu marido e seus advogados. Anos mais tarde, o Rei reconheceu sem maiores problemas outra filha, Flávia Cristina, com quem conviveu até o final da vida.
Fora isso, é possível afirmar que na trajetória de Pelé não constam escândalos financeiros, sonegação de impostos, denúncias de abuso sexual, consumo de drogas ou maus-tratos a fãs, coisas que hoje parecem fazer parte do kit comportamental dos craques dos gramados. Nas poucas vezes que estive com ele, me deparei com um homem agradável, humilde, acessível e muito respeitoso com seus fãs. Uma dessas ocasiões foi durante o lançamento do canal esportivo PSN, hoje extinto. Tarde da noite, já encerrado o evento, o Rei continuava a distribuir autógrafos a todos: dos donos do canal à equipe que começava a chegar para fazer a faxina do local. Ele só foi embora depois de autografar para a derradeira pessoa da fila. Outra vez, durante um jantar num restaurante japonês na região dos Jardins, em São Paulo, um dos garçons discretamente sugeriu a ele que o pessoal da cozinha queria conhecê-lo. Pelé se levantou, foi até a cozinha, assinou aventais e guardanapos, gravou vídeos e tirou fotos com todos. Essas não foram situações excepcionais. Quem organizava eventos com o Rei sabia que era impossível trabalhar com horários rígidos, pois ele só deixava o local depois de atender o último fã.
Eu já imaginava que ficaria bastante comovido quando chegasse a hora de escrever o texto de despedida do maior ídolo esportivo que já tive. Mas as emoções que experimentei nos dias que se seguiram à notícia de sua partida superaram qualquer expectativa. Em seu livro Febre de Bola, o escritor inglês Nick Hornby diz que a principal razão de alguns de nós torcermos fanaticamente por um time (no caso dele, o Arsenal, de Londres) é garantir que seremos lembrados, mesmo após a morte, pelas pessoas que nos amam. E ele está coberto de razão. Tenho absoluta certeza de que sempre que o Fluminense conquista uma grande vitória, ou fracassa espetacularmente, ou apenas tem um jogo transmitido pela tevê, meus familiares e amigos se lembram de mim, mesmo que por um breve instante. Quando conquistamos um título, recebo telefonemas e mensagens como se fosse o presidente do clube ou o pai do jogador que marcou o gol da vitória. O que eu não sabia é que as pessoas que nos querem bem se recordam de nós por causa não apenas do nosso clube, mas também dos nossos ídolos. Por isso, passei dias recebendo mensagens, fotos, telefonemas e matérias jornalísticas sobre Pelé. E chorando de emoção com todas elas.
“Eu sei que você adorava o Pelé, então veja só a capa desse jornal italiano”, disse um amigo, em uma mensagem. “Olha que fotos maravilhosas”, disse outro. “Nosso querido descansou”, escreveu minha mãe, alguns anos mais velha do que o Rei. A cada mensagem, mais lágrimas. E então percebi não apenas que Pelé fazia parte da minha vida de forma muito intensa, mas também que, nas cinco ocasiões em que mais chorei na vida, três estavam relacionadas ao futebol: na derrota da Seleção Brasileira para a Itália, na Copa do Mundo de 1982; quando o Fluminense perdeu a Copa Libertadores da América na disputa de pênaltis, em 2008, em pleno Maracanã; e agora, no adeus a Pelé. Quem disse que o futebol é a mais importante das coisas menos importantes precisa conhecer alguém como o Nick Hornby – ou como eu.
Não foi, no entanto, apenas a paixão futebolística que me levou a sentir de modo tão intenso a morte de Pelé. Por tudo o que ele representava, foi como se o Brasil tivesse mudado subitamente de fisionomia. Os norte-americanos dizem que o Rei tinha um “sorriso de 1 milhão de dólares”. Sorriso que era, também, o do meu país. Aquele sorriso, aquela camisa 10 amarela, aquelas jogadas eternas, dispensavam maiores explicações sobre o que é e o que pretende o Brasil. Nenhuma das agruras de nossa combalida Pindorama parecia capaz de arruinar a imagem que o Rei projetava. Sem ele, teremos que buscar um novo significado para a alegria, a criatividade, a diversidade e a arte, que sempre foram – e precisam continuar sendo – as nossas marcas registradas. Não será uma tarefa simples.