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UM PRESIDENTE DESCONDENSADO, E UM EX-PRESIDENTE DESCOMPENSADO

Imagem Um presidente descondensado, e um ex-presidente descompensado

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MAIS BIOGRAFIAS

Pode ter sido por economia de tinta não terem escrito por extenso o meu nome do meio (Cartas, piauí_197, fevereiro). Abreviada foi também a leitura do mês, em parte devido à Luck, a gata preta que adora se deitar sobre a piauí. A outra parte poderia ser atribuída ao desinteresse, mas foi principalmente preguiça macunaímica. Não sou adepto do futebol, preferindo as bolas bem mais rápidas do vôlei e do tênis. Porém, não foi sem emoção que li o belo necrológio de Pelé feito por Marcos Caetano (O rei que o Brasil não soube venerar, piauí_197, fevereiro). Ele conseguiu repetir informações sem cair no lugar-comum e coroar elementos sutis da existência, tanto do jogador, quanto do Edson a ele atrelado. Reitero minha cantilena acerca da necessidade de haver mais biografias de personagens de nossa história, mesmo sendo futebol o fio condutor. Na parcimônia com a leitura, fiquei contando os nós do trançado da capa, chegando a um número que se aproxima dos yanomamis ameaçados ou vitimados pelo genocídio em curso, semelhante às luzes em memória dos vitimados pela Covid, daquela triste piauí_167, agosto de 2020. Tais nós representam todos nós. A capa da piauí_175, abril de 2021, precisou ocultar o agente do genocídio, que agora está explícito, ainda que impune.

ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP

PRESIDENTE DESCONDENSADO

Como que do nada, lendo a matéria O poço (piauí_197, fevereiro), parece que ela foi invadida pela redação de The piauí Herald: “Lamentavelmente não viveremos anos de paz enquanto o descondensado governar o país.”

Só porque o atual presidente ainda não veio a público demonstrar apreço pela iguaria bolsonarista, já merece o rótulo de descondensado?

MARCELO R. ROMÃO_SÃO PAULO/SP

NOTA ETIMOLÓGICA DA REDAÇÃO: A palavra é semanticamente rica. Alude, sim, aos que não são adeptos da iguaria bolsonarista, mas não só. Descondensar também significa estender-se, espalhar-­se, como em “Arthur Lira descondensou o orçamento secreto” ou “Sempre que discursa, Dilma descondensa o vocabulário”. Por fim, descondensar também se refere ao ato de passar do estado líquido ao estado gasoso, e, por figuração, do que era presente para o que se tornou sumido, partiu, tomou o avião da FAB, foi pra Disney etc. Resta saber qual o sentido que o deputado Sóstenes Cavalcante, autor da frase, deu à palavra.

BADERNA

Que miríade para nós leitores uma matéria tão esclarecedora e bem redigida como essa do cientista político Miguel Lago (Prendam os perfis!, piauí_197, fevereiro) – parabéns! Impecável o trabalho, a análise e as considerações expostas nesse artigo de forma direta e perfeita. O paralelo entre os eventos de 2013, de 2021 no Capitólio americano e a barbárie de janeiro de 2023 é digno de um elogio à parte, pois sempre me peguei pensando nisso e fazendo comparações simples e caricatas demais. Miguel Lago trouxe a beleza das discrepâncias e semelhanças entre os eventos e me peguei refletindo até agora sobre o texto (já li quatro vezes seguidas!).

Por fim, sempre achei que os danos causados pela horda de baderneiros foram “minimizados”, pois sempre em uma das mãos havia o celular filmando as bestialidades proferidas contra nosso patrimônio – e não se perde a oportunidade de colocar no Instagram a democracia sendo fortalecida pelas mãos pueris e imbecis de influencers do caos.

ANDRÉ PIRES_SÃO PAULO/SP

NOTA ADMIRADA DA REDAÇÃO: Quatro vezes! Isso bate até as três leituras que criminalistas fizeram de um artigo de Roberto Kaz logo antes de nos processarem.

