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A CIGANA MANDOU QUEIMAR A CAPA DA REVISTA NO QUINTAL PRA NÃO ASSUSTAR AS ALMAS PURAS

Imagem A cigana mandou queimar a capa da revista no quintal pra não assustar as almas puras

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CONSELHO DA CIGANA

Assim que coloquei a piauí_199, abril, na mesa de casa, a Cigana que me protege baixou e mandou cortar a capa da revista, enrolar e queimar no quintal. Depois eu podia ler sem susto o conteúdo. Ela pediu pra dizer que aconselha todos os que se sentirem incomodados com o olhar da moça a fazerem o mesmo, pois na sua inocência criativa o artista configurou um portal para certa neoentidade da falange das trevas que se nomeia Pastora Crente espalhar maldade e intriga nos lares dos leitores mais sensíveis e desavisados.

Foi a primeira vez que mutilei um número da revista. Espero que seja a última. Comprei o número 0 na extinta banca da esquina do extinto Centro Cultural da Caixa no extinto Centro do Rio, em setembro de 2006, e o número 1 numa banca pra turista na orla da Praia de Jatiúca, Maceió, onde fui trabalhar com a regularização fundiária de um território quilombola na área da Serra da Barriga. Os primeiros 24 números ficaram por lá, na casa de amigos que tão bem me acolheram no atávico Alagoas. Na volta para Niterói assinei por um tempo, mas nem sempre chegava, então passei a comprar nas bancas que restaram.

Uma vez tive que explicar pra um professor de antropologia, que não conhecia a revista e foi procurar onde estava a “matéria da capa”, que a “capa” é em si mesma a matéria, ou é uma espécie de metamatéria ou o totem astrológico do mês, digamos assim.

MÔNICA CAVALCANTI LEPRI_NITERÓI/RJ

DA LOIRA AO NEGRO

A piauíchega à edição de número 200, parabéns! Vamos ver com qual capa nos presenteiam. Na capa da piauí_199, abril, Caio Borges precisou de um craquelado diminuído na boca, de olhos modificados, retoques em todo o rosto e, é claro, das valiosas joias a se contraporem ao simples brinco de pérola que dá nome ao quadro de Vermeer. A falsificação é grosseira, ao contrário dos diamantes legítimos que compõem o mimo original que deveria ter sido presente ao governo brasileiro. Para ser mais impactante, poderiam ter colocado a frase de Lourdes Barreto mais próxima dos lábios da imagem. Trocaria com a frase que chama a matéria de João Batista Jr. (Tesão doido). No texto, ao menos a química ficou retratada mais próxima do que realmente é, fazendo jus ao uso de substâncias que impactam no sexo. Bem diferente do falso jargão “a química entre nós” para denotar proximidade, uma vez que a existência de substâncias distintas só é possível porque ocorre repulsão entre os átomos. Se tudo fosse atração, haveria apenas um único tipo de substância. Fica a dica!

Sigo na interlocução, agora com os demais missivistas, assumindo que é permitida, certo? Dos milhares de leitores, entre meia dezena e uma dúzia aparecem mensalmente aqui. Privilégio de uma forte seleção, imagino. Júlio Emílio Braz relata sua descoberta de Lima Barreto (Cartas) e espero que ele leia tudo, inclusive os inéditos, acerca do preferido preto preterido da Academia Brasileira de Letras. Por fim, Xuxa, quem diria, tornou-se cult e cultuada. Tiago Coelho conseguiu fazer um perfil amplo (Ela está em paz) em que se pôde saber um pouco mais sobre a Rainha dos Baixinhos para além das atividades imbecilizantes à infância e da vida de modelo e namorada de outras celebridades.

ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP

A EXTREMA DIREITA

João Gabriel de Lima, na reportagem A internacional da ultradireita (piauí_199, abril) traçou um panorama da atuação da extrema direita na Europa, focando especialmente em Portugal e Espanha, onde partidos como Chega e Vox tornaram-se a terceira força política em seus países, provocando uma séria ameaça à democracia na Península Ibérica. A Europa, que tanto sofreu com o fascismo e o nazismo, está sendo seduzida por um populismo nacionalista, que teme as imi­grações. Se no passado o bode expiatório era o judeu, agora pretendem fechar suas fronteiras, esquecendo-se que as potências colonialistas foram as que provocaram os problemas atuais na exploração da África e na partilha do que restou do Império Otomano no Oriente Médio, criando nações fictícias e seus governos fantoches. Agora estão sentindo a volta do cipó de aroeira, como na música do Geraldo Vandré.

DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ

CLUBISTAS DA ESQUINA

Em uma edição recente da piauí, vi uma carta comentando que a seção Esquinatalvez fosse a mais “esquecível” da revista. Meu colega que me perdoe, mas me permita discordar.

