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Silvana Arantes Mai 2023 21h26
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“Toda banda um dia acaba, menos os Rolling Stones.” Haroldo Ferretti dizia isso para si mesmo havia muito tempo. Mesmo assim, o baterista sentiu um baque forte quando seu companheiro de banda, o guitarrista e vocalista Samuel Rosa, avisou que pretendia começar uma carreira solo, com novos parceiros e novas formas de compor. O anúncio foi feito em uma reunião de trabalho corriqueira, em uma tarde de agosto de 2019. Além de Ferretti e Rosa, estavam presentes o baixista Lelo Zaneti e o tecladista Henrique Portugal. O quarteto formava o Skank, uma das bandas de maior sucesso do pop rock brasileiro.
Com o fim iminente do grupo, Ferretti passou a viver um “furacão de emoções”. “Quando chega a hora, dá um vazio, uma coisa esquisita”, diz ele à piauí. A hora chegou em 26 de março passado, quando o Skank fez seu último show, no Estádio Mineirão, em Belo Horizonte, cidade onde a banda foi formada, em 1991. Um público estimado em 50 mil pessoas acompanhou as três horas de apresentação. Em um misto de euforia e melancolia, os fãs ouviram hits como Te Ver, É uma Partida de Futebol, Jackie Tequila e Resposta.
O baterista imaginava que, depois de uma noite como aquela, o quarteto se encontraria no camarim para lembrar seus êxitos e talvez até “estourar um champanhe e tocar a música do Ayrton Senna para comemorar”. Não foi o que aconteceu. “Brindamos com uma cervejinha e falamos: ‘Pô, gente, valeu.’” Em retrospectiva, Ferretti acha que essa despedida morna foi até adequada: “Você não solta foguete no velório de ninguém.”
Nos dias seguintes ao show final, o grupo de WhatsApp da banda silenciou. “A sensação que tenho é que todo mundo está com esse nó ainda na garganta”, diz Ferretti, que poucos dias depois da apresentação embarcou com a família para Londres. “Estou curioso para saber como vai estar meu coração, minha vida, minha cabeça daqui a um tempo.”
O coração, a vida e a cabeça de Ferretti oscilaram entre a tristeza e a gratidão nos meses que antecederam o show de despedida. Ele ainda tentava superar o impacto provocado pela decisão de Samuel Rosa, principal compositor do Skank. Também se esforçava para “compreender as razões do outro” – e constatar, enfim, que não compreendia nem mesmo suas próprias razões.
Ele admite que manter a harmonia do quarteto depois da decisão do vocalista de encerrar a banda exigiu muito esforço. Recorrendo à incontornável analogia com o casamento, o baterista avalia que durante esse período os membros do Skank já estavam separados, embora vivessem ainda na mesma casa. “Eu me policiei para não perder uma coerência que sempre tive em relação aos meus sócios, e para não ligar o foda-se”, afirma.
Quando Samuel Rosa anunciou o fim do Skank, em 2019, a ideia era manter a banda em atividade ainda por um ano, para uma turnê de despedida. O prazo foi calculado também para cumprir os passos contratuais necessários à dissolução do grupo e para não deixar a equipe técnica do Skank sem emprego de uma hora para outra. Mas então a Covid adiou a turnê de 2020.
Durante a pausa imposta pela pandemia, Ferretti se deu conta de que estava fazendo um “ensaio do que seria a vida depois, sem o compromisso do Skank”. Ele diz que foi “obrigado a entender que iria acordar na segunda-feira e não ia receber a programação do fim de semana, não ia ter que pegar um avião ou um carro para ir a tal ou tal cidade”. Resultado: “Na marra, aprendi, me acostumei com aquela ideia do fim.”
Em março de 2022, quando a turnê de despedida finalmente teve início, as coisas se mostraram mais complexas do que ele pensou. “Parecia que cada show era o último. Era sempre carregado de uma emoção muito diferente da que a gente estava acostumado a sentir. E isso, sinceramente, me trazia uma sensação que, por Deus do céu, não era normal.”
A decisão de Rosa tornou-se ainda mais incompreensível para Ferretti. “O Skank era tão produtivo e, porra, não é comum ver uma banda que consiga ser tão versátil.” Ele foi aceitando a ideia do fim do Skank à medida que a turnê progredia, mas teve uma recaída na virada do ano, quando se aproximava a despedida no Mineirão. “A partir de janeiro, comecei a sentir uma angústia gigante, um vazio. Foi péssimo”, diz. “Tentei achar as minhas formas de lidar com essa situação para não cair numa vala que pudesse ser prejudicial não só a mim, mas a todo mundo. Fiquei com medo de adoecer, entrei numa paranoia, mas seguimos.”
O dia 26 de março de 2023 chegou mais rápido do que ele esperava. Aos 53 anos, Ferretti teve a sensação de que “os 32 anos de Skank haviam passado muito rápido, de que a vida havia passado rápido, de que a vida é mesmo um sopro”.
Descrever o que sentiu no palco, em Belo Horizonte, não é fácil para ele. “Na hora em que sentei na bateria… Não sei se consigo explicar…”, diz, hesitante, para então se entusiasmar com a lembrança do público mineiro: “É clichê, mas parecia que cada um estava ali para nos dar um presente. Não era uma massa cinzenta de pessoas. Foi uma catarse, um negócio muito diferente. Só estando dentro do meu coração para sentir o que eu estava sentindo.”
Os ex-companheiros de banda pretendem se arriscar na carreira solo, mas Ferretti descarta essa possibilidade. Ele não fez planos detalhados para a vida pós-Skank. “Não vou ter pique de montar uma nova banda para tentar fazer sucesso de novo. Não sou cantor, não sou compositor, não sou líder de banda. Minha posição é diferente, sempre tive consciência disso. É o lugar que eu quis: adoro ficar ali quietinho, nos bastidores.”
Sem pressa para se reorganizar profissionalmente, ele se considera “pra lá do sucesso”, por tudo que o Skank alcançou. “Além disso, consegui ganhar grana”, acrescenta. “Não tenho uma corda no pescoço de ter que arrumar um emprego rápido para sobreviver.” Seus dois filhos – Júlia, de 23 anos, e João, de 20 – já têm, segundo o pai, “a vida deles”. “Agora, eu e minha mulher temos liberdade, a gente pode cuidar da gente”, afirma.
Depois da viagem à Europa, o baterista quer estudar produção musical e técnicas de gravação, para melhor utilizar o estúdio que mantém em casa. “Sempre fui muito da prática e nunca tive tempo de parar para estudar. Sei que vou amar estudar isso.”
Bem mais que o tempo/que nós perdemos,/ficou pra trás também o que nos juntou, diz a canção Resposta, do Skank. O tempo em que Ferretti esteve junto de Rosa, Zaneti e Portugal ficou para trás, e ele vai se permitir um período de descanso. “Vou sentir muita saudade”, diz. “Agora é dar o peso adequado para cada um desses sentimentos, para que isso não seja um problema para mim.”