PELÉ

Na matéria O rei que o Brasil não soube venerar (piauí_197, fevereiro), Marcos Caetano toca num aspecto-chave quando diz que Pelé não peitou os poderosos para não prejudicar sua carreira.

Essa postura arraigada na estrutura ideológica do povo brasileiro explica tudo que vivemos.

Foi exposta de forma magistral por Graciliano Ramos em Vidas Secas, no qual o personagem Fabiano, após ter sido agredido e humilhado pelo soldado amarelo, ao encontrá-lo sozinho num local ermo, mesmo sendo mais forte não foi à forra porque o soldado estava fardado, representava autoridade.

Desde sempre a população dos baixos estratos sociais deixava os filhos estudar só até aprenderem a ler e escrever o nome; diziam que seus filhos iriam puxar enxada e para isso não era necessário grandes estudos.

O ataque a esse pilar mestre da nossa sociedade não se daria sem conflitos.

DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/SP

ESQUINEIRO DE CARTEIRINHA

Quando pego a piauí na banca já corro logo para a seção Esquina. Sempre dou umas paradinhas por ali, embora sinta que é a seção mais “esquecível” da revista. Todos citam as grandes reportagens, os grandes textos, as grandes fotos…

Adoro essas esquinas! O problema é que a revista não coloca informações sobre os colaboradores dessa seção. Em priscas eras, sequer era citado o nome de quem escreveu o texto. Gosto de nomear. Há textos dos repórteres colaboradores da revista – como o melhor da piauí_197, fevereiro, sobre a Fatima Ali – escrito pela craque Angélica Santa Cruz. Mas O clube não era na esquina (muito bom) foi escrito por Silvana Arantes. É só para informar aos leitores, caso minha missiva seja publicada: acho que é a Silvana Arantes, editora de cultura de um certo jornal aqui em Minas (estou certo?), que por sua vez tem uma queda por um certo candidato que perdeu a eleição para Dilma Rousseff. Mas como gosto de nomes, vamos lá: Aécio Neves e jornal Estado de Minas. Ih… agora acho que não vão publicar a minha carta.

Aproveitando: já que citei a Dilma, que tal fazerem o diário de Lula, como faziam com ela? Seria supimpa!

GERALDO MAIA_BELO HORIZONTE/MG

NOTA SURPREENDENTE DA REDAÇÃO: Surpreendente pra você, Geraldo! Carta publicada! Quanto às afinidades eletivas da nossa imprensa, o tema é controverso. Por exemplo: nós mesmos já fomos chamados de esquerdistas moderados, de petistas da linha albanesa, de enamorados da terceira via, de adoradores da Faria Lima, de globalistas, de gayzistas, de anarquistas, de isentões, de tendenciosos, de apáticos, de gramscianos e de olavistas. Dói muito. No fundo, quando começamos a gente só queria mesmo era ganhar um dinheirinho com esse tal de jornalismo.

JORNALISMO À VERA

O cidadão Janio Sérgio de Freitas Cunha – o jornalista Janio de Freitas –, natural de Niterói, nascido em 9 de junho de 1932, foi devidamente retratado por seu ex-colega da Folha de S.Paulo, Ricardo Balthazar, no excelente texto “Eu preferia ir para o Havaí” (piauí_197, fevereiro), uma merecida homenagem a essa figura icônica do jornalismo investigativo brasileiro, que, com coragem e determinação, denunciou o modus operandi das maiores empreiteiras do país, desvendando as maracutaias praticadas nas grandes licitações de obras públicas, no caso a construção do primeiro trecho da Ferrovia Norte-Sul, sonho do ex-presidente José Sarney.

A armadilha concebida pelo jornalista, ao publicar com antecedência o resultado da licitação com cartas marcadas, em linguagem cifrada e publicada disfarçadamente nos classificados da Folha, provocou o cancelamento da referida licitação. O escândalo provocou uma série de problemas ao denunciante, que foi pressionado para fornecer o nome do informante da manobra das empreiteiras. Jamais capitulou, seguindo à risca sua ética impecável no episódio. Embora os dados expusessem esse grande arranjo entre as empreiteiras envolvidas, no final nenhuma delas foi punida, assim como, também, nenhuma autoridade. Coisas do Brasil.

