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AS INFLUENCERS VISITAM O XILINDRÓ

Mulheres de presidiários se transformam em estrelas do TikTok e do Instagram

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No último 1º de abril, logo após o expediente, a cabeleireira e manicure Marta Carolina de Oliveira Ribeiro buscou o filho na escolinha de futebol e o deixou com os avós. Ela e a criança vivem num sobrado em Osasco, na Grande São Paulo. Embora tenha somente um quarto, a residência é espaçosa e arejada. O revestimento marrom da fachada imita tijolinhos aparentes. Um portão alto, de lanças, protege a garagem, que conduz à sala, onde funciona o salão de beleza em que a jovem de 25 anos trabalha.

Depois de se despedir do filho, Ribeiro voltou apressada para casa porque ainda precisava fazer muita coisa naquele sábado. Inspecionou a cozinha e memorizou os mantimentos que faltavam. Correu até o mercado do bairro para comprar molho de tomate, macarrão do tipo fusilli, meio quilo de carne moída, pão de forma e frios variados. Gastou 180 reais. Num fogão de quatro bocas, preparou a massa à bolonhesa com esmero. Ajeitou-a num tupperware, que colocou na geladeira. Em outro recipiente, botou fatias de pão, muçarela e presunto. Só concluiu as tarefas culinárias às dez da noite. Pôde, então, cuidar de si mesma. Pintou as unhas longuíssimas de lilás e passou uma máscara hidratante nos cabelos alisados. Bonita e curvilínea, a moça tem catorze tatuagens e diz adotar “o estilo funkeira”. Quase às duas da madrugada, antes de finalmente se deitar, separou a calcinha e o sutiã que usaria pela manhã: um conjunto branco e vermelho, de renda.

Como todos os domingos, o celular da cabeleireira despertou às 5 horas. Ela pulou da cama, tomou um banho rápido, se vestiu e borrifou no pescoço seu perfume favorito – o Luna, da Natura. Em seguida, retirou os recipientes da geladeira e os acomodou dentro de sacolas plásticas. Às 5h30, ouviu a buzina de um EcoSport. Era o motorista que iria levá-la até Franco da Rocha, outro município da Grande São Paulo. A jovem viajaria com três mulheres. Cada uma pagou 60 reais pelo transporte.

O carro rodou por setenta minutos e parou em frente à Penitenciária Franco da Rocha II. As passageiras desceram. Enquanto se espreguiçava, Ribeiro avistou a barraca da Tia Tê, a mais disputada entre as inúmeras que se espalham pelos arredores do presídio. No ramo há 22 anos, Tercília de Paula toca o negócio com a irmã e quatro funcionários. Vende uma infinidade de produtos, como marmita que serve até oito pessoas (170 reais), sanduíche de salpicão (5 reais), chinelos Havaianas (a partir de 35 reais) e lingeries (as mais baratas custam 40 reais).

Assim que alcançou a barraca, a cabeleireira desligou o iPhone e o pôs na bolsa, junto da aliança e dois colares prateados. Entregou tudo à Tia Tê. Ficou apenas com o RG e os dois recipientes. A vendedora estima guardar umas cem bolsas por domingo. “São quase sempre de mães ou mulheres dos presos. Não cobro nada porque a gentileza acaba fazendo com que as visitantes deem preferência para o meu comércio.”

Na fila de acesso à penitenciária, Ribeiro ocupava a 47ª posição. As visitas dominicais vão das 8 às 16 horas, mas a entrada na cadeia só é permitida até as 11 horas. A moça conseguiu atravessar os portões de ferro por volta das 9h30. Desde 2014, não existe mais a revista vexatória, em que as visitantes ficavam nuas e de cócoras diante das seguranças. Hoje, ninguém precisa tirar a roupa. Basta cruzar um scanner, como nos aeroportos. As comidas que as visitantes levam para os prisioneiros também passam pelo dispositivo.