Quando comecei a ler a piauí, nosso país estava iniciando sua lenta caminhada para o vale da sombra, do qual estamos tentando sair a passos lentos. Eu não era assinante, mas lia esporadicamente quando minha mesada de estudante secundarista permitia, e na faculdade tive o privilégio de contar com a assinatura da revista na biblioteca. A seção Esquina sempre foi a que mais me chamou a atenção. Em meio às notícias de derrocada socioeconômica, dissolução social, histórias de crimes notórios, feitos de grandes figuras, críticas literárias e excertos de livros, percebia que a seção trazia algo de distinto, e não era só por causa de seu tamanho mais enxuto. Havia também uma certa sensação de calma. Entre tantas grandes histórias, a Esquina se destacava com sua cobertura singela de fatos cotidianos, que sempre impressionavam por seu caráter extraordinário. O recado era: líderes podem ascender e cair, símbolos podem ser criados e destruídos, sociedades podem surgir e desaparecer, os bons tempos podem chegar e partir. Ainda assim, a vida continuará.

Isso me fazia voltar à razão e não ceder ao catastrofismo. Eu me lembro de muitas notícias que li na Esquina: a cozinha rastafári numa comunidade belo-horizontina, o mordomo homossexual dos príncipes árabes, a menina que sonhava com a Medalha Fields e foi estimulada por seu ídolo, e o senhor Yamashita, que escutava seus legumes. Enquanto isso, grandes reportagens que li já caíram no esquecimento, ao contrário das esquinas, das quais me lembro em detalhes.

Além de contar as histórias mais exóticas, as esquinas têm sempre as lindas ilustrações de Andrés Sandoval. Essa seção tão essencial para a identidade da revista não deve ser tomada por irrelevante apenas porque as pessoas não se manifestam muito sobre ela. Enquanto as reportagens mais longas podem nos despertar mais paixões, a Esquina nos traz de volta à terra firme e nos provoca uma atitude mais contemplativa em relação à passagem do tempo.

RODRIGO BARCELLOS MENDES_SÃO PAULO /SP

NOTA À MODA DA ESQUINA: Já não era de hoje que a indignação consumia Rodrigo Barcellos Mendes. Morador de São Paulo, Mendes gostava de pedalar pela Avenida Paulista e pelo Centro aos domingos, para observar, com raiva, os edifícios altos. “Por que dão tanta atenção ao Edifício Itália e nenhuma à Cantina Itália, que serve o melhor polpetone da cidade?”, questionava-se. “Por que tantas fotos do Edifício Banespa e nenhuma da agência do Banespa que ficava na esquina da minha casa? Só por ela ser menor?” Mendes sabia que líderes podem ascender e cair, símbolos podem ser criados e destruídos, sociedades podem surgir e desaparecer, os bons tempos podem chegar e partir. Mas ainda assim, a vida continuaria. E era na Cantina Itália e na ex-agência do Banespa que a vida acontecia.

XUXA

Xinguem-me até, se for o caso, mas estou com Drummond, em seu livro de máximas O Avesso das Coisas, quando diz que um quinhão do prestígio de Kafka vem do fascínio despertado pela letra k. Parte do prestígio de Xuxa vem do fascínio do X, e a matéria Ela está em paz, de Tiago Coelho (piauí_199, abril), se aproveitou bem dessa “verdade” quando usou o x em várias de suas capitulares. Mas outras razões do fascínio também estão lá, deliciosamente apresentadas. Lembro-me de que, criança, consultando a Enciclopédia Barsa na escola, me deparei com um pequeno verbete dedicado a Xuxa. Confesso que me causou estranhamento. Não que eu não a curtisse, que não tivesse alguns de seus CDs. Mas vê-la ali, naquela obra dedicada a filósofos e escritores, me pareceu exagero. Lendo a matéria de Coelho, hoje, percebo o quão acertada foi a decisão daquela obra de referência. E o que faltou no verbete, tão reduzido, Coelho nos oferece agora. Vejo que a história de Xuxa é também a história do Brasil, ou a história de um povo cuja vida não é sempre um mel/que escorre da boca feito um doce, mas que também tem isso. Quanto às dores, quem não sabe que é necessário decidir ser invencível a cada dia? Talvez seja essa a percepção expressa na Lua de Cristal. Ao fim da leitura, por que negar que desempoeirei meus CDs e me pus a dançar? A piauí mostrou que aquele x no coração não estava tão apagado quanto pensávamos.

ALEX SANDER LUIZ CAMPOS_ SANTO ANTÔNIO DO RETIRO/MG

NOTA XUXESCA DA REDAÇÃO: Tumbalacatumba tumba tá. Tumbalacatumba tumba tá.

O ERETO

Já de muito, algumas dúvidas me assombram. Será que Ereto da Brocha (O cronista misterioso do Itamaraty, piauí_171, dezembro de 2020) ou Ernesto Araújo (A escolinha do professor Ernesto, piauí_199, abril) passaria sem restrições por um simples eletroencefalograma? Como alguém assim conseguiu ingressar na nossa carreira diplomática?

