obituário
João Camarero Jan 2023 18h26
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Certa vez, Sérgio Abreu me convidou para experimentar um violão que ele tinha acabado de construir. Já éramos amigos havia alguns anos, e eu, mesmo sendo quatro décadas mais novo que ele, frequentava seu apartamento com alguma regularidade durante o tempo em que morei no Rio de Janeiro. Aquela, no entanto, era uma ocasião rara. O violão não tinha sido feito para nenhum cliente, ninguém o encomendara. Era uma homenagem de Sérgio a Adolfina Raitzin de Távora, sua mestra, falecida em 2011. Sérgio batizou o instrumento de Dona Monina, como ela era conhecida.
Lembro-me do impacto ao segurar o instrumento – a marchetaria, as madeiras seculares, os filetes laterais, o verniz, cada detalhe me deslumbrava. Depois da contemplação inicial, comecei, enfim, a tocar – e era como se domasse um cavalo bravo. Passados alguns minutos de estranhamento, logo nos conectamos como velhos amigos. Eu estava em êxtase com a quantidade de som que o instrumento oferecia. Não eram apenas volume e projeção sonora, mas também cores, diferentes timbres que os bons violões entregam. Os harmônicos soavam lindamente; graves, médios e agudos perfeitamente equilibrados. Todas as notas cantavam. Eu estava nas nuvens quando Sérgio me interrompeu com seu jeito doce: “Experimente tocar a 12ª casa da primeira corda.” Obedeci. Para minha surpresa, a nota durava menos. Depois de se projetar, seu som decaía mais rapidamente. Perguntei a ele por que razão aquilo acontecia. Sérgio encolheu os ombros e respondeu: “Mistérios da luteria.”
Antes de construir violões, Sérgio foi um excepcional violonista. Ao lado do irmão Eduardo, formou o lendário Duo Abreu. Tinham 15 e 14 anos, respectivamente, quando estrearam, em 1963. No ano seguinte, fizeram um recital organizado por Jacob do Bandolim, em sua casa. Em 1965, mais recitais, sendo três na Argentina. E em 1967, Sérgio ganhou o Concurso Internacional de Violão de Paris, da Agência de Radiodifusão de Televisão da França (ORTF, na sigla em francês), na época, o mais prestigiado do mundo. Era, até então, o mais jovem músico a receber o título. A partir daí, os irmãos se consolidaram internacionalmente. No auge, o Duo Abreu trabalhou com o mesmo empresário de Vladimir Horowitz e Jacqueline du Pré. Dividiam séries com Martha Argerich, Pierre Boulez, Julian Bream. Sérgio chegou a tocar com Yehudi Menuhin.
O Duo Abreu, no entanto, se desfez de maneira precoce, quando ocupava os lugares mais nobres da música de concerto. Cansado da exposição e das viagens, Eduardo abandonou a carreira aos 26 anos, em 1975. Em 1981, Sérgio também se aposentou, para se dedicar exclusivamente à luteria, tornando-se a partir daí um dos mais importantes construtores do mundo.
A relação de Sérgio com a vida prática era pouco convencional. Seu ciclo de trabalho sempre foi intenso. Trabalhava até a exaustão, varando madrugadas, emendando os dias. E então dormia muito, perdendo frequentemente a noção do tempo. Se alguém ligasse para ele às oito da noite, nunca saberia se ele estava acordando, jantando, almoçando ou indo dormir.
Morava em Copacabana, num apartamento que pertencera à sua mãe e que se manteve praticamente inalterado ao longo de décadas. Num dos quartos, guardava caixas de arquivos cheias de partituras, rolos de fita, programas de recitais antigos. No outro, havia inúmeros estojos de violão. A cozinha, revestida de azulejos estampados, abrigava um fogão Cosmopolita verde esmaltado.
O prato que Sérgio mais gostava de fazer, porém, dispensava o fogo. A famosa “salada da Margarida” era uma espécie de salada de batatas com maionese, mas sem batatas. E saía cada vez de um jeito. O único ingrediente obrigatório era a maionese, que ele temperava, e improvisava o resto. Batatas, jamais. Numa noite, nunca me esqueço, falávamos sobre música, violão, maneiras de interpretar. Ele mais ouvia do que falava, até que, num certo momento, lançou uma expressão de sarcasmo com o rumo da conversa e emendou: “Interpretar é um pouco como temperar uma salada: azeite com generosidade, vinagre com avareza, sal com sabedoria e pimenta com malícia.” Era irônico, idiossincrático e naturalmente genial.