O marido da cabeleireira, Gustavo Rodrigues, de 26 anos, conhecido por Magrelo, tomava banho de Sol no pátio quando o informaram que sua mulher havia chegado. Ele caminhou até a jovem, lhe deu um selinho e pegou os recipientes. De mãos entrelaçadas, o casal seguiu para a cela de Magrelo, no térreo. O detento compartilha o espaço de 8 m2 com onze homens. Naquele dia, porém, somente Magrelo recebeu visita íntima. A cabeleireira e o marido conversaram, almoçaram e namoraram numa das seis camas de concreto. Mesmo sozinhos na cela, tiveram o cuidado de resguardar a própria intimidade. Estenderam dois lençóis na frente da cama que ocupavam e os transformaram em paredes. Ribeiro saiu da cadeia às 16 horas. Pegou a bolsa na barraca da Tia Tê e regressou para Osasco com o motorista contratado.

O périplo da moça lembra o de outras tantas companheiras de presidiários. Mas há uma diferença significativa: depois da prisão de Magrelo por tráfico de drogas, em maio de 2021, a cabeleireira se tornou influenciadora digital. Ela acumula 300 mil seguidores no TikTok e 56 mil no Instagram. Seu atrativo é justamente mostrar em detalhes o cotidiano de quem está casada com um detento. Todas as imagens publicadas pela jovem trazem a hashtag #mulherdepreso, acompanhada do emoji de cadeado.

Os posts de Ribeiro fazem parte de uma onda que surgiu há dois anos. O TikTok manifestou o fenômeno primeiro, por se tratar de uma rede social que valoriza registros esteticamente simples, na linha “vida real”. Não à toa, os vídeos das mulheres de presos – que, em geral, empregam uma linguagem mais caseira – somam 2,6 bilhões de visualizações na plataforma chinesa. Os algoritmos do Instagram, em contrapartida, preferem destacar imagens bem produzidas, que edulcoram a rotina dos internautas. Mesmo assim, a mídia controlada por Mark Zuckerberg também caiu nas graças das companheiras de presidiários, que não se interessam nem pelo Facebook, nem pelo Twitter.

As principais influenciadoras do gênero têm entre 20 e 30 anos. Muito vaidosas, usam roupas justas, gostam de dançar em frente à câmera e costumam divulgar zilhões de selfies. Não raro, exibem pernas e barriga nas fotos. São nativas digitais e operam com desenvoltura os recursos de edição que as redes sociais proporcionam. Falam a respeito de diversos temas, mas alcançam mais engajamento quando expõem os dilemas vividos na relação com um encarcerado ou quando retratam os preparativos para o dia de visita às penitenciárias. “As pessoas adoram saber qual lingerie vou vestir e o que colocarei nas marmitas do Magrelo. Também curtem me ver escolhendo os itens do jumbo”, diz a cabeleireira. “Jumbo” é a caixa que os prisioneiros recebem periodicamente dos familiares com artigos de higiene pessoal, comida e produtos de limpeza.

Às vezes, as influenciadoras tiram dúvidas dos seguidores. Respondem a questões sobre os perrengues que enfrentam para se encontrar com os parceiros, a rotina dentro das cadeias e os códigos dos presídios. Se alguém lhes pergunta quais os crimes praticados por seus companheiros, elas normalmente mudam de assunto.

Em 1º de abril, Ribeiro gravou todo o preparo da massa à bolonhesa que levou para o marido no dia seguinte. Enquanto cozinhava, cantava o funk Vários Abandona, dos MCs Leozinho ZS e Neguinho do Kaxeta: E aí, veinho, sabadão tô chegando com o jumbo/Vou te visitar, saber como você tá, como você tá/Não tá sozinho, sexta-feira na madruga eu tô partindo/Pode, pá, nós vai se trombar, se trombar. Ela postou o vídeo com o título Almoço no Presídio quando viajava para Franco da Rocha. Conquistou 7 milhões de visualizações, 400 mil curtidas e 4,6 mil comentários no TikTok.