Essa figura que honra o nosso jornalismo aos 90 anos de idade – e completará 70 anos de atividade, desde que ingressou no Diário Carioca em 1953 como desenhista, diagramador e repórter – recentemente foi demitida pela Folha de S.Paulo, onde militou por 42 anos. No entanto, mostrando seu espírito combativo, assina uma coluna semanal no noticioso Poder360.

DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ

FATIMA ALI

Minha adolescência foi ler e descobrir o mundo pelas páginas de Nova que minha irmã mais velha colecionava. Como aprendi! Tanto com Fatima Ali (E ela escreveu “orgasmo”, piauí_197, fevereiro), como com Marina Colasanti e tantas outras que desvendaram os tabus para as mulheres dos anos 1970 e 1980.

MARILENA SENRA_VIA INSTAGRAM

Revistas que nunca se preocuparam com a mulher preta, indígena e PCD. Trans? Nunca me enxerguei nessas revistas. Parem com esta narrativa de que a vida da mulher branca classe média alta é universal! Não é.

HELLOWA CORRÊA_VIA INSTAGRAM

Descrever os cabelos da jornalista Fatima Ali como “desarrumados”, numa reportagem que fala das rupturas femininas, é no mínimo controverso, para não dizer maldoso, grosseiro e indelicado. Se os cabelos dela fossem lisos, talvez o adjetivo teria sido outro.

NANA RANGEL_VIA INSTAGRAM

Cabelos desarrumados? Pô, piauí... em pleno 2023, ano da invasão alienígena?

GABRIELA RESENDE GONÇALVES_VIA INSTAGRAM

Ainda tenho aquela edição. Eu tinha 15 anos e vibrei com a revista, falava de coisas que eu já queria ouvir. Segui sendo leitora durante muuuuuuuito tempo. Como a Fatima Ali, além de tudo, é linda!

MARJORI MICHELIN_VIA INSTAGRAM

Cara!!! Que delícia ver Fatima Ali! A presença singular e intensa dessa mulher foi minha inspiração por muitos anos! Sempre amei o veículo revista, li o livro de Fatima três vezes, e acho incrível sua criatividade e determinação. Hoje, aos 47, me enchi de emoção ao vê-la.

CINTIA VASCONCELOS_VIA INSTAGRAM

Quando a revista Nova foi lançada, eu me lembro que as mulheres escondiam a revista dentro de outra revista para ninguém ver que estavam lendo a revista cheia de assuntos que todas queriam ler. Era um comportamento recorrente nas salas de espera, salões de beleza. A Capricho, quando seu editorial foi reestruturado, por exemplo, foi considerada a revista das “filhas das leitoras de Nova”.

MARIA JOSE LOUSADA VILLAFANHA_VIA INSTAGRAM

POLÊMICA

O irônico leitor Leonardo Barroso, comentou na piauí_196, janeiro, que era hora de a revista parar de reclamar de Bolsonaro e começar a elogiar Lula. Ele está enganado, pois a revista vem fazendo isso há bastante tempo: André Singer já esteve por aqui afirmando que Lula era uma espécie de Franklin Roosevelt (O lulismo e seu futuro, piauí_49, outubro 2010). Já Lira Neto (A volta dos enterrados vivos, piauí_196, janeiro) não deixou por menos: comparou o atual mandatário com Charles de Gaulle e Winston Churchill!

Carlos Eduardo Pereira (Quem me conhece sabe, piauí_196, janeiro) diz que “hoje qualquer um pode falar asneira sem preocupações, basta um celular na mão”. A revista piauí vem mostrando, a cada edição, que o celular para esse fim não é necessário.

MARCOS ROBERTO CARVALHO_SÃO PAULO/SP

RESPOSTA A TÍTULO DE EVIDÊNCIA: Viu só, Geraldo? É disso que a gente falava… Dói.

COTAS

Como bacharel em economia (seria a mim atribuído o termo de economista, pagasse eu a taxa do Conselho de Economia, responsável por tal atribuição) e branco, não me causou surpresa o texto Déficit racial (piauí_196, janeiro), de Irany Tereza – aliás, que joia de nome para tal matéria.