Ricardo Dias, também luthier, foi uma figura constante e fundamental na vida do amigo. Dele ouvi algumas das muitas histórias que revelavam o talento excepcional de Sérgio. Numa ocasião, Ricardo dirigia seu carro quando começou a ouvir no rádio um quarteto de cordas. Certo de que chegaria ao seu destino antes do final da peça, ligou para Sérgio e perguntou qual era a música. Sérgio ouviu um trecho e disse, decidido: “Beethoven.” Mais um trecho, e disse o opus. Depois de ouvir mais um pouco, comentou: “Curioso, parece o Quarteto Alban Berg tocando, mas está diferente da gravação que eu tenho.” Ricardo ficou intrigado. Chegou ao seu destino, mas esperou dentro do carro pelo fim da transmissão. Sim, era Beethoven. Sim, era o opus certo. E sim, era o Quarteto Alban Berg, mas numa gravação ao vivo. A referência de Sérgio era uma gravação de estúdio.
Ricardo também se recorda que, numa dessas jornadas de mais de 18 horas de trabalho em sua oficina, Sérgio voltou para casa exausto. Ao chegar, lembrou-se que na sala de estar de seu apartamento aconteceria uma gravação. Era o professor Jodacil Damaceno, que já se preparava, ao lado do próprio Ricardo, para o que seria seu último registro. Sérgio cumprimentou a todos e foi descansar no quarto. Jodacil começou a repetir um trecho da peça que iria gravar. Sérgio despontou no corredor, de pijama, descabelado: “Jodacil, você está tocando si bemol. É si natural!” Virou as costas, voltou para o quarto. Desconcertado, Jodacil caiu em si. Estava, de fato, tocando uma nota errada. E começou a rir ao reconhecer que durante muitos anos não havia se dado conta disso.
Sérgio Abreu começou seus estudos ainda criança com o avô e aos 12 anos foi ter aulas com Monina Távora. Dentre os violões da professora, um era absolutamente fora do comum e impactou para sempre o jovem aprendiz. Monina havia sido uma das raras alunas do andaluz Andrés Segovia (1893-1987), que foi o grande responsável pelo lugar de destaque do violão na música erudita. Ao fazer encomendas de peças a compositores como Heitor Villa-Lobos, Segovia modernizou o repertório, definiu caminhos estéticos e elevou muito o patamar da interpretação.
Dona Monina herdou do mestre um violão feito pelo luthier alemão Hermann Hauser. Sérgio dizia que, além das aulas com sua mestra, o contato com aquele instrumento específico – que posteriormente ele herdaria – o marcou para sempre. O violão que pertencera a Segovia era, de longe, superior a qualquer outro que Sérgio já havia tocado. Quando começou a se interessar pela luteria, antes mesmo de abandonar a carreira de concertista, Sérgio se deteve longamente nesse exemplar do instrumento. Fez desenhos da planta, tirou todas as medidas de forma precisa, examinou-o a fundo. Aproveitava as viagens das turnês para entregar os dados que reunira sobre aquele violão a construtores ao redor do mundo. Tinha a esperança de obter algo similar ao original, mas nunca se satisfez com os resultados.
A partir da década de 1980, Sérgio começou a se dedicar com obstinação ao ofício de luthier. Buscava sempre aquele que considerava um ideal de sonoridade. Diferente do trabalho do compositor ou do intérprete, a produção do objeto tátil talvez seja a coisa mais próxima da materialização da música. Sérgio morreu aos 74 anos em decorrência de problemas pulmonares, no Rio de Janeiro. Não teve filhos. Continuará soando mundo afora, transformado em madeira, por meio dos mais de mil instrumentos de sua lavra. É assim que vamos seguir celebrando sua existência. Todos os violões feitos em torno de um ideal, cada qual com suas peculiaridades. Mistérios da luteria.