Em outra ocasião, a cabeleireira e duas mulheres não conseguiram entrar na penitenciária por razões burocráticas. Ribeiro, desolada, narrou o ocorrido num vídeo e, mais uma vez, teve um retorno excelente: 4,4 milhões de visualizações e 212 mil curtidas, também no TikTok.

A lingerie de renda que a jovem escolheu no dia 1º de abril trazia o logotipo da Cau Modas CDP. A pequena confecção de São Paulo, especializada em roupas e acessórios para presos e seus familiares, patrocina a cabeleireira. Paga-lhe um valor mensal, e a influenciadora faz postagens divulgando os produtos da marca. No mundo digital, a estratégia recebe o nome de “publi”. Desde a prisão do marido, Ribeiro nunca repetiu uma calcinha ou sutiã nas visitas íntimas. Ele aprecia modelos rendados nas cores preta, branca e vermelha. Há pouco tempo, a moça pediu a outra confecção que lhe fabricasse uma calcinha de algodão com o apelido Magrelo bordado na parte frontal.

A cabeleireira também realiza publis para o BBRbet, um cassino online, e o Espaço Sanches, empresa de Osasco que oferece bronzeamento artificial. A fim de promovê-la, a jovem já postou um vídeo em que dançava vestindo um biquíni de fita isolante. Ela se vale, ainda, das chamadas “parcerias”. Uma consultora da Mary Kay, por exemplo, lhe ofertou algumas caixas de maquiagem. Para retribuir, a influenciadora difundiu os perfis digitais da “parceira”.

Até Magrelo acaba ganhando uns brindes graças à projeção de sua esposa. Marcas interessadas em aparecer nos posts de Ribeiro presenteiam o detento com calças, meias, camisetas e bermudas.

A cabeleireira fatura aproximadamente 2 mil reais por mês no salão de beleza. Em razão das publis, elevou sua renda mensal para algo entre 5 mil e 10 mil reais. Ela não imaginava chegar tão longe quando iniciou as postagens sobre o universo carcerário. “Foi um negócio gradativo. Primeiro, atraí seguidores. Depois, as curtidas e os comentários aumentaram. A partir daí, as marcas começaram a me procurar.” Embora dê muita visibilidade, o TikTok não traz dinheiro. “A gente gosta de bombar por lá. Mas, para conseguir publis, precisamos ter um bom desempenho no Instagram, a rede social preferida dos patrocinadores”, explica Ribeiro.

Atualmente, a moça é quase uma celebridade nas imediações da Penitenciária Franco da Rocha II. Várias “cunhadas” (como as mulheres de presos se tratam entre si) a reconhecem. “Elas amam tirar foto comigo. Eu acho o máximo! Fico muito feliz.”

Michelle Santos Lemos, a Mischa, pretende deixar de lecionar inglês o quanto antes para se concentrar na carreira de influenciadora. Seu marido, Edson Sant’Anna Neto, esteve preso entre maio de 2020 e março de 2023. Condenado por tráfico de drogas, cumpriu a maior parte da pena em Itapetininga, no interior paulista. Ele tem 30 anos e é conhecido como Slim, pois se parece com o rapper norte-­americano Eminem, também chamado de Slim Shady. Quando seu parceiro foi para a cadeia, Mischa mantinha um canal no YouTube em que opinava sobre uma série de assuntos fortuitos, como o uso de maconha durante a gravidez. Paralelamente, fazia dancinhas engraçadas no TikTok, que lhe rendiam cerca de 20 mil seguidores. Se uma de suas postagens batesse quinhentas visualizações, a professora particular de 33 anos já comemorava.