LUIZ ALBERTO DOS REIS GONÇALVES_NITERÓI/RJ

CARTUNS

Os cartuns de Caco Galhardo (piauí_199, abril) nos dão um panorama do passado e presente da humanidade empedernida em seu desdém quanto ao futuro.

É muito comum a justa crítica ao capitalismo e aos economistas que montaram uma dinâmica de crescimento infinito num mundo finito; no entanto, a maior parcela de culpa é dos ecologistas que nunca tiveram a coragem de dizer que a única saída é diminuir a população, enquanto todas as projeções indicam aumento.

Qualquer espécie que tenha alimento e não tenha predador se torna uma praga. O medo de serem taxados de higienistas e da guerra ideológica os tem levado a ignorar um processo simplesmente biológico.

Somos uma espécie como qualquer outra, sujeita às mesmas leis, mas temos algumas desvantagens, o absurdo acúmulo de recursos por alguns indivíduos e conceitos ideológicos que provocam canibalismo; a extinção dessa espécie talvez não venha pela biologia, mas pelo descontrole psíquico.

Pela janela de tempo geológico ou biológico tudo está acontecendo num átimo.

DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/SP

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Fiquei decepcionado com a matéria sobre inteligência artificial (As formas intermediárias, piauí_199, abril). Apesar de informativa e bem escrita, a matéria não utilizou o devido aporte teórico que a filosofia poderia fornecer. Explico.

O debate público sobre a IA parece sempre partir da premissa de que essa tecnologia interage com o texto de forma reprodutiva e descritiva: faz-se uma pergunta à máquina, que por sua vez pesquisa a resposta e a reproduz. Esse pressuposto remonta ao essencialismo da metafísica clássica: para filósofos como Platão (ver diálogo com Crátilo) e Aristóteles, há uma isomorfia entre a palavra e seu sentido. Desta forma, as palavras designam essências imutáveis e a linguagem é um método de intermediar a relação entre ser e objeto.

Porém, desde o cogito de Descartes, sabe-se que o ponto de partida da interpretação é o próprio ser. O sujeito, antes de ser determinado pelo objeto, determina-o. As coisas não possuem uma essência, elas existem apenas na medida em que são pensadas por alguém. Kant realiza a contribuição mais célebre desse campo com as estruturas prévias de compreensão.

Mas essas estruturas de compreensão prévia estão vinculadas à alteridade e à historicidade, conforme apontaram Hegel, Heidegger e Gadamer. A ideia pode ser expressa a partir de Camões: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Finalizo essa breve incursão para substituir a premissa a que me refiro no começo do texto: toda interpretação é criativa, feita pela fusão do horizonte de sentidos, mediando passado e presente. Qualquer inteligência, artificial ou orgânica, é incapaz de reproduzir um texto. Não há uma interação entre ser e objeto, mas uma interação entre ser e ser, na qual toda interpretação está vinculada à facticidade.

Estamos todos ligados por uma espécie de consciência em comum que constrange nosso processo de compreensão a adotar uma direção. As inteligências artificiais, por serem produtos da humanidade, são igualmente direcionadas por essa mesma facticidade. Parece-me que todo o pessimismo com essa tecnologia a vê como um ser externo ao nosso mundo, que realizaria raciocínios puros enquanto aprende com dados objetivos da realidade. Porém, não há estruturas de compreensão puras e muito menos uma realidade objetiva.

O mais assustador seria concluir que criar uma máquina capaz de interpretar seria necessariamente criar uma máquina capaz de pensar e, portanto, ser. Uma espécie de backup da nossa consciência. Nesse sentido, o medo é a reação adequada diante de algo que espelha nosso horizonte cultural. Exemplo da pobreza da nossa presença no mundo é a forma com que, diante da possibilidade de uma máquina onipotente e onipresente, só se fala sobre como substituir empregos, mas nem se cogita a ideia de utilizá-la para planificar a economia ou para reduzir a jornada de trabalho. O ser humano tem uma gratificação bizarra com sua destruição e transfere isso para as inteligências artificiais como uma profecia autorrealizável.

TALES CARVALHO RONCATO RODRIGUES_GOIÂNIA/GO

NOTA DISTÓPICA DA REDAÇÃO: Esse texto foi escrito pelo Tales? Ou por uma inteligência artificial se passando pelo Tales?

NEUTRALIDADE

Brilhantíssima matéria de Vladimir Safatle (A insurreição, piauí_198, março). Dissertação totalmente inodora no aspecto ideológico, que há muito não vejo. Ao lê-la, só senti mesmo um cheiro que veio de camadas abissais deste país.

GILSON MARINHO LUZ_ITAOCARA/RJ

ERRATA 1

A reportagem Dama da noite, publicada na piauí_199, abril, diz que Lourdes Barreto participou de evento na Arábia Saudita. De fato, ela fez apenas uma breve passagem por Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.

ERRATA 2

A autoria da pintura na sala da casa de Xuxa, descrita na reportagem Ela está em paz, piauí_199, abril, foi atribuída erroneamente a Eduardo Kobra. A obra é de Rose Samara.


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