É escandalosa a ausência de negros em cursos de ciências econômicas, o que demonstra quem pensa e para quem são realizadas as políticas públicas nesta desigual nação. A política de cotas, em que pese necessária, não foi e não é suficiente. É preciso reduzir drasticamente a disparidade racial e entre classes sociais no Brasil, de maneira a incluir aqueles que foram deixados de lado, de forma orgânica. Egresso da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), concluí o curso com outros 22 colegas, sendo 21 deles brancos.

P.S.: Teremos o diário do governo Lula na revista, nos moldes do Diário da Dilma? Cumprimentos saudosos, de um tempo de risadas.

LEONARDO CADIÑANOS_PORTO ALEGRE/RS

CARTA DESPRETENSIOSA

Ler as matérias de Sergio Schargel (Minha bisavó matou um cara, sobre a jornalista Sylvia Serafim) e o texto de Betina González (A obrigação de ser genial) na piauí_196, janeiro, foi como fazer terapia e compreender minha síndrome de impostora na academia. Schargel cita Serafim sobre as mulheres na literatura em “ao escrever para o público, um pudor obscuro e invencível a contém, obrigando-a a descobrir apenas o rosto, as mãos… os braços… Isto é, suas impressões e julgamentos mais superficiais cuja externação não compromete”. Já González expõe a necessidade de desubicar-se. Haveria essa necessidade de assumirmos o deslocamento, domá-lo de certo modo. A transgressão seria então assumir o não lugar.

Sylvia Serafim sofreu ao extremo a imposição de uma moralidade patriarcal. Assusta ler a facilidade de autores homens contribuindo na execração pública de Serafim. Retomando o trecho citado acima, sobre a escrita da mulher, pensei ser ela genial. Mas é justamente essa obrigação que nos problematiza, como expõe González: “[…] o genial é a forma mais efetiva de censura para uma escritora, a meta impossível, algo terrivelmente nocivo para o trabalho cotidiano de fazer coisas com palavras.”

Como então escrever, ainda que não literariamente, mas na academia? Coincidentemente, ou não, na mesma edição, Irany Tereza discorre sobre o racismo na economia (Déficit racial), e também expõe a problemática divisão por gênero nessa ciência. Tomo então como lição, dessa edição terapêutica, a normalização do ato de escrever sem pensar nos possíveis julgamentos e sem esperar a obrigação da genialidade. Assino a piauí há mais de dez anos, e sempre começo a leitura pelas cartas, mas nunca escrevi para a revista, pensando que só deveria fazê-lo se houvesse algo genial em minha escrita. Pois aqui está, minha carta em que não espero ser genial, nem espero ser publicada, mas envio porque precisei escrever.

BELIZA BORBA DE ALMEIDA_CURITIBA/PR

RESPOSTA SUCINTA DA REDAÇÃO: … e nós não hesitamos em publicar.

SITUAÇÃO DO BRASIL

Gostaria somente de sugerir que as matérias/reportagens/podcasts que citam as ações da extrema direita deveriam ser designadas dessa forma, em vez de “bolsonarista”. Temos que sumir com o nome dessa pessoa e deixar claro que é ação da extrema direita; ele é apenas a marionete por trás dessa ação orquestrada de forma muito mais ampla e mundial.

Se falar o nome dele, vai dando audiência desnecessária a ele.

É o que penso, não sou nenhuma especialista, somente uma lutadora contra a extrema direita.

MARGARETE TAKAYANAGI _ILHABELA/SP

ERRATA

Na reportagem A solidão de Rambo, publicada na piauí_166, julho de 2020, informou-se que o delegado da Polícia Civil, Allan Turnowski, havia sido preso pela Polícia Federal em fevereiro de 2011. A informação estava incorreta e foi suprimida da versão digital da reportagem.

Por questões de clareza e espaço, a piauí se reserva o direito de editar as cartas selecionadas para publicação. Solicitamos que as cartas informem o nome e o endereço completo do remetente.

Cartas para a redação:

redacaopiaui@revistapiaui.com.br


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