Logo após a detenção de Slim, Mischa – que mora em São Paulo – se viu sozinha com a filha pequena, fruto de outro relacionamento. Na época, as visitas aos presídios estavam suspensas devido à pandemia do coronavírus. Deprimida, a professora decidiu abrir o jogo no canal do YouTube e revelou todos os perrengues que enfrentava. O desabafo gerou uma cizânia familiar. A mãe de Slim telefonou para a nora e exigiu que o vídeo saísse do ar. Caso Mischa não o deletasse, a sogra cortaria os 150 reais que enviava mensalmente ao filho. “Muita gente ainda se envergonha de ter parentes presos. É um tabu, mas não para mim. Por isso, gravei o depoimento”, afirma a professora.

A exigência da sogra surtiu efeito e, mesmo a contragosto, Mischa apagou o testemunho. Entretanto, em maio de 2021, uma seguidora perguntou no Tik­Tok se Slim continuava na cadeia. Ela assistira à gravação no YouTube antes de a professora a deletar. Mischa respondeu com franqueza e a postagem totalizou 125 mil visualizações.

Um ano depois, a professora retomou o assunto. Estava ganhando melhor com as aulas de inglês e poderia ajudar o marido financeiramente se a sogra cortasse a mesada. “Publiquei um vídeo no Tik­Tok contando uma porção de coisas: quanto eu gastava de ônibus para ver o Slim, quais roupas vestia nessas ocasiões e o que punha no jumbo dele.” A postagem, intitulada Dia de Visita no Xilindró, teve 6,1 milhões de visualizações, 450 mil curtidas e 2 755 comentários.

Hoje, Mischa contabiliza 1 milhão de seguidores no TikTok, 110 mil no Instagram e 62 mil no YouTube. Ela chegou a faturar 30 mil reais com publis em março. Entre seus patrocinadores, destacam-se a BBRbet, a Papelito (fabricante de seda e acessórios para cigarros) e a Prime Video, que a contratou como garota-propaganda da série Dom, sobre o líder de uma quadrilha que roubava edifícios de luxo no Rio de Janeiro.

Em junho de 2022, Slim pôde usufruir de uma “saidinha” – isto é, adquiriu o direito de deixar a prisão por seis dias. Mischa aproveitou a oportunidade e publicou um vídeo no TikTok com a legenda “Levando meu amor de volta para a cadeia”. Abocanhou 27,6 milhões de visualizações e 1,9 milhão de curtidas. Foi seu recorde. Outro vídeo, produzido durante a mesma “saidinha”, mostrava Slim em casa, recarregando a tornozeleira eletrônica numa tomada. Uma seguidora indagou: “E se a bateria acabar, o que acontece?” A professora respondeu: “Não pode acabar de jeito nenhum! Senão dá B.O.”

Desde que ganhou a liberdade definitiva, Slim virou personagem recorrente nos posts da mulher. “Estou fazendo o pós-prisão, né? Vou surfar nesse hype porque não sou otária”, diz Mischa. Já Slim não planeja criar perfis nas redes sociais. “Prefiro aparecer nos dela.” Loiro de olhos azuis, o jovem faz o estilo hétero descontruído e gosta de pintar as unhas. Há dez anos, cantava rap num trio, o Sujeito a Guincho. Agora, pretende retomar a carreira musical, lançando-se em dupla com a professora. Nome provisório do duo: 2Old4DiCaprio (“muito velho para DiCaprio”). Trata-se de uma piada com o fato de o ator hollywoodiano não namorar mulheres que tenham mais de 24 anos.

Enquanto ia buscar o marido para a “saidinha” de junho passado, Mischa divulgou um vídeo no Tik­Tok: “São 5h46, já tô aqui pronta. Tô em Indaiatuba [cidade do interior de São Paulo]. Eu vim na casa de uma cunhada para irmos juntas pegar os bofes. A outra já tá aqui se maquiando. Está doze graus.” Ela e as duas “cunhadas” queriam festejar com cerveja a liberdade temporária dos parceiros. Por isso, mal chegou ao presídio, Mischa fez uma gravação em que Slim segurava uma lata da bebida.

A direção da penitenciária tomou conhecimento da postagem e não aprovou o que viu. Durante as “saidinhas”, os presos devem respeitar certas regras: não podem se envolver em brigas, frequentar bares ou casas noturnas, andar armados nem consumir álcool. Slim cometeu, portanto, uma falta considerada grave – e pagou bem caro pelo deslize, conforme prevê a legislação brasileira. Quando retornou à cadeia, amargou trinta dias numa solitária, sem direito a banho de Sol. Também deixou o regime semiaberto e voltou para o fechado. Não bastasse, Mischa ficou impedida de visitá-lo por um ano. O advogado Marcelo Avila Quartieri entrou com recurso para anular a punição. Argumentou que Slim não bebera a cerveja. Ele teria apenas segurado a latinha. A justificativa não surtiu efeito.

“Foi horrível! Quase destruíram o nosso casamento”, recorda Mischa. Os parceiros intensificaram a troca de cartas durante o período em que não se encontraram. No alto de cada correspondência, Slim indicava uma canção para a mulher escutar enquanto lesse a mensagem. “Lembro que ele sugeriu Miss You, dos Rolling Stones, Rock with You, do Michael Jackson, e De Novo, da Majur.”

A professora de inglês aponta a modelo, socialite e influenciadora californiana Kim Kardashian como sua maior inspiração. Morena de cabelos longos, Mischa ostenta tatuagens em boa parte do corpo. Nos dentes incisivos, colocou dois piercings – um representa uma arma e o outro, um cifrão. Filha de um ex-­pastor que se tornou ateu, a jovem chegou a estudar fotografia, moda e letras, mas não se formou em nenhum dos cursos. “Eu até ia para a faculdade. Só que ficava mais nos bares, fumando maconha e bebendo.”

De acordo com o Instagram e o Tik­Tok, 85% do público que segue as mulheres de presos é feminino. Aproximadamente 80% tem de 18 a 34 anos. Os perfis dessas influenciadoras acabaram se transformando em canais de informação tanto para outras parceiras de presidiários quanto para as mães e filhos deles, o que ajuda a explicar o grande alcance de determinadas postagens. Afinal, o Brasil possui a terceira maior população carcerária do planeta, com 909 061 detentos. Fica atrás somente dos Estados Unidos e da China.

Várias seguidoras procuram os perfis para saber quais são as regras de visita nas cadeias e como tirar a carteirinha de visitante. Há também as que mandam incentivos do tipo: “Lindas cunhadas! Deus é com vocês!” ou “Força, meninas! Tudo isso vai passar”. Mischa diz que “uma influenciadora bem famosa” já lhe escreveu para confessar que seu pai está preso. “Ela não toca no assunto publicamente porque teme perder patrocinadores.”

O psicanalista Adriano Zago, autor do livro Amor Bandido: Mulheres que Buscam o Presidiário para Parceiro Amoroso, vê como natural o sucesso das “cunhadas” nas redes sociais. “O TikTok e o Instagram não inventaram a espetacularização da vida bandida. Novelas, seriados e filmes se interessavam pelo mundo do crime bem antes da internet.” Para Zago, as “cunhadas” que se orgulham de suas relações conjugais transmitem a impressão de empoderamento. Elas se apresentam como mulheres corajosas e abnegadas, que não abrem mão dos próprios desejos. “É uma ideia muito fascinante. Até mesmo quem não orbita em torno do universo prisional se deixa seduzir por tamanha dedicação.”

Segundo o psicanalista, parte das “cunhadas” imagina que seus parceiros não irão traí-las na prisão. Por isso, se sentem mais seguras do que quando eles estão livres. Muitas gostam de se enxergar como as principais responsáveis pelo aconchego dos maridos ou namorados, já que lhes garantem roupas, alimentos, produtos de higiene, cigarros e sobretudo afeto. “Há, ainda, o aspecto comunitário”, acrescenta Zago. “As companheiras de presos tendem a ficar amigas e criar laços fortes de cumplicidade.”

Em meio às mensagens de apoio, as influenciadoras também recebem uma saraivada de xingamentos e ironias. Por exemplo: “Criar filha para isso não é fácil, não”; “Visitando o namorado na pós-­graduação…”; “Você curte ser marmita de preso?”; “Muita humilhação! Depois, a ingratidão do cara virá com força”. Mischa diz que lê os comentários, mas não liga. “Eu a-do-ro os haters! Enquanto destilam ódio, eles me dão audiência. Fazem o meu algoritmo ir lá para cima!”

A segurança de condomínio Moline Pereira dos Santos tinha se separado do companheiro havia três meses quando, em fevereiro de 2020, o rapaz assaltou uma residência, fez os moradores de reféns e terminou na prisão. Por ainda estar apaixonada, a jovem de 24 anos – que vive em Guarulhos, na Grande São Paulo – decidiu se corresponder com o ex enquanto ele permanecesse na cadeia. Os dois acabaram reatando. Como não são oficialmente casados, precisaram comprovar o relacionamento para a direção da Penitenciária Franco da Rocha III. Eles mostraram trocas de mensagens pelo Facebook e fotos antigas. Só assim a segurança pôde visitar o parceiro.

“Gostaria de vê-lo toda semana. Pena que o dinheiro não permite…”, lamenta Santos. Se lhe falta grana para preparar o macarrão que o companheiro adora, a moça prefere nem ir ao presídio. Ela conta que vestiu uma camiseta especial na visita do último dia 19 de março. “Botei uma blusa por cima antes de entrar na cadeia. Não queria que os carcereiros me zoassem. Mas, quando fiquei sozinha com meu namorado na cela, tirei a blusa e mostrei a camiseta.” A peça exibia a frase: “Você vai ser papai.” O detento vibrou: “Deus ouviu as minhas orações!”

A segurança diz que resolveu postar sua rotina como mulher de presidiário para se sentir acolhida. “Muita gente da minha família rejeita o nosso namoro.” Fã de Mischa, a jovem tem planos de se dedicar mais às postagens. “Eu já ganhei uns presentes, mas ninguém nunca me pagou para divulgar nada. Quem sabe um dia paguem…” Por enquanto, ela reúne 30 mil seguidores no TikTok. Sua publicação de maior alcance ensina a fazer “macarrão de preso” e soma 2,4 milhões de visualizações.

Até o início da pandemia, quem desejasse visitar um encarcerado precisava aparecer bem cedo nas penitenciárias paulistas para conseguir uma posição favorável na fila de entrada. Muitos, inclusive, passavam a noite acampados nas cercanias dos presídios. O Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa que controla quase todas as cadeias de São Paulo, organizava o fluxo presencialmente, por ordem de chegada. Com as restrições sanitárias impostas pela Covid, resolveu coordenar as filas via Telegram para evitar aglomerações. A Secretaria da Administração Penitenciária está ciente do esquema, mas não se pronuncia sobre o assunto.

Cada unidade prisional tem um grupo no aplicativo, criado pelo próprio PCC. Os interessados em visitar os presos entram lá e avisam quando pretendem ir. A facção determina a data e o período em que as mensagens devem ser mandadas. Os que se manifestam mais rapidamente obtêm senhas menores – os números variam de 1 a 250. Nos dias de visita, a moderadora (ou guia) de cada grupo comparece na porta das cadeias e cuida para que a estratégia funcione. Sabendo com antecedência o lugar que ocuparão na fila, os visitantes podem se planejar e não necessitam passar horas diante dos presídios.

“Quando chega a data de mandar minha solicitação para o grupo do Telegram, fico bem esperta”, diz a cabeleireira Marta Carolina de Oliveira Ribeiro. “No momento em que o relógio indica 6h55, já escrevo a mensagem no aplicativo. Assim que bate sete da manhã, horário em que a moderadora começa a trabalhar, aperto o botão de enviar.”

Boa parte das marcas que investem nas “cunhadas” influenciadoras conhece de perto a realidade carcerária. É o caso da Jumbo Online, espécie de Rappi das cadeias. Fundada há seis anos, a empresa despacha para todo o estado de São Paulo os kits com alimentos, produtos de limpeza e artigos de higiene que os presos recebem dos familiares. Os clientes fazem os pedidos por WhatsApp ou numa loja física localizada na Zona Norte paulistana. “Atendemos 181 prisões e realizamos, em média, trinta entregas diárias”, afirma Ana Paula Alegria, dona da empresa.

Os kits padrões da Jumbo Online custam entre 199 e 258 reais. Mas existe a possibilidade de o cliente montar um pacote personalizado. Já houve, por exemplo, quem requeresse um jumbo de 949 reais. Cada presidiário pode receber um kit de até doze quilos por semana. “Conheço mulheres que tiram da própria boca para não deixar faltar nada aos companheiros”, diz Alegria. Apenas 3% das encomendas se destinam a presas, em mais uma prova de que maridos, namorados e parentes de detentas costumam esquecê-las nas cadeias.

A Jumbo Online adota a estratégia de firmar parcerias com as influenciadoras. “Eu envio os kits para o meu marido sem pagar nada e, em troca, faço propaganda da empresa”, conta a auxiliar de dentista Letícia Nascimento, de 28 anos, que possui 149 mil seguidores no TikTok e 37 mil no Instagram. Seu companheiro, Matheus Nascimento, está preso por tráfico de drogas em Balbinos, no interior. Moradora de Carapicuíba, na Grande São Paulo, a jovem viaja semanalmente de lotação para visitá-lo. Percorre quase 800 km, considerando a ida e a volta. Ela morre de ciúmes do marido, que tem um par de tatuagens com o nome da mulher (“uma no braço esquerdo e a outra na costela, mas se dependesse de mim ele faria mais uma na testa”). Os dois se casaram por procuração em junho de 2021, quando Matheus já cumpria pena. “Preparei um almoço top para as nossas famílias”, relembra a auxiliar de dentista.

A Cau Modas CDP, por sua vez, pertence à esposa de um ex-presidiário. Shirley Maria Napoli Aires começou a confecção em São Paulo durante a pandemia. Ela vendia balas nos ônibus que trafegavam pelo bairro de Moema. Com o isolamento social, ficou praticamente sem trabalho e precisou se virar. À época, o marido dela – Lucas Gama Melquizedeque – ainda estava detido em Dracena (SP). A vendedora teve, então, a ideia de mandar uma costureira fazer roupas e acessórios que pudessem interessar aos presos e seus parentes. De início, encomendou lingeries sem nenhuma peça metálica para que as visitantes não fossem barradas pelos detectores de metal na entrada dos presídios. Hoje o item mais requisitado da marca é uma calça feminina de elastano com costuras semelhantes a escamas. Aires jura que o modelito de 98 reais empina o bumbum das “cunhadas”.

A dona da confecção se diz muito satisfeita por patrocinar a cabeleireira Marta Carolina de Oliveira Ribeiro. “Ela me traz uma porção de clientes. Minha vida melhorou bastante desde que criei a empresa. Consegui até sair do aluguel porque construí uma casa num terreno que meu marido já tinha.” Melquizedeque deixou a cadeia em abril de 2021 e agora faz chinelos customizados para presidiários.

A cabeleireira também se declara feliz com o patrocínio. “Divulgar marcas é comigo mesma! Ainda bem que a Cau Modas confiou em mim.” Ela só não gosta de divulgar o número da cela onde seu marido se encontra na Penitenciária Franco da Rocha II. “Você está doido? Iria chover mulher enviando carta para ele.” A moça aceita ter “cunhadas” nu­ma boa, mas sócias… Jamais!

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_200 com o título “Look do dia no xilindró”.


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Repórter da piauí, publicou A Beleza da Vida: A Biografia de Marco Antonio de Biaggi (Abril)